2. KENTSEL DÖNÜŞÜM KAVRAMI UYGULAMA AŞAMALARI VE
2.3 Kentsel Dönüşüm Sürecine Etki Eden Politikalar
O conceito de violência, base para a persecução criminal e para a atuação de instituições tão importantes quanto a Polícia e o Ministério Público, é problemático e, ainda assim, banalizado. Usualmente, nós concebemos a violência apenas como uma quebra do padrão “normal” de ordem ou de tranquilidade. Como uma conduta que viola ou ameaça a vida ou o patrimônio de alguém através de uma agressão física. A qualidade de “anormalidade” dessa concepção de violência a torna tão fácil de identificar e exemplificar.
Mas, para desvelar o que é violência, para sair da superfície, é preciso primeiro compreender que a concepção acima é apenas um modo de enxergar o fenômeno. A essa concepção se dá o nome de violência subjetiva, a ponta do iceberg, em contraposição à violência objetiva, o grande encoberto nas profundezas da cotidianidade social, cuja existência não é, em geral, percebida, porém nem por isso deixa de condicionar a prática de atos que diuturnamente o senso comum chama de violência. Essa violência objetiva, também chamada por Slavoj Žižek de violência sistêmica, não pode ser compreendida sob o mesmo ponto de vista da violência subjetiva, uma vez que não é percebida como anormalidade, mas como algo corriqueiro, naturalizado no cerne das relações sociais, perdido na cotidianidade. A violência objetiva forma uma falsa imagem, como reflexo ideológico, passando ao largo da percepção dos que a sofrem e, muitas vezes, também dos que a exercem. Menciona Žižek:
A questão está em que as violências subjetiva e objetiva não podem ser percebidas desde o mesmo ponto de vista, pois a violência subjetiva é sentida como tal em contraste com um fundo de nível zero de violência. É vista como uma perturbação do estado de coisas “normal” e pacífico. Não obstante, a violência objetiva é invisível, pois que é sustentada sobre uma normalidade de nível zero em relação ao que percebemos como subjetivamente violento.116 (tradução nossa)
Há ainda uma terceira ótica de visão da violência e que complementa as duas primeiras. Trata-se da violência simbólica, termo elaborado por Pierre Bourdieu. Caracteriza- se pela fabricação, através do discurso, de falsas crenças que induzem o indivíduo a acreditar, a consentir e a se comportar de acordo com os padrões desejados pelo Establishment117 que controla social e economicamente a sociedade, através das instituições públicas (p. ex.: forças policiais) ou privadas (p. ex.: meios de comunicação social). Para ele, tal tipo de violência se realiza enquanto produção simbólica e instrumento de dominação,
[...] enquanto instrumentos estruturados e estruturantes de comunicação e de conhecimento que os “sistemas simbólicos” cumprem a sua função política de instrumentos de imposição ou de legitimação da dominação, que contribuem para assegurar a dominação de uma classe sobre outra (violência simbólica) dando o reforço da sua própria força às relações de força que as fundamentam e contribuindo assim, segundo a expressão de Weber para a “domesticação dos dominados”. 118
Por exemplo, foi simbólica a violência exercida pelo invasor europeu contra os povos nativos das Américas, no processo de submissão da cultura local e imposição da Modernidade. Mas a alegação era de que os nativos, taxados como seres aculturados ou primitivos, precisariam de “ajuda”. Da mesma forma, a prática atual dos Estados centrais, em especial os Estados Unidos, de trazer a “liberdade” aos outros povos. Ocorre que isso é feito omitindo as reais intenções de usurpação e dominação estratégica de riquezas naturais (petróleo, urânio, lítio etc.), de mercados ou de territórios estrategicamente importantes. Essa
116 No original: “La cuestión está en que las violencias subjetiva y objetiva no pueden percibirse desde el mismo
punto de vista, pues la violencia subjetiva se experimenta como tal en contraste con un fondo de nivel cero de violencia. Se ve como una perturbación del estado de cosas “normal” y pacífico. Sin embargo, la violencia objetiva es precisamente la violencia inherente a este estado de cosas “normal”. La violencia objetiva es invisible puesto que sostiene la normalidad de nivel cero contra lo que percibimos como subjetivamente violento.”. ŽIŽEK, Slavoj. Sobre la violencia: seis reflexiones marginales. Buenos Aires: Paidós, 2010, p. 10.
117 Sobre o conceito de Establishment: vide nota nº 91, página 70. 118 BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Op. Cit., p. 11.
violência é instrumental, pois tem o fim de anestesiar e domesticar os que a ela são submetidos.
A violência sistêmica ou objetiva, para Žižek,119 revela-se nas consequências
catastróficas do funcionamento do sistema econômico e político capitalista, ainda mais aprofundado devido à hegemonia neoliberal. Tal sistema reproduz e amplifica a miséria, a desigualdade, a exclusão e a marginalização nas periferias. Essa “normalidade” produzida/mantida pela violência simbólica é violência sistêmica, no dizer de Žižek. É a materialização dos efeitos da violência simbólica. Assim, torna-se uma violência normal, naturalizada e invisível, mas é a causa fundamental do sofrimento de milhões, quiçá, bilhões, de indivíduos.
Imersos nessa violência que cala e encobre a dor do Outro,120 até mesmo os submetidos a ela começam a crer que se trata de fatos naturais ou inevitáveis, castigos divinos, purgação de faltas cometidas, ou ainda etapas de um processo civilizatório evolutivo ou constitutivo do mundo. E assim: a) as abissais desigualdades econômicas e sociais seriam naturais; b) o Mercado daria iguais oportunidades a todos, e os pobres (leia-se empobrecidos) encontram-se em tal situação por culpa própria, inaptidão ou preguiça, e não por causa de uma estrutura desigual que, quase inexoravelmente, limita-os; c) os pobres os são por si próprios, por natureza, jamais empobrecidos por relações desiguais de poder que os fabricam, isto é, em razão de condições artificialmente criadas e impostas de exploração e opressão do homem pelo homem; d) violência seria apenas o ato que constitui um crime individual contra a pessoa ou o patrimônio; e) terrorismo nunca seria ato praticado por Estados e seus Exércitos ou até mesmo por bloqueios econômicos que atinjam e causem terror, fome e morte aos civis dos países ou regiões alvo, mas apenas atentados realizados por indivíduos ou grupos etiquetados de extremistas e fundamentalistas. É nessa dimensão, aliás, que importamos o conceito de terrorismo da Lei nº 13.260/2016; f) abusos policiais, violações de domicílio nas favelas, torturas e as execuções dos chamados “bandidos” seriam inevitáveis ou um custo a se pagar na guerra contra o crime e não constituem diretamente uma violência, mas apenas e tão somente uma reação a ela; g) as posturas críticas contra violações dos Direitos Humanos seriam radicalismo e utopia que atrapalham a ordem e a paz; h) os movimentos sociais que
119 ŽIŽEK, Slavoj. Sobre la violencia... Op. Cit., passim.
120 LEVINAS, Emmanuel. Totalidade e infinito. Trad. José Pinto Ribeiro, Revista por Artur Mourão. Lisboa:
denunciam e expõem a violência simbólica e sistêmica seriam criminosos e liderados por pessoas que promovem o caos, a baderna e a desordem.
Buscando socorro, parte em Heidegger121 e parte em Paul Ricoeur,122 dois conceitos terminam sendo relevantes e inevitáveis nessa relação homem-mundo em que estamos mergulhados: a ipseidade e a alteridade. Entenda-se a ipseidade como um voltar-se para si mesmo (do latim ipse, a, um, “mesmo”), uma diferenciação entre o ser e o exterior. Já a alteridade é um olhar para o outro, uma mirada para compreender sob a ótica de quem nos é externo (do latim alter, “outro”).
A relação entre ipseidade e alteridade é sempre tensa, e o ponto de equilíbrio reside na consideração de que não existe o “diferente”, mas o distinto. O distinto nem é mais nem menos importante, nem tem mais nem menos valor. Trata-se de uma relação de coexistência e não de dominação, e em que o distinto de nós tem dignidade. Dignidade não tem medida, porque é uma característica ontológica, imanente ao ser-no-mundo.123 É aí que deveria residir o hardcore, o núcleo do conceito de igualdade humana e a pedra de toque da ética.
Na violência, há o rompimento da tensão entre ipse e alter. Polariza-se. Assim, é violenta a situação de desconsideração do outro (ser somente para si; ser contra o outro – imposição). Da mesma maneira, é violenta a desconsideração de si próprio (ser somente para o outro; ser contra si mesmo – submissão). Esmaga-se a distinção nas duas situações. Somente o outro para si ou somente o si mesmo para o outro. Essa desconsideração coisifica a vítima da violência.
A estratégia de anular o outro tem sido fundamental em todo discurso de guerra, pois o belicismo precisa construir a imagem do inimigo enquanto objeto-receptáculo do ódio, do caos, da repugnância e do temor; este tem que ser despojado dos atributos que permitam
121 De Heidegger, a concepção de Dasein, de ser-aí, mas não o ser autossuficiente da filosofia da consciência,
que constrói seu objeto de conhecimento. Ser-aí é ser-no-mundo, é ser-consigo-mesmo e ser-com-os-outros. “Na base desse ser-no-mundo determinado pelo com, o mundo é sempre o mundo compartilhado com os outros. O mundo da pre-sença é mundo compartilhado. (N36) O ser-em é ser-com os outros. O ser-em-si intramundano destes outros é co-pre-sença.” (HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo. Tradução de Márcia de Sá Cavalcante. 15. ed. Petrópolis: Vozes, 2005, p. 170). E em outra passagem, “O ser-com determina existencialmente a pre-sença mesmo quando um outro não é, de fato, dado ou percebido. Mesmo o estar-só da pre-sença é ser-com no mundo. Somente num ser-com e para um ser-com é que o outro pode faltar. O estar-só é um modo deficiente de ser-com e sua possibilidade é a prova disso” (HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo. Op. Cit., p. 172).
122 RICOEUR, Paul. Si mismo como otro. 3. ed. Madri: Siglo XXI, 2006, p. 352.
123 “La vida, como la libertad (aunque le pese a Agnes Heller), no tienen valor, porque son el fundamento de los
valores; tienen dignidad (que es mucho más que el mero valor)”. DUSSEL, Enrique. Política de la liberación. Madri. Trotta, 2009. v. 2: Arquitetónica, p. 53.
identificá-lo como um outro como si mesmo. O outro não é outro como tal. Esse outro é tal qual somente uma (outra) coisa. Observe-se, por sinal, que a coisificação está na ordem do discurso enquanto violência simbólica. Está no discurso policial do “elemento”, no discurso do “marginal” do senso comum. É a desumanização via coisificação que abre a porta para tratamentos desumanizantes. A coisa precisa ser tratada, enfrentada como tal que é. E onde está o humano nessa relação rotulador-rotulado?
Quanto à sua exteriorização, a violência é, ontologicamente, portanto, todo ato que atenta contra a dignidade do outro. Assim, ao contrário do apregoado no senso comum, a violência pode se exprimir não somente através de ações físicas agressivas, como também nem precisa partir de indivíduos. O próprio Estado pode agir com violência e, aliás, é seu principal causador. Nesse ponto, cabem bem as palavras de Nilo Odália:
O ato rotineiro e contumaz da desigualdade, das diferenças entre os homens, permitindo que alguns usufruam à saciedade o que à grande maioria é negado, é uma violência. São os hábitos, os costumes, as leis, que a mascaram, que nos levam a suportá-la com uma condição inerente às relações humanas e uma condição a ser paga pelo homem, por viver em sociedade. Agimos como se a desigualdade fosse uma norma estabelecida pela Natureza da sociedade e contra a qual pouco é possível, enquanto o mundo for mundo. [...] Toda violência é institucionalizada quando admito explícita ou implicitamente, que uma relação de força é uma relação natural – como se na natureza as relações fossem de imposição e não de equilíbrio.124
Há dois dados que podem ser confrontados, demonstrando a correlação entre as violências subjetiva e objetiva (pois a simbólica, por se exercer pelo discurso, exige uma análise qualitativa e não quantitativa). Esses dados são a desigualdade de renda, como externalização da violência objetiva/sistêmica, e o percentual de homicídios, como expressão mais clara da violência subjetiva contra o bem mais precioso: a vida.
Estudo da ONU, “Global Study on Homicide 2011”,125 concluiu que, embora as
pessoas cometam homicídios dolosos por muitas razões, há um consenso, tanto entre os estudiosos quanto entre a comunidade internacional, de que a violência letal tem forte ligação com contextos de escassez e privação, iniquidades e desigualdades, marginalização social,
124 ODÁLIA, Nilo. O que é violência. São Paulo: Brasiliense, 2004, p. 30 e 35.
125 UNITED NATIONS (UN). United Nations Office on Drugs and Crime. Global study on homicide 2011.
baixos níveis de educação e um Estado de Direito que não se efetivou ou que não é forte.126 E diz o Relatório que há uma correlação entre desenvolvimento humano e homicídios, na medida em que, quanto maior o IDH, menor a taxa de homicídios e que
A maior proporção de homicídios (38% dos homicídios em todo o mundo, 18% da população mundial) são registrados em países com baixos níveis de desenvolvimento humano: os países com “baixo” (na sua maioria africanos) registram taxas de homicídios três ou quatro vezes maiores do que países com IDH “muito elevado” e “médio”. A única exceção a esse padrão são os países com “alto” IDH, muitos dos quais são países da América Central e da América do Sul, onde outros fatores, incluindo criminalidade organizada e a desigualdade, desempenham um papel mais importante que níveis médios de desenvolvimento humano.127
O estudo identifica, em termo mundiais, a fragilidade do Estado de Direito e as desigualdades sociais como causas dos altos níveis de crimes letais intencionais. Esta tese explica por que a análise da ONU não se torna autêntica em relação à América Latina e, especialmente, ao Brasil. Além da não percepção da importação das Belligerent Policies, o que será abordado com maior profundidade no Capítulo 4 da Parte I, o estudo da ONU, de perfil eurocêntrico, não fez uma historicidade do que ocorreu na América Latina em relação à ruptura do Estado de Direito nas últimas décadas do século XX. Não considera a epidemia golpista que durou mais de trinta anos no continente e os seus inevitáveis efeitos até os dias de hoje.
Cabe acrescentar – agravando a situação brasileira – que, no tocante à Justiça Transicional, os violadores, assassinos e torturadores brasileiros não foram responsabilizados pelos atos praticados. Foram louvados oficialmente pelos “serviços prestados” à barbárie sob o manto da famigerada Lei da Anistia, fato que não ocorreu em diversos outros países da região. Essa falta de reconhecimento do caráter bárbaro de um Regime de exceção estimula a reprodução da violência e a naturaliza. Sintoma disso são os arautos do DOI-CODI que, em um processo revisionista similar ao que subsidia o neofascismo/neonazismo, terminam reverenciados em não poucos círculos, inclusive militares. Na órbita internacional, gerou o
126 UNITED NATIONS (UN). United Nations Office on Drugs and Crime. Global study on homicide 2011.
Op. Cit., p. 31-32.
127 UNITED NATIONS (UN). United Nations Office on Drugs and Crime. Global study on homicide 2011.
merecido desgaste da imagem do Brasil em face da condenação na Corte Interamericana de Direitos Humanos (Caso Gomes Lund).
Entre nossos vizinhos do Cone Sul (e parceiros na genocida Operação Condor), temos o seguinte panorama: na Argentina, onde as leis de anistia foram declaradas inconstitucionais, centenas de militares128 e dois ex-ditadores foram condenados. No Chile, até 2011, quase oitocentos membros ou ex-membros das forças de segurança do Estado foram condenados criminalmente, com 245 sentenças transitadas em julgado.129 No Uruguai, dentre outras condenações, somente em 2009 oito membros do alto escalão das Forças Armadas, incluindo um dos líderes da ditadura militar, o general Gregório Álvarez, foram penalmente condenados por 28 assassinatos políticos a penas entre 20 e 25 cinco anos de prisão.130 Hoje, curiosamente, possuímos índices de violência subjetiva, incluindo a violência policial, mais altos que os dos demais antigos parceiros da Condor, que não deixaram a barbárie impune.
O estudo da ONU também não aborda como as Belligerent Policies se materializaram como política externa imperial na National Security Doctrine, abre-alas para a segunda War on Crime e para a War on Drugs e War on Terror. Aqui, na América Latina, essas políticas beligerantes influenciaram e ainda influenciam, condicionaram e ainda condicionam fortemente a atuação das forças repressivas e, em especial, as brasileiras, como será visto (página 102). A colonialidade do poder aqui se expressa vigorosamente: também importamos o american way of life, incluindo o ethos guerreiro dele – espaço em que as violências subjetiva e objetiva se encontram e se reforçam. Veremos melhor essa questão ao tratarmos do poder condigno, compensatório e condicionado e do soft power e hard power (Parte II, itens 1.4 e 1.4.1).
Adotamos a violência como solução para problemas interpessoais e naturalizamos as desigualdades socioeconômicas. Aqui, vibra-se com a barbárie no outro, ao mesmo tempo em que se implora a civilização para si. Chicote é para o outro. Para mim, flores. Isto é,
128 BURT, Jo-Marie. Desafiando a impunidade nas cortes domésticas: processos judiciais pelas violações de
Direitos Humanos na América Latina. In: BRASIL. Ministério da Justiça. Justiça de transição: manual para a América Latina. Brasília: Comissão de Anistia, Ministério da Justiça; Nova Iorque: Centro Internacional para a Justiça de Transição, 2011. p. 307-338, p. 307.
129 BURT, Jo-Marie. Desafiando a impunidade nas cortes domésticas: processos judiciais pelas violações de
Direitos Humanos na América Latina. In: BRASIL. Ministério da Justiça. Justiça de transição... Op. Cit., p. 325.
130 BURT, Jo-Marie. Desafiando a impunidade nas cortes domésticas: processos judiciais pelas violações de
Direitos Humanos na América Latina. In: BRASIL. Ministério da Justiça. Justiça de transição... Op. Cit., p. 325.
fomentamos a violência subjetiva porque naturalizamos a violência objetiva. Desrespeitamos o outro. Só que esquecemos que somos o outro do outro. É nessa lacuna que a tese aqui esboçada se insere e complementa a explicação do porquê de índices tão elevados de violência criminal.
A política de segurança belicista importada do Império do Norte – que detém a colonialidade do poder – gera nos países da América Latina uma clara violação ao Estado de Direito, afetando as camadas já oprimidas pela intensa desigualdade socioeconômica. O alerta de Loïc Wacquant é importante: “es imperativo someter la importación de las pseudo-teorías pergeñadas por los think tanks norteamericanos a un control aduanero severo, en la forma de una crítica lógica y empírica rigurosa”.131
Por fim, cabe asseverar que, especialmente em nosso país, o Estado Social historicamente não passou de um simulacro, com a naturalização das desigualdades sociais, agora por meio do discurso neoliberal (violência simbólica) que domina nosso cenário atual. Não por outro motivo, o Brasil é o 23º no índice de violência subjetiva mais patente, a dos crimes letais intencionais,132 com uma média de 22,7 homicídios por 100 mil habitantes. E no de violência objetiva, é o 16º mais desigual do mundo.133 No Índice Global da Paz,134 criado para analisar a nível global os esforços pela paz, tanto de caráter interno como externo, ficamos no nada honroso 90º lugar, em um universo de 162 países. Podemos concluir que o Brasil é um país extremamente violento, subjetiva e objetivamente. Assim, o discurso e a prática da violência subjetiva como justificador de intervenções brutais nas periferias de nossas cidades são, em si mesmos, expressão de violência objetiva.
2.2. A “guerra contra o crime” e os crimes da guerra