2. KAVRAMSAL ÇERÇEVE
2.5. Türkiye’de Çağdaş Sanatta Kültür Bağlamında Yerleştirme
2.5.5. Handan Börüteçene
Todos os colaboradores evadiram das escolas públicas quando eram jovens e ao refletirem sobre o impacto dessa evasão em suas vidas apresentaram diversos fatores.
Porque você chegava numa empresa: “Qual o seu estudo?”, “Tenho até o primeiro”. “Até o primeiro?” Não fechava. Você precisa de um ensino completo (Voz de colaborador).
Porque hoje em dia o mundão como é que está moderno, sem estudo você não faz mais nada (Voz
de colaborador).
Aí depois eu queria fazer alguns outros cursos mesmo, não podia por falta de escolaridade (Voz
de colaborador).
Eu sinto falta da escola porque assim, sei lá meu, depois que comecei a trabalhar vi que o negócio é cabuloso (Voz de colaborador).
E você vai ficando velho e quando você vê, você não tem nada, não fez nada no mundo...por causa de um estudo (Voz de colaborador).
Como é que eu vou falar para o meu filho assim: “Filho vai estudar, estudar é bom.” “Mas como você está mandando eu estudar se você não estudou?” E aí? (Voz de colaborador).
As falas dos colaboradores permitem perceber que a não conclusão do ensino básico impactou sobre suas possibilidades de trabalho e desenvolvimento profissional, limitando suas atuações no mercado de trabalho. Revelam também que eles consideram o estudo como uma ferramenta para obtenção de melhores condições de vida e que sua situação escolar representa um mau exemplo para seus filhos e futuras gerações. Dias (2011) em suas entrevistas com jovens infratores também constatou que, em seus discursos, eles atribuem à escola importâncias para a vida, como melhores perspectivas de futuro e de trabalho. Trata-se, desse modo, de uma verdade que se apresenta como consolidada. Não há dúvida que a escola projeta um futuro melhor e que quem tem níveis de escolaridade mais altos dispõe de mais oportunidades. Cabe questionar, todavia, porque diante destas supostas certezas ainda prevalece o abandono escolar? Essa questão será discutida posteriormente no item Razões da evasão escolar.
Apenas um dos colaboradores afirmou que não sofreu impacto com a não conclusão do ensino básico.
Não, porque os caminhos que tomei na vida não dependiam muito de escolaridade, era mesmo braçal. Mas foi uma coisa que escolhi então não me fez falta não. Foi bom até onde durou (Voz de
colaborador).
É importante notar a associação feita por este colaborador da importância da escolaridade apenas no desenvolvimento de práticas profissionais intelectuais. A questão embutida na fala deste colaborador permite refletir qual a finalidade da escola. Os conhecimentos, as habilidades e as competências trabalhadas na escola servem apenas às profissões predominantemente intelectuais? A escola não serve para aqueles que desejam atuar profissionalmente em serviços braçais?
Os colaboradores apontam o contexto social a que estão inseridos, enquanto classe social economicamente menos favorecida, como fator de grande influência sobre a relação estabelecida dos alunos com a escola e os estudos.
As vezes não podia ir porque trabalhava de tarde, trabalhava de noite, como que ia de manhã para a escola? (Voz de colaborador).
Cara tudo novo já tinha filho, casa pra cuidar... então é outra realidade (Voz de colaborador). Não vou estudar, vai pra frente que dá certo, vou pro crime mesmo (Voz de colaborador).
Cada um é reflexo de onde vive. Você se espelha muito onde você vive (Voz de colaborador).
Esse quadro [influência do bairro] o professor não reverte (Voz de colaborador).
Alguns colaboradores, entretanto, trazem novamente a dimensão da responsabilidade individual sobre os percursos da vida de cada pessoa, afirmando que mesmo estando em condições econômicas e sociais menos favorecidas, esse não é um fator determinante nas escolhas de vida das pessoas.
Claro que é mais difícil uma pessoa de escola pública conseguir, mas consegue sim também (Voz
de colaborador).
Tanto faz baixa, média ou alta, não vai definir... não vai definir nenhuma coisa, se a pessoa é, vai ser ou não. Vai depender de si mesmo (Voz de colaborador).
Tem playboy bandido e tem gente da periferia que não é (Voz de colaborador).
Só que ele venceu porque ele lutou, né meu? Porque ele fez as escolhas certas, como eu também podia ter feito, só que eu escolhi errado meu
(Voz de colaborador).
A divergência nas opiniões dos colaboradores são importantes para não reduzir a análise a generalizações simplistas e deterministas. Nesse sentido, Adorno (1991, p. 79) pondera que:
Por suposto, nem todas as crianças submetidas a iguais condições de pauperização reagem do mesmo modo. Muitas resignam diante do destino. Aceitam as regras do mundo adulto e perseguem suas trajetórias de trabalhadores obedientes. Outras manifestam comportamento arredio, indisciplinado. Entre essas, encontram-se aquelas que optam por construir uma carreira na delinquência. Portanto, sem ignorar a existência das individualidades, que fazem com que diferentes pessoas reajam de forma distinta a situações similares, é importante considerar que o contexto social tem seu lugar de influência nas escolhas que as pessoas fazem em suas vidas. Essas são dimensões que devem estar inclusas no repensar a escola. É necessário que a educação escolar dialogue com os contextos sociais a que está inserida, apostando na possibilidade de constituir-se como espaço de descoberta de novos horizontes, sem ignorar, contudo, seus limites.
Durante a exibição, em uma das rodas de conversa, do documentário Pro dia nascer feliz, que despertou a discussão e comparação entre o ensino público e privado, os colaboradores manifestaram-se solidários a situação de vida e comportamento dos alunos da escola pública e aversão às falas e posturas dos alunos das escolas particulares.
Quando iniciou o relato com alunos do colégio Santa Cruz (elite econômica de São Paulo) houve vários comentários entre os colaboradores, que manifestaram um certo incômodo com as falas desses alunos: “Eles são playboy, odeio playboy!” – “Muito patricinha, muito chata!” – “Ah não... não tô ouvindo isso! (em referência a uma aluna que comenta que não estudava apenas, que fazia outras atividades também como yoga e natação) – “Ah... (risos)... não faz nada!” (em tom de que a vida da aluna não tinha graça). – “A gente não suporta essas patricinhas!” – “Periferia é outra coisa.”
(Diário de campo, 11 de abril de 2014)
Entretanto, ao compararem as condições das escolas públicas com as particulares, que evidenciam a diferença entre os contextos sociais, os colaboradores deixam transparecer em suas falas o desejo de terem tido melhores oportunidades, como as que consideram que são ofertadas pelas escolas particulares.
Mas eu acho que se eu estivesse na situação deles [estudantes de escolas particulares], lógico que eu iria me dedicar (Voz de colaborador).
Será que se eu tivesse uma condição de vida melhor e se eu fosse criado em uma situação de vida melhor, será que meu pensamento hoje seria esse? (Voz de colaborador).
Eu desejaria ter a vida que eles tiveram [os alunos de escolas particulares] (Voz de colaborador).
Eu queria ter podido estudar numa escola assim [em referência a escola particular] (Voz de
colaborador).
Quando eu tiver condição eu vou pagar uma escola particular para meu filho, porque o mundo é diferente, é muito diferente (Voz de colaborador).
Pô outra coisa [na escola particular], cê chega na sala... eu vi, o barato todo, a lousa deles, a lousa... a professora passava tudo na projeção
(Voz de colaborador).
Tudo é diferente [na escola particular], o empenho deles é diferente (Voz de colaborador). Querendo ou não para eles [alunos de escola particular] o critério deles é estudar para ter um futuro, ser um engenheiro, um médico, um doutor, um advogado (Voz de colaborador).
As falas dos colaboradores revelam que estes consideram as condições das escolas particulares demasiadamente melhores do que as das escolas públicas, assim como as condições de vida e responsabilidades de seus respectivos alunos. Nesse conjunto de falas há significados subjetivos que envolvem expressões e sentimentos fortes. Pelas falas perpassam sentimentos de raiva, inveja, descrédito, desejo e esperança, que demandariam uma análise profunda e detalhada. Este não é, contudo, o objetivo deste trabalho. Deve- se ressaltar, entretanto, que os colaboradores manifestam preocupação com a formação escolar e consideram que a sua qualidade incide sobre o interesse e envolvimento dos alunos.
O reconhecimento da educação escolar como ferramenta que propicia melhores condições de vida, entretanto, não é suficiente para que, quando adultos, consigam retomar e completar os estudos. Novamente, agora na vida adulta, as demandas do contexto social se sobrepõem à frequência escolar. Por isso, um dos colaboradores afirmou que concluir os estudos fora da prisão é um verdadeiro desafio.
A gente que tem esposa, tem filho, tem casa, esse tipo de coisa, é complicado voltar a estudar lá na rua... é complicado (Voz de colaborador). Consideração semelhante foi feita pelos entrevistados de Lourenço (2007) que afirmaram que na prisão eles tem tempo para estudar, o que não ocorre fora dela pois necessitam trabalhar para sustentar filhos, esposa, família e moradia. Nessa perspectiva, o espaço prisional pode constituir-se como possibilidade fértil de retomada da educação escolar, por meio da EJA.