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Ağır Topçu Taburu

Belgede Havranlı Koca Seyit Ve Çanakkale (sayfa 112-118)

ÇANAKKALE CEPHESİ DENİZ HAREKÂTI *

V. Çanakkale Boğazı’nda Türk Savunma Hattının Oluşturulması

2. Ağır Topçu Taburu

Sou matuto sertanejo Daquele matuto pobre Que não tem gado nem quêjo, Nem ôro, prata nem cobre (Vida sertaneja Patativa do Assaré)

A relevância do debate da agricultura familiar como ferramenta importante para a manutenção da família, parte do princípio básico que a sua reprodução se constitui no autoconsumo. Em vistas do seu fortalecimento emergem outros debates de interesse social, especialmente no âmbito alimentar partindo do que trata a Lei Nº. 11.346 20

Essa lei apresenta no seu Art. 4º o seguinte esclarecimento acerca da SAN:

a ampliação das condições de acesso aos alimentos por meio da produção, em especial da agricultura tradicional e familiar, do processamento, da industrialização, da comercialização, incluindo-se os acordos internacionais, do abastecimento e da distribuição dos alimentos, incluindo-se a água, bem como da geração de emprego e da redistribuição da renda (BRASIL, 2006).

Em outras palavras, é imprescindível considerar a estreita relação entre a promoção para a segurança alimentar e nutricional e a agricultura familiar. Isso porque a forma de organização social da produção de alimentos, em bases familiares, se constitui num ponto fundamental para sua execução. Desse modo, pode-se pensar essa relação sob dois aspectos principais:

a) o primeiro de aumentar as possibilidades de ampliar a parcela da população rural acessar alimentos em quantidade e qualidade e,

b) o segundo o de aumentar a disponibilidade de alimentos, também em quantidade e em qualidade para a sociedade em geral.

Porém, é importante considerar algumas categorias para compreender, de fato, sobre o mecanismo que atua na cadeia alimentar (produção l autoconsumo), especificamente, das famílias rurais, objeto de estudo dessa pesquisa.

2.1 Agricultura familiar: o debate inacabado

20

Lei Nº. 11.346, de 15 de setembro de 2006, sancionada pelo então Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva que dispõem no seu caput sobre a criação do “Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional - SISAN com vistas em assegurar o direito humano à alimentação adequada e dá outras providências”.

Quando o inverno é constante O sertão é terra santa Quem vive da agricultura Tem muito tudo que planta. A fartura e boa safra Todo pobre pinta manta. (A vida sertaneja21 Antonio Batista Guedes)

Wanderley (2004) afirma que o Brasil apresenta uma realidade rural bastante diversificada e que existe uma possível ordem que favorece a compreensão desse meio rural brasileiro. A mesma categorizou como eixos norteadores de produção:

a) o primeiro refere-se ao lugar do campesinato na sociedade.

b) o segundo, por sua vez, trata da produção familiar frente à modernização da sociedade e da agricultura e que, segundo a autora, o conceito derivado de pequena produção foi deslocado pela noção mais apropriada de agricultura familiar.

c) já o terceiro eixo que contribui para o entendimento do rural aborda o significado tanto das fronteiras como lócus de gestação de utopias, como também geradora de frustrações da reforma agrária, deformada em projetos de colonização.

d) o quarto e último eixo norteador trata dos movimentos sociais agrários e sua capacidade de debater a reforma agrária.

Sendo assim, torna-se inevitável falar sobre o meio rural e não fazer referência ao que hoje se conhece por agricultura familiar. Muitos autores (Lamarche, 1993 e 1998, Wanderley, 2001, Abramovay, 1997, Germer, 2002, Bastos, 2004) consideram que o debate sobre agricultura familiar é relativamente recente no Brasil. Esse fato corrobora as inúmeras expectativas que existem tanto na academia como em outros campos que constroem a sociedade como movimentos sociais, instituições governamentais e não

21 In: CASTRO, J. GEOGRAFIA DA FOME – o dilema brasileiro: pão ou aço. Ed. 5ª. Editora O Cruzeiro. Rio

governamentais, além de outros segmentos. Afinal, políticas públicas são formuladas e executadas pelo Estado conforme o que rege o conceito de agricultura familiar, seja no viés econômico, seja no viés de inclusão social.

Contudo, afirma-se que é extremamente difícil conceituar e definir, categoricamente, o que vem a ser agricultura familiar. Para Lamarche (1993, p.15) “corresponde a uma unidade de produção agrícola onde propriedade e

trabalho estão intimamente ligados à família”. Já para Wanderley (2001,

p.22), “a agricultura familiar é um conceito genérico, que incorpora uma

diversidade de situações específicas e particulares”. A autora compreende a

agricultura familiar “como aquela em que a família, ao mesmo tempo em que

é proprietária dos meios de produção, assume o trabalho no estabelecimento produtivo” 22.

Tanto Lamarche (1993) quanto Wanderley (2001) concordam que não há uma ramificação direta do conceito de agricultura familiar, isto é, não há linearidade. Na verdade o que há é a possibilidade de coexistir em várias formas de produção familiar, desde o campesinato até a agricultura familiar. Estas mesmo estando inseridas no capitalismo, consideram comum nessas formas de produção a íntima relação no tripé constituído por trabalho, propriedade e família (Figura 4).

Figura 4. Esquema da relação das formas de produção.

Para Abramovay (1997) a terminologia agricultura familiar confunde e transforma em sinônimos de “produção de baixa renda”, “pequena produção” ou até mesmo “agricultura de subsistência”. Ou ainda, considera as grandes extensões territoriais trabalhadas por assalariados como a expressão mais acabada do desenvolvimento agrícola.

22

O agricultor familiar trabalha para si, com os seus e no que lhe pertence” (WANDERLEY, 2007). Notas do curso: O mundo rural do Nordeste: questões para reflexão.

TRABALHO

PROPRIEDADE FAMÍLIA

análise da questão agrária. Sobretudo no pensamento crítico brasileiro que, por sua vez, foi rapidamente substituído por teorias baseadas na hipótese da predominância da chamada produção familiar. O autor defende, ainda, que a agricultura familiar pode ser identificada sob dois aspectos diferentes:

1) o aporte teórico de Chayanov23 “que tendia a encarar a agricultura como espaço de uma produção ‘familiar’ entendida como tipo de uma organização produtiva dotada de uma lógica própria e por isso capaz de resistir à transformação capitalista” (GERMER, 2002, p. 47) e,

2) a seqüência cronológica no Brasil, a partir dos anos 70, que por sua vez, era baseada na tradição americana. O produtor familiar era visto como um empreendedor capitalista e arrojado “o homem da fronteira, o pequeno

industrial inovador, representado na agricultura pelo farmer 24” (GERMER,

2002, p. 48).

São muitas as contribuições acerca desse conceito, daí a dificuldade de torná-lo acabado, ou ainda restringí-lo a uma só teoria. São muitas as versões que se complementam e, principalmente, auxiliam para uma compreensão mais complexa. Ainda assim, Bastos (2004), refletindo sobre as “agriculturas familiares”, traz uma análise do pensamento de muitos dos autores citados anteriormente e sintetiza que

a condição básica da sua existência é o controle real, por menor que seja de meios de produção, como da terra, sendo essa condição que permite minimamente um domínio sobre a produção, distinguindo-se dessa forma o camponês do assalariado, do trabalhador rural propriamente dito, que sobrevive apenas do salário (BASTOS, 2004, p. 08).

Categorizar agricultura familiar não é o propósito desse capítulo, mas sim de estabelecer uma relação entre essa forma de produção com o que se rege o principio básico de segurança alimentar: ter acesso a alimentos em

23 Chayanov (1966) argumenta que “na exploração agrícola familiar, a família, equipada com meios de

produção, emprega sua força de trabalho no cultivo da terra, e recebe como resultado de um ano de trabalho certa quantidade de bens” (CHAYNOV, 1966. p. 137).

quantidade e qualidade. Atribuir tamanha responsabilidade a esse setor pode parecer que está, de fato, lhe conferindo proporções maiores que as reais.

Contudo, Maluf (2006) reforça essa assertiva usando os mesmos argumentos, quando afirma que o importante é saber que a agricultura familiar compõe um universo numericamente significativo de famílias rurais. Isso comprova que a agricultura, por si só, constitui importante componente de sua reprodução econômica e principal referência de identidade social, especialmente em se tratando de Brasil.

O mesmo autor ressalta que tal segmento enfrenta problemas de oportunidades desiguais em sua história de acesso e exploração da terra e de apropriação dos frutos de seu trabalho. O Brasil é, de fato, um país onde ainda se pode atribuir um papel relevante às famílias rurais e à agricultura familiar na construção de uma sociedade socialmente eqüitativa e ambientalmente sustentável.

De acordo com Schneider (2003), a discussão sobre a agricultura familiar vem ganhando legitimidade social, política e acadêmica no Brasil. E isso tem garantido a sua utilização com mais freqüência nos discursos dos movimentos sociais rurais, pelos órgãos governamentais e por segmentos do pensamento acadêmico, especialmente pelos estudiosos das Ciências Sociais que se ocupam da agricultura e do mundo rural.

Pode-se dizer, que a importância dada ao segmento da agricultura familiar não é recente. Contudo, são muitos os estudos que corroboram a assertiva de que apesar das dificuldades impostas a esse setor, cada vez mais o mesmo deixa de ser ator coadjuvante e passa a ser o ator principal, tanto no cenário nacional quanto no cenário mundial25.

Tal fato pode ser evidenciado nas agendas internacionais que tratam dos problemas de abastecimento, disponibilidade e acesso alimentar mundial com ênfase no combate à fome. No ano de 2006 o Dia Mundial da Alimentação

25 No Brasil a Lei nº 11.326, de 24 de julho de 2006 estabelece as diretrizes para a formulação da

Política Nacional da Agricultura Familiar e Empreendimentos Familiares Rurais, tamanha a representatividade desse segmento, não só para o abastecimento alimentar, mas também como uma organização social (Brasil, 2006b).

agricultura para garantir a Segurança Alimentar”.

No Brasil, esse tema sofreu uma pequena adaptação, uma vez que acrescentou o termo familiar à agricultura. Isso por entender que de fato, a maior parte dos produtores agrícolas é formada pelos agricultores “classificados” como familiares. E eles, também, tendem a ter acesso a uma alimentação precária ou inadequada, que lhes caracterizam como sendo a maior parcela da população sob risco de insegurança alimentar, como mostram os dados da Pnad (IBGE, 2004)27. Sendo assim, o tema proposto a ser

discutido durante a semana mundial da alimentação no Brasil foi: “Investir na

agricultura familiar para garantir a Segurança Alimentar”.

Um outro fator que legitima a agricultura familiar como sendo um componente importante no cenário atual é a formulação de políticas públicas voltadas para garantir o seu fortalecimento. Pode-se dizer que, de modo geral, os governos vêm atuando nesse sentido, especialmente para este segmento no sentido de enfrentar este quadro. Como exemplo, pode-se citar as modificações feitas no Plano de Safra para a Agricultura Familiar 2003- 2004. Concebido por um grupo interministerial a partir de indicação do Consea 28, e lançado pelo então Presidente Luiz Inácio Lula da Silva em abril

de 2003.

O mesmo previu grande ampliação dos recursos operacionalizados por meio de linhas de crédito do Programa Nacional para o Fortalecimento da Agricultura Familiar - Pronaf, que por sua vez teve suas linhas ampliadas. Aliado a esse plano o governo federal vem implementando o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) com o objetivo de garantir a comercialização da produção dos agricultores familiares e dos assentados da reforma agrária.

Muitos autores defendem que a tipificação da agricultura familiar deve ser cautelosa já que, principalmente no Brasil, dispõe-se de situações

26 O Dia Mundial de Alimentação de Alimentação é celebrado há 26 anos no dia 16 de outubro, com o

objetivo de estimular as discussões relacionadas à insegurança alimentar e nutricional que afetam centenas de milhares de pessoas no mundo inteiro. No Brasil, comemora-se a semana nacional da alimentação.

27 Mais adiante será feita uma análise sobre esses dados.

bastante diversificadas. Tanto em relação aos sujeitos (agricultores), quanto aos meios de produção.

Uma forma simples de entender essa afirmativa trata, por exemplo, da compreensão do que vem a ser a “agricultura familiar” na região Sul do país – calcada quase que exclusivamente na experiência dos estabelecimentos familiares rurais – e do que vem a ser “agricultura familiar” para as regiões Norte e Nordeste do Brasil que dispõem de formas bastante peculiares de reprodução. Afinal, como refere Lamarche (1993, p. 334) “a agricultura

familiar não é um elemento da diversidade, mas contém nela mesma, toda a diversidade”.

Em 1996, foi realizada uma pesquisa através da parceria do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária - INCRA e Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação - FAO (INCRA/FAO, 1996) e houve uma necessidade imediata de uma tipificação para os agricultores brasileiros. Os principais motivos giravam em torno da criação de uma metodologia de classificação desses grupos sociais para subsidiar a formulação de políticas públicas. Dessa forma, a posse e a gestão do espaço produtivo, bem como as análise das relações sociais de produção deu origem à diferenciação entre “agricultura patronal” e “agricultura familiar”.

Segundo o relatório a agricultura familiar passou então a ser definida por três características principais (INCRA/FAO, 1996):

1) a gestão da unidade produtiva e os investimentos são realizados por indivíduos que mantêm entre si laços de sangue ou de casamento;

2) a maior parte do trabalho é fornecida pelos membros da família; 3) a propriedade dos meios de produção (embora nem sempre da terra) pertence à família e é em seu interior que se realiza sua transmissão em caso de falecimento ou de aposentadoria dos responsáveis

Outro relatório resultante de um projeto de cooperação técnica entre INCRA e FAO (INCRA/FAO, 2000) intitulado “Novo retrato da agricultura

familiar: o Brasil redescoberto” que mantém os mesmos critérios de

classificação. Traça o perfil da agricultura familiar brasileira com base no Censo Agropecuário 1995/96, e a partir destes dados calcula o número de 4.859.864 estabelecimentos rurais no Brasil. Destes, 4.139.369 são

hectares (ha). E, 554.501 estabelecimentos, ocupando 240 milhões de ha, correspondem aos chamados agricultores patronais. Os agricultores familiares representam, 85,2% do total de estabelecimentos, ocupam 30,5% da área total. Esse relatório cita ainda, que a região Nordeste é a que apresenta o maior número de agricultores familiares, representados por 2.055.157 estabelecimentos (88,3%), os quais ocupam 43,5% da área regional.

Diante destes fatos fica evidente a relação desigual imposta ao ‘pequeno’ setor produtivo - leia-se agricultura familiar - por parte das grandes propriedades. Cada vez mais, os agricultores têm sofrido as conseqüências deste processo, especialmente aqueles, cujo volume produtivo é pequeno.

Convém evidenciar que não se pretende aqui esgotar a discussão do conceito de agricultura familiar, mas sim de abarcar o que sustenta o Estado no âmbito da formulação de políticas públicas para a sua permanência no cenário econômico, político e social brasileiro.

2.2 “Com a faca e o queijo na mão?”: produção para o autoconsumo

Pois aqui vive o matuto De ferramenta na mão. A sua comida é sempre Mio, farinha e fejão. (Coisas do meu sertão

Patativa do Assaré)

Um outro ponto que assume certa relevância no contexto da agricultura familiar é o destino da sua produção. Dentre os principais autores que trabalharam essa temática, destaca-se Alexander Chayanov. As contribuições desse autor instigam e inspiram muitas pesquisas nessa área. Em termos gerais o mesmo procurou entender e acima de tudo explicar a natureza intrínseca das comunidades campesinas, analisando os fatores internos de produção e a sua capacidade de explicar as formas de reprodução.

Nesse sentido, Wanderley (1998) uma das autoras que tem contribuído imensamente para compreensão da sua obra, partindo de Chayanov29 (1966) sugere que a reprodução do patrimônio depende do rendimento obtido na atividade produtiva. Tal rendimento não pode ser dividido. Na unidade familiar de produção, ao contrário, o resultado da produção constitui um rendimento do qual é impossível separar o que foi gerado pelo trabalho, pelo capital ou como renda da terra. “... é com esse rendimento indivisível que o

produtor deverá prover, ao mesmo tempo, a empresa familiar dos recursos produtivos que necessita, e a própria família do fundo de consumo necessário à sua manutenção” (WANDERLEY, 1998, p.32).

Wanderley (1998) afirma ainda, que o produtor executa o que Chayanov definiu como sendo balanço entre trabalho e consumo, isto é, entre o esforço

29 Segundo Chayanov (1966) “a quantidade do produto trabalhado é determinada principalmente pelo tamanho e a composição da família trabalhadora, o número de seus membros capazes de trabalhar, e, além disso, pela produtividade da unidade de trabalho e – isto é especialmente importante – pelo grau de esforço do trabalho, o grau de auto-exploração através dos qual os membros trabalhadores realizam certa quantidade de unidades de trabalho durante o ano” (CHAYANOV, 1966, p. 138).

família (WANDERLEY, 1998).

Esse balanço entre trabalho e consumo foi de certa forma, descrita de maneira mais erudita por Antônio Cândido em sua célebre obra “Os parceiros do Rio Bonito” (1998), cuja primeira edição data de 1964. Esta, por sua vez, desvenda os vários aspectos de produção e reprodução social do caipira e sugere que, ao estudar o trabalho, a alimentação, os costumes, enfim, a vida do trabalhador rural, pode-se falar numa sociologia dos meios de vida. Esse autor enfatiza a questão da alimentação que nos permite visualizar tanto a mobilização de trabalho e recursos sociais na sua obtenção, bem como significados simbólicos e formas de sociabilidade:

a alimentação ilustra o caráter de seqüência ininterrupta, de continuidade, que há nas relações do grupo com o meio. Ela é de certo modo um vínculo entre ambos, um dos fatores da sua solidariedade profunda, e, na medida em que consiste numa incorporação ao homem de elementos extraídos da natureza, é seu primeiro e mais constante mediador (CÂNDIDO, 1998, p.28).

Como Chayanov o autor usou na discussão de sua obra uma terminologia por ele criada e definida como mínimos vitais e sociais, em sentido comparativo (p. 27) que, por sua vez, remete o leitor a pensar sobre as formas e estratégias usadas pelos caipiras para a produção e aquisição de alimentos.

Em outra passagem da sua obra, Cândido (1998, p. 65) chama atenção para a questão da possibilidade que a produção familiar traz no que concerne à questão do abastecimento alimentar: “Sabemos que, no regime da economia

de subsistência, é possível exercer as atividades da lavoura em base exclusivamente familiar – cada família bastando-se a si mesma e podendo, em conseqüência, viver relativamente isolada, sem integrar-se noutra estrutura mais ampla”.

Outra obra considerada também clássica nesse debate é “Plantar, colher e comer” de Carlos Rodrigues Brandão (1981). Neste trabalho o autor revela várias dimensões do modo de vida, entre elas o tipo de relação de trabalho para obtenção do alimento, a comensalidade, os valores simbólicos específicos de seu patrimônio sociocultural.

Quando ele fala a respeito de seu trabalho, está falando sobre como e onde produz, adquire e consome alimentos. Entre as muitas e complexas atividades e relações de produção direta de alimentos de origem vegetal e animal; entre esforços por fazer circularem tipos de “mantimento” (BRANDÃO, 1981, p. 8).

O que mais uma vez reforça a assertiva sobre o que representa a produção destinada ao autoconsumo familiar. A questão da produção para o autoconsumo, como foi dito anteriormente, sempre foi muito importante, embora haja registro de que essa prática vem, paulatinamente, cedendo o seu lugar em favor da aquisição de alimento via mercado.

As Pesquisas Nacionais por Amostra de Domicílios - Pnad fornecem duas indicações distintas do autoconsumo das famílias agrícolas:

1) as pessoas que se dedicam exclusivamente às atividades agrícolas para o consumo próprio;

2) a proporção da alimentação consumida proveniente da produção agropecuária desenvolvida no empreendimento.

Leite (2003) compreende autoconsumo como sendo a parcela da produção agropecuária realizada no estabelecimento e destinada ao consumo alimentar dos membros da família. Também à alimentação animal e outros usos na atividade produtiva, ou seja, ao consumo produtivo desse excedente.

Alguns estudos realizados em assentamentos ou em comunidades rurais buscaram quantificar a produção de autoconsumo junto às famílias para estimar as quantidades produzidas e consumidas na propriedade como alimentação.

que o autoconsumo é praticado pela maioria dos agricultores assentados, mas de forma diferenciada. A estratégia da prática do autoconsumo familiar auxilia em sua manutenção para que essas possam continuar tentando reorganizar a produção agropecuária, também, para o mercado.

O mesmo autor enfatiza, ainda, que a prática do autoconsumo pode ser então compreendida como um dos instrumentos de resistência da agricultura familiar. Variável conforme a conjuntura e a região dos pais, visando garantir suas condições mínimas de reprodução, ou ainda permitir que a renda monetária oriunda da comercialização da produção agropecuária tenha outro destino que não à alimentação (NORDER, 1997).

Santos e Ferrante (2003), a partir de uma amostra de 70 famílias do universo de todos os projetos de assentamentos no estado de São Paulo, revelam que o valor que o assentado deixa de gastar pelo fato de produzir alimentos é de R$ 402,17 per capita. Isso gera uma economia anual de R$ 2 mil por família. Além disso, o que é produzido no lote chega a representar 58% do gasto com alimentação.

Mesmo considerando as formas diferenciadas de produção para o autoconsumo, percebe-se que essa prática possui características específicas:

Belgede Havranlı Koca Seyit Ve Çanakkale (sayfa 112-118)