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Kentsel Dönüşüm Kararı Alma ve Uygulama Açısından Karşılaşılan

4. KENTSEL DÖNÜŞÜM UYGULAMALARINDA ORTAYA ÇIKAN

4.1 Kentsel Dönüşüm Kararı Alma ve Uygulama Açısından Karşılaşılan

A brutalidade e o autoritarismo já fazem parte da iniciação das forças policiais brasileiras. O bullying, a tortura, a desindividualização e as agressões físicas constituem o enredo de embrutecimento do agente policial desde o curso de formação. Trata-se de uma gradativa e violenta desconstrução do indivíduo. Como em toda instituição totalitária, essa desindividualização das Polícias, principalmente a Militar (corte do cabelo, uniformização, “nome de guerra”, sincronismo das marchas) é o que permite a instrumentalização dos a ela submetidos.

A instrumentalização tem um propósito: serve para que as forças policiais sejam usadas pelo poder hegemônico ao alvedrio dos limites da normatividade, pois que repousadas sobre um discurso sub-reptício utilitarista, cujos fins justificam os meios: a guerra suja, sem respeito às regras do jogo democrático, de imposição da ordem utilitária à dominação dos seus inimigos – os dissidentes – e numa lógica de combate.

Sob o escudo da hierarquia, o autoritarismo interno corre solto e se impõe. E essa hierarquia também é necessária para dilacerar qualquer instância crítica e evitar dissidências que possam questionar a perversidade do sistema. Os recrutas sofrem os abusos e precisam racionalizá-los, pois está sempre presente também o que Philip Zimbardo chama de o “terror de ficar de fora” (página 122). Em uma instituição marcadamente fechada, com códigos próprios, corporativista, extremada, violenta e reativa, sofrer a rejeição dos superiores e, posteriormente, dos pares, é um medo real e presente. É o medo que faz os recrutas permitirem que contra eles se cometam abusos ou os impulsionem a fazer algo que, a princípio, reprovariam ou rejeitariam fazer.

Os rituais de passagem, que vão desde o trote do ingresso até a formatura, marcam a quebra da identidade civil, passando a personae policial a preponderar sobre a do indivíduo, de modo, não raro, a ocasionar o fenômeno da insuflação da personae, quando o papel profissional invade e erode o pessoal em suas relações afetivas, familiares e comunitárias. Deixam-se marcas também. As torturas psicológica e física são disseminadas nos cursos iniciais e nas reciclagens.

Em pesquisa realizada pelo Centro de Pesquisas Jurídicas Aplicadas – CPJA, da Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas – FGV – em São Paulo e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em parceria com a SENASP, 38,8% dos policiais militares respondentes afirmaram que foram vítimas de tortura em treinamento ou fora dele. Dois

terços (64,4%) dos policiais militares que responderam à pesquisa informaram já terem sido humilhados ou desrespeitados por superior hierárquico.159

Essas torturas são também dissimuladas sob o pretexto de que a agressão é mero recurso pedagógico para testar limites de estresse. O ethos guerreiro160 exige suportar as agressões e humilhações, mas não sem custos psíquicos. Entre os instrutores, não raro, há os que lá estão, acima de tudo, pelo prazer de externar seu sadismo ou de reviver e revidar as dores sofridas quando lá estiveram na posição de submissão. E, no papel vantajoso de algoz, podem sublimar161 o revide – na esperança de expiá-lo no outro. Isso se materializa em corretivos por eventuais erros dos alunos-recrutas, sovas coletivas para testar a suposta bravura dos alunos, provas físicas sobre-humanas, afogamentos, deglutição de vísceras animais e outras tantas provações, cuja criatividade macabra ou a experiência de sofrimento pessoal dos instrutores, quando alunos, construiu. O eventual instrutor-agressor de hoje nesse bullying já foi aluno e vítima um dia. É a hora de deslocar o revide por tantos anos recalcado e passar a violência para a frente, para o outro.

O que será da vítima de hoje se for instrutor um dia? Antes que qualquer policial possa ser acusado de abuso de autoridade, lesão corporal ou tortura, ele, desde já, sempre foi uma vítima desses crimes dentro da própria instituição, não raro desde o primeiro dia de treinamento. O cartão de visitas foi dado. Não há dúvida: o processo de aprendizagem brutalizante ensina a brutalizar. O problema tem, antes de tudo, um conteúdo sistêmico (página 122).

Muito mais do que uma polícia cidadã, a Doutrina da Segurança Nacional – cuja matriz, tendo em vista sua natureza de colonialidade do poder (página 132) e do saber, foi importada da política externa estadunidense contemporânea à Guerra Fria – ainda ecoa nas academias policiais. Por consequência, nos quartéis das Polícias Militares e nas delegacias de polícia brasileiras também. Ela se expressa no imaginário do Exército, que está por toda parte, criando uma confusão sobre se a intenção é de formar um agente público para exercer uma

159 LIMA, Renato Sérgio de; BUENO, Samira; SANTOS, Thandara. Opinião dos Policiais Brasileiros sobre

Reformas e Modernização da Segurança Pública. [S.l.]: Centro de Pesquisas Jurídicas Aplicadas - CPJA, da

Escola de Direito da FGV em São Paulo e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2014. Disponível em: <http://www.forumseguranca.org.br/storage/download/ApresentacaoFinal.pdf>. Acesso em: 15 maio 2016.

160 ELIAS, Norbert. Os alemães... Op. Cit., 1997.

161 FREUD, Anna. O ego e os mecanismos de defesa. Tradução Francisco Settíneri. Porto Alegre: Artmed,

atividade policial de controle de condutas desviantes submetido ao Estado Democrático de Direito ou de um membro de forças armadas a lutar em uma guerra.

E isso reflete no processo de formação. Nos cursos iniciáticos, o futuro policial, civil ou, principalmente, militar, é submetido a abusos e a violência físicos, humilhado e posto à mercê de uma situação de estresse descomunal. As provas são claramente inspiradas em cursos militares avançados de guerrilha ou de sobrevivência na selva ou em ambientes inóspitos, frequentemente com privação de calorias, água, conforto e sono. Essas simulações pouco ou absolutamente nada têm a ver com o policiamento urbano e com o trato com civis que serão enfrentados no dia a dia.

As disciplinas “sem ação” são parcas e assumem um lugar sem relevo na formação. Lições de Direitos Humanos em muitos cursos são quase um tabu, beiram o acinte. Em alguns casos, são ministradas sob um enfoque que os desconstrói. Para um agente armado, mas que vai lidar na maioria esmagadora das vezes com violações de direitos, civis em situação de tensão, estresse, sofrimento e medo, a tônica no militarismo e do combate ao inimigo é o pior dos caminhos a se trilhar.

Para agravar a situação, cuida-se de ensinar técnicas de combate em uma abordagem maniqueísta bem versus mal, homem de bem versus marginal, polícia versus bandido, com o claro pano de fundo da Doutrina da Segurança Nacional e em contexto de forças armadas. Os reflexos futuros são inevitáveis. Tem-se a polícia que mais mata e a que mais morre, porque não se moldou uma abordagem não bélica e brutal, convertendo-a em uma instituição que não é respeitada, mas temida e odiada. Nas provações físicas durante os cursos, estimula-se a competição dos alunos em um ambiente de medo e de apreensão, de modo a incutir nessa barbárie, literalmente na força, o ethos guerreiro (página 95). Ao final do curso/jornada, não há aprovados. Há sobreviventes, com todos os prejuízos psicológicos que isso acarreta.

E os guerreiros policiais vão com frequência atuar e barbarizar em comunidades análogas às em que residem ou em que vivem seus familiares e amigos. Não raro, nas mesmas (violência horizontal). O caso recente da chacina de Osasco, onde, após a morte de um cabo da polícia militar e de um guarda metropolitano em duas situações distintas de latrocínio, policiais, em ação de retaliação, executaram indistintamente quase vinte pessoas, é revelador. Qualquer um dos executados bem poderia ser um parente ou amigo das próprias vítimas que buscavam vingar. Essa violência horizontal é destacada por Paulo Freire :

Na “imersão” em que se encontram, não podem os oprimidos divisar, claramente, a “ordem” que serve aos opressores que, de certa forma, “vivem” neles. “Ordem” que, frustrando-os no seu atuar, muitas vezes os

leva a exercer um tipo de violência horizontal com que agridem os próprios companheiros. É possível que, ao agirem assim, mais uma vez explicitem sua dualidade. Ao agredirem seus companheiros oprimidos estarão agredindo neles, indiretamente, o opressor também “hospedado” neles e nos outros. Agridem, como opressores, o opressor nos oprimidos.162

Sobre a iniciação brutal dos membros das forças de repressão, chamada em alguns locais de “Jornada de Instrução Militar – JIM”, o lúcido texto de Albuquerque e Machado desvela o subterrâneo desumanizante e contrário ao Estado de Direito dessas iniciações:

Como experiência radical e traumática ela marca mais por ser uma experiência desumanizadora em que o ímpeto para sobreviver anula a autonomia moral dos sujeitos a ela submetidos. (...) o homem policial, abrindo-se o livro da Gênesis, nasce na base da porrada. (...) Esse paradigma depende do cultivo da alma selvática, a alma do guerreiro apto a obedecer incondicionalmente ou a se ajustar à hierarquia ritualística que rege a corporação. Ainda como parte disso, o recruta traz na bagagem a lição de que ele não pode assimilar o controle social característico de uma sociedade democrática porque esta ainda é, dada a herança autoritária e as diferenças gritantes, imaginária entre nós.163

Em outro estudo, França e Gomes transcrevem o relato de um aluno desses cursos sobre um episódio da pedagogia do sofrimento:

[...] no horário de almoço da gente, pegaram as quentinhas que era pra gente almoçar, jogaram dentro de um isopor sujo aí botou a gente pra comer com a mão, a mão suja do dia todinho pegando na moto, pagando flexão, com a mão suja cheia de pus tinha muita gente com a mão inflamada. A gente parecia um bando de animal.164

O ethos guerreiro também se revela nos cânticos. Como já exposto na citação que abre este capítulo, a tônica belicista, classista e letal impregna-se e condiciona uma especial forma de pensar e, por que não, de agir. Há outro canto que diz: “Homem de preto, qual é sua

162 FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. [Recurso eletrônico]. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2013, posição

798.

163 ALBUQUERQUE, Carlos Linhares de; MACHADO, Eduardo Paes. Sob o signo de Marte: modernização,

ensino e ritos da instituição policial militar. Sociologias, Porto Alegre, ano 3, nº 5, jan/jun 2001, p. 214-237, p. 225 e 233.

164 FRANÇA, Fábio Gomes; GOMES, Janaína Letícia de Farias. “Se não aguentar, corra!”: Um estudo sobre a

pedagogia do sofrimento em um curso policial militar. Revista Brasileira de Segurança Pública, São Paulo v. 9, n. 2, 142-159, ago./set. 2015, p. 153.

missão? Entrar pela favela e deixar corpo no chão. Homem de preto, o que é que você faz? Eu faço coisas que assustam o Satanás!”.

O emblema das unidades especiais das Polícias Militares brasileiras, chamadas nacionalmente de BOPE (Batalhão de Operações Especiais), é sintomático da ideia de uma polícia predominantemente letal: uma caveira cravada por uma adaga e duas pistolas por trás. Não é preciso ser aprofundado em psicologia analítica para compreender o significado do arquétipo da caveira conjugado com uma adaga e duas armas de fogo. Já a SWAT (Special Weapons And Tactics), a congênere estadunidense, não obstante o belicismo lá reinante, remete a uma águia que – enxerga longe, é sagaz e predadora, isto é, só caça quando necessário, e dois raios que simbolizam força e energia. A iniciação no BOPE, aliás, em geral é especialmente rígida e brutal, com elevado índice de desistência.165

Experiências como a “promoção por bravura” e “gratificações por mérito”, instituídas pelo então general da reserva Nilton Cerqueira na década de 1990, enquanto era Secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, não podem ser admitidas em um Estado Democrático de Direito, senão pela infiltração da ideia de guerra ao crime. A chamada “gratificação faroeste”, como assim ficou conhecida, incorporava aumentos dos vencimentos dos policiais de até 150%, reforçando fortemente a violência policial no Rio de Janeiro.

Como relatado por Marcos Flávio Rolim, os efeitos foram óbvios: as concessões de “bravura” aos policiais fluminenses fizeram com que a média das supostas mortes em confronto com a polícia imediatamente saltasse de dez para vinte e cinco ao mês. E conclui: “No mesmo período, ainda segundo o levantamento da comissão, 220 policiais foram mortos em ação, o que significou um aumento na vitimização de policiais da ordem de 34%”.166

A “gratificação faroeste” teve fim. Mas novas abordagens típicas de guerra foram adotadas, entre elas as ações aéreas incursivas de policiais armados e atirando de helicópteros sobre os tetos de casas das favelas na caça a alvos humanos. Tais práticas mais lembram as cenas (abusivas) de execuções sumárias da guerra do Golfo ou do Vietnã. Contudo, são posteriormente arquivadas pelo Judiciário, a pedido do Órgão constitucionalmente encarregado da defesa da ordem jurídica: o Ministério Público. O episódio da execução do

165 FRANÇA, Fábio Gomes; GOMES, Janaína Letícia de Farias. “Se não aguentar, corra!”: Um estudo sobre a

pedagogia do sofrimento em um curso policial militar. Revista Brasileira de Segurança Pública, São Paulo v. 9, n. 2, 142-159, ago./set. 2015.

166 ROLIM, Marcos Flávio. A síndrome da rainha vermelha: policiamento e segurança pública no Século XXI.

traficante Matemático demonstrou, de maneira estarrecedora, como são tratados o “inimigo” e as populações das favelas.167 Veremos essas situações também sob a ótica do Judiciário enquanto corporação, em capítulo próprio (Capítulo 3 da Parte II).

O discurso da “guerra contra o crime” se faz sobre a visão do crime como sendo, basicamente, aquele contra o patrimônio ou o tráfico de drogas, tudo em um contexto de periferia pobre. Afinal, seria impensável qualquer ação dessa natureza nos locais onde vivem os “homens de bem”.

Nas áreas de exceção – embora não reconhecidas oficialmente como tais pelos órgãos e agentes estatais, mas como tais tratadas –, a “guerra ao crime” contorna a inviolabilidade do lar. Isso ocorre não somente nos mandados de busca e apreensão coletivos, mas também nas invasões domiciliares sem mandados judiciais pela polícia. Ambos são posteriormente chancelados pelo Ministério Público e pelo Judiciário, a despeito da não ocorrência da situação prévia que os justificassem, em circunstâncias jamais aceitas se ocorrentes em um bairro nobre da mesma cidade. A brutalidade nas abordagens torna-se banal. E o pior: (i)legalizada.