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Do universo das cinco narrativas brasileiras identificamos protagonistas delineados na fase da juventude e na infância. Daquela fase são: 1) Exu, Ogum, Oxossi e Xangô (Ogum o rei de muitas faces); 2) e Nyame (O espelho dourado). Exceção à parte é Iemanjá, a mãe dos quatro irmãos. Da fase infantil são: 3) Bintou (As tranças de

Bintou); 4) Kizzy (Entremeio sem babado); 5) e um menino, sem identificação (Fica comigo).

O tempo nas narrativas é diversificado, e as ações praticadas pelos protagonistas situam alguns no passado e outros no presente em situações cotidianas. Eis o que acontece em As tranças de Bintou, Entremeio sem babado e Fica comigo, diferentemente de Iemanjá e seus filhos (do livro Ogum, o rei de muitas faces) e O

espelho dourado, cuja trama dá-se no passado remoto do continente africano.

O espaço social também é variado e abrange a África, a diáspora e não é demarcado em duas obras. Nenhuma narrativa aborda a problemática das relações étnico-raciais e os protagonistas vivenciam conflitos no cotidiano familiar devido ao

desejo de algo e/ou alguém. Em O Espelho dourado, por outro lado, as ações praticadas

por Nyame e os obstáculos que a afligem ocorrem fora do ambiente familiar, tendo em vista o seu sequestro pelos kabakás, mas depois do resgate ela retorna ao lar.

O conflito dos protagonistas também varia e resulta dos dilemas internos em virtude da colisão de desejos. Iemanjá, por exemplo, deseja ter os filhos de volta, mas Exu ocasiona o afastamento dos irmãos. As ações de Exu, no entanto, resultam na transformação de todos, inclusive na dele, desencadeando a divinização. Nyame almeja reencontrar o noivo e voltar ao seio familiar, mas os antagonistas a mantêm presa na tentativa de liquidá-lo. São as ações praticadas por ambos que salvaguardam as tradições e propiciam o futuro promissor dos achantis.

Os conflitos de Bintou decorrem da colisão com as tradições locais e inviabilizam a realização do seu desejo, que é ter tranças semelhantes às dos adultos. A avó intervém e soluciona o conflito. Com isso, consegue salvaguardar as tradições e, a protagonista, com os birotes enfeitados, passa a se sentir feliz e realizada.

Kizzy, diferentemente de Bintou, tem liberdade para fazer os penteados que deseja

apreço à cor rosa103, a alusão ao terreiro, a roupa da avó e alguns nomes de penteados, tais como “baião-de-dois”, “rabo-de-cavalo”, entre outros, que são expressões comuns em nosso país.

Os conflitos de Kizzy não resultam do desejo de uma determinada estética; nesse aspecto, ela se diferencia de Bintou, pela variedade de penteados e pela intromissão no mundo dos adultos. Mas, tanto quanto em As tranças de Bintou, destaca-se a diferença entre o mundo da criança e dos adultos, e disso emerge, a princípio, o conflito de Kizzy, que não se limita ao seu mundo e segue interferindo nos diálogos dos mais velhos.

Se Bintou se resigna, ao não ousar avançar em seus intentos, aceitando os birotes enfeitados como premiação pelo ato heroico, Kizzy tenta se modificar, limita-se ao seu universo infantil, não realiza ato heroico e, por fim, e se integra aos familiares e amigos, tornando-se o centro das atrações. Bintou aparece sempre com a mesma roupa, dando coerência à monotonia que sente no transcorrer da trama, enquanto Kizzy expressa vitalidade, movimento e instigação, variando as roupas, os penteados e resolve voltando a ser a “Menina-menininha”, o Entremeio sem babado, e torna-se o centro das atrações. Também Bintou, a heroína, passa a se destacar entre os demais e é celebrada pela comunidade local.

Uma das narrativas que não traz à tona a questão da estética é Fica comigo; o

objeto de desejo do protagonista é ter a mãe por perto para protegê-lo, e o temor é a

ausência da progenitora. Os questionamentos, aqui, diferem daqueles feitos por Kizzy, que é movida pela curiosidade e desejo de desvendar o universo externo. Os da criança, no caso, são desencadeados pela tentativa de persuadir a mãe face à fragilidade e medo dos monstros, bruxas, muito embora ao final lhe peça para ir trabalhar e levá-lo para

brincar com o amigo, Paulinho. Tratando-se da identificação étnico-racial, algumas obras delineiam o segmento

negro através da linguagem não verbal meramente, enquanto outras se utilizam dessa linguagem e da voz do narrador e/ou dos personagens para destacar os fenótipos negros de maneira positiva. Dois exemplos são As trança de Bintou e Entremeio sem babado, cujas protagonistas ressaltam a beleza dos cabelos crespos e trançados.

As demais obras, mesmo não trazendo a problemática identitária dos protagonistas por meio dos seus traços característicos, semelhante a Bintou e Kizzy, por outro lado,

103 Caberia, nesse aspecto, um estudo sobre tal perspectiva, bem como da relação de gênero na obra,

não deixam de valorizar tais traços que remontam às raízes africanas, a saber: cabelos crespos e a tez negra. Um breve passeio por alguns trechos das obras evidencia isso.

Em diversos contos do livro Ogum, o rei de muitas faces se enfatiza a beleza, força, sapiência, agilidade e coragem do segmento negro através da linguagem verbal. Afinal, embora se trate de uma narrativa ilustrada e todos os protagonistas sejam negros, com tom intenso, o que mais sobressai é a linguagem verbal em meio às poucas ilustrações que apenas reproduzem algumas ações praticadas pelos seres ficcionais.

No conto Iemanjá e seus filhos só há uma ilustração, e esta se refere ao momento de profunda tristeza de Iemanjá, pois “Não paravam de cair lágrimas de seus olhos” (p. 24), depois que os dois filhos, Oxóssi e Ogum, passam a viver na floresta com Ossain. Dá-se, a partir daí, a criação do mar através do rio de lágrimas que emerge dos seus olhos. Os traços negros são expressos também no desenho dos quatro filhos de Iemanjá, representados ao alto, sob sua cabeça, segurando os respectivos instrumentos que os simbolizam no Candomblé (fig. 2).

Em outros contos do livro Ogum, o rei de muitas faces se salientam os fenótipos negros. Alguns exemplos são a alusão à elegância de Iansã, que “costumava fazer “tranças no cabelo do marido”(p. 33). Nanã, a “mulher bonita” (p. 39). Oxum, a “mulher de rara beleza”, que não gostava de “trabalho doméstico” (p. 16). E Ogum, que tem um “corpo negro [...] elegante, musculoso e firme” (p. 20). O espaço social, conforme evidenciamos quando da análise, situa-se dentro do continente africano, abrangendo a zona urbana e a rural, destacando-se os elementos da natureza: a água, o ar, o fogo e a terra.

Uma narrativa que associa a tez negra à força, proteção e impermeabilidade aos perigos, devido à proteção dos ancestrais, é O espelho dourado. Afinal, quando o guerreiro achanti se encontrava em grande perigo de vida, após Nyame dar um banho de ouro em sua alma, “a sua pele negra” passou a reluzir e “todos os perigos lançados em sua direção batiam e voltavam” (p. 17).

Excetuando-se o livro Fica comigo, em que não identificamos o ambiente, nos demais se delineia e/ou se faz alusão ao continente africano. Em Ogum, o rei de muitas

faces esse espaço emerge do passado remoto e abrange a nação ketu em palácios e

reinados, ostentando-se o poder e riquezas, além de prevalecer florestas, rios e mares repletos de farturas. Um exemplo disso, entre outros, pode ser observado quando se faz alusão a Oió, “um grande reino na África, onde existia fartura de água, de alimentos e todos viviam alegres”, entre eles Oxalá, Xangô e Exu (p. 26). O rio Níger, semelhante à

obra O espelho dourado, é destacado em A rainha dos raios, ao se situar a “região do rio Níger”, reinado por Iansã (p. 33)104.

Conforme é possível notar, portanto, as narrativas brasileiras não só valorizam como, também, ressignificam a história e cultura africana e afro-brasileira, do segmento negro, através da mitologia dos orixás e da força dos achantis. As ações heroicas, os receios, mas, sobretudo a luta, resistência, coragem, riscos e vitórias emergem de tempos remotos nas proximidades do rio Níger e de outras partes do continente africano, desvelando-se o poder dos ancestrais que acolhem, guiam, protegem os seus e, assim, ajudam a salvaguardar as tradições, garantindo futuros promissores. Eis o que ocorre com Nyame e o guerreiro, também com a maioria dos orixás.

As narrativas cuja ação dá-se no presente e não em um passado remoto trazem à cena conflitos cotidianos nas relações familiares. No entanto, nem por isso se deixa de fazer menção ao continente africano de modo positivo. A África se faz presente, desse modo, em Entremeio sem babado, através de um mapa afixado na parede (p. 9) e no momento em que a protagonista descobre “que seu nome tinha um significado bonito,

aquela que fica, que não vai embora105. E também que esse nome era de origem

africana, mesma origem de toda a família”. Kizzy, portanto, “resolveu ficar como era” (p. 29), ou seja, “perguntadeira”. Há, aqui, a autoaceitação da protagonista e a identificação com a origem africana.

Em As tranças de Bintou é em um dos países do continente africano, não do passado remoto, que transcorrem as ações da trama. As tradições e as hierarquias entre os mundos do adulto e da criança são demarcadas, por exemplo, pelo tipo de penteado, e disso decorre o conflito da protagonista, que admira e deseja ter as tranças dos adultos ao invés dos birotes, as quais simbolizam beleza, brilho, sabedoria. De acordo com o relato de Bintou, são enfeitadas, inclusive, “com moedas de ouro na ponta [...] para mostrar” às “crianças” os tipos de penteados dos seus “tataravós” (p. 14).

Ao se referir à beleza das brasileiras, Bintou a associa às tranças e, nesse aspecto, a protagonista antecipa o que notamos em Entremeio sem babado, através de Kizzy, de ascendência africana, que é muito bonita e curiosa, e tem liberdade para utilizar diversos tipos de tranças, sem qualquer impedimento de ordem sociocultural.

Diante das correlações apontadas até então, podemos asseverar que as produções literárias contemporâneas sobre as quais nos debruçamos apresentam indícios que nos

104 É mais um dos contos do livro Ogum, o rei de muitas faces, de Chaib e Rodrigues (2000). 105 O uso do itálico é para destacar a frase que está entre aspas na narrativa (p. 29)

remetem a outras Áfricas, extrapolando o contexto da escravidão, das doenças e misérias, conforme recorrente em nossa literatura.

As raízes do legado africano que suscitam resultam das tradições, dos traços constitutivos dos protagonistas, a exemplo dos reinados, dos cabelos, da tez, enfim, dos diferentes legados delineados por meio das narrativas, situando-se o passado remoto ou o presente. Nesse aspecto, embora abordando algumas formas de valorização da estética negra no Brasil, e não às referidas produções, Gomes (2006) faz elucidações bastante pertinentes que vão ao encontro da nossa explanação.

A partir das falas dos entrevistados nos salões afros de Belo Horizonte, Gomes (2006, p. 162) aponta para a necessidade de reversão da “imagem negativa construída socialmente” a respeito do “grupo étnico/racial” negro. Um dos meios de enfrentamento resulta da estética de raiz africana em seus desdobramentos na diáspora, que é a valorização e ressignificação dos cabelos crespos. “É nesse campo de reação e reversão”, explica a pesquisadora, “que se localiza o estilo de penteado Black power, usado pelos ativistas negros sul-africanos, americanos e brasileiros nos anos 70” (cit,p 160). Emerge daí a luta para afirmar as identidades inferiorizadas no passado e, ainda, na atualidade.

Diante da tendência de se inferiorizar e/ou invibilizar não só a estética como o patrimônio histórico de origem africana, parte de nossa literatura infanto-juvenil corroborou para preservar o padrão sociocultural eurocêntrico, conforme vimos inicialmente. A despeito disso, as cinco narrativas sobre as quais nos debruçamos até então, deixam outro legado para os leitores imergirem nas histórias que remontam ao passado e/ou ao presente do segmento negro espalhado na África e diáspora. E isso endossa a assunção das identidades negras.

A estratégia de assunção de uma identidade cuja matriz é africana não é algo preponderante no Brasil e corresponde apenas a algumas esferas dos movimentos negros e demais aliados desse delicado processo de ressignificação de um imaginário voltado para os padrões eurocêntricos. A literatura infanto-juvenil, pelo seu papel social, não está alheia a tal prospecção que antecede os dias de hoje.

Lembramos, portanto, que o combate à visão simplificada do continente africano deve-se a alguns expoentes dos movimentos negros, que passaram a reivindicar a inclusão dessa temática nos currículos, mas sem grandes repercussões políticas, muito embora “o Jornal do MNU, entre outras medidas”, nos anos 80, tenha encampado “o incentivo à implantação da disciplina História e Cultura da África nas escolas”, salienta

Silva (2008, p.208). Esta pesquisadora reconhece ainda que “[...] o movimento negro acredita na utilidade de se traçar um passado histórico dignificante dos negros, a fim de alterar a imagem inferiorizante que há séculos vem sendo construída e repetida pelo discurso ocidental” (cit, p. 208).

A literatura, sabemos, enquanto importante bem cultural realizada dentro de adversos processos históricos, pode não só reproduzir, como, denunciar, desvelar, valorizar, além de ressignificar valores vistos como belos e/ou feios socialmente. Nesse sentido, mas referindo-se à literatura negra brasileira, Silva (2005, p. 196) salienta que, a partir dos anos 80, tal produção visou a aproprição dos “traços físicos culturais, antes rejeitados e recalcados”, na medida em que não eram vistos como belos. Então, passam a ser valorizados, ressaltados, invertendo-se os sentidos que até então lhes foram atribuídos. Assim sendo, “ganham outro sentido e passam a ser assumidos como marcas identitárias”. É a força da beleza negra aludida por Biko, recriada no Brasil que, apesar de restrita a alguns recintos dos militantes, especialmente, não se deixa dirimir pela hegemonia eurocêntrica disseminada socialmente como o padrão universal ideal.

A “força” da beleza negra aludida por Silva, antes endossada pelo sul africano Steve Biko se faz presente em As tranças de Bintou, nos belos penteados de Kizzy e na ostentação da beleza, força e poder dos orixás. Na relação afetiva entre mãe e filho em

Fica comigo, na coragem, iluminação e proteção da negra tez do guerreiro achanti, bem

como na intervenção dos ancestrais e de Nyame para salvá-lo. Os protagonistas deixam, além dos traços físicos, também indícios das cosmovisões que remontam à origem africana e à diáspora brasileira. Nisso consiste a associação entre tais produções e algumas empreitadas travadas pelos predecessores da Negritude e da Literatura negra brasileira.

Compreendemos que algumas obras da nossa literatura infanto-juvenil, de certa forma, se aproximam da proposição da Literatura negra abordada por Silva (2005), pois ressignificam a composição estética dos seres ficcionais, prescindindo dos padrões eurocêntricos, visto serem os traços constitutivos dos mesmos (cabelos, cor da tez, lábios) valorizados, dignificados, exaltados em suas singularidades.

No que se refere à África, Silva salienta que esta, nos Cadernos Negros, é rememorada, efetivando-se a “re-leitura do passado, dos seus traços”, face às teias discursivas capazes de descentrar “a imagem desenhada pelo estereótipo inferiorizante” atribuído ao continente africano e seus descendentes negros. Ou seja,

A apreciação dos cabelos crespos, da cor da pele e das religiões e a narração de acontecimentos históricos sob a perspectiva da tradição afro-brasileira serão considerados meios de consolidação da identidade étnica que ressignifica a tradição e os seus paradigmas. O trançado dos cabelos será apresentado também como ponto de partida para o traçado de um discurso de inserção do grupo na construção de uma identidade nacional heterogênea, construída também na evocação de uma história, de uma sensibilidade africana que se fixa em outro território (SILVA, cit, p. 196).

Conforme salientamos foi - e continua sendo a visão preponderantemente eurocêntrica o padrão estabelecido, reiterado, enfim, cristalizado no âmbito da linguagem literária. Quando Silva (2005) destaca outro perfil estético de beleza, há significativa mudança nesse sentido, uma vez que sobressaem seres constitutivos não só de traços belos, valorizados e admirados, que são os “cabelos crespos” e a “cor da pele” negra”.

Os “acontecimentos históricos” aludidos por Silva sofrem alteração, dá-se visibilidade às lideranças negras ignoradas e/ou inferiorizadas em nossa literatura. Com isso se delineia e se “ressignifica” o espaço social africano e suas tradições. Eis alguns dos “trançados” da produção literária infanto-juvenil sobre as quais nos debruçamos aqui por meio dos protagonistas: os Orixás, Nyame e o guerreiro achanti, Bintou, Kizzy, conforme procuramos evidenciar na análise. Cabe agora a correlação entre estas e as obras moçambicanas, de modo a identificar, por fim, até onde se aproximam e/ou se distanciam das nossas produções, no que concerne à inovação das relações étnico- raciais no âmbito literário.