Com foco nos aspectos sociais, foram buscados estudos dentro da linha da administração que tenham tratado esta questão. Embora muito tenha sido escrito sobre os impactos do turismo nas comunidades, poucos foram os esforços de classificação dos impactos ou de busca do equacionamento dos mesmos.
Nesse sentido, localizamos subsídios apenas em trabalhos realizados por duas instituições: a WTO e a Pro-Poor Tourism (PPT). Apesar deste assunto, num primeiro momento, ser associado à atribuição de mais um “peso” sobre as tarefas já tão extenuantes da indústria do turismo, estes estudos demonstram que sua proposta está mais relacionada à mudança na forma de fazer negócios, do que na inclusão de novas atribuições e atividades. Apesar de estarmos recorrendo a trabalhos que lidem especificamente com a redução da pobreza, este estudo não será centrado num segmento específico – os pobres - mas na comunidade como um todo. Pretendemos verificar se a atividade turística tem favorecido seu desenvolvimento e como os benefícios têm sido distribuídos dentro das mesmas.
A WTO (2002), em parceria com a UNCTAD, conta com duas publicações direcionadas à redução da pobreza. A primeira publicação – “Tourism and Poverty Alleviation” – aborda questões relevantes como a sustentabilidade, a importância do turismo em nações menos desenvolvidas, características do turismo que possibilitam sua contribuição para a redução da pobreza e o turismo como forma de desenvolvimento local. Nesse último tópico, a WTO dá grande ênfase ao aumento dos benefícios econômicos através do aumento dos ganhos da indústria e da geração de empregos, mencionando que muitas das receitas geradas por esta indústria não são reconhecidas – o que seria possibilitado pela adoção do sistema de conta satélite proposto pela instituição. É somente na segunda publicação da WTO (2004) - “Tourism and Poverty Alleviation: Recommendations for Action” – que é feito um trabalho mais direcionado para as formas de beneficiar a população local. Nesta, além da geração de renda através de empregos, amplia-se a participação da população local através de:
• inserção da comunidade como fornecedora de produtos e serviços para as empresas do setor turístico;
• venda direta de produtos ou serviços pelos habitantes;
• estabelecimento e gerenciamento de negócios pelos membros da comunidade;
• estabelecimento de mecanismos que direcionem parte da receita ou dos lucros do turismo para um fundo comunitário;
• Doações e apoio voluntário das empresas de turismo e dos turistas;
• Benefício indireto advindo dos investimentos em infra-estrutura, estimulados pelo turismo.
Em cada um destes tópicos, o relatório descreve as possíveis ações, as principais dificuldades para implantação, traz exemplos reais e sugestões de ação dos empreendimentos turísticos para potencializar esta oportunidade. É interessante notar que no relatório não há referências diretas aos impactos sociais e ambientais gerados pelo turismo.
Já os relatórios da PPT foram iniciados em 1999, com o estudo “Sustainable Tourism and Poverty Elimination”. Este trabalho, que foi desenvolvido conjuntamente pela Deloitte & Touche, International Institute for Environment and Development (IIED) e Overseas Development Institute (ODI) exploraram as possibilidades do turismo contribuir para a utilização de mecanismos que gerem resultados benéficos para a população. Este estudo aborda o envolvimento dos negócios em diversas instâncias:
• Relacionamento das empresas com doadores (Banco Mundial, ONGs, Comunidade Européia, etc.);
• Papel das empresas na criação de mercados; • Papel das empresas nos destinos;
• Papel das empresas junto às associações internacionais.
A partir desta análise são delineadas estratégias de ação que são definidas com maior precisão e aplicadas no segundo relatório da instituição – “Pro-Poor Tourism Strategies: making tourism work for the poor” (2001) – através da análise de seis estudos de caso.
Na comparação entre os documentos produzidos pelas duas instituições, fica claro que ambas estão avançando com o tempo. Contudo, as estratégias e questionamentos propostos pela Pro- Poor Tourism consistem numa abordagem mais ampla, que remete tanto à geração de receitas através do turismo, quanto à busca da redução dos impactos sociais. A PPT também atribui à empresa um papel muito mais amplo que sugere que, além da contribuição de sua estrutura, a empresa pode colaborar catalisando e incentivando outros atores (como organismos internacionais e governo) a participar das ações para o desenvolvimento do local.
O objetivo do presente trabalho não é sugerir estratégias de atuação, mas sim verificar a natureza da relação de um determinado tipo de empreendimento turístico – os resorts – com a comunidade em que está inserido. Sendo assim, utilizaremos a estrutura proposta pelo último relatório da PPT que, além de falar a linguagem empresarial, possui uma forma clara e objetiva de operacionalização dos aspectos sociais da sustentabilidade e a verificação de seus impactos na comunidade. Este instrumental permitirá a abordagem de um aspecto importante que é a confrontação entre discurso e prática. As estratégias do PPT focam em três áreas distintas que veremos a seguir:
• Benefícios Financeiros
o Aumento das oportunidade de negócio – pequenas empresas e setor informal; o Aumento das oportunidades de emprego – tipo de trabalho e remuneração;
o Aumento de benefícios coletivos - provenientes de taxas ou impostos que revertem em benefícios para a localidade.
o Capacitação, treinamento e empowerment – habilitação para aproveitar as oportunidades criadas pelo turismo;
o Minimização de impactos ambientais causados pelo turismo – o turismo pode levar à realocação dos habilidades da comunidade e/ou degradação do meio-ambiente; o Impactos culturais e sociais do turismo – O comportamento do turista, a cultura
local, a exploração sexual e ocorrência de doenças. • Reforma do Processo Político
o Construção de uma política mais adequada e planejamento direcionado para melhoria das questões relativas à comunidade;
o Promover a participação – comunidade excluída do processo decisório;
o Setor privado deve buscar parcerias – as empresas podem precisar de ajuda para desenvolver habilidade e expertise no turismo com enfoque na melhoria da comunidade.
Estas estratégias foram utilizadas como balizadores na concepção do questionário e na condução das entrevistas.
IV.1.4 – Resorts
A cadeia do turismo pode, de maneira simplificada, ser representada pelo esquema abaixo – Ilustração 3. Nele identificamos que esta indústria mobiliza um número elevado de agentes, o que torna complexo os estudos desenvolvidos nesta área. Na representação verificamos que apenas as duas etapas finais – “destinação turística” e “serviços de suporte” - acontecem diretamente na comunidade destino.
Verificamos que os hotéis estão inseridos na “destinação turística”, sendo que sua atuação tem se expandido, incluindo outras atividades descritas neste tópico, através da criação dos resorts, especialmente os que operam sob o sistema all-inclusive.
Ilustração 3 – Estrutura da Indústria Internacional de Turismo
Fonte: PPT (1999, p. 7)
Na língua inglesa resort “significa um lugar visitado com objetivo de obter momentos de lazer e/ou cuidar da saúde. Já no português, a palavra, apesar de não oferecer alteração na grafia, tem seu significado associado a um “local que oferece hospedagem, recreação e divertimento especialmente para pessoas em gozo de férias” (não há grifo no original HOUAISS, 2001, p. 2438). Sendo assim, é muito comum, na busca na literatura inglesa encontrar artigos sobre resorts que versam sobre regiões ou destinos, não tendo relação específica com um meio de hospedagem.
A concepção dos resorts é oriunda dos spas e das casas de banho existentes nas antigas Roma e Grécia. Na acepção mais restrita, os resorts se constituem num fenômeno recente, associado à grande expansão do turismo registrada após a Segunda Guerra Mundial, devido ao aumento da renda pessoal, generalização das férias pagas, urbanização e redução de custos de transporte, entre outros. (BSH, 2004)
Em 1950 foi criado na Espanha, com capital francês, o Club Med, dando origem à primeira rede de resorts destino17. O conceito, na época, tinha grande originalidade: as atrações eram oferecidas no próprio hotel, dispensando assim os hóspedes de procurá-las por sua conta. Ao mesmo tempo, ao permanecer a maior parte do tempo no hotel, reduzia-se a sensação de estranhamento do hóspede, decorrente do fato de encontrar-se em país estrangeiro.
A difusão dos resorts se deu de duas formas: geográfica e dentro da sociedade. CHON e SPARROWE (2003) abordam a difusão dos resorts em outras camadas da sociedade. Os autores lembram que até a metade do século XX, os resorts eram freqüentados
exclusivamente pelas camadas mais abastadas da sociedade. Posteriormente, com o crescimento do turismo de longa distância, foram desenvolvidas opções com instalações e serviços mais simples.
A dispersão geográfica dos resorts destino teve início na década de 70, associada ao desenvolvimento turístico da América Central, especialmente das Antilhas (ilhas do Caribe). A rede Superclubs, criada na Jamaica, teve papel importante, uma vez que foi a principal responsável pela introdução da modalidade de resort, que é mais conhecida atualmente, oferecendo serviços de restaurante, esporte e passeios incluídos na diária. No início, os hotéis de lazer situados no Caribe destinavam-se à faixa superior do mercado, mas ISSA e JAYAWARDENA (2003) lembram que na década de 80 aconteceu, nesta região, a implantação de resorts voltados para os demais segmentos.
Apesar do crescimento e difusão dos resorts, a sua conceituação está longe de alcançar um consenso. CHON e SPARROWE (2003) definem resort como “... um lugar que oferece recreação e entretenimento, especialmente a turistas em férias.”(p. 287), mas a definição não parece suficiente uma vez que sempre associam à esta uma longa descrição sobre as principais características relacionadas a esse tipo de empreendimento. Já a OMT , no Guia do Desenvolvimento do Turismo Sustentável (2003), defende que “os resorts são destinos turísticos integrados e relativamente independentes que oferecem uma variedade de instalações e atividades para os turistas.” (p.61)
A EMBRATUR (1998) conceitua resort como um empreendimento:
“... quando localizado em área de conservação ou em equilíbrio ambiental, sua construção deve ser antecedida de Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e de planejamento e uso do solo, sempre tendo em vista a conservação ambiental. Deve ter condições de se classificar nas categorias “luxo” e “luxo superior” e possuir, ainda, áreas não edificadas, infra-estrutura de entretenimento e lazer significativamente superiores à dos empreendimentos não classificados nessa categoria (em WWF, 2003, p.439)
Já a Associação Brasileira de Resorts18 também apresenta sua definição de resorts:
“É um empreendimento hoteleiro de alto padrão em instalações e serviços, fortemente voltado para o lazer em área de amplo convívio com a natureza, na
qual o hospede não precise se afastar para atender suas necessidades de conforto, alimentação, lazer e entretenimento.”
Mesmo sem um consenso, diante destas definições podemos notar que a idéia central sugere que os resorts possuem um ambiente que promove sensação de bem-estar e divertimento ao usuário. Outro ponto comum é o fato do hóspede não necessitar sair do empreendimento para atender suas necessidades de acomodação, alimentação e entretenimento, o que os torna a atração principal e, muitas vezes, a única da viagem. Também podemos observar que a natureza dos serviços é um dos principais fatores de diferenciação dos resorts. Assim, os restaurantes – é comum haver mais de um – devem ser agradáveis e, de preferência, especializados. Os hotéis também devem oferecer numerosas atividades e lazer, como esportes náuticos (vela, pesca marítima, esqui-aquático), golfe, tênis e equitação. É freqüente a organização de formas de entretenimento noturno (como festas temáticas) e de atividades de lazer direcionadas para as crianças. Nos países em que a legislação permite, é comum a existência de cassinos.
OLIVEIRA (2000) assinala o desenvolvimento de novas atrações, mencionando que, recentemente, com o aumento da busca pelo bem estar pessoal, muitos resorts passaram a oferecer serviços de SPA com áreas específicas para cada tipo de tratamento (massagens, cuidados faciais, academia e tratamentos para o corpo, entre outros).
O equacionamento de todas estas questões parece estar contemplado na operacionalização do conceito proposta pela BSH Travel Research (2004) em seus estudos sobre os resorts no Brasil. No presente estudo adotaremos esta definição que utiliza os seguintes critérios:
• Mínimo de 80 unidades habitacionais;
• Mínimo de dois pontos de venda de alimentos e bebidas e
• Ampla área de lazer com ativa programação durante o dia e a noite
Um outro aspecto importante para os impactos na comunidade está relacionado ao sistema de operação dos resorts. ROSA e TAVARES (2002) sugerem que os resorts podem ser divididos em duas categorias: (1) de apoio a destino e (2) destino. No primeiro, os empreendimentos situam-se em locais que apresentam interesse turístico. Contudo, a aplicação mais completa do conceito se dá na segunda categoria onde os hotéis constituem o próprio destino do turista. Os resorts destino operam, com freqüência, de acordo com o sistema “all inclusive” (AI), pelo qual o hóspede paga, antecipadamente, por todas as despesas que serão efetuadas durante sua estada. É fácil perceber que esse sistema incentiva o hóspede a permanecer no hotel a maior parte do tempo, de modo a utilizar ao máximo os serviços oferecidos.
As origens e diferentes gradações relacionadas ao conceito de AI são tratadas por ISSA e JAYAWARDENA (2003). Os autores mencionam que POON (1998), localizou o conceito original de AI nos anos 30, em colônias de férias na Grã Bretanha. Contudo, ressaltam, que estas não eram totalmente AI, pois não eliminavam a utilização de pagamento. Bebidas, gorjetas e outros serviços eram pagos com alguma forma de moeda. Da mesma forma, os sistemas de AI adotados pelos resorts apresentam variações. Enquanto alguns utilizam bolinhas de plástico - que servem como forma de pagamentos - outros oferecem diferentes opções de pacotes, que vão desde o mais básico até o mais abrangente. Um pacote de AI básico pode incluir parte aérea, traslados, acomodação, maior parte das refeições e bebidas. No outro extremo, as tarifas incluem transporte de luxo e privativos, acomodação em resorts cinco estrelas, spa, atividades esportivas, passeios, excursões, entre outros.
Inicialmente alguns destinos resistiram à introdução do conceito de AI, mas hoje outros empreendimentos, além das cadeias, adotam esta forma de pacote. Nos anos 80, o Caribe testemunhou a “febre dos AI entre os hoteleiros” sendo que na República Dominicana cerca de um terço de seus 50.000 quartos pertencem a hotéis que adotam o sistema AI. (ISSA e JAYAWARDENA, 2003).
COOPER et al (2001) traz uma definição alternativa de resort “... um lugar que atrai grandes quantidades de turistas e que é dotado, pelo turismo, de característica especiais...” (p.139). Esta definição ressalta um aspecto ignorado pelas apresentadas anteriormente onde fica clara a atratividade e preferência dos turistas por esse tipo de hospedagem. Este ponto também é evidenciado por ISSA e JAYAWARDENA (2003), onde os AI são vistos como um produto inovador importante para o mercado do turismo internacional, uma vez que agrega vários elementos do produto turístico. Os autores defendem que para o turista, a diferença fundamental é que ele não necessita carregar nenhuma forma de dinheiro, papel, moeda ou plástico. Em hotéis que adotam o conceito de AI em sua forma mais ampla, até as gorjetas são proibidas. Como resultado, o dinheiro é praticamente eliminado da experiência de férias e os turistas podem saber de maneira prévia exatamente quanto suas férias irão custar – excetuando despesas pessoais como ligações telefônicas, lavanderia, aluguel de carro, refeições fora da propriedade e compras. Desta forma o turista pode relaxar sem preocupações com taxas de câmbio, costume local em relação a gorjetas, ficar sem dinheiro ou exceder seu orçamento.
Uma evidência de que esta proposta agrada ao consumidor são as pesquisas que demonstram o aumento global da demanda por férias AI, o que faz com que as operadoras de turismo, especialmente as de países desenvolvidos, estejam ávidas para desenvolver este mercado.(ABDOLL e CAREY, 2004). BENI (2004) também constata, no contexto brasileiro, que os resorts são “um mercado em plena expansão” (p.192)