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1.2. İSLAM’DA İKTİSAT KAVRAMI VE EKONOMİ ANLAYIŞI

1.2.5. Çağdaş Ekonomik Doktrinler ve İslam

1.2.5.2. Komünizm

Parto do pressuposto, para o desenvolvimento desse tópico, que Estratégias Sociais sejam compostas por dimensões presentes nas Estratégias de Não mercado, já que procuro desafiar a concepção de que estratégias (e também Gestão Estratégica) seja exclusivo de grandes corporações, sobretudo àquelas que envolvam e impactem na sociedade. É curioso apontar que mesmo em um passado aparentemente distante, Karl Polanyi já delineava aspectos políticos e sociais relativos às questões que mais tarde seriam classificadas como aspectos do não mercado, ao se referir aos processos de cooptação, influência política, além de outros, decorrentes de uma espécie de contra movimento não necessariamente planejado:

[...] “a própria coroa apelou repetidas vezes para o apoio das classes

trabalhadoras na tarefa de realizar a centralização e a unidade imperial. Assim, através da sua influência na legislação, os partidos socialistas e os sindicatos profissionais encontraram muitas aberturas para atender aos interesses do trabalhador industrial também nessa esfera mais ampla”. (Polanyi, 2001 [1944],

p.211).

Em função da histórica subordinação da área de GE ao projeto de globalização neoliberal, qualquer dimensão de conhecimento que destoasse da lógica econômico-financeira, deveria ser omitida da literatura, implicando em um grande atraso no campo, consequência de seu amplo distanciamento das muitas realidades sociais. Essas imensas lacunas na área de GE, quando se tornaram insustentáveis, fomentaram a produção do conceito de não mercado e suas respectivas estratégias de não mercado, sobretudo nos Estados Unidos (ver especialmente, Baron, 1995a; 1995b).

Os interesses oriundos do projeto neoliberal, em grande parte, compartilhados por diversos autores do campo de GE, sobretudo dos EUA, nortearam a construção do conhecimento de estratégias de não mercado, de maneira partidária às suas respectivas causas, o que ajuda a explicar o intencional descasamento de questões como problemas sociais e mobilização da opinião pública, do ente mercado (ver Baron, 1995a; 1995b; 2010; Boddewyn, 2003; Bach & Allen, 2010). Não por acaso, a dimensão de conhecimento correlata aos muitos problemas, ganhou o prefixo de negação “não” (do inglês non), como forma de dissociar problemas gerais, da figura de mercado. Contudo ao recorrer a tese do duplo movimento de Karl Polanyi, é possível identificar inúmeras pistas que nos levam à origem desses problemas – a sociedade de mercado –, ainda que a literatura em GE tenha tentado camuflar sua coparticipação, escondendo-a atrás de um “não”. Sob essa lógica, a literatura hegemônica em GE tem classificado tudo aquilo que desafia o conceito dominante de mercado como “não mercado” (nonmarket, non market, ou ainda non-market), desconsiderando questões subjacentes aqui tratadas. Por sua vez, esta conceituação de não mercado tem sido usada como justificativa para intervenções (geo)políticas de grandes corporações em diversos países do resto do mundo por meio de ‘estratégias de não mercado’, como por exemplo o caso da indústria farmacêutica Novartis que, ao mesmo tempo que procura cooptar governo e legislativo em seu favor, promove a distribuição de medicamente como suposta atividade de Responsabilidade Social Corporativa, no intuito de reforçar a aceitação de suas demandas de lobby (ver Bach & Allen, 2010).

Ao evidenciar que um dos propósitos da estratégia de não mercado seja “[...] moldar o ambiente de mercado das firmas, similarmente às práticas de lobby das firmas em relação à legislação, com a finalidade de minimizar barreiras comerciais”, é possível notar que embora Baron (1995a, p.48) se atente às questões sociopolíticas negligenciadas pela área de GE, permanece atado aos pressupostos (neo)coloniais e neoliberais de mercado, ao prescrever imperativamente formas de impor seu conhecimento por meio da ação de ‘moldar’ seu macroambiente, numa alusão ao controle das forças sociais de autoproteção. O autor propõe um modelo de inter-relação entre o que define por ambientes de mercado e de não mercado, no entanto, em diversos trechos do texto, o mesmo apresenta uma evidente hierarquização entre o que ele chama de não mercado e mercado, reforçando sua crença neoliberal subjacente.

Apesar de declarar e defender a importância do não mercado, David Baron aparenta acreditar no caráter anômalo do fenômeno, e que o mesmo tenha surgido – assim como governos – para atender e se subordinar ao mercado, numa clara representação da perspectiva imperialista neoliberal, que pode ser constatada, por meio de uma (entre muitas) forte afirmativa no texto de Doh, Lawton e Rajwani (2012)24. No texto, os autores reforçam mais claramente a

ideia de Baron, ao apontarem, sob uma vertente geopolítica, que os países subdesenvolvidos é que são responsáveis pelo ‘lado negro’ do não mercado, e que o problema está enraizado nessas sociedades, que ainda não foram capazes de estabelecer o mercado livre em sua plenitude. É curioso que em momento algum os autores são capazes de reconhecer que esses mesmos ‘problemas’ possam ser respostas ao problema subjacente – o Projeto Neoliberal. Talvez a perspectiva americana, reforçada pelos locais onde esses autores foram educados, ajudem a explicar essa visão conformada de sociedade, o que vem a reforçar uma constante prática na literatura de GE produzida no espaço estadunidense, em que tudo o que desafia o conceito dominante de mercado, ou apresenta características sociais e políticas, seja classificado e, por vezes, rebaixado ao status de não mercado (Faria & Abdalla, 2014a). No entanto, é de central importância destacar que para algumas nações, em especial aquelas com moldes próximos à brasileira, o conceito refletido de não mercado mostra-se mais relevante que o conceito de mercado cunhado nos padrões neoliberais (Faria & Abdalla, 2012), pois se aproxima da(s) realidade(s) de nações como o Brasil, em que o clamor da sociedade por proteção e resolução de seus problemas, parece ser mais evidente e menos ofuscado pelo neoliberalismo. A

24“The nonmarket context also has a darker side, where corruption and immoral practices can dominate. This is

a result of rent-seeking behavior often endemic in nonmarket strategy, which can include everything from legal forms such as lobbying to illegal forms such as bribe paying. Dishonesty and exploitation can thus determine the nature of a nonmarket strategy. This is particularly evident in many emerging markets, where high levels of corruption are the norm.” Doh, Lawton e Rajwani (2012, pp.23-24).

teorização pelas bordas, ao invés do centro hegemônico, pode ser uma importante e eficaz alternativa ao projeto neoliberal.

A tese de Polanyi, embora aparentemente útil à compreensão dos problemas decorrentes da sociedade de mercado, conforme Munck (2006) e Dale (2013), não consegue prever como o contra movimento iria se manifestar. Para Polanyi, o neoliberalismo sucumbiria em breve, mediante uma sequência que previa o contra movimento (como segunda onda), seguido por um processo de tensões perturbadoras e finalizando com um modelo de resolução socialista (Polanyi, 2001 [1944]). Contudo, a segunda onda não ocorreu, e o projeto neoliberal ainda que “ardendo em fogo lento”, mantém-se ativo numa forma zumbificada (Crouch, 2011; Peck, Theodore & Brenner, 2012; Dale, 2013), provocando problemas diversos e, por conseguinte, demandando também esforços diversos para o tratamento dessas mazelas. A aparente esperança de uma de uma virada por parte do Estado, como ente protetor da sociedade, também não ocorreu e, ao contrário, ampliou problemas com a opção (ou imposição) de muitos governos e nações pelo neoliberalismo. Baseado nesse problemático quadro é possível questionar se o Estado deve ser posto na posição de cumpridor desse papel de forma singular. É possível ainda questionar se outros atores da sociedade civil não estariam aptos a cumprir com essa tarefa de autoproteção (em alguns casos até de forma mais eficaz que o próprio Estado).

Com a emergência desses diversos atores sociais, característicos a cada contexto social, como decorrência dos problemas específicos de cada sociedade, a literatura de GE, sem alternativas, definiu o ambiente de não mercado como uma composição estratégica inter- relacionada de organizações com atores como mídia, entidades reguladoras, governos, cidadãos, ONGs, grupos ativistas e legisladores (Bach & Allen, 2010; Baron, 1995a; 1995b; 2010). Em contextos específicos, é possível destacar atores singulares importantes aos processos estratégicos como, por exemplo, grupos religiosos (e religiões) (He, 2006), associações de classe, associações de moradores, grupos aborígenes locais, sindicatos, além de outros atores que podem também ser classificados como constituintes do não mercado (ver Andrade, 2001; Abdalla, 2011), e potenciais atores para mobilização de Estratégias Sociais frente ao neoliberalismo. Em outras palavras, o quadro de possibilidades para a manutenção da representação de “mal necessário” (segundo a literatura dominante) tornou-se ilimitado (Faria & Abdalla, 2014a).

Mediante a amplitude da temática, o tratamento generalizado e universalizado do fenômeno torna-se inviável, dadas as inúmeras possibilidades, decorrentes de cada contexto. A exemplo, a própria teorização de Polanyi (2001 [1944]), por sua característica tipicamente

eurocêntrica e universalista, carece de um repensar, já que credita todos os problemas a um único tipo de mercado e a um único tipo de capitalismo, desconsiderando possibilidades ‘outras’, inerentes a outros modelos de mercado e outros modelos de capitalismo como, por exemplo, aqueles presentes em contextos ‘outros’ como América Latina e China.

Sob essa lógica, é cabível exemplificar dimensões do não mercado no próprio lócus de conhecimento dessa tese, ainda que tais elementos sejam mais bem tratados a posteriori. Numa breve análise do contexto da empresa Eletronuclear, adotando como pano de fundo a tese de duplo movimento de Polanyi preliminarmente refletida, tomando por base situações inerentes às suas práticas e ao seu mercado, e inspirado pelas análises desenvolvidas em Fernandes, Bandeira-de-Mello, & Zanini (2012), pode-se vislumbrar inúmeras questões decorrentes dessas práticas. Dentre as questões e atores, é possível destacar (i) o governo e seus Ministérios (por exemplo, Ministério de Minas e Energia e Ministério do Meio Ambiente); (ii) a mídia global; (iii) organizações ativistas como, por exemplo, o Greenpeace; (iv) a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN); (v) o Congresso Nacional; (vi) comunidade local; além de diversos outros atores-chaves, que também podem ser visualizados em Macedo-Soares e Figueira (2007). Cabe apontar que nenhum desses atores relaciona-se diretamente aos propósitos do mercado neoliberal, no entanto, a maior parte surge como decorrência dele, como forma de proteger a sociedade de possíveis problemas não apenas sociais, mas também políticos, públicos, além de outros.

O Ministério do Meio Ambiente (i), por exemplo, desempenha um papel chave no processo de autorização de construção de usinas nucleares, por meio do licenciamento ambiental. De acordo com o órgão, o processo de licenciamento ambiental “[...] tem, por princípio, a conciliação do desenvolvimento econômico com o uso dos recursos naturais, de modo a assegurar a sustentabilidade dos ecossistemas em suas variabilidades físicas, bióticas, sócio-culturais e econômicas” (Ministério do Meio Ambiente, 2013), indicando a necessidade de regular a inserção de organizações em localidades. É possível, com base na própria definição, vislumbrar uma tentativa de conter parte dos problemas decorrentes da ação do mercado, buscando impor barreiras que dificultem a criação de problemas maiores, antes não considerados. Por outro lado, o processo de compensações ambientais (e também sociais), largamente instituído mediante a instalação de grandes projetos, pode se configurar em um problema, à medida que se mercadifica o direito de poluir, desmatar e impactar sociedades (Porto-Gonçalves, 2012).

A mídia global (ii) tem papel chave, e por vezes problemático, na mobilização da opinião pública, em especial ao noticiar ocorrências como o acidente nuclear ocorrido em Fukushima (Japão) em 2011. Para se ter uma dimensão da mobilização da opinião pública proporcionada pela mídia, e consequente modelagem das políticas públicas setoriais, após o acidente de Fukushima, mudanças rápidas foram introduzidas nas propostas desenhada no documento “Matriz Energética Nacional 2030”, paralisando o objetivo de construção de novas centrais nucleares no país, reforçado pelas palavras do próprio secretário executivo do Ministério de Minas e Energia, Márcio Zimmermann, que além de Angra III (em construção no período de desenvolvimento dessa tese), não há nenhuma previsão de construção de outra central nuclear até 2021 (Gonçalves & Torres, 2012), período aparentemente suficiente, suponho, para a opinião pública ser moldada por ações de governo, e pelo contexto geopolítico. Os movimentos sociais e as organizações ativistas (iii) desempenham papel interessante e perturbador ao marcado neoliberal, ao darem voz à sociedade e à comunidade local (vi) em prol de suas causas. Esses atores, talvez sejam parte da mais pura expressão de autoproteção, por parte da sociedade, ainda que sejam passíveis de crítica. Um exemplo interessante é o Greenpeace, que procura legitimar sua posição ao defender interesses sociais, se colocando fortemente contra a Eletronuclear, no Brasil. Curiosamente, essa organização, que procura adotar uma postura cosmopolita, é intensamente financiada pela coroa inglesa, nação detentora de ogivas nucleares, além de instituições norte americanas, país com maior potencial de geração de energia nucleoelétrica no mundo, com o maior número de usinas em funcionamento (104 usinas) e também com a maior capacidade bélica nuclear do mundo. Também é interessante reportar o fato de que um dos fundadores do Greenpeace, Patrick Moore, além de James Lovelock, ambientalista criador da teoria de Gaia, ambos fortes ex-opositores da energia nuclear, atualmente defendem seu uso e geração, sob o argumento de que a mesma pode ser uma importante alternativa às emissões de gases prejudiciais ao aquecimento global (Vichi & Mansor, 2009; Taylor, 2013). O reconhecimento dos movimentos sociais pela área de GE é muito pequeno, tendo surgido recentemente, em decorrência dos ‘problemas’ gerados, e da necessidade de grandes empresas tratarem desses problemas, concebendo o que David Baron chamou de Private Politics (Baron, 2001; 2003; Baron & Diermeier, 2007). É importante apontar que a compreensão desses fenômenos vem despertando pouco interesse aos pesquisadores, sobretudo no campo da gestão. A tentativa de Rosa et al. (2009) e de Coelho e Dellagnelo (2012) em identificarem características da produção sobre movimentos sociais em

gestão no Brasil demonstram essa incipiência do campo, potencializada pelo baixo interesse dos pesquisadores pela temática.

A Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) (iv) opera como um agente de regulação das atividades relativas à energia nuclear no Brasil. No entanto, o cenário de regulação nuclear brasileiro sofre com conflito de agência, já que a comissão reguladora, responsável por todo o processo de fiscalização, é também proprietária da INB (Indústria Nuclear Brasileira), responsável pela produção de pastilhas de urânio enriquecido (Kuramoto & Appoloni, 2002; Alvim et al. 2007; Silva, 2009). A situação denota um apoio governamental velado ao mercado de energia nucleoelétrica em detrimento do tratamento de questões e problemas sociais como, por exemplo, a segurança da população do entorno, além do próprio risco geopolítico, inerente à ameaça da soberania nacional frente aos interesses bélicos de outras nações, em nossas reservas de urânio, em nosso processo tecnológico de enriquecimento, além de outros interesses. Segundo Alvim et al. (2007) o problema é reconhecido publicamente pelos dirigentes da CNEN, embora o quadro não aparenta sinalizar mudanças.

Como último aspecto da exemplificação, o Congresso Nacional (v), responsável pelos trâmites legislativos inerentes à atividade nuclear no Brasil pode ser considerado um importante ator de ‘não mercado’ no contexto setorial da energia nuclear. Usando ainda como suporte, o poder mobilizado pela mídia e pela opinião pública, é possível recuperar como exemplo, o projeto de lei n.405 de 2011, do Senador Cristovam Buarque, que sugere, com clara base no acidente nuclear de Fukushima (Japão), a suspensão, pelo prazo de trinta anos, a construção de novas usinas termonucleares no Brasil. Apesar do exercício de sua função, é sabido que uma decisão de tal magnitude, não é tomada tão facilmente, sobretudo se os interesses do poder executivo (neste caso, diretamente filiado ao mesmo partido político) a esse respeito, forem divergentes.

Com base na prévia descrição desenvolvida, é possível evidenciar a dificuldade, senão impossibilidade, de tratar genericamente ‘problemas sociais’, desconsiderando seu respectivo lócus. Nesse sentido, é possível sugerir que as estratégias de não mercado devam ser conectadas a cada tipo de realidade e contexto, não sendo recomendável desenhar modelos universais ao seu respeito, sob pena de incorrer no problema aqui criticado – da imposição teórica unipolar e universal, ao invés de multipolar e pluriversal. É preciso compreender, sob uma lógica decolonizada, que cada lócus de conhecimento e cada mercado, apresentam problemas específicos – não apenas sociais, mas também (geo)políticos, geográficos, de segurança, além

de outros, tais quais apresentados – demandando que cada caso seja tratado como único, diferentemente do que a literatura ‘universal’ busca defender.

Levy, Alvesson e Willmott (2003) abrem uma crítica direta à proposta de Baron (1995a), de dicotomizar e, após isso, inter-relacionar mercado e não mercado. Os autores argumentam que o processo de dicotomização é insustentável e que a questão é muito mais complexa que simplesmente propor um modelo de integração, com a finalidade econômica ortodoxa de atingir obviamente, os objetivos econômicos organizacionais, desconsiderando o clamor social pela resolução dos problemas causados pelo mercado e pelas organizações. É possível tomar o exemplo do contexto em que se insere a Eletronuclear como objeto de reflexão. Convido o leitor a refletir sobre o contexto da empresa sem as forças de contra-movimento presentes nas relações/atores das estratégias de não mercado. O leitor atento perceberá que sobrarão poucos elementos (se é que sobrarão), dado o complexo e abrangente modelo de governança desenvolvido pela empresa. No entanto, tomando o mesmo exemplo às avessas – ou seja, removendo as estratégias de mercado – ainda é possível notar diversos elementos e, por que não, acreditar que a mesma continue operando? Esse exercício ajuda a alargar a compreensão da crítica desenvolvida por Levy, Alvesson e Willmott (2003), além da reivindicação pela ampliação da importância dos atores historicamente negligenciados na literatura tida como ‘especializada’. O exemplo confronta diretamente a tese do neoliberalismo.

Boddewyn (2003), embora proponha um aprofundamento do conceito de não mercado, também descreve possíveis problemas inerentes ao processo de dicotomização entre mercado e não mercado. Dentre eles, é possível destacar: (i) a possibilidade de prejuízo às organizações que operam com modelos híbridos de gestão e às organizações que não objetivam primariamente lucros, como por exemplo, a Eletronuclear e parte expressiva das organizações no Brasil; (ii) a percepção de que existam duas subcategorias internas ao mercado, e que ambas sejam mutuamente excludentes, ou ainda, que mantenham relações de subserviência; (iii) a discordância de estrategistas, pesquisadores e praticantes, que atuam em organizações não comerciais (e.g. estrategistas de organizações públicas, tal qual a Eletronuclear); (iv) as confusões e maus usos dos termos mercado e não mercado, muitas vezes tratados como antônimos. Além dessas categorias-problemas apontadas pelo autor, destaco que aparentemente a dicotomização parece estar mais atrelada aos propósitos neoliberais, já que polariza e hierarquiza os conceitos com base na fictícia relevância dos mesmos e, a partir de então, concebe não mercado como ‘problema’ ou ‘mal necessário’, tipicamente inerentes às economias menos desenvolvidas, ao invés de reconhecer que essas mesmas ‘economias menos

desenvolvidas’ careçam de teorizações mais alinhadas às suas necessidades e contextos. A perspectiva decolonial é de central importância para suportar o desafio a essa lógica, permitindo que o mercado neoliberal seja des-celebrado, ao passo que o não mercado refletido seja des- subalternizado, por meio de um olhar fronteiriço (Faria & Abdalla, 2014b).

O processo de polarização entre mercado e não mercado parece reproduzir os modelos de segregação e polarização entre Norte-Sul, Ocidente-Oriente e Estado-Mercado. Ainda que para fins didáticos, fragmentar de forma estanque Estado e Mercado em duas esferas distintas e incapazes de se misturar já tenha se mostrado demasiadamente problemático (para maior clareza, ver Faria & Imasato, 2007), na medida em que essas dimensões relacionam-se e se sobrepõem na maior parte do tempo. Não por acaso, Arrighi (2012[1944], p.10) defendeu que:

“[...] na visão convencional das ciências sociais, do discurso político e dos

meios de comunicação de massa é que capitalismo e economia de mercado são mais ou menos a mesma coisa, e que o poder do Estado é oposto a ambos. Braudel, ao contrário, encara a emergência e a expansão do capitalismo como absolutamente

dependentes do poder estatal [...]”.

O projeto neoliberal segregou política de economia, inferiorizando a primeira, em benefício da segunda, deixando a sociedade, por conseguinte, a margem de todo esse debate. Dessa forma, estabeleceu-se uma lógica de importância para tratamento de problemas, sendo os econômicos os mais relevantes e os sociais os menos relevantes. O próprio Polanyi (2001 [1944], p.261) apontava sinais dessa separação, ao alegar que o indesejado processo de intervencionismo político no mercado neoliberal [...] “nada mais era que um outro nome para a separação entre as esferas econômica e política”.

Como forma de melhor fundamentar esse debate, desafiando a lógica que sociedade deva permanecer à margem de mercado, defendo a possibilidade de diálogos entre campos de conhecimento. Mais claramente, ao aproximar a literatura relativa às estratégias de não mercado, com a teorização ‘outra’ de mercado, desenvolvida pela Nova Sociologia Econômica, em especial de Neil Fligstein, é possível perceber grande semelhança entre ambas, sobretudo no que diz respeito ao reconhecimento de atores negligenciados pela teorização dominante de mercado (e suas respectivas relações), atores esses que defendo serem responsáveis pelos processos de contra movimento do mercado, sob a forma de Estratégias Sociais. Defendo que