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3. KENTSEL DÖNÜŞÜM UYGULAMALARININ GAYRİMENKUL

3.3 Hak Sahipliği Açısından

“Todo o mundo fala de paz, mas ninguém educa para a paz. A gente educa para a competição e a competição é o princípio de qualquer guerra”

Pablo Lipnisky

O discurso do guerreiro sobe, sorrateiramente, os fóruns judiciais. O ethos guerreiro, conceito desenvolvido por Norbert Elias ao analisar a sociedade alemã pré-nazismo, mas também perfeitamente adequado a outras sociedades ocidentais belicistas da época, como já eram (e são) os Estados Unidos,150 terminou sendo importado por aqui da matriz estadunidense durante a ditadura civil-militar, sendo introjetado enquanto habitus de membros de nossas forças policiais. Essa importação só obteve sucesso porque se deparou com um ambiente plenamente favorável: uma totalidade social desigual e controlada a partir do autoritarismo, da força bruta.

Elias escancarou a sociedade europeia dos séculos XIX e XX e, mais especificamente, a sociedade alemã que, em pouco tempo, desencadearia a Segunda Guerra Mundial. De sua leitura, resta a conclusão de que, assim como ocorrido com a Alemanha pós-Hitler (e na

150 Cf. ELIAS, Norbert. Os alemães: a luta pelo poder e a evolução do habitus nos séculos XIX e XX. Tradução

Europa, em geral), somente o desvelamento da maldade ocasionada pelo ethos guerreiro possibilita a mudança do habitus e, com ela, um novo horizonte de civilidade.

Mas se o ethos guerreiro que Elias identifica na sociedade alemã, até a primeira metade do século XX, e que culmina no nazismo, foi expurgado da cultura europeia em razão do trauma da Segunda Guerra Mundial, hoje ele sobrevive na grande nação herdeira da cultura eurocêntrica: encaixa-se perfeitamente à sociedade estadunidense – lugar de produção das epistemologias151 hegemônicas das quais somos consumidores e vítimas.

A mais clara expressão do ethos guerreiro na cultura de massas dos séculos XX e XXI oriunda dos Estados Unidos está no culto à violência. Está na exploração do grotesco e do mórbido; nos seriados policiais enlatados, em que os episódios começam e terminam com mortes violentas, e nas revistas em quadrinhos de super-heróis solipsistas que resolvem tudo na base da violência física. Está no cinema e seus filmes de ação homicida, nos quais jorram galões de sangue e toneladas de balas – todos por meio de uma abordagem estereotipada, reducionista e maniqueísta. É o gozo escópico.

Ainda sobre o gozo escópico em uma sociedade brutal em que impera o ethos guerreiro, o exemplo dos programas policialescos é sintomático. Trata-se da espetacularização do grotesco e o mórbido. Isso vende e rende. Haja vista a sensação de insegurança essencial para acorrentar a paz do senso comum, ver a barbárie na televisão dá a sensação de alívio por não estar ali no lugar da vítima e desperta a sanha violenta de se estar ali no lugar do repórter para ser o algoz do algoz. Ou, mesmo que não haja vítima, para desmoralizar sua própria moral na difamação da imoralidade alheia. O primitivo se faz presente. Como caçador ou caça. O sangue. A pulsão de morte grita.

Civilização ou barbárie? Há barbárie na civilização da Modernidade. Ou seria o contrário? Nossos ternos, vestidos, perfumes, joias, requintes, enfim, escondem esse predador perverso que se alastra como praga pelo planeta, submetendo, dizimando e destruindo tudo e todas as demais espécies (inclusive a própria) por onde passa, em nome de uma pretensiosa superioridade, justificando sua violência em um discurso contraditório de bem-querer e de luta pelo bem comum. Sendo mais claro: em nome de deus(es) e do amor. E não nos

151 Tomamos aqui no sentido proposto por Boaventura de Sousa Santos e Maria de Paula Menezes:

“Epistemologia é toda a noção ou ideia, refletida ou não, sobre as condições do que conta como conhecimento válido”. Cf. SANTOS, Boaventura de Sousa; MENESES, Maria Paula (Orgs.). Epistemologias do Sul. Coimbra: Almedina, 2009, p. 9.

enganemos. O ser humano de hoje – que também goza com o consumismo, mata com armas, radiação e lixo tóxico. É o exterminador do futuro.

Até nas imagens dos filmes de ação hollywoodianos, o algoz diz: “sou o portador do falo (da arma), do poder. Sou mais homem que você”. Melhor dizer isso do que, na verdade, reconhecer ser, tão somente, mais animalesco.

Não falta quem bata palmas até para linchamentos, projetando no outro seu recalque: “o povo (eu) não aguenta mais (quero sangue)”. Mas quem aplaude a barbárie o que é, senão, um igual bárbaro que goza ao ver seu desejo de sangue sendo gozado, nem que seja pelo gozo do outro? Há um voyeurismo mórbido aí. E assim, nos linchamentos filmados e compartilhados em redes sociais, as imagens são dramáticas, mas esse drama humano é ofuscado pela banalização da violência: “ficou com pena dele? Leva pra casa”.

Ao mesmo tempo, a violência e a morte viram algo íntimo, que amedronta e alivia, pois é a violência ou a morte do outro. No imaginário, a morte do outro também fascina como fascina a manada de zebras que olha, aliviada, para aquela que foi feita presa dos leões. “Não fui eu, por enquanto, foi o outro”. Alívio fugaz e sensação de medo constante. A morte está à espreita. Para alguns mais fragilizados, o pânico. Para outros, o desejo de ser algoz. O desejo de linchar. De fazer (in)justiça pelas próprias mãos. Cerram-se os punhos, inconscientemente. Exterioriza-se. Tinha que sair.

Se não dá para usar as próprias mãos, simbolize-se nas palavras gritadas na voz ou, se não der, no papel ou na tela do Facebook. “Curtir” e comentar. Compartilhar no WhatsApp. Reforçar a barbárie. Toda pulsão tem, ao mesmo tempo, dizia Freud, pulsão de vida e pulsão de morte. São os olhos, nesse caso, como fonte de libido. Há o prazer em ver. É o gozo escópico. Mas como o gozo é fugaz (pois é a busca da coisa perdida), busca-se o novo. Há sempre uma nova imagem a ser gozada. O novo para o velho olhar mórbido. Há sempre um programa policial na TV ou no rádio à disposição. E na busca do gozo escópico, racionaliza- se: é notícia, é informação! Muitos desses programas são no horário do almoço. São comidos pelos olhos.

Nas imagens do pseudojornalismo policial, os presos são expostos à coisificação, à desumanização, a uma cena de tortura midiática praticada com conivência de agentes do Estado. Para quem pratica o ato das entrevistas jocosas, uma completa corrupção do jornalismo. Enfim, é uma cena de covardia. Mas para isso servem os mecanismos de defesa – projeção, racionalização, negação, identificação... Freud explica. Portanto há quem, mesmo assim, goze em programas como esses pinga-sangue. O ódio cega. Por isso, há quem não o

veja... onde está a barbárie? Está na tela da TV. E o bárbaro? Nas imagens ou no olhar? Em alguns casos, em ambos... E a civilização?

Esse ethos é constituído pela valorização da agressividade implacável e da competição individual nas profissões de um capitalismo financista e em constante guerra corporativa pela dominação dos mercados. Reside nos esportes violentos, cujos maiores exemplos são o boxe, o Mixed Martial Arts – MMA – e o futebol americano; na disseminação da liberdade de possuir armas de fogo como um valor nacional a ser protegido; na importância que a indústria bélica e as forças armadas têm no mercado interno e na geração de empregos e, por fim, na política externa belicista.

Por estarmos “na área de influência” (o eufemismo para domínio) do american way of life e da política externa estadunidense, sofremos as suas consequências nefastas. Lá, a realidade esfrega na cara a falácia do terrorismo quando se morre quarenta vezes mais em ações de pura expressão do ethos guerreiro dos próprios estadunidenses do que em atentados terroristas.152 Há um franco genocídio racial e até as escolas são palcos de chacinas infanto- juvenis. Mas há muito dinheiro-poder em jogo. Portanto, War on Terror nos outros, paranoia, perda de direitos e massacres em casa.

Aqui, a colonialidade do poder cria a mimese. A Bancada da Bala cresce vertiginosamente no Legislativo e pede: mais armas! Tais consequências serão profundamente danosas em razão do american way of life. Ele tem o ethos guerreiro em seu pacote e foi edificado sob a conjunção de um discurso que apregoa a liberdade sem promovê-la efetivamente. O american way of life se traduz no consumismo como valor maior, na força bruta como linguagem e na ostentação direta ou indireta como existencial.

Em uma sociedade de desigualdades abissais como a do Brasil, o déficit civilizacional desse modo de vida é multiplicado. A assunção dos valores consumistas – objeto de desejo e de gozo pelas camadas mais altas – também atinge profundamente as amplas camadas desfavorecidas. As camadas superiores do estrato social são enleadas na ética do sucesso a qualquer custo. Pela proximidade do poder e pelo amplo acesso a modos ilegítimos de obliteração de perdas (ex.: sonegação de impostos) e de ampliação de ganhos (usura, fraudes,

152 EM 10 ANOS, EUA têm mais mortos em massacres do que em ataques terroristas. Portal BBC Brasil, 02

maio 2016. Disponível em:

<http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/10/151002_eua_massacres_mortes_cc>. Acesso em: 15 maio 2016.

corrupção, abuso do poder econômico, p. ex.), a busca pelos valores do consumismo ilimitado reforça práticas egoísticas e excludentes, numa ótica individualista e egocentrada. A inovação153 é sofisticada ou se normaliza e, inclusive, recebe proteção estatal, como no caso do descaminho (vide nota de rodapé nº 68, página 64).

Aos empobrecidos, ocorrem as consequentes frustrações na hora de realizar os valores do hiperconsumo, haja vista a desigualdade estrutural e, não raro, a ausência até mesmo das condições mínimas de uma existência sem privações e indignidades. Isso também instiga os desprestigiados à prática de atos de inovação, só que dessa vez sem sofisticação e sem os bons olhos da Lei ou do Sistema de Justiça Criminal. E o patrimônio alheio dos que estão inseridos ou apenas melhor inseridos na sociedade de consumo está sempre ali, sedutoramente próximo.

Para as camadas mais altas, já acostumadas com a opressão ao Outro, a inovação contra o Outro e contra o Estado é naturalizada – e em uma escala infinitas vezes maior, pois o desejo é sempre um poço sem fundo, e estão no exercício do poder (econômico, político ou institucional-estatal). Apenas as consequências jurídico-penais não são sentidas, porque essas camadas estão imunizadas.

Em escala macro, sem um enfrentamento por meio de um discurso autêntico contraposto, descolonial, é impossível a resistência social ao bombardeio midiático e à realidade do dia a dia que grita, estimula e reforça o desejo imediato: tenha! O lema sub- reptício é: só é (alguém) quem tem. Os jovens das camadas empobrecidas estão em desvantagem competitiva em razão da baixíssima mobilidade social – e sabem disso – para o almejado e propagandeado sucesso e sentem humilhação devido à interiorização da “ética do sucesso e da ostentação” propagandeada como a própria ideia de virtude pessoal e social e que perpassa todos os estratos. O crescimento dos fenômenos do funk da ostentação e dos “rolezinhos” é sintoma disso. E quanto maiores as desigualdades socioeconômicas de uma sociedade, mais patentes e dramáticos serão os reflexos dessa situação.

Alie-se isso à falta de perspectivas, à desesperança com o futuro e à importação da cultura do ethos guerreiro não só pelo Estado, mas também pela sociedade civil. A inovação – tentar atingir os valores propagandeados burlando o sistema – é um caminho muito atrativo e, em alguns casos, se necessário, a ser percorrido pela violência subjetiva. Essa violência é o

153 Para Merton, a inovação consiste na eliminação do conflito e da frustração por meio da busca pelo sucesso-

aspiração, mas abandonando os meios institucionais. Cf. MERTON, Robert K. Social Structure and Anomie.

recurso de quem não tem recursos para inovar por meios mais sofisticados, como faz a elite. Só a elite tem o poder do discurso da normalização da exploração do Outro e da naturalização da desigualdade socioeconômica.

A elite controla os grandes veículos de comunicação social e, com isso, consegue retirar o empobrecimento de sua perspectiva histórica e de sua dimensão sistêmica do conhecimento dos estratos médios e dos empobrecidos. Do empobrecimento de largos estratos da população em razão de uma conjuntura que impõe isso, passa-se à visão simplificadora e minimalista do indivíduo pobre por força de sua inaptidão, preguiça ou inferioridade atávica. Está ali por demérito próprio.

Assim, os pressupostos para a futura criminalização estão formados. Esse estado perverso de desiguais relações de poder passa despercebido por quem está no topo da pirâmide social. A violência objetiva, nesse estrato da sociedade, não existe – senão apenas no papel de agentes que a praticam. O que não se sente na própria pele é sempre mais difícil de compreender.154 Numa cultura individualista e competitiva marcada pelo apartheid social, a dor do Outro não importa. Polícia e direito penal nele.

Como apontou o Relatório Regional de Desenvolvimento Humano 2013-2014 da Organização das Nações Unidas – ONU, em relação às políticas de Segurança Pública em toda a América Latina:

As políticas unicamente de repressão adotadas na região têm fracassado em seu objetivo de diminuir a incidência de crime e violência. Também têm tido um impacto negativo e profundo na convivência democrática e no respeito aos Direitos Humanos, os quais estão na base do desenvolvimento humano. Tais políticas possuem um enfoque punitivo que privilegia a repressão, o aumento na severidade das penas e o uso da força. Suas repercussões têm sido negativas e, muitas vezes, inesperadas, destacando-se: o aumento dos níveis de violência letal, o fortalecimento das redes criminosas, o congestionamento do sistema penitenciário – já sobrecarregado –, a violação dos Direitos Humanos – particularmente contra jovens e menores de idade – e o abuso de autoridade.155

154DIAS, Jorge de Figueiredo; ANDRADE, Manoel da Costa. Criminologia: o homem delinquente e a sociedade criminológica. 2ª reimpressão. Coimbra: Coimbra Editora, 1997, p. 294.

155 ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU). Programa das nações unidas para o desenvolvimento.

Relatório Regional de Desenvolvimento Humano 2013-2014. Segurança Cidadã com rosto humano:

A cegueira do senso comum teórico é flagrante nas órbitas do Ministério Público e do Judiciário, tanto no oferecimento de pareceres, pedidos e denúncias, quanto em julgados que pecam por desconhecer toda construção histórica dos Direitos Humanos, em caos nos quais, no imaginário ministerial e judicial, o juiz e o parquet seriam, cada um, mais um combatente na guerra contra o crime. Juízes e parquets com o lugar de fala deslocado dessa maneira agem aos moldes da Doutrina da Segurança Nacional (Parte I, Seção 4.4.1) e, assim, não têm como prover uma hermenêutica constitucional, porque desde já estão contaminados por um modelo que despreza a normatividade em benefício do utilitarismo guerreiro.

Há juízes-soldados e parquets-guerreiros nessa suposta guerra. A primeira vítima é sempre a isenção e, por conseguinte, a segunda serão os sem-voz, os habitantes das áreas de exceção, cujo perfil não custa repetir: pretos, pardos e pobres.

Assumir postura de exigir o respeito aos Direitos Humanos é, para uma parcela desses atores jurídicos, sinônimo de simpatia pela impunidade. Entrevista de um ex-Presidente do Supremo Tribunal Federal foi sintomática disso.156 Isto é, joga-se a responsabilidade sobre os ombros de uma magistratura que se pretende “superego da sociedade”, no dizer Ingeborg Maus.157 Todavia, essa mesma magistratura, em face da imaturidade política e por estar enleada no senso comum teórico (Parte I, Seção 2.2.1), chega a ser, no máximo, a mera executora da pauta mediada pelos grandes veículos de comunicação e em benefício dos interesses do mercado e da elite que o compõe.

Não por menos, o super-herói da vez (mais um togado) afirmou que “O que o juiz pode fazer é muito limitado sem o apoio da opinião pública”.158 Alto lá! Há juízes e juízes, e o

contramajoritarismo existe para evitar o que muitas vezes anseia a “opinião pública” devidamente conduzida pelos meios de comunicação em massa e com seu efeito manada: a barbárie. Vejamos agora a formação dos soldados da guerra no campo policial.

156 Cf. HAIDAR, Rodrigo. Barbosa diz que juízes têm mentalidade pró impunidade. Consultor Jurídico, Aba

Notícias. [S.I.], 2013. Disponível em: <http://www.conjur.com.br/2013-mar-02/joaquim-barbosa-juizes-

brasileiros-mentalidade-pro-impunidade>. Acesso em: 15 maio 2016.

157 MAUS, Ingeborg. O Judiciário como superego da sociedade: o papel da atividade jurisprudencial na

“sociedade órfã”. Trad. Martônio Lima e Paulo Albuquerque. Revista Novos Estudos CEBRAP, nº 58, nov. de 2000.

158 SOUZA, Josias de. Juiz pode pouco sem opinião pública, diz Moro. Portal UOL, aba Notícias, Política, São

Paulo, 30 maio 2016. Disponível em: <http://josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br/2015/07/30/juiz-pode-pouco- sem-opiniao-publica-diz-moro>. Acesso em: 15 maio 2016.