ÇANAKKALE CEPHESİ DENİZ HAREKÂTI *
VIII. 25-26-27 Şubat 1915 Saldırıları
XI. 18 Mart Zaferi’nden Sonra Denizde Yapılan Faaliyetler
de alimentos % % % Arroz 65 60 45 Biscoitos/bolos/salgados 64 59 45 Farinha de milho/fubá/cuscuz 45 50 43 Pão 20 21 57 Leite 52 68 37 Verduras/legumes 52 43 56 Carne 50 33 50 Feijão 92 93 91 Açúcar 89 88 69 Óleo/margarina 81 85 69 Café/chá 95 96 96
Fonte: Pesquisa de campo, 2006 (n= 299).
Diante destes resultados, ao analisar os dados publicados pela POF (IBGE, 2003) percebe-se que há situação semelhante no consumo de certos alimentos. Isto é, constata-se que o consumo dos alimentos permanece quase que imutável.
A figura 13 mostra graficamente como se configura a freqüência de consumo alimentar das famílias rurais pesquisadas.
Figura 13. Diagrama representativo da freqüência de consumo alimentar das famílias entrevistadas. Fonte: Pesquisa de campo, 2006.
Percebe-se que há certa semelhança no consumo alimentar das famílias rurais entrevistadas principalmente dos estados do Rio Grande do Norte e Paraíba. Já para o estado de Sergipe há uma freqüência do consumo alimentar
0 20 40 60 80 100 0 5 10 15 20 25
Frequência de consumo alimentar - Paraíba
Diário 4-6/sem 1-3/sem Dificilmente Não come 2 por. Méd. Móv. (Diário) 0 20 40 60 80 100 0 5 10 15 20 25
Frequência de consumo alimentar - Rio Grande do Norte Diário 4-6/sem 1-3/sem Dificilmente Não come 2 por. Méd. Móv. (Diário) 0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100 0 5 10 15 20 25
Frequência de consumo alimentar - Sergipe
Diário 4-6/sem 1-3/sem Dificilmente Não come 2 por. Méd. Móv. (Diário)
para a confecção da figura 13 foi a mesma que consta no QFA, ou seja: Arroz; Biscoitos bolos ou salgadinhos; Milho/farinha de milho/fubá/cuscuz; Mandioca/ farinha de mandioca; Pão; Macarrão; Macaxeira/batata doce/ batatinha; Leite; Queijo/ iogurte/ coalhada/ requeijão/ nata; Ovos; Verduras/legumes; Frutas/suco de frutas natural; Feijão; Carne vermelha/frango/porco/miúdos; Peixe; Salsicha/mortadela/lingüiça/salame/presunto; Mel/melado/açúcar; Doces/ sorvetes/ geléias; Refrigerantes/suco industrializado; Margarina/ manteiga/ banha/óleo; Café/chá.
Então, para cada alimento ou grupo de alimentos disposto nessa figura lê-se uma das seguintes alternativas:
A variação do consumo alimentar das famílias entrevistadas nos três estados pesquisados demonstra certa regularidade, especialmente para aqueles alimentos de consumo diário. E, de forma negativa, essa mesma regularidade, porém agora de não consumo, também foi observada para os alimentos ou grupo de alimentos como mostra a tabela 12.
Tabela 12. Distribuição dos alimentos que não são consumidos, ou o são esporadicamente. PB RN SE Alimentos ou grupos De alimentos % % % Macaxeira/batata doce/batatinha 20 57 17 Leite 22 23 31 Queijo/iogurte/coalhada/requeijão/nata 68 56 78 Peixes 43 64 31 Salsicha/mortadela/lingüiça/salame/ presunto 70 52 54 Doces/sorvetes/ geléias 55 58 64 Refrigerantes/suco industrializado 64 57 36
Fonte: Pesquisa de campo, 2006 (n= 299).
Uma observação importante no que diz respeito ao fator negatividade é o baixo índice de consumo dos alimentos dos grupos dos açúcares (doces,
a)¡Diário b)4-6 vezes/semana
c)
1 a 3 vezes/semana d)UDificilmentesorvetes e geléias), embutidos (salsicha, mortadela, lingüiça, presunto e salame) e os industrializados (refrigerantes e sucos prontos). Isso pode ser considerado, relativamente, um dado positivo dado que estes alimentos representam, nos dias de hoje, uma “inadequação alimentar”. Assim, pode-se dizer que as famílias entrevistadas estão comungando com o que determinam os preceitos de uma alimentação saudável e adequada.
É bem verdade, que as condições socioeconômicas dessas famílias contribuem de forma significativa para essa rotina alimentar. Contudo, foi possível observar que apesar da situação de pobreza, que muitas vezes, segundo os entrevistados lhes falta dinheiro para adquirir os alimentos mais básicos, alguns deles deixaram perceber gostos de gourmet, preferências gustativas apuradas que valorizam de certa forma, produtos alimentícios considerados por eles, inacessíveis. Como é o caso dos derivados lácteos (queijo, iogurte, requeijão, creme, nata), doces (chocolates, sorvetes) e peixes em geral. Outros alimentos como verduras e legumes, frutas e suco de frutas natural, ovos e macarrão possuem uma freqüência de consumo de 1 a 3 vezes por semana.
Apesar do consumo de carne ter sido evidenciado (para pelo menos 50% ou mais dos entrevistados é um alimento presente nas refeições diariamente) alguns entrevistados fizeram ressalvas como demonstra o depoimento a seguir:
A carne é só pra temperar. É a mistura. E nunca falta não. Às vezes um ou outro num gosta, porque eu compro o charque que é mais barato, mais num tem isso não, come mesmo assim. (Entrevistado de Lagoa Seca/PB).
No capítulo 2º de sua obra, Cândido (1998) faz um retrospecto daqueles que se debruçaram por descrever sobre “a busca de uma dieta” ou, por que não dizer a definição do padrão alimentar dos paulistanos, mais especificamente, dos caipiras. Porém, na tentativa de caracterizar esse
chega a conclusão de que a alimentação no primeiro século era, de fato, bem
variada, contudo esse privilégio acontecia principalmente na costa e na vila de Piratininga, continuando assim nas camadas dominantes.
A tentativa de caracterizar um padrão alimentar deve levar em conta, como fez Antonio Cândido, a cultura desse povo, uma vez que esta é considerada um elemento determinante na formação de hábitos alimentares. A figura 14 demonstra um ensaio de como se configura o atual padrão alimentar das famílias rurais nos estados pesquisados.
Figura 14. Demonstração do padrão de consumo alimentar das famílias rurais dos estados
pesquisados com base no Questionário de Freqüência Alimentar.
Fonte: Pesquisa de campo, 2006.
Ao comparar os resultados dessa pesquisa com aquela realizada por Cândido (1998), observa-se um ritual que sofreu pouca ou nenhuma modificação. A situação perene de insegurança alimentar (fome) vai além da perspectiva econômica, social e/ou cultural de ter e comer apenas determinados alimentos. Essa, por sua vez, transcende o arcabouço físico do organismo e se concretiza no medo, na angústia ou na preocupação de num
zDiário
4-6 vezes/semana 1 a 3 vezes/semana ¡ Dificilmente
período não muito distante faltar esse “alimento básico” de uma dieta adequada.
O feijão, o milho e a mandioca, plantas indígenas, constituem, pois, o que se poderia chamar triângulo básico da alimentação caipira, alterando mais tarde pela substituição da última pelo arroz. No entanto, a maioria dos modos de prepará-los não veio do índio: constituem adaptações de técnicas culinárias portuguesas ou desenvolvimentos próprios do País (CÂNDIDO, 1998, p. 52).
A comida diária do lavrador também foi descrita e refletida com todas suas complexidades e simbolismos por Brandão (1981), ao se referir a população de Mossâmedes. Segundo esse autor, houve modificações tímidas na dieta dessa população devido a influência de comerciantes vindos de fora, responsáveis pelo abastecimento de vendas e de armazéns da cidade. Esse autor descreve ainda
O café da manhã é tomado muito cedo e se compõe de leite (não raro engrossado com farinha de milho ou mandioca) e biscoitos ou pães de queijo tomados com café. O almoço, assim como a “janta” combinam o arroz e o feijão (muito mais arroz do que feijão), a mandioca ou a batata inglesa, ovos e, pelo menos uma ou outra vez por semana, a carne de porco ou de frango. São ainda, relativamente freqüentes os usos de legumes (quiabo, couve, jiló, chuchu, tomate) e de macarrão. A carne de gado é consumida em muito menor quantidades que a de porco, mas tende a aumentar o seu uso em relação à de aves criadas no quintal (BRANDÃO, 1981, p. 43).
4.2.5 “Antes a minha face com fome amarela, que vermelha de vergonha”: o desafio das famílias rurais em atingir a SAN.
Quando questionados sobre a quantidade de comida disponível no domicílio e se essa era suficiente para todos os membros da família, 83% do total dos entrevistados respondeu que sim. Entretanto, na sua resposta
imposta, principalmente, por parte de quem porciona69 a comida,
evidenciando que mesmo que ela não seja suficiente, todos os membros se alimentam “obrigatoriamente”.
Esse fato reforça a constatação de que, mesmo diante da resposta afirmativa por parte dos entrevistados em relação à quantidade, ainda assim, pode-se sugerir que as necessidades nutricionais de cada indivíduo não são supridas. Uma outra constatação, já referenciada nesse texto, diz respeito ao constrangimento de afirmar que a comida não é suficiente para todos os membros da família e assumir que, possivelmente, alguém passou ou passa fome.
Apenas os dois municípios do estado da Paraíba apresentaram um percentual significativo (27%) de famílias que afirmaram não disporem de alimentos em quantidade suficiente, seguido por Sergipe, com 17% (Tabela 13). Indagados sobre as razões da insuficiência de alimentos algumas respostas são elucidativas: na Paraíba, por exemplo: “porque a família
cresceu muito”; enquanto que em Sergipe a principal razão foi “falta dinheiro para comprar alimento”.
Em relação à variedade dos alimentos uma pesquisa realizada por Sampaio; Kepple e Segall-Corrêa (2006) com grupos focais e em comunidades rurais chegou a seguinte constatação: a concepção da comunidade rural sobre o conceito de uma “alimentação variada” é bem próxima àquela mencionada no meio urbano, ou seja, é a “necessidade de consumir vários tipos de
alimentos”. No entanto, a maior diferença, segundo essas autoras, está
relacionada à maneira de preparar os alimentos “para não enjoar”. Vale ressaltar que, além das variedades de preparo de um mesmo alimento, foi exposta a importância da combinação de cores para obtenção, na medida do possível, de maior diversificação do consumo.
Esses aspectos, quantidade e variedade da alimentação, também foram focos de análise desse estudo como demonstra a tabela 13.
todas as pessoas? F % F % F % F %
Sim 58 73 91 81 98 91 247 83
Não 21 27 21 19 10 9 52 17
Total 79 100 112 100 108 100 299 100
A alimentação da sua família
tem variedade? F % F % F % F %
Sim 31 39 52 46 92 85 175 59
Não 48 61 60 54 16 15 124 41
Total 79 100 112 100 108 100 299 100
Fonte: Pesquisa de campo, 2006. N = 299.
A percepção sobre a variedade da alimentação foi semelhante à encontrada pelas autoras supracitadas. Nesse sentido, percebe-se que houve um percentual significativo (41%) do total dos entrevistados que afirmou a não variedade da alimentação, ou seja, reconhecem que há uma repetição diária do mesmo tipo de alimento oferecido nas refeições, refletindo o que tecnicamente é nomeado como monotonia alimentar. O principal motivo pelo qual os entrevistados alegaram não variar a alimentação da família foi “a
falta de dinheiro para comprar outros alimentos” sendo este relacionado por
100% dos entrevistados.
Dos três estados pesquisados, a Paraíba foi o que apresentou um percentual mais elevado (61%) de famílias que não dispõe de uma alimentação variada. Superando o estado do Rio Grande do Norte que apresentou, na maioria das vezes, os piores indicadores, inclusive o maior percentual de famílias que sobrevivem com uma faixa de renda menor, sabendo que esta, por sua vez, é considerada preponderante para atingir esse preceito da SAN.
Quanto às manifestações de IA ou os seus sintomas do ponto de vista nutricional, considera-se que estes podem ser percebidos de duas formas: aquelas que persistem, especialmente em países em desenvolvimento (desnutrição/subnutrição – materna e fetal, retardo no crescimento, carência específica de alguns nutrientes – ferro, vitamina A, iodo, zinco), e as que vêm emergindo ao longo desses últimos anos (obesidade – infantil/adulta, diabetes mellitus, doenças cardiovasculares, resistência à insulina e alguns tipos de câncer).
e Rissin (2003), utilizando como referência fontes de informações de três estudos transversais realizados nas décadas de 70, 80 e 90, constatou um rápido declínio da prevalência de desnutrição em crianças e elevação, num ritmo mais acelerado, da prevalência de sobrepeso/obesidade em adultos, ao passo que esta pode ser classificada como outra forma de IA no Brasil.
A Faculdade de Ciências Médicas/Departamento de Medicina Preventiva e Social da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) em conjunto com Observatório de Políticas de Segurança Alimentar e Nutrição da Universidade de Brasília (UnB), além de outras instituições, adaptaram e validaram uma outra forma de avaliar e ainda de classificar, em diferentes níveis, o grau de IA, que categoriza a família em:
a) Segura;
b) Insegurança Leve (em que existe a preocupação com a falta de alimento, mas não necessariamente a privação);
c) Insegurança Moderada (em que já existe algum tipo de privação, principalmente do adulto) e,
d) Insegurança Grave (em que a criança já tem redução de alimentos ou fome).
A tabela 14 demonstra os percentuais das famílias que apresentaram algum sentimento em relação à falta de alimentos.
Tabela 14. Distribuição dos entrevistados segundo a preocupação em faltar alimentos
Estado da Federação
PB RN SE Total
Nos últimos 3 meses o(a) Sr.(a) sentiu preocupação de que a comida na sua casa iria acabar e não tinha dinheiro
para comprar mais alimento? F % F % F % F %
Não 38 48 66 59 75 69 179 60
Frequentemente 13 16 22 20 10 9 45 15
Algumas vezes 28 36 24 21 23 22 75 25
Total 79 100 112 100 108 100 299 100
Fonte: Pesquisa de campo, 2006. N = 299
Segundo os dados apresentados nessa tabela, percebe-se que entre os entrevistados houve um percentual significativo (60%), que responderam “não
sentir nenhuma preocupação com a possibilidade de faltar comida e não ter condições financeiras para repor”. Contudo, é imperativo considerar que 40%
afirmou sentir medo, e esse percentual, por sua vez, representa um elevado contingente de pessoas que sofre com a privação alimentar.
Freitas (2003) lembra que a percepção individual, quanto ao “passar fome”, é um fenômeno que pode assumir distintos significados para aqueles que vivem sob constante ameaça de não ter o que comer, bem como o “tabu” para expressar verbalmente essa agonia. Nesse sentido, é possível inferir que tal questionamento se mostrou, de fato, adequado para aferir a vivência da fome entre as famílias pesquisadas dada a representatividade da freqüência.
Não foi pretensão dessa pesquisa caracterizar as famílias entrevistadas segundo a classificação de IA (leve, moderada e grave)70, já que esta se trata de uma recomendação metodológica. Porém, a partir dos dados foi possível inferir a situação de IA, dado o contexto alimentar das famílias rurais. A IA no meio rural pode ser crônica, sazonal ou transitória, sendo diversas as razões para que ocorram. Dentre essas destacam-se: 1) a falta de alimentos; 2) o insuficiente poder de compra; e 3) a distribuição inadequada de alimentos em âmbito domiciliar. De acordo com os dados da pesquisa pode-se inferir que estas três razões se fazem presentes na vida dos entrevistados.
70
a) situação de segurança alimentar Î ausência do medo/preocupação de passar fome;
b) insegurança alimentar (IA) leve: receio ou medo de sofrer insegurança alimentar no futuro próximo (componente psicológico da insegurança) e problemas de qualidade na alimentação;
c) insegurança alimentar (IA) moderada: restrição na quantidade dos alimentos na família; d) insegurança alimentar (IA) severa: fome entre adultos e/ou crianças da família.
qualidade, bem como a sua não interrupção em nenhum momento prospectivo, foi possível estimar a IA das famílias rurais pesquisadas. Essa constatação se deu mediante o conhecimento se estas possuem ou não, acesso a outros serviços (programas de transferência de renda, saúde, educação), uma vez que estes devem caminhar juntos para que o objetivo da SAN seja alcançado.
Nesse sentido, ao fazer uma relação com uma possível falta de comida e o recebimento de algum programa de transferência de renda, 58% dos entrevistados afirmaram que não houve em nenhum momento (referência dos três últimos meses que antecederam essa pesquisa) a preocupação de que haveria possibilidade de faltar alimentos no seu domicílio. Contudo, desse percentual 27% não é contemplado com nenhum programa de transferência de renda. Ou seja, mesmo se encontrando em situação de pobreza relativa, o que é característica do público beneficiado do Pronaf B, ainda assim essa situação não foi considerada, pelos entrevistados, como um fator determinante para uma situação iminente de fome (Tabela 15).
Tabela 15. Situação de IA mediante o recebimento de algum programa de transferência de renda
Estado da Federação
Tipo de benefício/ajuda em
dinheiro do governo PB RN SE Total
Nos últimos 3 meses o(a) Sr.(a) sentiu preocupação de que a comida na sua casa iria acabar e não tinha dinheiro para comprar mais alimento?
F % F % F % F % PETI/BE/BA/VG* 3 4 4 4 9 8 16 5 Bolsa família 14 18 43 38 21 19 78 26 Não Não recebe 20 25 18 16 43 40 81 27 BE/DC - - 1 1 2 2 3 1 Bolsa família 10 13 18 16 6 6 34 11 Frequentemente Não recebe 3 4 3 3 4 4 10 4 PETI/BE/BA/VG* 6 8 1 1 4 4 11 4 Bolsa família 18 22 20 18 11 10 49 16 Algumas vezes Não recebe 5 6 4 3 8 7 17 6 Total 79 100 112 100 108 100 299 100
Fonte: Pesquisa de campo, 2006. N = 299.
PETI- Programa de Erradicação do Trabalho Infantil; BE –Bolsa Escola; BA – Bolsa Alimentação; VG – Vale Gás.
Isso confirma os resultados da pesquisa de Takagi (2006) que considera que a definição atual do Programa Bolsa-Família não é tratado como um programa de acesso à alimentação, mas um programa autônomo de combate à pobreza, com força própria.
Essa afirmação é fortalecida quando se constata o elevado percentual (42%) de entrevistados que “frequentemente ou algumas vezes, nos últimos 3 meses”, sentiram sim, momentos de preocupação ou medo de que a comida viesse a acabar e não houvesse dinheiro para adquirir mais. Deste dado, 9% não eram contemplados com nenhum programa. Dos entrevistados que responderam positivamente essa questão estão 33%. Esse fato reafirma que programas com tais características de atuação não viabiliza a SAN e esse, sem dúvida, possui um significado que vai além dos números estatísticos já que, ao assumir esse temor, há uma exposição não só da sua situação precária de sobrevivência, mas também reafirma uma agressão moral que na maioria das vezes se deseja esconder.
Mesmo após a unificação dos vários programas de transferência de renda existentes como o Cartão Alimentação - CA, o Bolsa Escola - BE e o Bolsa Alimentação - BA ao Programa Bolsa Família - PBF em outubro de 2003, o Auxílio-Gás - AG e o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil - PETI foram mantidos separados para serem unificados posteriormente. Ainda assim, os programas Bolsa Escola (BE) e Bolsa Alimentação (BA) se fizeram bastantes evidentes entre as famílias pesquisadas.
Segundo Bickel e Andrews (2002), os conceitos de insegurança alimentar e de fome estão associados a um fator concreto de mensuração: o acesso aos alimentos e seu efetivo consumo, que são de difícil levantamento, pois exigem pesquisas específicas. Baseado em um estudo estatístico realizado por esses autores, as respostas fornecidas pelas famílias com relação ao consumo de alimentos, concluiu-se que os domicílios obedecem a uma ordem de comportamento segundo os recursos disponíveis: primeiro, economizam consumindo alimentos cada vez mais baratos, mas mantendo a quantidade, até chegarem a condição em que se esgotam as possibilidades de substituição por preços e passam a comer menos, atingindo o limiar da fome.
situação também é preocupante. Mesmo diante de todas as constatações já feitas em relação às situações precárias da população rural, a indisponibilidade ou mesmo a inexistência destes serviços, os tornam alvos potenciais de insegurança alimentar. Do total dos entrevistados, 28% não têm acesso a nenhum dos programas disponíveis sejam esses do âmbito federal, estadual ou municipal.
O Programa de Saúde da Família – PSF, foi o mais citado (67%) dos programas listados (Tabela 16). Contudo, foi verificado que apesar da sua proposta em dispor de uma equipe de médicos, enfermeiros, dentistas e agentes de saúde, basicamente, o atendimento à população rural restringe-se à visita do agente comunitário de saúde (ACS) 71, que muitos dos entrevistados
afirmaram receber de uma a duas vezes ao mês.
Tabela 16. Distribuição dos entrevistados segundo o acesso a outros programas e serviços
Estado da Federação
PB RN SE Total
Programas e
Serviços que família tem acesso F % F % F % F %
Programa Saúde Familía (PSF) 53 67 93 83 55 51 201 67 Educação Jovens e Adultos - - 2 2 2 2 4 1,3
Programa do leite 1 1 1 1 1 1 3 1
Cesta básica 5 6 - - 2 2 7 2,3
Brasil Sorridente/CEO - - 1 1 - - 1 0,4 Não tem acesso a nenhum programa 20 26 15 13 48 44 83 28
Total 79 100 112 100 108 100 299 100
Fonte: Pesquisa de campo, 2006. N = 299
Mesmo considerando a importância do papel do ACS 72, na equipe de saúde da família, é importante distinguir suas funções e lhes atribuir, de fato, atividades que possam dar uma resposta positiva para a população que assiste. Um outro programa citado foi o benefício da cesta básica. No estado
71 O Programa de Agentes Comunitários de Saúde (PACS) surgiu como estratégia da Fundação Nacional
de Saúde (FUNASA) atualmente sob a responsabilidade do Ministério da Saúde para atender a uma demanda específica na atenção primária em saúde, garantindo prioritariamente, assistência ao grupo materno infantil.
72 Os agentes comunitários de saúde acompanham, durante visitas domiciliares, as condições de saúde e
de vida da população. Nessas visitas, fornecem noções básicas sobre nutrição infantil, saneamento básico, assistência à gravidez e desenvolvem ações de prevenção a doenças como dengue, malária, hanseníase, tuberculose e diabetes (Brasil, 2002).
da Paraíba a distribuição é explicada devido a algumas das famílias entrevistadas fazerem parte do processo de assentamento, ou seja, a desapropriação de uma fazenda para a reforma agrária. Já no estado de Sergipe, o benefício é explicado devido o período de defeso 73.
É inegável, portanto, reconhecer que o Brasil vem avançando na implementação de estratégias de combate à pobreza, principalmente com a adoção de medidas de transferência incondicional e universal de renda, como se propõe o Bolsa Família. No entanto, no sentido de viabilizar a SAN com a perspectiva supra-setorial como defende os seus preceitos são necessárias, ainda, a construção e, acima de tudo a execução, de fato, das já existentes, de políticas eqüitativas com base na redução das desigualdades de acesso a bens e serviços públicos de qualidade, principalmente nos campos: saúde e educação.