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İslam’a Göre Ekonomik Sistem

1.2. İSLAM’DA İKTİSAT KAVRAMI VE EKONOMİ ANLAYIŞI

1.2.5. Çağdaş Ekonomik Doktrinler ve İslam

1.2.5.3. İslam’a Göre Ekonomik Sistem

Em consonância com a perspectiva transmoderna de Dussel (2005) que, dentre outras propostas, visa à promoção de teorizações fronteiriças, ainda que distantes no tocante à geopolítica do conhecimento, procuro avançar na ideia de abraçar não apenas teorizações do Sul, mas também do Norte (Domingues, 2002; Mignolo, 2010; 2011; Wanderley & Faria, 2012), e evitar assim, cometer o mesmo problema de segregação, colonialidade e estabelecimento de fronteiras que aqui critico. Assim, proponho com base em uma perspectiva europeia (ver por exemplo, Whittington, 2004), no entanto não perdendo de vista meu lócus de teorização, a aproximação da área da área de GE aos problemas sociais e à sociologia25 e, por conseguinte, ao conceito de estratégia de não mercado. Embora a economia pareça ser o único campo com autoridade legítima para teorizar mercado, a Nova Sociologia Econômica – com destaque para os trabalhos desenvolvidos por Neil Fligstein (e.g. Fligstein & Freeland, 1995; Fligstein, 1996; 2001; Fligstein & Sweet, 2002; Fligstein & Dauter, 2007; além de outros), sobretudo por sua abordagem de construção (e manutenção) de mercados – além da consideração de aspectos políticos, tem muito a oferecer ao campo de GE e sua ampliação em GAE, já que GE, orientada pela lógica neoliberal, negligenciou historicamente essas dimensões. É válido mencionar que, embora haja forte similaridade entre o conceito de não mercado e a compreensão de mercado pela sociologia dos mercados, que inclui sociedade e os problemas de estabilidade do mercado neoliberal, tal qual preconizou Polanyi (2001 [1944]), o conceito de não mercado é virtualmente inexistente na literatura de sociologia dos mercados (Fligstein & Dauter, 2007), que preferiu não ocultar sociedade por traz do “não”.

25 Tomando por base as reflexões desenvolvidas no tópico 2.3.1 (Repensando Sociedade a partir de Territórios ‘Bárbaros’).

Apesar dos recentes avanços com o intuito de aproximar a área de GE ao campo da sociologia, a problematização do mercado continua sendo uma lacuna importante, especialmente pelo avanço da teorização hegemônica, baseada na dicotomização hierárquica entre mercado e não mercado (e também entre Mercado e Estado), em situações que essa mesma teorização dominante reconhece o fenômeno não mercado. Assim, defendo a viabilidade de emprego da sociologia dos mercados, proposta por Neil Fligstein (como uma vertente da Nova Sociologia Econômica), associada à perspectiva decolonial, para promover teorizações ‘outras’ sobre mercado na área de GE/GAE, como por exemplo, a promoção de Estratégias Sociais, como forma de desafiar o neoliberalismo e suas consequências.

A Nova Sociologia Econômica permite conceber contribuições à teorização de mercado, ao reconhecer atores e relações sociais e geopolíticas, até então negligenciadas pela economia neoliberal, baseada na crença que esses mesmos atores e relações sucumbiriam ao poder do mercado e jamais mobilizariam contra ele. O próprio exemplo preliminar desse estudo, desenvolvido com base na Eletronuclear demonstra que a lógica neoliberal estava equivocada. Para Fligstein (2001, p.30), os mercados:

“[...] são arenas sociais que existem para a produção e venda de alguns bens

e serviços, e são caracterizados pelas trocas estruturadas. Trocas estruturadas implicam que os atores esperem trocas repetidas para seus produtos e assim, precisem de regras e estruturas sociais para orientarem e organizarem essas trocas”.

Com essa definição, o autor adiciona possibilidades de regulação e governança sociais à estrita concepção econômica de mercado livre, ao reconhecer que o mesmo depende não apenas de regras econômicas (como oferta e demanda), mas também de regras, estruturas e estratégias sociais, ao qual coloco-me particularmente mais interessado, sobretudo pela crença e engajamento com a ideia de que esse mercado não é capaz de ser livre, ou seja, de se autorregular e de se auto gerir. Sob a visão de Fligstein (2001), as regras e estruturas sociais que orientam os processos de trocas, podem ser organizadas em quatro categorias genéricas, conforme apresentadas no quadro 2. Cabe destacar, no entanto, que ao propor categorias ‘genéricas’ o autor promove a imposição de seu conhecimento frente aos demais conhecimentos possíveis, num claro movimento de colonização do conhecimento, comum ao seu lócus de formação. Nesse sentido, vale asseverar que não apenas é possível, mas muito provável que o campo brasileiro e, especificamente o contexto que cerca a organização Eletronuclear, demande

por outras categorias (ou dimensões) de análise que venham a surgir do próprio lócus de conhecimento.

Quadro 2: Estruturas Sociais que Regem o Mercado

Categorias Descrição

Direitos de Propriedade

Faz-se necessário nos mercados para definir as relações sociais entre proprietários e sociedade. Essa é uma categoria com forte orientação política já que, de acordo com Fligstein, se caracteriza por um processo dinâmico e contestável, com influência direta de muitos atores como grupos de empresários organizados, trabalhadores, agências governamentais e partidos políticos. Segundo Evans (2004), a corrente imperialista neoliberal tende a defender que disputas por

Direitos de Propriedade sejam indicativos das frustrações dos países pobres sobre

a suposta capacidade dos países ricos para continuar monopolizando os retornos sobre inovações.

Estruturas de Governança

Essa categoria trata especificamente das forças de controle da competição, concorrência e cooperação. Essas forças ou regras de controle podem apresentar- se de duas maneiras: formais (e.g. leis antitrustes) e informais (e.g. rotinas, associações profissionais, etc.).

Concepções de Controle

Referem-se às percepções, entendimentos e visões (de mundo) dos atores envolvidos em um dado mercado. Traduzem-se na estruturação interna das organizações (sob a forma de hierarquia); ou externa, relacionando status, táticas de competição e cooperação, além de relações de regulação, em suas diversas formas. É uma categoria que reflete bem os processos colonialistas, em especial, originários dos espaços Euro-Norte-Americanos.

Regras de Troca

As Regras de Troca determinam quem pode negociar com quem e as condições nas quais essas negociações evoluem. De acordo com o autor, elas devem ser estabelecidas com relação ao transporte, cobrança, seguro, circulação de dinheiro e garantia de contratos. Analogamente à Concepção de Controle, as Regras de

Troca também apresentam relação com os processos políticos de regulação.

Fonte: Desenvolvido pelo autor, com base em Fligstein (1996; 2001).

Além de trazer contribuições sociológicas à teorização de mercado, Fligstein (1996, p.670) destaca o imperativo de se pensar mercado como política, ao propor que “[...] mercados são construções sociais que refletem a construção política co-cultural singular de suas empresas e nações”. O autor defende que a formação de mercados está intimamente relacionada à própria formação dos Estados, reforçando a minimização do afastamento entre Estado e Mercado, e que o interesse da manutenção da estabilidade desses mercados – em relação às forças de contra movimento (Polanyi, 2001[1944]) – é inerente não apenas aos próprios mercados, mas também aos governos – atores centrais nesses processos. No entanto, cabe reserva quando essas esferas se unem, deixando a sociedade em um segundo (ou terceiro) plano (ver Santos 2000). Ao levar em conta os processos internos do mercado, o autor destaca dois tipos de projetos políticos focados especificamente em empresas: lutas de poder no interior das empresas e entre essas empresas que, em suma, objetivam o controle do mercado, implicando no avanço dos movimentos desse mercado contra a sociedade que, de certo implicará nos

processos de contra movimento e em demanda por Estratégias Sociais que desafiem seus impactos. Ao introduzir política na concepção de mercado, Fligstein (1996) desenvolve importantes contribuições à área como, por exemplo, o destaque da relevância do Estado, as relações empresas e governos, bem como os processos de intervenção e tentativas de estabilização dos mercados, além das assimetrias de poder existentes entre diversos atores.

Nesse ponto do trabalho, é importante destacar o objeto de análise de Fligstein – as empresas. É muito comum que a sociologia econômica, curiosamente em consonância com a economia ortodoxa (neoliberal), e com a própria teorização dominante de mercado, mantenha a preocupação centrada nas ‘firmas’ (em alguns casos mais específicos, nas indústrias), apesar de significativa parcela de autores alegarem que atribuem suas preocupações às organizações, num espectro mais amplo. Cabe reivindicar que demais atores, ainda que tratados como coadjuvantes pela literatura, sejam merecedores de mais atenção por parte dos pesquisadores. Vale ainda questionar se só podemos assumir a existência do mercado se houver trocas com finalidade de lucro. Ou se também podemos pensar mercados (ou estruturas de governança) objetivando outros tipos de trocas (ver, por exemplo, Bourdieu, 2003) e de resultantes como, por exemplo, políticas, governamentais e sociais? Vale inserir a possibilidade de, ao (re) teorizar mercado, permitir que outros tipos de capitalismo emerjam e sejam considerados, possibilitando dialogar com questões como as colocadas aqui. Desconsiderar esses aspectos dificulta sobremaneira o processo de reflexão sobre não mercado e também RSC. É preciso recontextualizar mercado, empregando bagagens transdisciplinares associadas à perspectiva transmoderna, que permitam tal (re) posicionamento e alinhamento à realidade de seu lócus, sob pena de caminharmos em direção às más teorizações, alertadas por Ghoshal (2005).

Embora a nova sociologia econômica como um todo e especificamente a sociologia dos mercados, critiquem sobremaneira a economia ortodoxa, e até apresentem diversas propostas alternativas interessantes, muitos de seus trabalhos terminam discutindo questões bastante relacionadas aos atores econômicos como, por exemplo, competição, compradores, vendedores e seus respectivos produtos. Dessa maneira, apesar de grande relevância, é importante que tais referenciais sejam empregados com reserva e visão crítica, todavia, não negligenciados.

É importante destacar que, ainda que apoiado em uma teorização ‘outra’ e relevante a esse trabalho, Fligstein (1996, p. 661) corrobora a polarização econômica entre Norte e Sul, por meio de uma segregação entre nações mais e menos desenvolvidas, numa clara menção à possível precariedade de funcionamento de suas categorias de análise (concepções de controle, direitos de propriedade, estruturas de governança e regras de troca) em nações do Sul,

fortalecendo segregações inerentes à geopolítica do conhecimento. Apesar de sua contribuição ao campo, não se pode perder de vista seu lócus de formação, que contribui sobremaneira para a configuração dessa visão de mundo. Essa crítica reforça a necessidade da adoção das perspectivas decolonial e transmoderna, como forma de suavizar essas fronteiras. Também é possível repensar a assertiva do autor como um aviso, sob a releitura que de fato seja evidente que a teorização do Norte para o Norte, não funcione adequadamente no Sul, demandando que nós, pesquisadores do Sul, abracemos essa missão, com base nos problemas específicos do Sul, e em referenciais ‘outros’, ainda que atentos e não desconsiderando os saberes do Norte.