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Quem visita a feira de Juazeirinho constata também que outra ação pertinente em seu espaço é a presença de diferentes agentes propagando informações diversas: são campanhas preventivas da secretaria de saúde municipal, nas quais os agentes de endemias fazem panfletagem e montam tendas na praça para disseminar o conhecimento e retirar dúvidas sobre as doenças que podem se propagar rapidamente.

Além disso, vez ou outra, há pessoas pregando a sua doutrina religiosa. Para isso, eles pegam uma caixa amplificada e põem em qualquer ponto da feira. Quando passam alguns minutos, há o deslocamento para outra área, até chegar junto a Praça São José, onde geralmente se passa mais tempo. Mais uma vez, a feira é tomada puramente como local de concentração de pessoas, por isso se faz uma excelente oportunidade para aqueles que precisam de público para propagar suas informações na pequena cidade.

Já a feira enquanto palco e plateia é percebida quando a mercadoria oferecida na feira livre torna-se um show a céu aberto. Logo, embora se caracterize uma relação comercial, não existe a obrigatoriedade de pagamento. As pessoas assistem, se divertem, participam e se puderem e quiserem pagam pelo produto consumido, ou seja, pela apresentação vista.

Nesse sentido, os vocábulos palco e plateia estão sendo tomados em seus sentidos estritamente literais, não havendo qualquer analogia a algum conceito acadêmico. A Fotografia a seguir mostra um desses momentos.

Fotografia 13: Apresentação artísticana Praça São José

Fonte: Pesquisa de campo, 2014. Acervo: Izabelle Trajano.

A feira é palco quando se torna o lugar de apresentação desses artistas ambulantes e é plateia por fornecer, antes mesmo da presença de um artista, expectadores para quaisquer apresentações. Elas não acontecem em todas as feiras e quando ocorrem se dão em diferentes lugares. A apresentação mostrada na Fotografia 13 foi realizada na Praça São José e rapidamente atraiu a atenção de inúmeras pessoas para assistir aquilo que ia ser demonstrado. Oferecem-se à pequena cidade a diversão, contida nos truques, e o suspense, que prende as pessoas através da expectativa de presenciar o homem passar no meio das facas, inseridas no círculo de arame. É um verdadeiro show com começo, meio e fim. Assim, “além da função comercial, elas [as feiras] ainda exercem o papel de local de encontro e de lazer para a população” (CARDOSO; MAIA, 2007, p. 527).

Portanto, a feira não propicia apenas venda de produtos materiais, uma vez que também propaga informações e ideologia religiosa, promove a figura pública de políticos e é palco e plateia para aqueles que o seu produto necessita de uma demonstração para ser comprado. Tudo isso que a feira propicia, além das trocas comerciais, só a fortalece no espaço urbano das pequenas cidades, marcado pela fragilidade dos equipamentos de lazer.

Costa (2003, p. 219) admite que “se a Feira conseguiu sobreviver e chegou ao meio presente com a força que ainda dispõe, é por se configurar em uma resistência”. A resistência no espaço implica permanências, que, necessariamente, não representam atraso, mas

representam marcas de outros períodos vivenciados no período atual, que, por sua vez, faz emergirmodernizações mercantis.

Entre as modernizações mercantis presentes em Juazeirinho, a que mais se destaca pelo que a regulamenta é a presença de rede de negócios, instituição criada para fortalecer os estabelecimentos localizados distantes entre si, através da antiga (e agora atual) prática do associativismo42.

As redes de negócios vêm conferindo à pequena cidade uma transformação ímpar das formas comerciais associadas, sobretudo as do segmento supermercadista (antigos mercadinhos). Dessa maneira, o espaço comercial das pequenas cidades vem se constituindo como espaço de maior investimento capitalista, como será discutido no capítulo a seguir.

42 Em seu livro Política, Aristóteles afirmou que as associações são intrínsecas ao ser humano, portanto teriam a

mesma idade de aparecimento do homem no mundo. Logo, elas foram se transformando e se perpetuaram nos diversos movimentos políticos, econômicos e sociais existentes. O hominídeo (anterior ao surgimento da escrita) agrupava o seu bando em busca de sobrevivência. Já do nomadismo ao sedentarismo, o homem construiu bases associativistas determinantes. A partir daí, e da própria complexidade na construção das comunidades, exemplos de associativismo puderam ser observados: na Grécia, com a constituição do núcleo familiar e a criação das cidades-estados (Pólis); em Roma, com as primeiras agremiações com personalidade jurídica, os chamados

collegia; as guildas da Idade Média; e, a partir da revolução industrial e dos séculos subsequentes, a diversidade

CAPÍTULO 4

As redes de negócios contribuíram para a reconfiguração do espaço comercial juazeirinhense não apenas por estarem presente no espaço e gerar práticas de consumo modernas e diferenciadas, mas também por servir de modelo para aqueles que, não se associando, passaram a ter o desejo de apresentar-se com essa nova aparência (imposta pela indústria do consumo) que exala modernidade.

Izabelle Trajano da Silva

REDES DE NEGÓCIOS E RECONFIGURAÇÃO DO ESPAÇO COMERCIAL DE JUAZEIRINHO

4 REDES DE NEGÓCIOS E RECONFIGURAÇÃO DO ESPAÇO COMERCIAL DE JUAZEIRINHO

Nos últimos anos, o processo de reorganização espacial tem apresentado novos dinamismos no interior da pequena cidade, de modo que esta vem passando por uma refuncionalização dentro do complexo e multifacetado processo de transformação da sociedade brasileira; principalmente, a partir do processo de reestruturação produtiva, que tem tornado as pequenas cidades um espaço ideal para a reprodução do capital (SILVA; GOMES; SILVA, 2009b, p. 50-51).

Entre esses novos dinamismos existentes na pequena cidade, não se pode deixar de destacar a presença das redes de negócios que imprimem claramente no espaço urbano as manobras que o capitalismo é capaz de executar para reproduzir o capital e adentrar em lugares, anteriormente dispensáveis, e, assim, fazer com que o capital seja (re)produzido.

As redes de negócios são uma maneira de driblar os grandes concorrentes, a partir da aglutinação dos pequenos, manifestada mediante a ação associativista. Como o próprio nome sugere, os comerciantes se juntam para negociar melhor e nesta melhoria está incluso não apenas baixa de preços, como também ações de marketing e apoio técnico para desburocratizar muitas regulamentações que sobrecarregam a atividade comercial brasileira.

A rede de negócios também pode ser considerada um tipo de rede geográfica, que, por sua vez, pode ser entendida, como “um conjunto de localizações geográficas interconectadas entre si por um certo número de ligações” (CORRÊA, 2005, p. 107). Essas ligações vão além dos produtos comprados pela rede e também acontecem nas decisões conjuntas estabelecidas nas recorrentes reuniões, onde os membros se sentam para discutir possibilidades do mercado. Esse tipo de associação comercial modernizou a pequena cidade porque implantou práticas de mercadejar que até então somente eram vistas nas cidades médias e grandes. Passou-se a se preocupar mais com a aparência física da loja, com a quantidade e diversidade de produtos, e investiu-se mais no retorno consecutivo do cliente à forma comercial. Gradativamente, algumas lojas, não associadas a redes de negócios, começam a reproduzir em seu empreendimento algumas ações para modernizar o seu comércio.

As redes de negócios contribuíram para a reconfiguração do espaço comercial juazeirinhense não apenas por estarem presente no espaço e gerar práticas de consumo modernas e diferenciadas, mas também por servir de modelo para aqueles que, não se associando, passaram a ter o desejo de apresentar-se com essa nova aparência (imposta pela indústria do consumo) que exala modernidade.