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Türkmenistan’ın Ekonomik Kalkınma Sürecinde Temel Sektörler

4. TÜRKMENİSTAN’DA PİYASA EKONOMİSİNE GEÇİŞ SÜRECİ VE FİNANSAL

4.2. Türkmenistan’ın Genel Ekonomik Görünümü

4.2.4. Türkmenistan’ın Ekonomik Kalkınma Sürecinde Temel Sektörler

Se nos distanciarmos do teatro ocidental, podemos encontrar outros parâmetros para a organização dramatúrgica. O Teatro Nô50, pelo qual Abreu muito se interessa, sobretudo por seus aspectos narrativos, tem como elemento fundamental o personagem, na revelação dos paradoxos dos seres humanos. O teatro Nô tem procedimentos muito contemporâneos. Nele, o personagem é tão fundamental quanto a trama. O teatro Nô trabalha com a vivência da perda da memória como problema fundamental, e o personagem central geralmente não sabe quem é. Apesar disso, tem que agir, mesmo sem memória.

Abreu preparou o penúltimo encontro com a Cia. dos Dramaturgos, o último antes que os integrantes mergulhassem nos processos de escrita, para falar de Mikhail Bakhtin. Disse que precisou “preparar-se espiritualmente” para falar dele, pois Bakhtin é um autor difícil de se enfrentar. Não que seja difícil de entender, mas porque seu pensamento é muito amplo e sugestivo. Abreu considera Bakhtin um grande aliado do criador. Ele faz uma reflexão concreta e profunda, quase a reflexão de um criador, tamanha a proximidade com a criação e a preocupação com o processo criativo. Abreu considera Bakhtin um autor fundamental para um dramaturgo, para quem está preocupado com processos de criação.

Uma obra que considera muito importante é A Cultura Popular Na Idade

Média e No Renascimento – o contexto de François Rabelais51, em que Bakhtin constrói uma reflexão a comédia e as imagens cômicas. Abreu considera esta obra como a “Poética do Riso” que Aristóteles não escreveu.

      

49 Trecho transcrito a partir dos registros de gravação e filmagem.

50 GIROUX, Sakae Murakami. Zeami: Cena e Pensamento Nô. São Paulo: Perspectiva, 1991.

51 BAKHTIN, Mikhail. A Cultura Popular no Renascimento e na Idade Média. São Paulo-Brasília:

Outra obra fundamental do autor é Problemas da Poética de Dostoiévski52, que Abreu considera um livro de cabeceira para um criador. Nesta obra, Bakhtin faz uma análise ampla de como Dostoiévski organizava sua criação. É um escritor que podemos considerar como uma voz contemporânea, pois realiza uma mudança da obra sob o ponto de vista do olhar para o mundo e para a forma.

Abreu acredita que Bakhtin pode oferecer outros caminhos de construção da dramaturgia. Isso porque nossas referências cultas vem sempre da Poética de Aristóteles, das grandes sagas e dos estudos feitos a partir dessas obras. Para Abreu, “nossos moldes são as grandes obras clássicas; nós estamos bastante ‘contaminados’ pela visão clássica do mundo, que é uma visão parcial”53. Bakhtin oferece uma poética que se contrapõe à de Aristóteles, o que é muito útil ao processo de criação de dramaturgia, mesmo que trate especificamente de literatura. A obra de Bakhtin vai tratar profundamente da escrita de Dostoiévski, mas Abreu não se aprofundou em tais questões. Interessava mais aos dramaturgos e ao próprio Abreu, no momento dos encontros, tratar dos elementos geralmente não levados em conta na criação.

Na construção do personagem clássico, o caráter e o pensamento estavam sempre em conflito. Quanto ao caráter, é como se as forças da vida e da morte estivessem liberadas no personagem. Ele, então, faz força para conter essa energia, que por princípio lhe causa sofrimento e inadequação. Nas tragédias, é essa força de contenção do caráter que vai aparecer nos diálogos. Em situações muito tensas, muito dramáticas, o personagem clássico vai se manter calmo, porque ele não pode ceder, não pode deixar que as forças de vida e de morte que estão em conflito saiam dele antes do momento escolhido pelo dramaturgo, este sim o momento em que não vai mais conseguir segurar sua pulsão.

Já o pensamento do personagem é a “carapaça” que o tenta civilizar e levá-lo a uma relação ética e social com o mundo. O pensamento é ameaçado pelo caráter. O pensamento é tudo aquilo que no personagem diz respeito ao aprendizado: a moral, os valores, a condução e a conveniência social, etc. Já o caráter é o que “vem do fundo”, aquilo que de fato vai determinar a personagem.

      

52BAKHTIN, M. M. Problemas da Poética de Dostoievski. 3a. Ed. Rio de Janeiro:

Forense Universitária, 2005.

Se na organização clássica pensamento e caráter estão em conflito, na dramaturgia moderna vai aparecer o “personagem ideológico”, ou o “homem ideia”. Nele, o pensamento transforma o caráter, ideia que será trabalhada por Dostoiévski. Para Abreu, se na concepção clássica da personagem o diálogo era “falso”, em conflito com o caráter, na personagem moderna o diálogo vai ser mais “verdadeiro”, porque a personagem precisará da ideologia como pensamento para reforçar a sua ação. Se Édipo matou seu pai por conta de seu caráter, Raskolnikov matou a velha usurária por causa do pensamento, da ideia, e o fez de uma maneira muito cruel e violenta, pois não é seu caráter que age ali.

O personagem grego clássico, das tragédias, é um personagem íntegro, portanto: existe unidade entre o que ele fala e o que faz. O diálogo não existe por si mesmo, mas é resultado de seu caráter em conflito com o mundo. Já na dramaturgia de Shakespeare começa a haver uma cisão entre o caráter e o que o personagem verbaliza. O que ele fala já não é necessariamente o ele que faz. A ação vai se contrapor ao discurso, e o teatro perde a unidade “ética” própria do teatro grego clássico. O discurso começa, então, a se descolar da ação. No teatro mais contemporâneo, o personagem não vai conseguir sequer organizar ou articular sua fala, e a ação vai se tornar mais evidente do que o discurso, uma ação sem amparo do pensamento ou de uma moral, evidenciando um ser humano muito mais sob o domínio da ação.

Essa dissintonia entre ação e pensamento vai se dar de uma forma muito criativa em Dostoiévski, de uma forma diferente, segundo Bakhtin. Ele começa a construir os personagens não mais a partir do ponto de vista do caráter, não mais a partir do que o personagem é de fato. Mas vai construí-lo a partir do que o personagem pensa, do que ele acha que é. Bakhtin chama a isso de “homem de ideias”, de personagem ideológico:

A personagem não interessa a Dostoiévski como um fenômeno da realidade, dotado de traços típico-sociais e caracteriológico-individuais definidos e rígidos, como imagem determinada, formada de traços monossignificativos e objetivos que, no seu conjunto, respondem à pergunta: “quem é ele?” A personagem interessa a Dostoiévski enquanto ponto de vista específico sobre o mundo e sobre si mesma, enquanto posição racional e valorativa do homem em relação a si mesmo e à realidade circundante. Para Dostoiévski, não importa o que a sua personagem é no

mundo mas, acima de tudo, o que o mundo é para a personagem e o que ela é para si mesma.54

Abreu considera que este personagem ideológico de Dostoiévski pode ser muito trágico, talvez até mais trágico do que o homem grego, cujo destino já estava traçado pelos deuses. Se Raskolnikov, por exemplo, o personagem de Crime e

Castigo55, constrói sua própria ideia de mundo e age em função dela, vai ter que

pagar o preço dramático de sua ação, sem respaldo, sem destino traçado. E isso sem nem sequer ter o “benefício” do reconhecimento da tragédia grega, quando o personagem finalmente sabe quem é. O personagem, este ser incompleto, pode surpreender a todos, a ele mesmo e até a seu autor.

Para Abreu, é função do dramaturgo descobrir qual força dramática a personagem pode ter, sendo ela homem, mulher, criança, velho, velha, etc. Uma possibilidade interessante se abre a partir de Bakhtin e Dostoiévski, que é trabalhar a ação dramática ditada pelo pensamento, como eixo dramático mesmo, ao invés de trabalhar a ação movida pelo caráter, como fazia o teatro clássico, em que o pensamento estava sempre conjugado à ação.

Outro elemento que Dostoiévski trabalha em seus personagens, ainda a partir do que escreve Bakhtin, é a autoconsciência. Um personagem que sabe quem é, que sabe de seus limites, de seus defeitos, que tem consciência de si próprio, é um homem que consegue ver a si mesmo como ser incompleto. Abreu percebe, então, que um personagem também pode, portanto, ter força dramática em si, independentemente da trama. Um exemplo disso, ainda em Crime em Castigo, é o personagem Marmieládov, um bêbado compulsivo que sabe que é um “canalha” e sabe que não terá forças para ser diferente. Isso tem um alto teor dramático e é outro elemento que se pode trabalhar na dramaturgia.

Mas de que maneira é possível levar autoconsciência para a cena, para o personagem de teatro, para um tempo da ação que não é somente discursivo? Para Abreu, a autoconsciência é um momento de intensidade que pode estar na peça, mas não todo o tempo. O momento em que a autoconsciência chega para o personagem será altamente dramático, e irá afetar o público. Segundo Abreu, a       

54BAKHTIN, M. M. Problemas da Poética de Dostoiévski. 3a. Ed. Rio de Janeiro:

Forense Universitária, 2005 p. 46.

autoconsciência exposta é um processo ativo do personagem, e a ação é de suma importância para o teatro. Raskolnikov (de novo o exemplo do personagem de Crime

e Castigo) age, entra em embates com outros personagens, não fica “só falando” a

respeito de suas ideias. Nas obras de Dostoiévski, o diálogo resulta numa categoria da ação, não é só reflexão. A ideia leva a história e a impulsiona, provocando a ação. As palavras ferem, as palavras dizem coisas difíceis, fazem coisas, provocam coisas.

Muitos outros pontos podem ser trazidos para a dramaturgia daquilo que escreve Bakhtin sobre Dostoiévski, pontos nos quais não iremos nos aprofundar neste texto: a polifonia, o narrador permeável, o sonho com potência de realidade para o personagem, a questão do riso. O que importa para Abreu é que Bakhtin nos apresenta outros modelos que podem servir com referência diferente para a dramaturgia contemporânea. Abreu considera que talvez seja bom sair do modelo clássico da escrita, até para depois retornar, ou pelo menos para modificá-lo um pouco. É possível utilizar outro padrão, outra poética, outras possibilidades de desenvolvimento de dramaturgia que não passem pelo modelo clássico.