4. TÜRKMENİSTAN’DA PİYASA EKONOMİSİNE GEÇİŞ SÜRECİ VE FİNANSAL
4.2. Türkmenistan’ın Genel Ekonomik Görünümü
4.2.5. Diğer Sektörler
Antes de propor o trabalho prático de dramaturgia com a Cia. Livre, Abreu tratou ainda de outros assuntos de interesse comum entre ele e a Cia. Um desses assuntos, acredita ele, é a questão do tempo como sendo o trauma fundamental do ser humano, ao lado da discussão sobre o rito. Abreu traz à discussão outro autor muito importante para ele, Mircea Eliade, o qual discorre e reflete sobre a questão do tempo e dos mitos fundamentais das culturas, a saber: os mitos de criação, de um lado, e os mitos de renovação, de outro lado. Nesses mitos e ritos fundamentais, que ocuparam a mente das pessoas de tempos passados, o trauma fundamental era a consciência do tempo; não a questão da morte em si, mas a questão do tempo:
É significativo, entretanto, constatar uma certa continuidade de comportamento humano no que concerne ao Tempo, através das idades e nas múltiplas culturas. Esse comportamento pode ser definido do seguinte modo: para
curar-se da obra do Tempo, é preciso “voltar atrás” e chegar ao “princípio do Mundo”.76
A consciência do tempo traumatiza mais que a morte, pois o tempo é cruel, traz a degeneração, a decadência, a fraqueza, a doença. O tempo é devastador. Ter consciência do tempo é ter consciência da degeneração e do processo de decadência, e a grande questão humana passa a ser: “como é que paramos o tempo?” Aqui está para Abreu a importância dos mitos de renovação, que acionam, nos ritos, as forças primevas da criação.
Como Abreu já havia dito anteriormente, usam-se os mitos (as histórias) para alcançar os ritos. O mito e o rito são objetos de vivência de um grupo. O grupo vivencia, não somente assiste.
Os mitos nos levam ao espaço feérico, convocam as forças da criação. É claro que naqueles tempos antigos do mundo neolítico os dias eram povoados de deuses e de mistérios, diferentemente do deus patriarcal de hoje, que está distante. No rito estavam também as divindades operando ali, entre as pessoas. É então que a figura da morte entra no rito. Seus movimentos são fortes, diferentes do humano, energizados. A morte vem mascarada, o que define o espaço não mais como o reino dos homens, nem no tempo dos homens. Vivencia-se outra coisa, o trivial da vida humana vai diminuindo. É momento, então, da chegada do herói, do ser que vai enfrentar a morte. Ele pode ser um homem, um animal, um semideus, não importa: se cumpriu funções humanas ele será humano. E então, o herói começa a combater. Todas as pessoas presentes no rito, eram encarnações do próprio herói, não só assistiam, mas vivenciavam aquilo junto com o herói. O ato do herói era revivido, eram invocadas as forças de tornar vivo novamente aquele mito, pelo rito, para representar a continuidade da espécie. Aí, ou a morte leva vantagem sobre o herói, ou o contrário, o herói com muita luta consegue afastara a morte. Assim, a morte se afasta do mundo e as forças da vida se liberam de novo [...] Aquele rito conseguiu paralisar a ação nefasta do tempo.77
Para Abreu, o gênero épico é uma das formas que o ser humano encontrou para parar a ação deletéria do tempo através da memória, seja ela real ou
76 ELIADE, Mircea. Mito e Realidade. São Paulo: Perspectiva, 1986. p. 81.
inventada, para sair do movimento contínuo e parar a consciência terrível de que o tempo nos vai levar à decadência.
O gênero épico, na acepção de Abreu, é uma organização das ideias e das imagens da memória, para além do uso de Brecht, em seu teatro dialético. A ideia épica de Abreu tem mais similitudes com a narrativa antiga, de caráter fortemente literário, como na Ilíada de Homero ou ainda nos contos antigos, ou ainda com o cinema, que também organiza as imagens de maneira épica. Para ele, o épico nos tira do tempo presente e nos leva primeiramente ao passado, como acontece no uso da expressão “era uma vez”. No passado, é possível “se acalmar”, pois é um distanciamento do tempo presente. O caminho épico é o caminho do passado. Organiza as imagens que na vida e nos sonhos não estão organizadas. Por isso tem-se tanto prazer ao ouvir narrativas, e também com o cinema, segundo Abreu, porque as imagens vêm organizadas, com geometria.
A imagem épica clássica é muito objetiva. O narrador épico não pode falar do que acontece, por exemplo, na cabeça de uma pessoa (o que acontece muito na literatura moderna); ele pode somente imaginar isso. Mas pode narrar o que o sujeito faz. E então o ouvinte pode saber o que o sujeito da história pensa através do que ele faz. Abreu dá como exemplo o D. Quixote, de Cervantes: sabemos o que ele pensa através do que ele faz e do que fazem com ele, e também através do que ele verbaliza. O narrador clássico, portanto, narra aquilo que nós podemos ver. O épico é “síntese no tempo”, para Abreu, e assim é diferente do tempo da vida. Mas o épico, diferentemente do gênero dramático, é uma síntese ligada à escolha, não a uma pulsação; é uma construção artística que opera com escolhas.
Para Abreu, assim como para a Cia. Livre, as linguagens artísticas estão ligadas ao mito e ao rito; eles têm função e importância semelhantes. O ator seria como o xamã, ou como o barqueiro Caronte, aquele que, como a figura grega, tem a função ritualística do transporte de almas de um mundo a outro. O ator também leva as pessoas ao outro mundo, ao mundo feérico, e por isso tem uma função social importante, na medida em que faz a ligação entre o mundo real e o outro mundo, esse um mundo criado em que ocorre a anulação das forças do tempo.
Se o rito é feito para iniciados e se o mito é para as pessoas de determinada cultura (e será preciso ter acesso a esta cultura para ter acesso aos mitos correspondentes), a arte é mais acessível a todos, na opinião de Abreu:
no teatro a gente tenta estabelecer de novo a crença de que tudo é possível, de que tudo pode acontecer e de que nada é estranhável, inclusive o mundo ser modificado. [...] As linguagens começaram a se dividir a partir do rito, o que foi muito importante para o desenvolvimento da linguagem. [...] Mas a imaginação foi se estreitando, e foi ficando restrita aos artistas.78
A imaginação é uma importante característica do ser humano. A capacidade de imaginação é a capacidade de mudar o mundo, de alterar o real. A imaginação é aquilo que sonha o mundo, que o modifica. Para Abreu,
se não há lugar no presente, é importante saber “morar” no futuro, ou seja, imaginar. [...] Meu trabalho como dramaturgo é essencialmente esse: imaginar, antes que as coisas imaginadas de fato existam. O trabalho do ator também: é passar pelo processo de imaginar, antes de existir. O ator não pode tomar o texto como algo existente. Ele também precisa imaginar.79