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III DENETİMLE İLGİLİ DİĞER KAVRAMLAR

3) Soruşturma-Ön İnceleme

Ao nos depararmos com os artigos aprovados em seu primeiro Estatuto, percebemos quais eram os seus objetivos e como estavam organizados. De acordo com o art. 2.º, cabia à entidade:

defender os direitos de todos os seus associados, adotando medidas que visem garantir-lhes um nível de vida compatível com a dignidade humana; organizar departamentos especializados para estudo de todas as questões referentes ao ensino e legislação, de modo a, facilitando as consultas, poupar tempo e suavizar a difícil tarefa do professor; promover uma aproximação mais eficiente, com os responsáveis pelo ensino no Brasil e no Estado, de modo a serem os professores ouvidos por intermédio desta Associação; promover palestras, conferências, reuniões (...) tudo quanto possa estimular o amor pelo

16 Segundo JÓIA, 1993; FASSONI, 1991; KRUPPA, 1994; SANT’ANA, 1993; DOBBECK, 2000 e LEOBONS,

estudo, pelo ensino e pelos grandes vultos que engrandeceram a nossa pátria; estabelecer um centro de reuniões onde os associados possam debater e cultivar os grandes ideais de solidariedade humana e profissional e prestar aos associados todo o apoio moral, técnico e jurídico de que necessitarem.17

Como estava vedada a sindicalização dos funcionários públicos, os professores do magistério estadual viam, na criação de uma associação, a possibilidade de estreitar suas relações no âmbito profissional e constituir um coletivo capaz de influenciar as decisões governamentais que lhes afetassem diretamente.

Chama a atenção o aspecto relativo ao contato que seria mantido com os responsáveis pelo ensino nas esferas federal e estadual. De acordo com o estatuto, a entidade deveria colaborar com essas instâncias no sentido de aprimorar a “difusão das atividades pedagógicas”. Essa característica já era ressaltada por Elisiário Rodrigues de Sousa, em sua coluna sobre educação no Diário de S. Paulo. Segundo ele a entidade, “pela sua diretriz e pelas suas realizações” deveria se impor “de tal forma no conceito público e, especialmente, do Estado, que passasse logo à categoria de ‘órgão consultivo’ em matéria de assuntos educacionais”18.

A fim de construir um espaço de discussão e promover a solidariedade entre seus membros, o estatuto previa que seriam sócios todos os professores do ensino oficial, secundário e normal do Estado de São Paulo, bem como os diretores, vice- diretores e inspetores desses níveis de ensino. Para tanto seria cobrada uma contribuição mensal de CR$ 10,00, ou seja, o correspondente ao valor de uma aula19.

A fim de desenvolver os trabalhos a que se propunha, a associação definiu duas instâncias deliberativas: a Assembléia Geral Ordinária e o Congresso, realizados

17 Estatutos da Apesnoesp. 1945, p. 02.

18 SOUSA, E. R. Associação de Professores. O Diário de S. Paulo. 11/03/45. p. 06. 19 Diário de S. Paulo. 03/03/45. p. 06; Estatutos da Apesnoeps, 1945, p. 03.

anualmente, com o objetivo de eleger e dar posse à nova diretoria e discutir “os problemas de interesses gerais do ensino e do professor”20.

A diretoria seria composta pelo presidente e vice-presidente, 1º e 2.º secretários e 1.º e 2.º tesoureiros. O mandato teria a duração de um ano, competindo ao presidente as principais decisões relativas à administração e ao desenvolvimento de suas atividades como convocar e presidir as Assembléias e representar a entidade em juízo21.

Por meio de 21 artigos, acrescido de poucos parágrafos, era fundada oficialmente a Associação dos Professores do Ensino Secundário e Normal Oficial do Estado de São Paulo. O Estatuto definia assim, como se organizaria a entidade, quais seriam suas atribuições e como se relacionaria tanto com seus associados quanto com as autoridades governamentais.

Esse documento evidenciava uma primeira ação efetiva em reunir os integrantes do magistério secundário paulista, a fim de verem atendidos seus interesses corporativos bem como os problemas relativos a um nível de ensino que vivenciaria uma expansão marcada por contradições (educação para as elites x educação para as classes populares; currículo voltado para a formação clássica e propedêutica x currículo voltado a formação para o trabalho; escola pública x escola privada)22.

Retomada das eleições, rearticulação das forças políticas em torno de partidos nacionais, reorganização dos sindicatos, desenvolvimento econômico segundo orientações nacionalistas e desenvolvimentistas e intensificação do processo industrial

20 Estatutos, 1945, pp. 04-05. 21 Ibidem, p. 06.

22 A respeito das contradições inerentes à expansão do ensino secundário em fins da década de 40 e toda a

nos grandes centros acompanhado de acelerado crescimento urbano aumentando as demandas sociais por serviços públicos constituíram o cenário de mudanças que afetava o país após o fim do Estado Novo23. Tais mudanças repercutiram na organização do ensino e nas ações e representações acerca do magistério.

A década de 50 assinalou rápidas transformações no meio educacional, com a expansão do ensino secundário. Segundo Marília Pontes Sposito

Em menos de 20 anos, entre 1945 e os primeiros anos da década de 60, nas regiões urbanas das áreas mais desenvolvidas do país, o crescimento intenso da rede de escolas secundárias oficiais imprimira a este ramo da escolaridade (...) características inteiramente diversas (...) incorporando parcelas cada vez mais heterogêneas da sociedade, passou a se apresentar como tendencialmente aberto, predominantemente público e destinado à formação comum da população.24

Pensado inicialmente como privilégio para determinados elementos de classe média, seletivo e excludente, o ensino secundário transformou-se em um meio de ascender socialmente para amplos setores das camadas populares25.

De acordo com as conclusões do trabalho coletivo coordenado por Carlos Correa Mascaro, “o anseio do povo e o interesse do elemento político, sempre pronto a descobrir novas formas de atrair a clientela”, tornaram o ambiente propício para a multiplicação de escolas de nível secundário26. No entanto, esse crescimento no número de ginásios e colégios se fez mediante “completa ausência de planejamento” resultando em queda na qualidade do ensino27.

Essas transformações traduziram-se em uma piora gradativa nas condições de trabalho dos professores, aumento no número de alunos por sala e de professores 23 FERREIRA, 2003. 24 SPOSITO, 1984: 15. 25 Ibidem, p. 28. 26 MASCARO, 1964: 139. 27 Ibidem, p. 141.

contratados sem o devido aporte de recursos materiais e financeiros para a manutenção da rede ampliada28.

Para enfrentar essa realidade, os professores mobilizaram as estruturas associativas a fim de verem atendidas suas reivindicações. É nesse processo de mudanças sociais, políticas e econômicas que a Apeoesp modifica seu estatuto, reconfigura suas estratégias e tenta ampliar sua atuação.

Os poucos artigos do primeiro estatuto deram lugar a mais de uma centena após a sua reformulação no ano de 1952, evidenciando uma maior complexidade da associação, resultado das mobilizações empreendidas por suas lideranças nesses sete anos de existência.

Muitas mudanças foram realizadas, a começar por algumas de suas finalidades. A partir desse novo documento, a entidade deveria defender, “perante os poderes constituídos e os diretores de estabelecimentos de ensino, os direitos e as pretensões justas de seus associados, obtendo medidas que visem garantir-lhes nível de vida compatível com a dignidade humana”29.

Apesar de reafirmar a possibilidade de ter entre seus associados os diretores, no item acima percebemos uma divergência entre professores e diretores.

O parágrafo referente à relação com os responsáveis pelo ensino no Brasil e no Estado de São Paulo foi mantido, embora adotasse uma postura mais firme quanto ao fato de serem aprovadas “reformas educacionais sem a prévia consulta ao magistério e à sua associação de classe”30.

28 SANT’ANA, 1993: 129.

29 Estatutos da Apesnoesp. 1952, p. 03. 30 Loc. Cit.

Outras mudanças diziam respeito a um possível aparelhamento da associação com vistas a oferecer a seus associados assistência jurídica, médica e dentária, mediante departamentos específicos ou por meio de convênios com a iniciativa privada31.

No tocante à admissão de sócios, o novo estatuto estabelecia um processo que extrapolava a simples contribuição.

O candidato à inscrição como sócio da Associação deverá apresentar a sua proposta à Diretoria, preenchendo a fórmula oficial distribuída pela Secretaria, assinada por dois sócios quites com os cofres sociais (...) Recebida pela Diretoria, será a proposta encaminhada dentro de cinco dias, no máximo, à Comissão de Sindicância, que dará parecer sobre as condições de admissibilidade ou não do proposto e à vista desse parecer que a Diretoria deliberará como julgar de justiça.32

Essas restrições podem dar a falsa impressão de que a entidade não necessitava de sócios nem de suas contribuições. No entanto, informações da imprensa revelavam uma difícil realidade.

A Apeoesp atravessa, não há dúvida, uma fase de lamentável desprestígio entre os próprios membros do magistério secundário e normal do Estado. Algumas rixas internas, e o pouco ou nenhum êxito obtido em algumas reivindicações causaram esse estado em que há dois anos se arrasta uma Associação, nascida em meio a grandes esperanças, e, que manda a verdade que se diga, correspondeu integralmente aos anseios da classe nos dois ou três primeiros anos de existência. Acrescente-se a isso a falta de recursos econômicos, e não será difícil diagnosticar o mal que minou essa Associação.33

Depreende-se que, primeiro, havia dificuldades financeiras, e segundo, existiam divergências que poderiam inviabilizar suas atividades junto à categoria. Então, procedeu-se a uma atitude que, mesmo sacrificando as receitas, poderia sanar as

31 Estatutos da Apesnoesp: p. 04. 32 Ibidem, p. 06.

desavenças por meio de uma seleção rigorosa na admissão de novos sócios. Ademais, os itens referentes aos deveres e as punições cabíveis a quem desrespeitasse o que estava previsto acentuava a intenção de criar um ambiente livre de disputas internas.

São deveres indeclináveis dos associados (...) manter a máxima cordialidade entre si, profligando (sic) por um código de ética profissional que se condene sempre na defesa dos colegas e nunca na crítica, bem como auxiliar e proteger o colega necessitado, não aventar ou discutir na sede social, matéria alheia aos fins sociais ou que possa causar discórdia. (...) o sócio que infringir estes Estatutos, regimento interno ou regulamentos, injuriar quer a Associação, quer algum de seus membros, perturbar a ordem em sessões, tornar-se motivo de permanente discórdia, será suspenso de seus direitos sociais, até deliberação da Diretoria em reunião, na qual será julgado e para a qual terá notificação prévia.34

No tocante à sua administração, a Assembléia Geral Ordinária continuaria sendo a principal instância decisória, na qual seriam eleitos os membros que assumiriam os órgãos que zelariam pelos trabalhos da associação.

A Assembléia Geral, como poder soberano da Apeoesp, é a reunião dos sócios quites (...) em gozo e exercício de seus direitos, com mais de seis meses de admissão, em número de trinta no mínimo (...) Haverá uma só Assembléia geral ordinária durante o ano, a da primeira quinzena de janeiro da cada ano, e tantas extraordinárias quantas convocadas pelo presidente espontaneamente ou a requerimento firmado por quinze sócios.35

Dessa forma, a Assembléia consolidar-se-ia, ao longo de sua trajetória, em um importante espaço de disputas pessoais, coletivas, programáticas e ideológicas que norteariam os rumos tomados pela entidade.

Além da diretoria, outros órgãos foram agregados ao núcleo administrador da entidade: o Conselho Deliberativo, o Conselho Fiscal e a Comissão de Sindicância36,

34 Estatutos, 1952: pp. 06-08. 35 Ibidem: pp. 19-20. 36 Ibidem: pp. 09-10.

abrindo assim, a possibilidade de estimular uma maior participação dos sócios no conjunto de suas atividades, bem como diminuir a sobrecarga dos diretores

O Congresso perdeu o status de instância deliberativa conforme previa o primeiro estatuto. Entretanto, a periodicidade foi mantida a mesma, cabendo à Diretoria promover a realização de um por ano, seja nas férias de janeiro ou nas férias de julho. Entre as suas principais finalidades constavam:

Tomar medidas que possam elevar a preparação e o prestígio do professorado, de forma que venha ter posição condigna com sua ação social e cultural; estudar a metodologia do ensino secundário e normal para que seja ministrado com mínimo esforço e no menor tempo possível, sem sacrifício da matéria e dos alunos, os programas oficiais; sugerir medidas que melhorem, cada vez mais, o ensino secundário e normal do país tornando-o perfeitamente correlacionado com o primário e superior ...37

A grande novidade em torno da mobilização da categoria passou a ser a necessidade de realizar, antes do Congresso, duas concentrações regionais em cidades diferentes no Estado, a fim de aproximar seus associados e promover o evento38.

Embora ficasse estabelecida a obrigatoriedade do Congresso do professorado secundário ser realizado anualmente, nem sempre isto ocorreu. Segundo a documentação consultada, a entidade realizou dez desses eventos entre os anos 1945 e 1963. Analisar sua organização e suas temáticas, assim como algumas de suas concentrações regionais, nos possibilitará entender como se articulou e como a associação empreendeu, as lutas em defesa de sua categoria.

37 Estatutos, 1952: p. 22. 38 Ibidem, p. 23.

2.3 A MOBILIZAÇÃO DA CATEGORIA: CONGRESSOS E