2.2. Bağışlama
2.2.3. Bağışlamanın İlişkili Olduğu Konular
2.2.3.2. Din-Bağışlama İlişkisi
Esse enquadre tem como objetivo descrever as propriedades referenciais de uma interação verbal efetiva, propriedades que dizem respeito aos agentes e ao modo como participam da ação conjunta. Partindo da hipótese de que o engajamento dos participantes do discurso não acontece de forma desorganizada, o enquadre acional busca reconstruir as propriedades ligadas às instâncias agentivas de uma situação de ação, as quais são responsáveis em grande medida pela regulação das produções verbais.
No enquadre acional, a descrição das propriedades de uma situação específica se faz por meio da articulação de quatro parâmetros, que são os enjeux comuns, as ações participativas, as posições acionais e os complexos motivacionais.
• Os enjeux comuns se referem à finalidade compartilhada pelos agentes, em torno da qual eles estruturam seu engajamento ou associação momentânea. Conforme
135 Lanna (2005, p. 139), os enjeux comuns fornecem “a base comum da intercompreensão e da racionalidade da ação conjunta”.
• As ações participativas dizem respeito aos objetivos individuais de cada um dos agentes. Mais especificamente, esse parâmetro define “as parcelas interdependentes de responsabilidade que cabem a cada um dos interactantes na emergência de um enjeu comum” (ROULET; FILLIETTAZ; GROBET, 2001, p. 114).
• As posições acionais se referem à representação das identidades participativas que são efetivamente assumidas pelos agentes. Para se chegar à posição acional ou à identidade dos participantes da interação, é preciso levar em conta o status social de cada um deles, os papéis praxeológicos ligados às ações participativas e as faces e os territórios em jogo.
• Os complexos motivacionais, por fim, remetem às razões exteriores à situação de discurso que levam cada um dos agentes àquele engajamento específico. Esse parâmetro remete, portanto, aos “projetos individuais superordenantes” (ROULET; FILLIETTAZ; GROBET, 2001, p. 117) dos participantes da interação. Conforme Filliettaz (2000), essas razões exteriores podem ser pressupostas ou explicitadas no discurso.
As noções de face e de território são especialmente relevantes para o estudo da forma de organização estratégica. Por isso, detenho-me na apresentação mais detalhada dessas noções:
• Goffman (2011, p. 13-14) define a noção de face como “o valor social positivo que uma pessoa efetivamente reivindica para si mesma através da linha que os outros pressupõem que ela assumiu durante um contato particular”. Ainda segundo o autor, a face “é a imagem do eu delineada em termos de atributos sociais aprovados” (p. 14). Ressaltando o aspecto social da noção de face, Valério (2003, p. 33) nota que a face de um indivíduo “não é característica sua, mas sim um construto socialmente estabelecido, a expressão social de seu ‘eu’ individual”. Por se referir ao jogo de construção de imagens recíprocas desenvolvidas na interação, essa noção “corresponde a um processo de caráter
136 dramatúrgico” (PESSOA, 2004, p. 54). Conforme Goffman (2011, p. 14), as pessoas tendem a experimentar uma reposta emocional em relação à face, já que “seus ‘sentimentos’ se ligam a ela”. Por isso, toda interação implica a gestão das faces envolvidas. Essa gestão compreende “o conjunto das ações empreendidas por uma pessoa para tornar tudo que ela está fazendo consistente com a face” (LANNA, 2005, p. 36)68.
• Em Goffman (1973), a noção de território diz respeito aos direitos que cada pessoa reivindica e à defesa desses mesmos direitos. Os direitos que formam o território de cada um constituem um campo de objetos ou uma reserva, cujos limites são habitualmente preservados e defendidos. Segundo Goffman (1973), o território se refere não só ao território físico, à “porção de espaço que cerca um indivíduo” (p. 44), mas também abrange partes do corpo, vestimentas e objetos de uso pessoal. Além disso, o território engloba as reservas de informações, ou seja, as informações às quais o indivíduo tenta controlar o acesso. Engloba ainda os domínios reservados da conversação, isto é, o direito que tem o indivíduo de controlar quem pode lhe endereçar a fala ou o direito que tem um grupo de pessoas de proteger-se da intromissão e da indiscrição de outros69.
Com o enquadre acional, o módulo referencial busca oferecer um instrumento de análise que seja flexível o suficiente para descrever as particularidades de interações efetivas e que explicite a forma como os agentes estruturam sua associação momentânea.
Como resultado da combinação desses quatro parâmetros, o enquadre acional da interação mediada pela reportagem “Desvios subterrâneos” pode ser representado da seguinte forma:
68 Porque a noção de face remete à construção de imagens recíprocas, Amossy (2005) aproxima essa
noção da de ethos, que diz respeito à imagem que o produtor do discurso constrói de si por meio da linguagem que emprega (AMOSSY, 2005; MAINGUENEAU, 2008a) ou “à figuração da instância responsável pelo discurso” (AUCHLIN, 2001, p. 220).
69 Brown e Levinson (1983) desenvolveram as noções de face e de território na perspectiva da teoria da
polidez em termos de face positiva e face negativa. Neste trabalho, não me valho das contribuições dessa proposta. Isso porque a proposta de Brown e Levinson é essencialmente ligada à noção de ato de fala. Por isso, ela não dá conta do fato de que a gestão das relações de faces e territórios envolve mecanismos globais de construção do discurso, mobilizando informações de diferentes planos (sequencial, relacional, informacional, enunciativo, etc) da complexidade discursiva. Por essa razão, este trabalho emprega as noções de face e de território da forma como desenvolvidas por Goffman (1973, 2011).
137 FIGURA 14 - Enquadre acional da reportagem “Desvios subterrâneos”
Esse enquadre permite compreender melhor um conjunto importante de aspectos ligados ao contexto de produção da reportagem em estudo.
O enjeu informação sobre corrupção indica qual é a finalidade que faz com que jornalista e cidadão se associem em um mesmo processo interacional. O alcance dessa finalidade comum está ligado à realização de ações participativas individuais, mas complementares. Assim, enquanto o jornalista denuncia desvios de verba, o cidadão
avalia as denúncias.
Essas ações não têm um fim em si, já que são motivadas por razões externas à interação, as quais compõem o complexo motivacional. Na reportagem, o jornalista não explicita quais são as ações que o levam à sua produção. Mas, porque a revista de que a reportagem faz parte é um objeto de consumo, sabemos, com base em nosso conhecimento de mundo, que, ao escrever “Desvios subterrâneos”, o jornalista contribui
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para a produção e venda da revista. Já a leitura da reportagem pode permitir ao leitor tomar decisões públicas, como cobrar atitudes de governantes.
Na interação, os agentes assumem posições acionais específicas. Para escrever uma reportagem sobre desvios de verbas e publicá-la na revista Veja, é preciso que o autor satisfaça um pré-requisito, que é ser um jornalista dessa revista ou um jornalista que eventualmente lhe presta serviços. Ao longo da interação, o autor mantém o status de jornalista, mas assume diferentes papéis praxeológicos, dependendo da ação participativa que realiza. Na gestão das relações de face e território, o jornalista procura se apresentar ao leitor, por meio de seu discurso, como um profissional que busca ser reconhecido como merecedor de credibilidade e como prestador de um serviço público.
Quanto ao leitor, a abordagem do conteúdo político exige que ele assuma como pré- requisito para participar da interação a postura de alguém interessado na coletividade e na gestão dos recursos públicos. Em outros termos, o leitor precisa assumir o status de cidadão, porque é para o cidadão que a reportagem é produzida70. Na realização das ações participativas, ele também assume diferentes papéis. E, finalmente, nas relações de face e território, o leitor procura ser visto como um cidadão que busca ter acesso aos acontecimentos da esfera pública, esperando que esses acontecimentos cheguem a ele do modo mais imparcial possível e que suas exigências de credibilidade sejam satisfeitas.