2. KAVRAMSAL ÇERÇEVE
2.4. Kültür Kavramı
2.4.3. Ai Weiwei ve Ayçiçeği Çekirdekleri
Na primeira Roda de Conversa, apresentei os objetivos da pesquisa para os colaboradores e a importância de alguns instrumentos como o TCLE e a autorização de áudio. Após todos compreenderem, concordarem e assinarem, conversamos sobre a importância de evitarmos atropelar uns as falas dos outros para não prejudicar, posteriormente, o processo de transcrição das falas. Nesse momento, os colaboradores me explicaram algo que eu não conhecia: “o espaço de voz”.
Falei para eles da importância de não falarem juntos para não haver sobreposição de falas, o que dificultaria a transcrição posterior, e eles me disseram que era só falar espaço de voz, pois na cadeia quando todo mundo está falando junto e alguém diz: “espaço de voz para fulano que quer falar”, todos fazem silêncio. Achei a ideia ótima e ficamos acordados assim.
(Diário de campo, 27 de março de 2014)
A estratégia funcionou e houve pouquíssimos momentos de sobreposição de falas que tornassem inaudíveis a gravação, apesar de estarmos num grupo de 12 pessoas conversando. Ao final das sete Rodas de Conversa, totalizou-se aproximadamente 11 horas de gravação, que foram todas transcritas.
A análise dos dados foi organizada a partir de inspirações na bricolagem.
A bricolagem vê os métodos de pesquisa de forma ativa, e não passiva, ou seja, construímos ativamente nossos métodos de pesquisa a partir das ferramentas que temos à mão, em lugar de receber passivamente as metodologias “corretas”, universalmente aplicáveis [...] os bricoleurs também evitam diretrizes e roteiros preexistentes, desenvolvidos fora das demandas específicas da investigação (KINCHELOE; BERRY, 2007, p.16).
Nessa perspectiva, nos valemos de ferramentas da análise de conteúdo (BARDIN, 2011), porém não nos restringimos a elas. Dessa forma, tendo em vista a questão de pesquisa e objetivos deste estudo, foi realizada uma leitura atenta de todo o material transcrito buscando identificar frases que traduzissem a essência dos discursos produzidos ao longo das rodas de conversa. Essas frases foram, posteriormente, retiradas do conjunto total de transcrições e organizadas em tabelas aproximando as de significado similar. Esse conjunto de frases literais, extraídas das transcrições das rodas de conversa, compuseram o que denominamos unidades de significado.
A organização e o agrupamento das unidades de significado deu origem aos grandes temas. Cada grande tema reúne, portanto, um conjunto de unidades de significado que expressa significados convergentes a uma mesma temática. Temos, por exemplo, o grande tema: “Os significados da prisão: olhares da experiência”, que reúne diversas unidades de significado que traduzem os significados atribuídos à prisão pelos colaboradores.
A partir desse procedimento, foram determinados 11 grandes temas: (1) Os significados da prisão: olhares da experiência
(2) Cumprir pena no CR: entre alternativas e desafios (3) Concepções de educação
(4) Ensino/aprendizagem escolar
(5) Significado da formação escolar e sua relação com os diferentes contextos e experiências
(6) Razões da evasão escolar
(7) Memórias escolares: gostos e desgostos de jovens evadidos (8) O(a) professor(a) na perspectiva do aluno
(9) As drogas e o crime: o que tem a educação a ver com isso? (10) Educação escolar no CR e em outras modalidades prisionais (11) A escola ideal
A organização destes grandes temas evidenciou a existência de duas dimensões de discussão, as quais deram origem aos dois focos de análises deste estudo:
(1) Prisão: vozes de reeducandos do CR, que vivenciaram outros modelos prisionais.
(2) Educação: vozes de jovens e alunos adultos, outrora evadidos da escola. Desse modo, centramos as análises dos dados nessas duas dimensões: uma relacionada à instituição prisional e como sua cultura e dinâmica interferem na educação escolar; e outra relacionada à educação, principalmente em aspectos relacionados à educação escolar, porém, não se restringindo a ela. Apresentamos, no Quadro 2, a sistematização dessa organização dos dados.
Com base nos focos de análise fizemos a leitura minuciosa de todos os registros no diário de campo e nas reflexões escritas pelos colaboradores. Com essa leitura, buscamos encontrar nesses materiais dados que complementassem e/ou aprofundassem as unidades de significado, sendo estes incorporados nas análises.
Após essa organização dos dados, nos debruçamos em analisar cada foco de análise. Para isso, buscamos extrair de cada grande tema as compressões dos colaboradores e, em seguida, estabelecer diálogo dessas compreensões com a literatura.
Os procedimentos adotados implicaram na seleção de um recorte no grande volume de dados por nós obtido, por meio dos diferentes recursos metodológicos utilizados. Esse recortes foram necessários em decorrência de nossos objetivos e questão de pesquisa. Todavia, temos ciência que esse conjunto de dados não foram esgotados e que possibilitam outras leituras e análises. Desse modo, dispomos de um rico material que poderá ser utilizado posteriormente em outros estudos e reflexões.
Destacamos que alguns procedimentos foram adotados tendo em vista que: Motivar e instrumentar grupos populares para que assumam sua experiência quotidiana de vida e de trabalho como fonte de conhecimento e de ação de transformação acreditamos ser o objetivo da pesquisa social e da ação educativa numa perspectiva libertadora (OLIVEIRA; OLIVEIRA, 1986, p.33).
Compactuando com esta concepção e na constante busca por fazer uma pesquisa com e não para ou sobre as pessoas em situação de privação de liberdade, durante o processo de organização dos dados, compartilhamos com os colaboradores da pesquisa os resultados obtidos a fim de que estes se constituíssem como colaboradores não apenas na construção dos discursos, mas também na sua interpretação, pois:
Na interpretação é importante lembrar que o analista é um intérprete, que faz uma leitura também discursiva influenciada pelo seu afeto, sua posição, suas crenças, suas experiências e vivências; portanto a interpretação nunca será absoluta e única, pois também produzirá seu sentido (CAREGNATO; MUTTI, 2006, p.682).
Desse modo, em concordância com o objetivo da pesquisa que buscou a escuta dos sujeitos da educação escolar que acontece no interior das prisões, as primeiras análises feitas foram compartilhadas com os colaboradores de pesquisa. Tal postura vai ao encontro dos dizeres de Freire (1986, p.37) que defende que “o povo tem que participar na investigação como investigador e estudioso e não como mero objeto”.
O primeiro encontro para compartilhar a primeira organização dos dados foi realizado no dia 15 de agosto de 2014, período em que dois colaboradores já não estavam mais como internos da unidade. Um progrediu para o regime semiaberto, outro passou a trabalhar na cozinha, e um outro, estava na quadra jogando bola. Desse modo, foi possível compartilhar os primeiros resultados com seis dos onze colaboradores de pesquisa.
Após o exame de qualificação, realizado no dia 10 de novembro de 2014, reuni- me novamente com alguns dos colaboradores que estavam na unidade para compartilhar a experiência e as sugestões apresentadas pelos professores da banca examinadora. Um dos colaboradores, ao manusear um dos exemplares do trabalho lido pela banca examinadora, manifestou surpresa e satisfação ao ver que o trabalho fora cuidadosamente lido.
Nesses dois momentos, além dos colaboradores terem um retorno do andamento da pesquisa, tiveram acesso aos dados organizados, podendo expressar suas opiniões em relação a eles.
No capítulo seguinte são apresentadas as análises dos dados resultantes dos procedimentos metodológicos apresentados neste capítulo. As vozes e escritas dos colaboradores são analisadas estabelecendo, sempre que possível, diálogo com a literatura existente sobre as temáticas que emergiram dos dados.
QUADRO 2. Organização dos dados
Unidades de significado
Grandes temas
Focos de análise
Trechos de falas dos colaboradores extraídas integralmente das transcrições das rodas de conversa.
Os significados da prisão: olhares da experiência
Prisão:
Vozes de reeducandos do CR,
que vivenciaram outros
modelos prisionais.
Cumprir pena no CR: entre alternativas e desafios
Concepções de educação
Educação:
Vozes de alunos jovens e
adultos, outrora evadidos da
escola.
Ensino/aprendizagem escolar
Significado da formação escolar e sua relação com os diferentes contextos e experiências
Razões da evasão escolar
Memórias escolares: gostos e desgostos de jovens evadidos As drogas e o crime: o que tem a educação a ver com isso? O(a) professor(a) na perspectiva do aluno
Educação escolar no CR e em outras modalidades prisionais A escola ideal