1.3. Rüşvet Suçunun Unsurları
1.3.4. Maddi unsurlar
1.3.4.1. Fiil
De maneira geral, todas colocações feitas acima a respeito da beleza enquanto causa de paixões indiretas aplicam-se, com as devidas adaptações, à virtude.
Hume havia dito em T 2.1.7.2 (passagem citada no item 3.7.1 dessa dissertação)que não entraria no mérito das origens das distinções morais entre virtude e vício, se fundadas imediatamente na natureza ou se fundadas imediatamente no interesse e na educação. Isso porque Hume quer mostrar que seu esquema geral da dupla relação de impressões ideias entre as paixões e suas causas é válido independentemente do assentimento que viermos a dar a qualquer das teorias sobre a origem da moral.
Como se perceberá, ambas teorias admitem que a virtude é inseparável do prazer, de maneira que nada mais, além da estreita relação do caráter virtuoso ou vicioso com o nosso eu, resta necessário para comprovar que a virtude é, via uma dupla relação de impressões e ideias, uma causa de orgulho.
Se assentirmos à teoria do interesse e da educação como fontes imediatas das distinções morais, aceitamos que a essência da virtude é produzir um prazer em nós conforme o benefício pessoal que podemos usufruir de um caráter que nos proporciona vantagens ou então conforme o benefício geral que usufruímos de um caráter que obedece às regras morais convencionadas socialmente. Esse prazer derivado do caráter em questão, juntamente com uma relação estreita
entre o referido caráter e o nosso eu, são suficientes para a dupla relação de impressões e ideias que leva a mente às paixões do orgulho e da humildade:
Pois, se toda moralidade se funda na dor ou no prazer gerados pela perspectiva de algum prejuízo ou vantagem que possam resultar de nosso próprio caráter e do caráter alheio, todos os efeitos da moralidade têm de ser derivados da mesma dor ou prazer – entre eles, as paixões do orgulho e da humildade. A essência mesma da virtude, segundo essa hipótese, é produzir prazer, e a do vício é causar dor. Para suscitar orgulho ou humildade, a virtude e o vício devem fazer parte de nosso caráter. Ora, que outra prova podemos desejar para a dupla relação, de impressões e ideias? T 2.1.7.4.
Se, por outro lado, assentimos à teoria pela qual a natureza é a fonte imediata das distinções morais, aceitamos que certos caráteres, só de vistos e contemplados, produzem em nós um prazer original que constitui nossa aprovação moral ou então uma dor original que constitui nossa desaprovação moral. Essa aprovação moral e essa desaprovação moral são suficientes para a relação de impressões que faz parte daquela dupla relação que leva a mente às paixões do orgulho e da humildade. A passagem do Tratado é a seguinte:
O mesmo argumento irrefutável pode ser extraído da opinião daqueles que sustentam que a moralidade é algo real, essencial e fundado na natureza. (...) que, por uma constituição primitiva da natureza, certos caracteres e paixões, só de vistos e contemplados, produzem um desprazer, e outros, de maneira semelhante, suscitam um prazer. (...). A dor e o prazer, portanto, sendo as causas originais do vício e da virtude, devem ser também as causas de todos os seus efeitos e, consequentemente, do orgulho e da humildade, que acompanham de maneira inevitável essa distinção. T 2.1.7.5; meus sublinhados.
É interessante observar que Hume, logo depois de dizer que os caráteres causam o prazer e a dor no observador, afirma que a dor e o prazer são as causas originais do vício e da virtude. Se os caráteres que causam o prazer e a dor no observador já contivessem em si mesmos qualidades como virtude ou vício, teríamos o seguinte: que a virtude e o vício produzem, no observador, o prazer e a dor e, ao mesmo tempo, são produzidos pelo prazer e pela dor. Mas, afinal, qual a causa e qual o efeito? Pelo que Hume argumentou no Livro T 1, a ideia de uma causa pode levar a mente à ideia de seu efeito e também vice-versa, mas nós sentimos que existe uma antecedência da causa em relação ao efeito. Para nos mantermos fiéis à lógica e aos objetivos do Livro T 2,
deveríamos interpretar que são a virtude e o vício, enquanto respectivamente belas e disformes qualidades mentais de um caráter, os causadores do prazer e da dor necessários para a relação de impressões que compõe a dupla relação que leva a mente às paixões indiretas. Por outro lado, se analisarmos a questão pela perspectiva da origem da virtude e do vício, que é a lógica do Livro T 3, podemos conceber uma teoria que prega o seguinte: que a virtude e o vício só passam a existir a partir do momento em que a mente sente um prazer ou uma dor ao contemplar um caráter qualquer, de maneira que, se não tivéssemos essas duas sensações, não haveria razão para fazermos qualquer distinção moral, ou seja, não haveria razão para agrupar um conjunto de caráteres diversos sob a denominação de virtuosos, deixando os demais diversos caráteres sob a denominação de viciosos (em outras palavras, essa teoria prega que o caráter contemplado causa prazer ou dor, e estes dois dão fundamento à distinção entre virtude e vício e também dão origem às paixões indiretas, de maneira que a virtude e o vício não são qualidades do caráter das pessoas, mas diferentes impressões na mente do observador do caráter das pessoas). Talvez seja irrelevante69 para Hume, no Livro T 2, determinar se a virtude é uma qualidade real do caráter ou se é apenas uma qualidade da impressão de aprovação moral em nós, observadores, qualidade que nossa mente naturalmente associa ao caráter contemplado, projetando-se nele e atribuindo- lhe assim o adjetivo virtuoso.
Para finalizar o exame da Seção T 2.1.7, Hume coloca que não está preocupado em analisar o mérito ou a censura que podem surgir em nós a partir da contemplação de um caráter dominado pelas paixões do orgulho e da humildade. Sua preocupação, no Livro T 2, é analisar o surgimento das paixões orgulho e humildade em face às qualidades virtude e vício, considerando-se essas
69 Se no Livro T 2 isso é realmente irrelevante, em alguns momentos do Livro T 3 essa questão parece altamente
relevante, caso do Parágrafo T 3.1.1.26, em que Hume explicitamente nega que o vício seja uma matéria de fato do caráter de um homicida intencional. Não entraremos nessa discussão para não nos afastarmos dos objetivos da
duas qualidades apenas enquanto causas de paixões indiretas. Por isso ele diz que algumas pessoas
(...) podem se surpreender por me ouvirem dizer que a virtude suscita o orgulho, coisa que veem como um vício; e que o vício produz a humildade, que aprenderam a considerar uma virtude. (...). Examinemos, portanto, essas impressões [orgulho e humildade], consideradas em si mesmas; e investiguemos suas causas, quer estejam localizadas na mente ou no corpo, sem nos preocupar neste momento com o mérito ou a censura que as podem acompanhar. T 2.1.7.8; meus colchetes.
Enfim, ao tecermos alguns comentários a respeito das duas referidas seções que abrem a discussão da beleza e da virtude enquanto causas da paixão orgulho, percebemos que Hume não tinha a pretensão de formular cabalmente uma teoria estética e nem uma teoria moral, mas mostrar que, qualquer que seja a teoria estética e moral que adotemos, não podemos fugir da constatação de que a beleza e a virtude causam prazeres independentemente de causarem orgulho, de maneira a se encaixarem perfeitamente no sistema proposto por Hume da dupla relação, de impressões e ideias.