Era de se esperar que, após o batismo de Vladimir (988, c.) e a consequente imposição do cristianismo a seus súditos na região do médio Dnieper algumas mudanças fossem necessárias naquela sociedade. Inicialmente a construção de igrejas foi incentivada:
[…] Ele [Vladimir] ordenou que igrejas de madeira devessem ser construídas e estabelecidas onde os ídolos pagãos haviam
96 Da mesma forma que essas obras propagam uma filosofia da história pautada na providência divina
(Pronoia) ou, em certa medida, pautada na ideia de destino (Tyché), como causas últimas de eventos. Nesse sentido, a tarefa de nossos documentos é a de divulgar e testemunhar a força da intervenção de Deus ao retirar os Rus´ do caminho da idolatria (PODSKALSKY, ODB, 1991: 1733-1734; KAZHDAN,
permanecido anteriormente. Então ele fundou a Igreja de São Basílio na colina onde o ídolo de Perun e as outras imagens estavam, e onde o Príncipe e o povo ofereciam seus sacrifícios. Ele começou a fundar igrejas e a designar padres para todas as cidades e a convidar o povo a aceitar o batismo em todas as cidades e vilas (CROSS, 1968: 117).97 Dadas as características intrínsecas ao cristianismo, dentre as quais destacamos a experiência religiosa embasada na leitura dos textos bíblicos, mudanças naquela sociedade foram extremamente necessárias. Para isso, como relata a Crônica, era imperativo educar pelo menos alguns de seus membros. Essa necessidade não deve, contudo, ser confundida com uma noção mais ampla da necessidade dessa educação. Seu relato narra providências tomadas em relação a isso e a partir dele podemos perceber algumas nuances desse esforço pedagógico:
Ele tomou as crianças das melhores famílias, e as enviou para instrução no aprendizado com livros. As mães dessas crianças choraram copiosamente por elas, porque ainda não eram fortes na fé, mas lamentaram como que pelos mortos. Quando essas crianças foram designadas para o estudo, foi cumprida na terra dos Rus´ a profecia que diz, “Nesses dias, o surdo ouvirá as palavras da escritura e a voz dos gagos será tornada clara” (Is., XXIX, 18) (CROSS, 1968: 117).98 Esse trecho demonstra, a princípio, a tentativa de dotar a população sujeita à autoridade de Vladimir dos atributos fundamentais da leitura e instrução para a participação na vida litúrgica cristã. Por outro lado, sua capacidade de impor uma conduta específica a seus súditos demonstra também uma situação sem paralelo entre os antepassados de Vladimir. Desfrutando de um poder militar incontestável– que nunca ficou tão concentrado nas mãos de um único príncipe como no período de Vladimir (SHEPARD, 2007: 380-381) – a ordem dada pelo príncipe para que seus súditos se batizassem no rio Dnieper e o consequente processo de incremento na cultura letrada da região fez, a longo prazo, com que Vladimir fosse alçado, pelos religiosos, monges,
97 He ordained that wooden churches should be built and established where pagan idols had previously
stood. He thus founded the Church of St. Basil on the hill where the idol of Perun and the other images had been set, and where the Prince and the people had offered their sacrifices. He began to found churches and to assign priests throughout the cities, and to invite the people to accept baptism in all the cities and towns (Tradução nossa).
98 He took the children of the best families, and sent them for instruction in book-learning. The mothers of
these children wept bitterly over them, for they were not yet strong in faith, but mourned as for the dead. When these children were assigned for study, there was fulfilled in the land of Rus’ the prophecy which says “In those days, the deaf shall hear the words of Scripture, and the voice of the stammerers shall be made plain” (Is, XXIX, 18) (Tradução nossa). Nas edições em língua portuguesa da Bíblia não há essa menção à voz dos gagos, e sim uma menção à cura dos cegos através da revelação. Tal como na Bíblia pastoral, onde se lê: “Nesse dia, os surdos ouvirão as palavras do livro; e os olhos do cego, libertos da escuridão e das trevas, tornarão a ver.” De todo modo, a perspectiva da cura e da libertação permanecem nas duas versões.
padres, etc. à posição de “apóstolo entre os governantes” (CROSS, 1968: 124). No entanto, para além dessa passagem, poucos indícios da Crônica nos levam a pensar que houve um aumento significativo na produção cultural letrada associada à vida religiosa da região no período imediatamente posterior ao batismo de Vladimir e a consequente cristianização dos territórios mais diretamente controlados pelo príncipe, cerca de 50 anos a partir de 988 d.C.. Isso se transformou em um mito propagado por uma interpretação literal dessa passagem. Tal como o historiador Simon Franklin alertou:
Tal é o mito. Mas Vladimir não foi ele mesmo o produtor do mito, nem nenhum dos seus contemporâneos. A busca por respostas articuladas do século X para a conversão leva à frustração. Aliás, a busca por respostas articuladas do século X para qualquer coisa leva à frustração. Isto não é porque os Kievanos fossem desarticulados, mas porque eles ainda não haviam começado e gravar suas articulações por escrito. Em contraste com os vários paganismos, o Cristianismo, importado de fora, era a religião do Livro. Ao aceitar o Cristianismo, Vladimir aceitou o desejo, a necessidade, de uma alta cultura escrita. Todavia, não há evidência de uma alta cultura escrita produtiva por cerca de meio século após a conversão oficial. Fora uma mão cheia de inscrições arranhadas e, na maior parte, fragmentadas, nenhum espécime de antes da metade do século XI da escrita nativa sobreviveu (FRANKLIN, 1992: 157).99
O que o autor indica é claramente perceptível no corpus documental produzido nesse contexto. Não existem fontes e praticamente não existem referências à produção textual nessa região até meados do século XI. O primeiro texto produzido ali, de autoria de um nativo, provavelmente foi o Sermão – o mais antigo a sobreviver até nossos dias. Ou seja, apesar do cristianismo instaurar a necessidade de uma cultura escrita, não há evidências de que essa necessidade se converteu em prática durante pelo menos meio século após a conversão de Vladimir. O outro principal documento que analisamos em nossa pesquisa, a Crônica dos tempos passados, compilação finalizada no início do século XII, também demonstra o surgimento de textos escritos sobre o batismo do príncipe em um momento bem posterior ao evento (CROSS, 1968: 136-137).
99 Such is the myth. But Vladimir was not himself the myth-maker, nor were any of his contemporaries
The search for articulated tenth-century responses to the conversion leads to frustration. Indeed, the search for articulate tenth-century responses to anything leads to frustration. This is not because tenth- century Kievans were inarticulate, but because they had not yet begun to record their articulations in writing. By contrast with the various native paganisms, Christianity, imported from abroad, was the religion of the Book. By accepting Christianity Vladimir accepted the desirability, the necessity, of a written high culture. However, there is no evidence of a productive written high culture for about half a century after the official conversion. Apart from a handful of scratched and mostly fragmentary inscriptions, no specimens of native writing survive from before the mid eleventh century (Tradução nossa).
O período de elaboração desses documentos, bem como o de sua difusão, nos remete a questões sobre suas especificidades discursivas, além de nos conduzir também a questões sobre a natureza dos argumentos utilizados nessas produções textuais. Temos assim as seguintes questões: Por que textos laudatórios como o Sermão100, e a Crônica101, ambos de origem eclesiástica, se esforçam tanto por centrar em representantes da dinastia Riuríkida os principais desdobramentos através dos quais o cristianismo se estabeleceu na região? Tratava-se realmente de um esforço conduzido unicamente por representantes dessa dinastia? O que se esperava atingir com esse argumento? Essas são algumas questões que queremos discutir nesse capítulo.
Sabemos que durante o processo de cristianização conduzido no leste europeu na Idade Média as missões evangelizadoras procuraram a conversão dos líderes políticos, através dos quais as populações poderiam ser convertidas. Isso gerou uma disputa entre os ritos latino e grego no contexto medieval, no qual seus representantes procuravam, a todo o momento, obter tais conversões em nome de suas respectivas sedes episcopais. No entanto o período de elaboração dessas fontes aconteceu posteriormente ao batismo do príncipe, em um ambiente marcado pelo mecenato principesco, no qual as bases da religião cristã já se encontravam presentes e começavam a dar fruto.
Ademais, em sua obra Writting, society and culture in Early Rus, c. 950-1300, publicada em 2004, Simon Franklin demonstrou que a escrita foi utilizada em uma ampla variedade de formas entre os Rus´, todavia também concluiu que o uso da escrita para fins de armazenamento de informações, mais próximo do que chamamos de prática documental nos dias de hoje, não foi praticado no contexto que estudamos (2004: 275). Essa constatação nos leva a pensar sobre qual era o papel do tipo de escrita elaborado pelos monges naquele contexto. Simon Franklin concluiu que alguns tipos de textos, entre os quais se encontram nossas fontes documentais, desempenhavam, de certa forma, um papel talismânico ou emblemático naquela sociedade (2004: 275). Nossa obrigação então se torna a de entender quais procedimentos foram adotados pelos religiosos que elaboraram nossos documentos para construir a imagem da dinastia riuríkida e da igreja entre os Rus´ por escrito, estabelecendo de fato a aliança e o entrelaçamento entre a Igreja e o poder político nesse contexto.
100 Que exalta as qualidades de Vladimir como o iniciador do cristianismo entre os Rus´(FRANKLIN;
HOLLINGSWORTH, 1991: 985).
101 dedicada a localizar os Rus´ no contexto da história universal e traçar o desenvolvimento da dinastia
Para responder a essas questões, inicialmente faremos um breve histórico do proselitismo cristão e das atividades missionárias cristãs entre os Rus´, passando por sua constituição enquanto religião oficial do ponto de vista desses mesmos religiosos que, aparte poucos outros testemunhos de origem laica102, são os únicos autores de documentos existentes do período, de acordo com os poucos vestígios contidos nas fontes.