Assim como na proposta de Filliettaz, considero que a especificidade dos tipos de discurso está na ancoragem de categorias referenciais em uma representação textual. Entretanto, diferentemente dessa proposta, defendo que a representação textual que auxilia na definição dos tipos não é somente a intervenção, mas também a troca.
Na apresentação do trabalho de Bonu (2001) (cap. 2, item 2.4.1), vimos que, nas narrativas produzidas em entrevistas de recrutamento por candidatos a um posto de trabalho, as avaliações são feitas pelos dois locutores, psicólogo e candidato, já que, enquanto este antecipa e refuta aspectos potencialmente negativos de sua biografia, o psicólogo evidencia os pontos problemáticos da candidatura. Dessa forma, observa-se que, dependendo do gênero em que se produza a sequência, a representação textual que define o tipo de discurso pode ser monologal (intervenção) ou dialogal (troca). A percepção de que uma mesma sequência pode ser produzida por dois locutores é importante, porque permite ao modelo modular tratar de maneira satisfatória a forma de organização sequencial de gêneros conversacionais.
Quanto ao tipo narrativo do gênero reportagem, a natureza monologal desse gênero faz com que a representação textual que o define seja a intervenção. Assim, no plano hierárquico, o que difere o tipo narrativo da reportagem do tipo narrativo de gêneros conversacionais é a ancoragem de sua representação praxeológica em uma intervenção textual (monologal) e não em uma troca (dialogal).
61 É o que ocorre em Revaz (1997). Nesse trabalho, duas sequências narrativas jornalísticas não são
consideradas como pertencentes ao tipo narrativo, porque não se enquadram/encaixam no protótipo de Adam (1992).
114 3.1.1.3 Considerações sobre os tipos de discurso
Nesta proposta para o estudo da forma de organização sequencial, o tipo de discurso resulta da combinação de informações referenciais sobre o gênero do discurso e sobre a representação referencial, bem como de informação hierárquica sobre a unidade textual, troca ou intervenção, em que a representação se textualiza. Nesta proposta, a disjunção entre o mundo em que discurso se insere e o mundo que o discurso representa, propriedade considerada por Bronckart e Filliettaz como inerente à narratividade, é reinterpretada como a disjunção entre o gênero do discurso (representações sobre o mundo em que o discurso se insere) e os tipos de discurso (representações sobre o mundo que o discurso representa). Nesta proposta, essa disjunção é importante não por ser uma mera propriedade do tipo narrativo, mas por permitir analisar o impacto que o gênero exerce sobre a constituição do tipo.
Ao considerar o papel dos gêneros sobre a constituição dos tipos no estudo da forma de organização sequencial, busquei, assim, uma hipótese teórica com que contornar os problemas que uma abordagem cognitivista dos tipos de discurso coloca para a análise das sequências discursivas (ver item 2.4.1). Procurei também definir qual o lugar dos gêneros no estudo da heterogeneidade composicional, lugar que, tendo em vista os problemas conceituais apontados em 2.4.3, não estava definido de forma satisfatória.
Mas a hipótese de que cada gênero do discurso apresenta um tipo narrativo particular pode motivar uma questão importante: se cada gênero possui um tipo narrativo, como explicar as semelhanças entre os tipos narrativos de diferentes gêneros? Afinal, são essas semelhanças que nos permitem distingui-los de um tipo descritivo e que justifica o termo “narrativo” em todos os tipos narrativos.
Com base no que expus até o momento, é possível responder a essa questão da seguinte forma. Assim como Bronckart (2007) e Filliettaz (1999), considero que o tipo narrativo tem como propriedade fundamental operar uma disjunção entre dois mundos: aquele em que o discurso se insere e aquele que o discurso representa. Essa é a propriedade que, independentemente dos gêneros, distingue o tipo narrativo do tipo descritivo, por exemplo, que não tem por propriedade sinalizar essa disjunção entre o mundo em que a interação se passa e o mundo representado. Entretanto, cada gênero, entendido como uma esquematização ou abstratização das propriedades do mundo da interação, tem
115 impacto sobre a constituição da representação praxeológica que vai caracterizar seu tipo narrativo ou sua forma típica, canônica de narrar.
Assim, tanto no tipo narrativo da reportagem quanto no da fábula, os locutores representam um mundo diferente daquele em que interagem com o outro, operando a disjunção que apontei. Porém, o jornalista, motivado pelas propriedades do gênero reportagem, ativa uma representação praxeológica em que o sumário, por exemplo, é um episódio relevante na busca por despertar a curiosidade do leitor/cidadão ou em que a complicação deve atender às demandas de atualidade e de credibilidade desse leitor, que não aceita a representação de acontecimentos antigos ou fictícios. Já o fabulista, motivado, por sua vez, pelas caracteríticas da fábula, se vale de uma representação praxeológica diferente. Nesta, a visada de ensinamento torna relevante o episódio moral, enquanto a visada de divertimento faz com que a complicação (ou enlace (ADAM, 1992, 2011)) corresponda a um acontecimento fictício e surpreendente, protagonizado geralmente por animais, que quebre o equilíbrio de um estado inicial (KUYUMCUYAN, 1999a).
O mesmo impacto do gênero ocorre sobre os recursos textuais. Todos os tipos narrativos se caracterizam pela ancoragem da representação praxeológica em um constituinte textual. Mas, dependendo do gênero, essa representação vai se ancorar em uma intervenção, como ocorre na reportagem e na fábula, ou em uma troca, como ocorre na entrevista de emprego ou nos bate-papos on-line.
Em suma, os tipos narrativos dos diferentes gêneros se assemelham pela disjunção que operam entre o mundo da interação e o mundo da história. Mas eles se diferenciam profundamente na forma como esse mundo da história tipicamente se estrutura em uma representação praxeológica e se ancora em um constituinte textual (troca ou intervenção).