Na estrutura de um documentário, o repertório de imagens e sons pode ter origens e funções diversas para a organização do discurso do filme. Puccini cita cinco tipos de sequência identificados por Dwight Swain (1976, pp. 44-45 apud PUCCINI, 2009, p. 50) que podem ser montadas segundo objetivos específicos: Sequências para a introdução de um ambiente, lugar ou cenário; sequências para a expressão de uma ideia, conceito ou pensamento; sequências para cobertura de uma ação; sequências para apresentação de um personagem; sequências para a criação de uma atmosfera ou clima para o filme.
Segundo o autor, a construção da estrutura de um documentário depende do tratamento e da exposição que o tema receberá no decorrer do filme e não apenas da definição dos objetivos das sequências, sendo necessário responder como o assunto será apresentado, como será conduzido no decorrer do filme e como o filme será resolvido. Para Hampe:
[...] o documentário também enfrenta a mesma necessidade estrutural (da ficção), que é a de despertar e manter o interesse do espectador desde o início, passando pelo longo desenvolvimento do meio até a resolução e encerramento do fim. (1997, p. 123 apud PUCCINI, p. 51).
Dia de festa apresenta seu universo de abordagem por meio de
sequencias que introduzem o espaço geográfico onde transcorrerão os eventos abordados, e que também conduzem a uma contextualização social do tema, privilegiando paisagens e personagens característicos de regiões centrais de São Paulo até a inserção de um morador de rua, de dados sobre o número de habitantes
em favelas, cortiços e ruas da cidade e cenas de confronto entre manifestantes do MSTC e policiais, para transmitir as informações.
Autores como Syde Field (1996, p. 86 apud PUCCINI, 2009, p. 51) apontam a necessidade de o roteiro introduzir sua história nas dez primeiras páginas (que corresponderiam aos dez primeiros minutos de filme) para prender imediatamente a atenção do espectador. Durante esse tempo precisariam ser definidos: o personagem principal (sobre quem é a história), a premissa dramática (sobre o que é a história) e a situação dramática do filme (quais as circunstâncias em torno da ação). Para Barry Hampe:
[...] o início do filme deve ”expor o tema, levantar uma questão ou apresentar algo novo ou inesperado”. Nessa breve apresentação do tema, o documentarista deve informar “o problema com o qual o documentário lida, as principais pessoas envolvidas – e o que mais o espectador necessitar saber para que o documentário siga adiante”. (1997, p. 123 apud PUCCINI, 2009, pp. 51-52).
Dia de festa parece atingir esses objetivos, definindo esses elementos
nos quatorze minutos iniciais: as personagens principais, seu tema e as principais circunstâncias que envolvem as ações dessas personagens.
As filmagens acompanharam o trabalho realizado pelo MSTC durante os meses de setembro, outubro e novembro de 2004, destacando as trajetórias de vida e o trabalho das quatro protagonistas (Neti, Silmara, Ednalva e Janaína) na organização das sete ocupações planejadas para ocorrer simultaneamente na madrugada do dia 1º de novembro daquele ano. O “dia da festa”.
Sobre a opção por um eixo de condução do filme a partir das quatro protagonistas, Toni Venturi afirma:
Eu me interessei, me apaixonei, me emocionei com o MSTC e vi que ele poderia ser um exemplo para outros movimentos. Não me preocupei como
A margem do concreto, do meu queridíssimo amigo Evaldo Mocarzel, em
falar com todos os movimentos, com seus líderes, discutir suas ideias, o déficit habitacional, discutir as questões da habitação. Em Dia de festa não fiz esta opção e deixei isso muito claro. Meu filme é um percurso pela história de quatro líderes que resumem o espírito do movimento. 13
O MSTC é retratado como um movimento social organizado que reivindica “moradia digna” (expressão recorrente entre os militantes) para a população que vive em favelas, cortiços e nas ruas de São Paulo, sem casa própria ou poder aquisitivo para comprar ou alugar imóveis que apresentem condições adequadas de habitação. A principal tática do movimento consiste na ocupação de imóveis vazios ou abandonados, sobretudo na região central da cidade, como forma de pressionar o poder público.
Como tema complementar e indissociável da atuação do MSTC, são apresentadas a vulnerabilidade das condições de moradia dessa parcela da população e o posicionamento de quem vive essa realidade: ou adequando-se a diversas precariedades, não apenas habitacionais, ou vinculando-se a um movimento social organizado com o objetivo de transformarem essa realidade.
Uma das formas de exploração desses temas é a apresentação de estatísticas por meio de cartelas de texto que contrastam a demanda por moradia popular com o número de edificações vazias muitas delas, há décadas, em diferentes regiões de São Paulo, como informa o texto inscrito na tela: “Em São
Paulo há 420 mil imóveis vazios e abandonados” (1h06’44”). Outra maneira de explorar os temas é registrar a reação do poder público à atuação do MSTC, por meio de vários registros da repressão da Tropa de Choque ou Força Tática da
Polícia Militar, durante as ocupações. Os principais objetivos das operações policiais são impedir o início das ocupações ou interrompê-las, e fazer cumprir mandados de reintegração de posse, depois da instalação das famílias ocupantes.
A estrutura narrativa do filme é baseada nos depoimentos das protagonistas Neti, Silmara, Janaína e Ednalva, membros da população sem-teto com a qual compartilham origens e trajetórias sociais e coordenadoras do MSTC, de São Paulo. O foco de interesse apresentado na primeira parte do filme centra-se na história de vida das protagonistas, utilizada pela montagem como eixo a partir do qual são introduzidas imagens que revelam e confirmam a origem e a condição social que verbalizaram anteriormente, estreitando seu vínculo com os demais membros da população sem teto – todas já viveram em um ou dos mais tipos de habitação precária abordados pelo filme –, e retratando a precariedade das condições de vida dessa população, de um modo mais amplo. Alguns dos depoimentos das protagonistas esclarecem sua aproximação e participação no MSTC:
(...) Imaginar que eu tava dentro daquele buraco que não tinha saída e que o movimento foi lá e me jogou uma corda, né? Poxa, então, eu acho que a luta é assim: o movimento foi lá, me jogou a corda, eu me apeguei, eu puxei, eu saí daquele buraco. Então é meu papel agora jogar a corda pra outros se apegar.14
14 Neti, uma das protagonistas, após narrar sua experiência como moradora de rua com dois dos três filhos e o ex-marido. (28’45”).
As sequências filmadas em favelas e cortiços, nos viadutos em que se instalam e dormem os moradores de rua e nos prédios ocupados pelo movimento revelam características das condições de moradia e, parcialmente, de vida dessas pessoas por meio de depoimentos e imagens do interior e do entorno dessas habitações: córregos poluídos; famílias cozinhando em panelas sobre pedras e tijolos nos quintais de barracos em favelas; corredores escuros e estreitos que dão acesso a quartos, porões e sótãos em que umidade, rachaduras e bolor caracterizam as moradias em cortiços; inexistência de edificação e exposição de quem vive nas ruas a ameaças de diferentes tipos; falta de espaço e adequação de instalações sanitárias e hidráulicas, necessidade de utilização coletiva de banheiros, cozinhas e espaços para a lavagem de roupas geralmente improvisados, e convivência das famílias das edificações ocupadas pelo MSTC com a iminência diária de despejo.
Apesar da narração em voz over apresentar maior poder de síntese que cartelas de texto, fornecendo maior quantidade de informações sem a exigência de leitura, em Dia de festa optou-se pela apresentação de dados sobre favelas, cortiços e imóveis urbanos vazios, em São Paulo, e sobre seus respectivos habitantes, por meio de textos inscritos na tela.
A situação dramática do filme pode ser definida, em linhas gerais, da seguinte maneira: vivendo o problema da falta de moradia, a população sem teto se mobiliza politicamente vinculando-se ao MSTC enquanto movimento político e social organizado. Devido ao seu engajamento, essa população enfrenta os desdobramentos decorrentes de sua ação política. As principais circunstâncias em torno dessa ação central do filme são os riscos enfrentados durante a ação policial, sobretudo quando a militância (formada por homens e mulheres de diferentes
idades, famílias inteiras, idosos e crianças) insiste na ocupação ou se o opõe à desocupação do local, o que provoca uma violenta reação policial, que inclui o uso de bombas de efeito moral, gás de pimenta, balas de borracha e uso de cassetetes.
A progressão ou desenvolvimento de um documentário também é influenciado pelo tipo de tema abordado ou pelo estilo do diretor. Alan Rosenthal 1996 apud PUCCINI, 2009) diferencia dois tipos de progressão definidos em função de suas finalidades: a progressão cronológica, focada no desenvolvimento e mudanças dos personagens, e a progressão por conflito, cuja finalidade é estimular o interesse do espectador pela solução de uma situação de tensão apresentada pelo filme, apesar haver a possibilidade dessas duas linhas de progressão serem mescladas. Além de despertar a curiosidade em suas sequencias iniciais, o desenvolvimento do filme precisa conseguir sustentar o interesse do espectador. (PUCCINI, 2009).
Instantes antes da entrada de membros do MSTC em um edifício da Caixa Econômica Federal, na Pça Roosevelt, um dos ocupados em 01/11/2004 (34’30’’)
Pode-se afirmar que Dia de festa apresenta uma progressão por conflito, na medida em que a situação de tensão anunciada no seu terceiro minuto é reforçada e retomada ao longo do filme e associada a eventos com os quais estabelece uma relação de complementaridade, revelando uma opção de montagem que sustenta um clima de tensão para manter o interesse do espectador.
Sobre a abertura do imóvel para entrada dos militantes, Silmara afirma:
O melhor da festa é a porta, quando ela se abre, né? Se abre pros convidado entrá. Então, assim eu acho que é... meio coisa de louco. Não é uma coisa assim... que qualquer um tem coragem de ir lá e fazer não. Cê coloca assim... seu baile de formatura? É a mesma coisa pra mim, sabe? 15
A atuação do MSTC tem como objetivo denunciar o problema social da falta de moradia e pressionar o poder público para solucioná-lo, já que isso não ocorre por meio dos programas habitacionais existentes, como afirma Neti, na noite de 1º de novembro com as famílias do movimento que a aguardam no interior de um dos prédios ocupados:
Boa noite companheiros e companheiras de luta! É pro choque [Tropa de Choque da PM] que aqui tem sem-teto que não tem medo de lutar. Vamos encarar a realidade da forma como ela é. Existe uma injustiça e o fato tá aqui. Existe um prédio vazio e esses são o sem-teto. Tem discurso que se faz, tem programa e vai buscar, mas o fundo do fundo, aonde a situação subumana está, o recurso não chega, os programas não entram. Então é por isso que nós temos que lutar. Nós temos que ter força. Não podemos desanimar, porque na hora que você baqueia, eles passam por cima. 16
15 Silmara, uma das protagonistas se referindo ao momento de entrada em um imóvel durante a ocupação como o principal momento da ação. (37’19’’).
16 Neti. (
O desenvolvimento do filme aborda as implicações e os desdobramentos da ação política do MSTC, como o conflito entre o movimento e o Estado, representado pela atuação das forças policiais. Esse quadro define o conflito central do filme, apresentado já no seu início. Esta situação de conflito e tensão reiterada e ampliada pela incorporação gradativa de novos elementos torna-se mais nítida por meio da identificação dos atores sociais que nela atuam, assim como de seu posicionamento: história de vida das protagonistas, condição social e posicionamento da população sem teto em relação à falta de moradia, movimento social organizado e sua atuação política, posição e reação do Estado às ações do movimento, postura dos proprietários dos imóveis ocupados e resposta do poder judiciário à sua demanda.
Diferentes planos dos confrontos entre polícia e militância do MSTC durante as ocupações (frustradas ou bem-sucedidas) são exibidos do começo ao fim do documentário, intercalados por informações que permitem a construção dos personagens (centrais e secundários) e a definição dos demais atores sociais representados no filme, o que permite a ampliação desse quadro e contribui para sua possível compreensão. A combinação e a sequência desses elementos constituem o desenvolvimento da história e definem um campo de forças opostas decorrentes da exposição inicial do problema, assim como um clima de tensão movimenta e orienta o discurso fílmico, despertando o interesse do espectador pela resolução do conflito.
A cada sequência, são apresentadas diferentes regiões da cidade com edificações ocupadas pelo movimento, novas manifestações e formas de repressão policial e uma ressignificação dos personagens a partir da revelação e ampliação de suas trajetórias. Nesse campo de tensão não é explorada uma oposição direta entre
proprietários de imóveis e a população sem moradia, mas sim, um conflito entre visões e posicionamentos em relação ao uso e a destinação de imóveis urbanos vazios ou subaproveitados. Para além das necessidades relacionadas à solução da falta de moradia em si, o filme enfatiza o choque de posicionamentos políticos. Entre eles encontram-se a população sem teto não atendida pelas políticas habitacionais de um lado, e o Estado, cuja presença é marcada apenas por meio de sua ligação estrutural e por meio de uma política de segurança pública que solicita e autoriza a repressão policial violenta aos movimentos sociais como o MSTC.
Outros trechos apresentam justificativas para a ocupação de imóveis vazios, principal tática do MSTC, a partir da avaliação do militante:
Eu não vou lá, na sua casa e ocupo a sua casa. É sua casa. Eu não vou lá, na tua casa e ocupo o teu terreno. O que nós ocupamos é onde não tem função social. Se não tem função social, o que tá criando lá é rato e barata. E as família tão na rua! 17
O filme apresenta um conflito de interesses políticos entre a parcela da população que exige do Estado o atendimento ao direito à moradia, e o Estado que age para garantir o direito à propriedade de outra parcela da população e para o próprio Estado (vários imóveis ocupados pelo MSTC são de propriedade do Estado em suas diferentes esferas) tanto por meio de forças policiais de repressão ao movimento, quanto por meio do poder judiciário. Sob essa ótica, a construção da estrutura discursiva de Dia de festa apresenta um desenvolvimento de tese e
17 Silmara, protagonista cuja fala precede cartela de texto em fundo preto informando
: “Constituição Federal do Brasil, artigo 182, parágrafo 4º. É facultado ao Poder Público exigir do proprietário do imóvel urbano subutilizado ou não utilizado, que promova seu adequado aproveitamento (...) sob pena de desapropriação”. (38’00”).
condução de conflito que evidencia um posicionamento político do filme e do diretor em relação ao problema social abordado.
Diferentemente da ficção, em que a resolução da história representa o fim dos conflitos trabalhados por ela, os documentários abordam temas maiores que o filme e conflitos que não serão resolvidos por eles.
Um exemplo é Ônibus 174 (2002), de José Padilha, que apresenta conflitos internos vividos por Sandro Nascimento, protagonista e autor do sequestro de um ônibus da linha 174 na zona sul carioca, em 2000, e os conflitos externos gerados pelo sequestro do ônibus, são resolvidos com a prisão de Sandro (assassinado pela polícia à caminho da delegacia). Mas o desfecho do caso policial não soluciona a pobreza, a falência do sistema prisional e a violência social também abordados pelo filme.
Nos documentários, a passagem do tempo pode surpreender ao modificar temas ou personagens, interferindo no desfecho final da história, sobretudo em filmes que registram eventos simultâneos à sua produção como Fala
tu (2003), de Guilherme Coelho, e A pessoa é para o que nasce (2005), de Roberto
Berliner, em que mudanças nas vidas dos protagonistas forçam uma retomada das filmagens para a incorporação de novos fatos produzidos pela vida real. Iniciado em 1998, o filme teve sua edição interrompida em 2000 para o registro da participação das protagonistas (três irmãs cegas moradoras de Campina Grande, na Paraíba) em um festival de percussão organizado por Gilberto Gil e Naná Vasconcelos. No curta metragem, de 1997, que deu origem ao longa, as personagens eram conhecidas apenas na região em que viviam ganhando a vida como cantoras de rua.
Dia de festa não testemunhou mudanças produzidas pela realidade
que obrigassem a uma retomada das filmagens após a sua conclusão ou transformações radicais na vida das personagens, como nos exemplos citados.
A realidade apresenta alguns eventos autônomos não previstos inicialmente e incorporado pela montagem do filme: a intervenção de dona Jacira, mãe de Janaína, a mais jovem das protagonistas que aparece (inesperadamente, segundo a informação do texto inscrito na tela) durante a realização da entrevista da filha. A mulher senta na cama ao lado de Janaína e começa a explicar as razões de estarem vivendo no quarto de um cortiço, narrando um episódio ocorrido antes do nascimento da filha, em que o desemprego e a falta de alternativas fizeram com que ela e os filhos mais velhos, um deles com cerca de um ano de idade, passassem fome. Durante o depoimento da mãe, Janaína chora em silêncio e a cena é finalizada com fad in em seu close.
Dia de festa apresenta como tema central o MSTC (sua organização,
objetivos e táticas) tratado de forma indissociável do problema social representado pela falta de moradia e ambos são explorados por uma estrutura discursivo-narrativa que tem como eixo a vida e trajetória políticas das protagonistas do filme reveladas a partir do conteúdo de seus depoimentos e do registro de suas participações na organização do movimento e, mais especificamente, nas ocupações ocorridas em 1º de novembro de 2004 cujos bastidores o filme acompanha de perto. Tanto as dificuldades encontradas pelo MSTC como movimento social organizado, quanto a falta de moradia retratados pelo filme não são acompanhados por propostas de solução para estes problemas.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
SUBJETIVIDADE E TEMAS MAIORES QUE OS FILMES
A relação entre arte e sociedade é um tema complexo. Discussões sobre o sentido da arte, sua relação com indivíduos e coletividades ou sua função social há muito são realizadas pela filosofia ou pelas ciências sociais, entre outras áreas do conhecimento. A produção cinematográfica se insere nesse contexto, havendo um debate permanente sobre a natureza do cinema ora considerado manifestação artística, ora produto midiático, sempre situado na zona fronteiriça entre arte, mídia e entretenimento. Na ficção, a dimensão artística torna-se mais evidente e, nos documentários, por frequentemente se reportarem à realidade social abordando temas do mundo histórico, sua dimensão social é evidenciada, reforçando a presença e a força da realidade social nesse gênero.
Nos anos 1950 e 1960, a arte foi considerada por Fisher (1981) como necessária expressão da relação do homem com o mundo. Ele critica a ideia de que as transformações a que a arte foi submetida no decorrer de sua história a tornaram uma espécie de compensação do desequilíbrio social e em uma espécie de substituição simbólica da vida, colocando o homem em equilíbrio com o seu meio e revelando sua importância e sua necessidade para a humanidade. Por sua vez, o consumo de produtos artísticos seria motivado pelo desejo do homem de superar sua existência individual limitada tornando-se um homem total ao absorver o mundo circundante e integrá-lo a si, unindo seu eu limitado a uma existência coletiva e transformando sua individualidade em atributo social, portanto relativo e pertencente à coletividade.
O homem só atingiria sua plenitude ao apoderar-se das experiências alheias que lhes dizem respeito, identificando como seu, por meio da sensibilidade, tudo o que a humanidade é capaz de fazer. No que se refere à produção artística, essa apropriação de experiências alheias possibilitaria a sensação de que a obra de arte também pertence a quem não a concebe, o que torna a arte indispensável para a união do homem com o todo da humanidade, por refletir sua infinita capacidade de associar-se e fazer circular experiências e ideias, orientando o indivíduo em direção à sua plenitude, por meio da superação simbólica de suas limitações.
Roger Bastide (1979) foi categórico no reconhecimento da influência da arte sobre a sociedade. Para ele, a arte é um meio móvel de transposição do isolamento individual que permite o contato, a compreensão e a comunicação coletivos, constituindo um fator de solidariedade. A arte constituiria um sistema de símbolos afetivos que permitiria uma fusão parcial das consciências. Desse modo, ela realizaria um tipo de solidariedade mais rica, mais profunda e mais extensa que a fala, constituindo uma linguagem universal, propiciando a emoção estética que tende ao universalismo e ao gozo comum, e exercendo influência sobre todas as