2. KAVRAMSAL ÇERÇEVE
2.4. Kültür Kavramı
2.4.1. Kültür Endüstrisi ve Andy Warhol
Agora, quando desembrulho minhas lembranças eu aprendo meus muitos idiomas. Nem assim me entendo. Porque enquanto me descubro, eu me anoiteço, fosse haver coisas só visíveis em plena cegueira.
Mia Couto
As biografias de cada um dos colaboradores trazem à tona a multiplicidade de identidades que existem em cada ser e que, em decorrência da estrutura da prisão, acabam por ficarem esquecidas sendo pouco, ou nada, valorizadas. Segundo Souza (2008, p. 44), “o pensar em si, falar de si e escrever sobre si emergem em um contexto intelectual de valorização da subjetividade e das experiências privadas”, constituindo-se, portanto, como importante ferramenta para estudos e trabalhos no contexto prisional, onde prevalece a anulação do ser.
Os fragmentos de histórias de vida aqui relatadas evidenciam que por trás do estereótipo do homem preso, que os aprisiona tanto quanto a própria prisão, há muitas outras identidades: pais que amam seus filhos e sofrem com a perda deles; filhos que cuidam de suas mães; alunos que se sentiam incompreendidos; pastor que acredita que a espiritualidade é fundamental na vida; homens que gostam de ler e escrever, que são bons de papo e não negam uma boa conversa; pessoas que admiram a vida no campo, que sofrem com a saudade da família, que se alegram ao tocar e ouvir música, que enfrentaram muitas dificuldades ao longo da vida, que estão aprendendo a se expressar, que se arrependem de algumas condutas, que acreditam na importância de sonhar e viver intensamente, que estão à procura da felicidade e desejam ser livres para voar. Essas deveriam ser, na verdade, as imagens que vem a frente dessas pessoas, pois não são identidades passageiras: as constituem enquanto seres humanos.
É com essas pessoas em permanente processo de construção e repletas de identidades, que a Educação Escolar em prisões deve estabelecer diálogos e não com a figura transitória da pessoa presa, que em maior ou menor espaço de tempo, deixará de existir.
A convivência com esses 11 homens singulares, além de ser de fundamental importância para a compressão da educação escolar em prisões, foco deste estudo, propiciou que eu conhecesse um pouco da diversidade dos humanos que habitam temporariamente as unidades prisionais. Esta é uma oportunidade rara na sociedade atual, pois as prisões são espaços isolados e de isolamento, onde minúscula parcela da sociedade
livre pode adentrar. Para a maior parte da população da sociedade livre prevalece o desconhecimento sobre o interior das prisões e, consequentemente, sobre as pessoas que nela vivem.
A leitura dessas biografias permite, de certa forma, conhecer parte desse universo difícil de adentrar. A partir delas é possível depreender diversas e diferentes interpretações. Entretanto, a maior parte culminará na compreensão de aspectos da humanidade dessas pessoas que sobre si escrevem.
Um dos primeiros aspectos que chamam atenção é o tamanho dessas biografias. A diferença no tamanho das escritas reflete, em parte, a personalidade das pessoas que as escrevem. Alguns são mais tímidos, outros mais desinibidos. Alguns preferem falar do que escrever, outros o contrário e alguns gostam dos dois. Entretanto, apesar de algumas serem mais curtas, a maioria é longa. Tal situação intriga, principalmente, quando eles sinalizam a dificuldade de escrever sobre si. Terá sido o comprometimento que eles assumiram com o estudo que os motivou a superar essa dificuldade e escreverem suas biografias com tanto empenho?
Ainda em relação às longas escritas de si, cabe refletir o quanto elas representam o desejo desses homens em situação de privação de liberdade em poder dizer a sua palavra, em resgatarem e compartilharem suas histórias.
Nos espaços de privação de liberdade, família e religião são bens de muito valor. Em praticamente todas as escritas há referência a importância da família, representada pela figura da mãe, pai, esposa e/ou filhos. Essas pessoas aparecem nas biografias como figuras de amparo, de admiração e pelas quais, muitas vezes, eles projetam novos projetos de vida. Religião e Deus também são referências comum na maioria das escritas de si, representando a força que os mantém firme e que dá suporte para as mudanças de vida que almejam.
Dificuldade e desafio são palavras que aparecem em quase todas as biografias, ajudando a compreender o contexto de vida dos colaboradores. Evidencia-se que a maioria dos colaboradores pertencem a uma classe econômica menos favorecida, por eles denominada “humilde” e “simples”, o que implicou em diversas das dificuldades e desafios que afirmam ter enfrentado ao longo de suas vidas.
É importante notar que a busca pela autodescrição os conduziu a reflexão sobre suas vidas. Dessa forma, as escritas de si não se restringem a expressar quem eles são, elas trazem também pistas que ajudam a compreender a razão pelas escolhas de seus
caminhos, evidenciam a imaturidade de alguns em seus passados, as pressões sociais e familiares vivenciadas por outros e o desejo de mudarem de vida.
Em diversas das biografias há referência e reflexões relacionadas ao erro, sejam elas: lamentando terem agido de forma errada, reconhecendo no erro um processo de aprendizagem ou considerando-o como inerente ao ser humano. Tais reflexões evidenciam que eles não são alheios às suas falhas, pois refletem sobre elas, o que é imprescindível para tomada de novas ações futuras. Nessa perspectiva, alguns apontam a vivência no cárcere como um processo doloroso, porém de aprendizagem.
Mesmo trazendo recortes de suas histórias de vida que evidenciam diversas dificuldades vividas e a dor da experiência do encarceramento, a maior parte das escritas de si carregam sentimentos de esperança em relação a vida futura, revelados por meio de seus sonhos, desejos e objetivos.
Por meio da leitura dessas escritas de si é possível perceber a complexidade de cada colaborador, que se apresenta como um ser humano reflexivo sobre suas vidas e ações. Esses percursos vividos repercutem sobre suas personalidades, formas de ser e de pensar e, por isso, ajudarão a compreender suas vozes e escritas presentes nesse estudo.