• Sonuç bulunamadı

Kentsel Dönüşüm Sürecinin Aşamaları ve Hedefleri

2. KENTSEL DÖNÜŞÜM KAVRAMI UYGULAMA AŞAMALARI VE

2.2 Kentsel Dönüşüm Sürecinin Aşamaları ve Hedefleri

As fronteiras formais – dos muros dos presídios que demarcam os criminalizados do resto da sociedade – não são as únicas. Simbolicamente, convivemos com guetos, com áreas de exceção construídas enquanto tais pelo próprio Estado, por omissão das ações necessárias ou pela prática das ações que reforçam o estigma, de modo a ocasionar a despersonalização e a coisificação das populações residentes nas periferias – como veremos a partir de agora.

Nas áreas de estado de exceção das periferias das grandes cidades, o Estado somente chega efetivamente enquanto “Estado Polícia”, bem como a seletividade penal se expressa nos corpos das populações que lá habitam. As favelas são zonas de exclusão. Exclusão do Estado Providência e exclusão de direitos. O Estado não sobe o morro com escolas, mas com escopetas; não com saúde, mas com ataúdes. Não sobe com veículos oficiais, mas com Caveirões.71 Nessas zonas de exclusão, chacinas e homicídios com características de execução

70 CASARA, Rubens. Mitologia processual penal. São Paulo: Saraiva, 2015, p. 207.

71 ANISTIA INTERNACIONAL. Brasil “Entre o ônibus em chamas e o caveirão”: em busca da segurança

cidadã. Londres: Anistia Internacional, 2007. Disponível em: < http://carceraria.org.br/wp- content/uploads/2012/07/Relatorio_Anistia_Violencia_RJ_2007.pdf>. Acesso em: 15 maio 2016.

banalizam a morte, não raro através de Autos de Resistência (página 91), 72 agora eufemisticamente chamados de “mortes decorrentes de intervenção policial”. Beiram uma normalidade que lembra os guetos durante o nazismo ou mesmo o desvalor da vida do homo sacer da antiga Roma.73 Como consequência, o Brasil ocupa o sétimo lugar em homicídios per capita entre cem países pesquisados no Mapa da Violência.74

Nas áreas do estado de exceção das metrópoles brasileiras, também não existe a inviolabilidade do lar, pois é tangenciada pela prática judiciária criminal por meio de artifícios retóricos como os surreais mandados de busca coletivos (vide página 74). Sem contar que ocorrem supostas prisões em flagrante chanceladas pelo Ministério Público e pelo Judiciário, a despeito da sua não ocorrência real, o que jamais seria aceito por essas mesmas instâncias jurídicas do Sistema de Justiça Criminal se fossem em um bairro nobre da mesma cidade. A detenção para averiguação e a brutalidade nas abordagens são a regra.

Nas áreas de exceção, primeiro, suspeita-se. Depois, invade-se o lar e, por fim, encontra-se o que se procurava. E a tentação de se encontrar algo é absoluta, afinal, não encontrar nada ensejaria, no mínimo, abuso de autoridade. Os relatos de flagrantes forjados são costumeiros. O Judiciário, em vez de anular o ato por violar um domicílio ao alvedrio da Constituição, via de regra adota um novo “Juízo de Deus”: se achou a materialidade do crime, é porque havia o flagrante. Então, claro, sempre haverá materialidade.

As áreas de exceção são, geopoliticamente, como uma outra cidade dentro de um mesmo espaço geográfico. As áreas de exceção são cidades dos colonizados. A demarcação é cultural. Não é preciso haver uma delimitação formal sobre onde se dá a fratura entre a cidade do colonizador e a do colonizado. Estão em dimensões diferentes no espectro de cidadania e de dignidade, embora foscamente em planos contíguos. Frantz Fanon, a partir da realidade periférica argelina, enfrenta a mesma conjuntura:

72 GRAVAÇÃO mostra policiais da Polícia Civil do Rio forjando auto de resistência. Extra Online. Exibido

em: 15 maio 2016. Disponível em: <http://globotv.globo.com/infoglobo/extra/v/gravacao-mostra-policiais-da- policia-civil-do-rio-forjando-auto-de-resistencia/2567812/>. Acesso em: 15 maio 2016.

73 Homem sacro é aquele que as pessoas julgaram criminalmente. Não é permitido sacrificar este homem, mas

aquele que o mata não será condenado por homicídio. Na primeira lei tribunícia, na verdade, é de se notar que “se alguém mata aquele que é sacro de acordo com um plebiscito, não será considerado homicida”. É por isso que é habitual para um homem dito mau ou impuro ser chamado de sacro. Cf. AGAMBEN, Giorgio. Homo

sacer: sovereign power and bare life. Stanford: Meridian, 1998, p. 71.

74 WAISELFISZ, Julio Jacobo. Mapa da Violência: os jovens do Brasil. Brasília: Secretaria-Geral da

Presidência da República; Secretaria Nacional de Juventude; Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, 2014, p. 69.

A cidade do colonizado, ou pelo menos a cidade indígena, a cidade negra, a

medina a reserva, é um lugar mal afamado, povoado de homens mal

afamados. Aí se nasce não importa onde, não importa como. Morre-se não importa onde, não' importa de quê. É um mundo sem intervalos, onde os homens estão uns sobre os outros, as casas umas sobre as outras. A cidade do colonizado é uma cidade faminta, faminta de pão, de carne, de sapatos, de carvão, de luz. A cidade do colonizado é uma cidade acocorada, uma cidade ajoelhada, uma cidade acuada.75

Atuando como juiz em uma das Varas Criminais da Comarca de Natal, começamos a perceber a cotidianidade das prisões em flagrante na periferia da cidade decorrentes de busca e apreensão em domicílios. Tais diligências eram oriundas de denúncias anônimas, de suposições ou de crenças dos agentes policiais. E passamos a observar também um script quase invariável: dizia a Polícia Militar que recebera denúncia anônima de que determinada pessoa estaria praticando algum crime. Dirigiam-se ao local e visualizavam o indivíduo alvo entrar ou sair de casa, geralmente correndo. Numa situação de suspeita, entravam na casa à força, pois desconfiavam da movimentação do flagranteado. Em outros casos, simplesmente alegavam que tinham realizado a prisão do suspeito na rua e o conduziram até sua casa; por fim, em outras, afirmavam que, após a prisão, haviam pedido autorização para entrar no imóvel e que o alvo – que já estava detido e algemado – havia permitido. E em todos os casos eram encontradas armas ou drogas. Também quase que invariavelmente as defesas informavam, além da violação indevida, abusos físicos no preso ou em parentes dele.

Paralelamente a isso, houve o dramático caso de um rapaz que denunciou em um programa de televisão os excessos de policiais militares nos bairros mais carentes. Ele relatou invasões de domicílio sem mandado judicial e nominou um dos que invadiram sua casa indevidamente só porque ela ficava na mesma vila em que procuravam um suspeito de tráfico ilícito de drogas. Contou que os policiais entravam à força nas casas a qualquer hora, forjavam flagrantes e ameaçavam ou criminalizavam quem reclamasse. Semanas depois, policiais militares, sob a alegação de que teria havido uma denúncia anônima contra o rapaz, invadiram sua casa e supostamente teriam encontrado maconha e crack, prendendo-o.

Durante a instrução, tomamos conhecimento dos inúmeros abusos que esse jovem sofreu na prisão. No seu interrogatório, ele narrou os abusos de modo detalhado, firme e convincente. O Ministério Público, em suas alegações finais, não só pediu a absolvição como

também solicitou a remessa de peças para investigar a tortura e o abuso de autoridade a que tinha sido submetido.76

Os casos de prisão em flagrante com busca e apreensão – notadamente em crimes permanentes –, na verdade, formam um paradoxo insolúvel, pois ambas – prisão e busca – tornam-se, reciprocamente, fundamento constitucional uma da outra. São situações em que o flagrante somente se caracteriza com a busca e apreensão exitosa, uma vez que a flagrância era apenas mera suspeita em razão de crença ou de alegações não comprovadas de pessoas anônimas. Ao mesmo tempo, pela falta de mandado judicial, tal busca e apreensão só se regularizaria se ocorresse o flagrante.

Infelizmente, porém, a prática, na Justiça brasileira, tem sido a de dar pouca atenção para essa situação.77 À primeira vista, parece ser sintoma de que o Judiciário simplesmente ainda não compreende a dimensão dos princípios da inviolabilidade do lar, da igualdade e da dignidade humana. Mas não é exatamente isso. O que existe, na verdade, é uma permissividade utilitarista que contamina e estimula abusos em áreas nas quais não existe o Estado de Direito. Nessas regiões, o que se vê é a prática de um estado de exceção78 – por meio de uma política totalitária em que tudo se pode contra os que já estão excluídos, os sem- voz.

Sintoma desse estado de exceção bem especifico, de acordo com o lugar ou com a pessoa-alvo, é a tortura. Tornou-se método de atuação ordinária das forças policiais porque foi banalizada, e isso só foi (e é) possível com a conivência de uma parcela do Judiciário e do Ministério Público. Essa impunidade é tão flagrante, que podemos chegar ao seguinte raciocínio. Levando em consideração dados oficiais,79 estes apontam 218 pessoas presas no Brasil por tortura.80 Anualmente, morrem em média 130 pessoas atingidas por descargas elétricas de raios. Como a pena mínima prevista para a prática do crime de tortura (art. 1º da lei. 9.455/97) é de dois anos, conclui-se que é mais provável alguém morrer atingido por um

76 Não identificaremos o caso por respeito à intimidade e à segurança da pessoa vitimada.

77 Observe-se que o regramento da busca e apreensão exige que ao final da diligência deve ser lavrado auto

circunstanciado, assinado por duas testemunhas presenciais (Código de Processo Penal, art. 245, § 7º. Nos casos de busca e apreensão domiciliar em caso de flagrante, o senso comum teórico tem desprezado essa exigência.

78 AGAMBEN, Giorgio. State of Exception. Chicago: The University of Chicago Press, 2005, p. 3. 79 BRASIL. Ministério da Justiça. População Carcerária – Sintético: 2012... Op. Cit.

80 BRASIL. Ministério da Justiça. Departamento Penitenciário Nacional. Sistema Integrado de Informações

raio do que cumprir pena por tortura no Brasil.81 Assim, o estado de exceção está vivo nas periferias como técnica de governo.82 E como no mito da caverna, de Platão,83 corre risco quem desvelar as sombras.

Da mesma maneira, toda lesão corporal ou marca de tortura pode ser normalizada e os polos invertidos, transformando-se os algozes em vítimas e estas em acusados da prática dos crimes de resistência, de desobediência ou de desacato (ou dos três juntos). Contra o sem-voz, o habitante das áreas de exceção, tudo é justificado. E a cada morte, sempre haverá um “Auto de Resistência” para legitimá-la. Aliás, o Brasil deve ser campeão mundial de mortes pela polícia por resistência à prisão.84 Somente no Rio de Janeiro, no ano de 2015, morreram 644 civis em suposta situação de resistência.85

Nos telejornais, as chacinas e as execuções sumárias policiais tornaram-se lugar- comum e a cada dia mais presentes em razão do fácil acesso a câmeras de vídeo de smartphones. Tais fatos cometidos diuturnamente, semana a semana, mês a mês e ano após ano, são a prova mais clara de que o princípio da igualdade é uma falácia nas zonas de exclusão do estado de exceção; afinal, do outro lado estão os outsiders, os hostis, os sem-voz.

Ocorre o que Boaventura de Sousa Santos86chama de “fascismo do apartheid social”, no qual os excluídos são segregados em determinadas áreas das grandes metrópoles do sul global – que são divididas em zonas selvagens e zonas civilizadas. Nas primeiras, vige o

81 MANAUS é a cidade com maior número de mortos por raios. Globo.com. Fantástico, Rio de Janeiro, 07 fev.

2010. Disponível em: http://fantastico.globo.com/Jornalismo/FANT/0,,MUL1480575-15605,00.html>. Acesso em: 15 maio 2016.

82“Confrontado com o imparável avanço do que tem sido chamado de uma ‘guerra civil global’, o estado de

exceção tende cada vez mais a aparecer como o paradigma de governo dominante na política contemporânea. Essa transformação de uma medida provisória e excepcional em uma técnica de governo ameaça radicalmente alterar – e na verdade, já visivelmente alterou – a estrutura e o significado da tradicional distinção entre os modelos constitucionais. Com efeito, a partir dessa perspectiva, o estado de exceção é exibido como um limite de indeterminação entre democracia e absolutismo” (tradução nossa). Cf. AGAMBEN, Giorgio. State of

Exception. Op. Cit., p. 2-3.

83 PLATÃO. Diálogos. República. Tradução para o espanhol de Conrado Eggers Lan. Madri: Editorial Gredos,

1988. v. IV, p. 342.

84 Exemplo recente da brutalidade policial travestida em auto de resistência foi divulgado no Fantástico:

IMAGENS revelam execução de homem já dominado por PMs. Globo.com, Aba Fantástico, Rio de Janeiro, 11 nov. 2012. Disponível em: <http://g1.globo.com/fantastico/noticia/2012/11/imagens-revelam-execucao-de- homem-ja-dominado-por-pms.html>. Acesso em: 15 maio 2016.

85 BRASIL. Estado do Rio de Janeiro. Instituto de Segurança Pública. Demonstrativo Mensal das Incidências

Criminais 2015 - Homicídio Decorrente de Intervenção Policial. Disponível em:

<https://view.officeapps.live.com/op/view.aspx?src=http://arquivos.proderj.rj.gov.br/isp_imagens/uploads/LVSe rieHistoricaEstadoRegioes.xlsx>. Acesso em: 15 maio 2016.

86 SANTOS, Boaventura de Sousa; MENESES, Maria Paula (Orgs.). Epistemologias do Sul. Coimbra:

estado de natureza hobbesiano. São zonas de guerra civil interna. Já as zonas civilizadas são as do contrato social, convertidas em neofeudos (condomínios fechados).

Como alerta Salo de Carvalho:

Importante perceber, pois, que o processo de naturalização da exceção, com a minimização de direitos e garantias a determinadas (não) pessoas, adquire feição eminentemente punitiva, atingindo diretamente a estrutura do direito e do processo penal, os quais passam a ser percebidos como instrumentos e não como freio aos aparatos da segurança pública. Assim, dado o papel essencialmente repressivo que adquirem os Estados na atualidade, fato que levou inclusive a sua ressignificação e adjetivação como Estado Penal, os históricos instrumentos de contenção das violências públicas (direito e processo penal) são convertidos, com a ruptura do seu sentido garantidor, em mecanismos agregadores de beligerância.87

Lamentavelmente, esse tipo de tratamento não é novidade na história humana. Ingo Müller, em uma obra intitulada Hitler's Justice: The Courts of the Third Reich,88 demonstra como funcionou esse discurso penal do inimigo que envolveu até mesmo o Judiciário alemão. A máxima era a de que “aquilo que o Exército faz em nossas fronteiras, nossas decisões devem fazer dentro delas”89. E, mesmo sob a Constituição de Weimar, os atores jurídicos

alinhados mostraram-se uma força subversiva considerável, adaptando e distorcendo as leis, de modo a interpretá-las com o máximo rigor contra os opositores – além dos judeus, os ciganos, os homossexuais, os negros, os comunistas e os sociais-democratas –, deixando impunes os partidários do sistema, até mesmo os nazistas mais perigosos.

Vejamos o ocorrido com Hitler, punido por participar do Putsch de Munique, em 1923. Isso se deu, embora: a) a sentença mínima fosse de cinco anos, e a máxima fosse ilimitada; b) Hitler estivesse em liberdade condicional – o que impedia a suspensão condicional da pena; c) e fosse estrangeiro (de nacionalidade austríaca – o que ensejaria deportação por determinação legal90), foi sentenciado a uma pena de somente seis meses de prisão, a ser cumprida em um luxuoso castelo. O que o totalitarismo faz na ordem do direito é

87 CARVALHO, Salo de. A poĺtica criminal de drogas no Brasil: estudo criminológico e dogmático da Lei

11.343/06 [Recurso eletrônico]. 7. ed. rev., atual. e ampl. São Paulo: Saraiva, 2014, p. 112.

88 MÜLLER, Ingo. Hitler's Justice: The Courts of the Third Reich. Cambridge: Harvard University Press, 1991. 89“What the army is a tour borders, our decisions must be within them!” MÜLLER, Ingo. Hitler's Justice... Op.

Cit., p. 9.

90 “‘every person found guilty of high treason is to receive a fine as well. The amount of the fine is not limited’.

The same law stated: ‘In the case of foreign nationals, the court must issue an order for deportation infringement of deportation order by imprisionment.’”. MÜLLER, Ingo. Hitler's Justice... Op. Cit., p 16.

deturpar garantias fundamentais – cuja titularidade é de todos e sob certos limites – em privilégios a todo custo concedidos apenas a determinados indivíduos que se adequam ao perfil desejado pelo Establishment.91

A Corte recusou a deportação, sob a alegação de que “no caso de um homem como Hitler, de ideais e sentimentos tão alemães, a opinião desta corte é que os desígnios e propósitos da Lei não se aplicam”.92 Enquanto isso, os judeus eram punidos implacavelmente.

Foram, inclusive, proibidos de advogar. E os juízes que não cederam ao totalitarismo perderam seus cargos. Leis flagrantemente inconstitucionais eram validadas sob as togas do Judiciário. Livre dos judeus e dos democratas, o Judiciário mergulhou, de uma vez, nos ideais nazistas. As leis elaboradas sob a validade da Constituição de Weimar eram “nazificadas”. Os juízes identificados com a ideologia totalitária e desapegados da normatividade – pois a Constituição de Weimar lhes era um obstáculo –, desde o princípio estavam predispostos a perseguir implacavelmente os judeus, os ciganos e os comunistas.

Ao mesmo tempo, esses mesmos magistrados nazistas protegiam os nacionais- socialistas e depois encontravam as justificativas, as mais pífias, desde que servissem de pretexto para o exercício da vontade de poder. Segundo relatado do Müller, no novo contexto, “os juízes deveriam emitir juízos de valor coerentes com a ordem jurídica nacional-socialista e com os desígnios das lideranças políticas; as pessoas poderiam ser punidas por um ato que, mesmo não estando previsto expressamente em nenhuma lei, merecesse”.93 Depois vieram as

leis raciais nazistas, mas todas com o beneplácito do Judiciário.

O fundamento subjacente na Alemanha da época – que era a manipulação do medo do outsider, do hostis, casava-se bem com o arquétipo do judeu. E a manipulação do medo continua, aqui e agora, contra as parcelas mais sofridas da população, os bandidos em potencial, pois, como alerta Zaffaroni, “sem uma base de medo correspondente a um preconceito, é impossível construir um inimigo”.94

Em um Estado com tamanhas desigualdades como o Brasil, o critério econômico também entra na conta da distinção entre amigo ou inimigo, ser humano ou “elemento”,

91 Referimo-nos a Establishment no sentido da elite que controla social e economicamente toda a sociedade,

através das instituições publicas (p. ex.: forças policiais) ou privadas (p. ex.: meios de comunicação social).

92 MÜLLER, Ingo. Hitler's Justice... Op. Cit., p 16.

93 POSNER, Richard A. Para além do direito. Tradução de Evandro Ferreira da Silva. São Paulo: Martins

Fontes, 2009, p. 158.

homem ou coisa. Embora mais tênue que o étnico (sem desprezar sua existência), sinais pessoais exteriores de riqueza, locais em que residem ou frequentam ou até mesmo os meios de locomoção95 diferenciam o amigo do inimigo, o “homem de bem” do “marginal”. Com o rebaixamento da dignidade dos sem-voz a um subnível, termina por ocorrer a restrição ou limitação de garantias a todos os habitantes das áreas de exceção, indistintamente.

Aos sem-voz como Claudia,96 aos habitantes das áreas de exceção, pouco direito é muito. Afinal, para uma boa parcela das camadas superiores de uma sociedade marcada historicamente pela invasão violenta e pela desumanização dos nativos, pela escravatura negra e pelo abismo socioeconômico, os sem-voz só são entendidos enquanto indivíduos quando estão por perto nas portarias dos edifícios, nas faxinas, nas cozinhas e nos serviços gerais. E mesmo assim, visíveis só instrumentalmente, como homens e mulheres-máquina.

São os sem-voz que devem limpar a sujeira material do consumismo, da ostentação, do desperdício e do excesso, e expiar a sujeira moral de uma pequena parcela superior detentora dos meios de produção em uma sociedade cindida e profundamente desigual – cujo legado da escravidão – do reconhecimento de um outro como um ser intrinsecamente inferior(izado) – mostra-se ainda tão presente. O fascismo reina na favela, mas o fascista não mora lá. Mora ao lado.

São os efeitos nefastos da importação de um modo de vida, o american way of life – suprassumo hoje do eurocentrismo, arcabouço político, econômico e cultural enquanto matriz de poder do centro Ocidente, que é totalitarista. Some-se a ele a abordagem belicista estadunidense no enfrentamento de problemas étnicos e sociais decorrentes desse modelo, devidamente exportado para a periferia, como as séries enlatadas para a TV.

Salientam Bicalho, Kastrup e Reishoffer, acerca das incursões policiais nas periferias: “Observa-se uma ação militar extremamente repressiva baseada na lógica no ‘inimigo interno’, tomando a guerra como produto da violência urbana, adotando a estratégia da eliminação dos inimigos”.97

95 Estar no interior de um automóvel Mercedes ou um ônibus coletivo Mercedes faz toda a diferença.

96 HERINGER, Carolina, MODENA, Ligia; HOERTEL, Roberta. Viatura da PM arrasta mulher por rua da Zona