2. KENTSEL DÖNÜŞÜM KAVRAMI UYGULAMA AŞAMALARI VE
2.4 Türkiye’de Kentsel Dönüşüm Uygulamaları ve Sincan Saraycık Kentsel
Trata-se da denominação dada ao discurso de cunho acrítico e sem conteúdo investigativo que domina o imaginário dos profissionais do direito, em um espaço em que uma boa parcela dos juristas segue crenças como se fossem verdades científicas (episteme), e opiniões (doxa) revestem-se do status de conhecimento. É esclarecedor o apontamento feito por Luis Alberto Warat, que cunhou a expressão “senso comum teórico dos juristas”, quando diz que
Nas atividades cotidianas – teóricas, práticas e acadêmicas – os juristas encontram-se fortemente influenciados por uma constelação de representações, imagens, pré-conceitos, crenças, ficções, hábitos de censura enunciativa, metáforas, estereótipos e normas éticas que governam e disciplinam anonimamente seus atos e decisão e enunciação. [...]. Um máximo de convenções linguísticas que encontramos já prontas em nós
135 THEOPHILO, Jan; ARAÚJO, Vera. Gritos de guerra do Bope assustam no Parque Guinle. O Globo, Rio de
quando precisamos falar espontaneamente para retificar o mundo, compensar a ciência jurídica de sua carência.136
Por não possuir um conteúdo de reflexão, mas de flexão, do fazer cotidiano e acrítico, o senso comum teórico não é mera ação. É criação inautêntica. Pela sua própria cotidianidade e alienação, o senso comum teórico dos juristas é, assim, um ponto cego.
E novamente Warat explica que,
Metaforicamente, caracterizamos o senso comum teórico como a voz “off’” do direito, como uma caravana de ecos legitimadores de um conjunto de crenças, a partir das quais, podemos dispensar o aprofundamento das condições e das relações que tais crenças mitificam.137
Apartado de uma instância crítica, o senso comum teórico, como razão instrumental, realiza o que Warat chama de “apropriação institucional dos conceitos”, de modo a que as teorias se ajustem “às crenças e representações e interesses legitimadas pelas instituições”.138
Engendra-se como uma instância repressiva, com fins legitimadores, ainda que para isso se estabeleçam versões estereotipadas ou inautênticas dos conceitos jurídicos.
A “razão instrumental” aqui referida se faz no sentido moldado por Max Horkheimer,139 razão que deveria possibilitar a civilização do homem em face do seu conteúdo objetivo, material, que, quando instrumentalizada, é preenchida pelo subjetivismo dos detentores do poder. A instrumentalização transforma a razão em mera técnica, como meio que permite a obtenção dos fins de dominação. Sem ética, a razão culmina em um instrumento de exploração da natureza e dos seres humanos. E o avanço progressivo da técnica vem acompanhado de um processo de desumanização cada vez melhor orquestrado. Uma racionalidade instrumentalizada gera uma sociedade paradoxal, em que
[...] frente à morte por inanição que domina vastas áreas do mundo, deixa sem uso parte de seu maquinário, dá às costas a muitas invenções importantes e dedica muitas horas de trabalho a uma propaganda imbecil e a
136 WARAT, Luis Alberto. Introdução geral ao direito I: interpretação da lei: temas para uma reformulação.
Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris, 1994, p. 13.
137 WARAT, Luis Alberto. Saber crítico e senso comum teórico dos juristas. Revista Sequência, Florianópolis,
v. 3, n. 5, p. 48-57, 1982, p. 54.
138 WARAT, Luis Alberto. Saber crítico e senso comum teórico dos juristas. Revista Sequência. Op. Cit., p. 55. 139 HORKHEIMER, Max. Critica de la razón instrumental. Tradução ao espanhol por H. A. Murena e D. J.
produção de instrumentos de destruição, uma sociedade que possui tal luxo fez do utilitarismo seu Evangelho.140
Nesse ambiente, não se compreende a Constituição como expressão máxima da ordem jurídica. Sem a compreensão de sua força normativa e de sua supremacia hierárquica dentro do sistema, não raras vezes o que esses atores jurídicos fazem é interpretar inautenticamente a Constituição e os Tratados ratificados pelo Brasil. A inautenticidade hermenêutica se dá porque é feita a partir do discurso sub-reptício das Belligerent Policies – National Security Doctrine, War on Crime, War on Drugs, Broken Windows Theory. Ou, não raro, sequer isso se faz, imperando o discurso de autoridade ou com base nas verdades da prática, sob uma ordem utilitarista qualquer.
Um caso paradigmático recente foi o do Hábeas Corpus nº 126292,141 em que o Supremo Tribunal Federal entendeu que a possibilidade de início da execução da pena condenatória após a confirmação da sentença em segundo grau não ofende o princípio constitucional da presunção da inocência, apesar da seguinte redação do art. 5º, LVII da Constituição: “LVII - ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória;” (grifamos).
Isso se dá, talvez, porque o Brasil, historicamente, sempre foi espaço de exploração externa em conluio com uma pequena porção – a elite – que se identificava com a matriz de plantão (Portugal, Inglaterra ou Estados Unidos) e se fazia sócia na empreitada de explorar predatoriamente as riquezas e a maioria do seu próprio povo, a quem sempre renegou. Nosso passado estamental criou o ambiente propício para o desenvolvimento de tais anomalias.
Já se passaram quase trinta anos desde o advento da Constituição Federal. Contudo, a formação acadêmica também foi (e ainda é) conduzida, na ampla maioria, por um modelo de ensino que não oportuniza a reflexão e o questionamento. O desapego à filtragem hermenêutico-constitucional gerou (e gera) graves problemas quando da aplicação do Direito pelo Judiciário de hoje. Em um Estado Democrático de Direito, cumpre ao Poder Judiciário, órgão diverso do qual emanou a lei confrontada em um caso concreto, analisá-la à luz da
140 HORKHEIMER, Max. Critica de la razón instrumental. Op. Cit., p. 152.
141 PENA pode ser cumprida após decisão de segunda instância, decide STF. Portal do Supremo Tribunal
Federal. Aba Notícias STF. Disponível em: <
normatividade constitucional. Somente a perfectibilidade da lei em relação à Constituição e aos Tratados ratificados pelo Brasil lhe admitirá válida para o caso posto em discussão.142
Além disso, o “senso comum teórico” peca por partir de uma premissa atemporal.143 É
preciso atentar, entretanto, para o fato de que o texto jurídico é elaborado em um determinado momento histórico e sob o auspício de uma certa realidade jurídica, política, econômica e social. Daí que, durante o processo de interpretação/aplicação do direito, devem o intérprete e o destinatário da norma por excelência – que é o julgador – entender essa inevitável relação. Mas por não saberem seu lugar de fala autêntico dentro do jogo democrático, os juristas imersos no senso comum teórico, não raro, imaginam-se parte do Sistema de Segurança Pública144 e agem como tal, e não como membros do Poder Judiciário, encarregados da guarda da Constituição, ou do Ministério Público, fiscais da Democracia e do respeito aos Direitos Fundamentais. Esses operários do direito, no sentido maquinal e subalterno do termo, são os porta-vozes da colonialidade dentro do sistema jurídico penal, com efeitos nefastos amplificados quando são agentes cooptados pelo eficienticismo quantitativo-utilitarista da Reforma do Judiciário (Parte II, Capítulo 3).