2. TÜRKİYE’DE BÖLGESEL DENGESİZLİKLER VE BU
1.4. Osmaniye İlinin Ekonomik Yapısı
1.4.1. Tarım
1.4.1.2. Hayvancılık
A tragédia da herança colonial consistiu no reforçamento dessa estrutura social estratificada pela cor e fisiognomia. (STEIN & STEIN, 1989:50)
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O Haiti é o marco fundante da conquista e da colonização das Américas. É a partir desse ponto que os conquistadores espanhóis avançarão sobre as populações autóctones, amparados por um discurso que, antes de tudo, propagava um ideal evangelizador, pretensamente emancipador, totalmente alheio à cultura das gentes que aqui se encontravam.
O ano de 1492 marca a chegada de Colombo ao norte do que se tornaria, a partir de então, Hispaniola e, para todos os efeitos, a América. Era o início de um longo e traumático processo a que seriam submetidas as gentes que, por força de um discurso historiográfico excludente e eurocêntrico, tenderiam a ser marginalizadas nas páginas da história.
A população que ocupava Hispaniola por ocasião da chegada dos espanhóis era constituída basicamente por índios ciboneys e taino-arawaks. Esses povos, à chegada de Colombo, apresentavam uma organização estatal, ainda que rudimentar, que tinha no topo de sua hierarquia cinco grandes cacicados e, abaixo destes, os chefes locais. Essa organicidade, segundo Ferro, (2004), pode ter contribuído para que Colombo tenha se estabelecido inicialmente no Haiti, uma vez que esses poderes estatais, ainda não disseminados na maioria das ilhas do Caribe, poderiam contribuir para a consecução de seus objetivos. Já em 1494, apenas dois anos passados do contato inicial, Hispaniola experimentava o primeiro de incontáveis embates que se seguiriam.20 “Era a destruição de toda a ordem social haitiana em proveito de um escravagismo cujo único limite era o desaparecimento físico do povo dominado” (FERRO, 2004:52). O ímpeto espanhol, demonstrado na conquista, extrapolou todos os limites. O extermínio físico do povo dominado não impediu o avanço da „civilização‟ sobre a „barbárie‟; foi apenas o seu primeiro ato.
A introdução do negro como mão-de-obra servil no cenário sociocultural americano carrega ainda mais as cores desse conturbado período.
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Ferro (2004:50), demonstra como essa primeira reação, motivada principalmente pela ira e pela crueldade dos espanhóis, muda completamente o estatuto dos nativos que passam, a partir de então, a ser encarados como um perigo e uma ameaça à civilização, o que, em tese, justificaria a guerra que contra eles seria movida, a partir de então. “com a resistência dos índios, o julgamento sobre esse povo mudou completamente. Nos primeiros contatos, eles tinham sido vistos como homens e mulheres pacíficos, mansos em geral, e até fáceis de converter ao cristianismo. Mas, assim que empreendem o combate, passam a ser encarados como indivíduos pérfidos, ladrões, assassinos ou saqueadores”.
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Dentre as principais causas apontadas para utilização dessa força de trabalho em substituição à mão-de-obra nativa, destaca-se a inadaptabilidade do nativo ao sistema de exploração utilizado pelo colonizador, classificado por Ferro (2004) como
“concentracionário”.
No caso haitiano, podemos depreender a importância de que se reveste tal fato, principalmente se levarmos em conta os desdobramentos desse incremento populacional que, por ocasião da independência do Haiti, no início no século XIX, viria a constituir o grosso da população da pequena ilha. Os primeiros escravos, ainda que não tenham vindo diretamente da África, mas provavelmente trazidos em menor escala de Espanha ou Portugal, podem ter chegado já em 1498, segundo Ferro (2004), há fortes evidências que já se faziam presentes em 1502, uma vez que nesse ano foi feito um pedido para “que parassem de enviar esses escravos, porque eles se misturam aos índios fugitivos para irem „marranear‟ nas montanhas”. (FERRO, 2004: 53). Parecia ser um indício do que viria. Como Afirma Stein & Stein (1987:51):
A chegada do negro escravo – daí em diante considerado como bem móvel – adicionou um novo fator étnico. Seu fenótipo e inferioridade, legalmente sancionados, ajustaram-no de imediato à sociedade de castas: o aparecimento de escravos emancipados e de mulatos e sua correspondente mobilidade social tornavam-se ameaçadores para a elite, razão pela qual levantava-se incontinenti barreiras formais e informais a esses indivíduos. Essas barreiras, erigidas com o fito de impedir a mobilidade social de todos os não-espanhóis, tornavam-se mais severas e duradouras para o caso de escravos libertos e mulatos.
Dessa maneira, em menos de meio século, sobretudo nas décadas de 1520 e 1530, duas alterações significativas foram verificadas no modus operandi da colonização espanhola. O esforço inicial voltado especialmente para a mineração foi redirecionado, ainda que temporariamente, para a produção de cana-de- açúcar, ao mesmo tempo em que a mão-de-obra dos negros africanos, substituía o braço índio. A cultura da cana-de-açúcar não era capaz, nesses primeiros momentos, de mover sozinha as pesadas engrenagens coloniais. Segundo Scaramal (2006:15), a partir de meados do século XVI, em função principalmente da descoberta de ouro no México e
47 Hispaniola, passa a figurar apenas como “posto de abastecimento, especializado na produção de couro e de produtos alimentícios.”
O alheamento espanhol com relação as suas possessões caribenhas, subsistiria por aproximadamente dois séculos, despertando em fins do século XVII a cobiça e o interesse de outras metrópoles, como França, Grã-Bretanha e Holanda. Esse interesse foi consolidado quando a França se apropria da parte ocidental da ilha, aproximadamente um terço dela, com base no Tratado de Ryswick, firmado em 1697, como desdobramento da guerra dos nove anos, que teve como principais protagonistas a França e a Inglaterra. Esse fato constitui um dado relevante, uma vez que assinala o início da ocupação francesa da parte ocidental da ilha, que passa a ser conhecida como Saint Domingue, e nos permite localizar as origens da hegemonia sócio-político-econômica e cultural da França, no que se transformaria, em pouco mais de um século, no que conhecemos hoje como Haiti. Segundo Scaramal (2006:18),
somente “A partir do ano de 1670, Saint Domingue começou a funcionar como uma
verdadeira colônia.”, vindo a tornar-se, apenas meio século depois, um próspero empreendimento colonial.
A cultura da cana-de-açúcar, iniciada em meados do século XVI e abandonada logo em seguida, começa a despontar novamente como uma opção para a exploração colonial em função não apenas das dificuldades cada vez maiores para se explorar o minério, já escasso, mas também em função do aumento da demanda do açúcar na Europa. Outro fato que contribuiria para a implementação dessa cultura era a mesma estar atrelada a outra atividade não menos lucrativa: o maciço tráfico de escravos da África, que levaria, por conseguinte a um vertiginoso incremento populacional em Saint Domingue. O tráfico negreiro e a produção açucareira, intensificados principalmente a partir do início do século XVIII, foram determinantes não só para o efetivo povoamento da ilha, mas também para que essa despontasse, a partir da segunda década do século XVIII, como a principal e mais lucrativa das colônias francesas.
A prosperidade e o crescimento observados na porção ocidental da ilha não refletiam a realidade observada na parte oriental, espanhola, onde as atividades econômicas se desenvolviam, quase que exclusivamente em razão de Saint Domingue, mesmo que contrariando os interesses coloniais. Afora o vertiginoso
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desenvolvimento econômico observado, outro aspecto, ainda mais importante, no que diz respeito ao desenvolvimento sócio-político e cultural da ilha, outrora denominada Saint Domingue, estava na composição étnico-social que então se desenhava. Os brancos, detentores do poderio político-econômico, apesar de constituirem a minoria, menos de 10% do total da população, representavam um pesado fardo para os contingentes de escravos, que ainda se viam submetidos aos mulatos, por quem nutriam um ódio ainda maior, por terem, com esses, vínculos que iam além de um estatuto social.
A pequena ilha tornara-se, a partir da segunda metade do século XVIII, palco de inúmeros conflitos entre senhores brancos, mulatos e escravos, que sob intensa pressão e atentos aos desdobramentos políticos que começam a se delinear no além-mar começavam a se organizar, promovendo sucessivas revoltas. Estas começam a ocorrer por volta de 1740, tornando-se celebres as de Fort Dauphin, lideradas por um negro conhecido por Ti Noel, e outra levada a termo por Mackandal, figura lendária, em fins da década de 1750.
As principais heranças desse período serão, porém, o racismo exacerbado e o colonialismo, ambos resultantes das lutas entre brancos, mulatos e negros. A revolução haitiana foi um exemplo da polarização política orientada por um viés racista e sectário que, sob os auspícios do colonialismo, conheceu o seu limite com o levante de 1791. Uma conjunção de acontecimentos contribuíram para que Saint Domingue entrasse para a história de maneira peculiar naquele final de século. C. L. R. James (2000:39) retrata algumas das circunstâncias que levaram à revolução:
Os homens fazem a sua própria história. E os jacobinos negros de São Domingos fariam a história que mudaria o destino de milhões de homens e o curso econômico de três continentes. Todavia, se é possível aproveitar uma oportunidade, não é possível criá-la. O comércio de escravos e a escravidão estavam firmemente entrelaçados à economia do século XVIII. Três forças: os proprietários de São Domingos, a burguesia francesa e a burguesia inglesa prosperaram sobre a devastação de um continente e a brutal exploração de milhões de seus habitantes. Enquanto essas forças se mantivessem em equilíbrio, o tráfico demoníaco prosseguiria; e assim teria continuado até os dias de hoje. Mas nada, por mais lucrativo que seja, dura para sempre. Desde que o seu próprio desenvolvimento ganhou ímpeto, os fazendeiros das colônias e as burguesias francesa e britânica passaram
49 a gerar pressões internas e intensificar as rivalidades externas, dirigindo-se cegamente para conflitos e explosões que despedaçariam as bases de seu domínio e criariam a possibilidade da emancipação.
Os próceres da independência haitiana, de Mackandal a Henri Christophe, todos eles escravos ou ex-escravos negros, se não foram capazes de criar, estiveram atentos e aproveitaram a oportunidade que lhes foi apresentada. Sob os sons dos tambores e guiados pelos loas21, embalados pelos ares de outra revolução que, em teoria, mudaria o modo de pensar de todo o mundo ocidental, fizeram eles a sua própria revolução. O Estado haitiano nasce assim sob o estigma do caos, da desordem, da barbárie, uma vez que a sua independência desestrutura a única ordem possível: o querer ocidental, eurocêntrico. Maculado pela sua cor, origens, cultura e religião, o haitiano passa a buscar aí, onde olhos menos avisados fundamentaram a sua rejeição, a força que utilizou para reescrever a história do negro africano nas Américas.