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Ġç ve DıĢ Güvenlik

BĠRĠNCĠ BÖLÜM: DEVLET VE GÜVENLĠK ARASINDAKĠ ĠLĠġKĠ

C. Ġç ve DıĢ Güvenlik

A tese de doutorado de N. Delizoicov (2002), realizada no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFSC, analisou o conhecimento sobre o movimento do sangue no corpo humano considerando os contextos de sua produção e disseminação.

A autora apontou as razões para a utilização de Fleck em sua pesquisa, assinalando que a abordagem realizada pelo autor, sobre o papel dos manuais a partir de considerações epistemológicas, é uma abordagem inédita. Destacou também o caráter sócio-histórico-cultural que Fleck enfatiza em sua análise epistemológica:

Para ele, o conhecimento tem como uma de suas características a de ser compartilhado por coletivos sócio-culturalmente constituídos, o qual denomina de coletivos de pensamento. Suas considerações procuram explicitar como ocorre a dinâmica de apropriação de conhecimentos pelos sujeitos que constituem, ou virão a constituir, tais coletivos e, no caso de comunidades científicas, a dinâmica de produção de novos conhecimentos. É neste contexto específico que Fleck se debruça sobre o papel dos manuais como um dos elementos que permite ocorrer o que ele denomina de circulação intercoletiva de idéias (DELIZOICOV, N., 2002: 13).

Delizoicov (2002) argumentou que as análises de Fleck sobre a consideração do papel representado pela interação de cientistas com outros grupos sociais, científicos ou não, ou seja, sobre o que Fleck (1986) denomina de circulação intercoletiva de ideias na produção do conhecimento, não apresentam equivalência em outros epistemólogos, caracterizando o caráter inédito das análises do autor. Enfatizou que a partir do uso das categorias fleckianas:

[...] pode-se debruçar sobre o percurso e a transformação que ocorre na disseminação do conhecimento desde o contexto da produção pelos coletivos dos cientistas e a sua disseminação entre pares, até os coletivos constituídos pelos alunos.

Nesta disseminação, são elementos fundamentais o livro didático e os professores do ensino fundamental e do ensino médio, estes também se constituindo em coletivos de pensamento (DELIZOICOV, N., 2002: 14).

Neste sentido, para caracterizar conhecimentos e práticas provenientes das interlocuções do grupo de investigadores no ensino de Ciências, procura-se compreender as origens, os pressupostos teóricos e as diferentes formas de utilização dos três momentos pedagógicos. Ou seja, a disseminação dos 3MP, assim como as transformações ocorridas no decorrer da história e nos diferentes contextos, é um dos objetos de investigação da presente pesquisa. Assim como no trabalho de N. Delizoicov (2002), nesta pesquisa os professores da educação básica da região investigada são elementos fundamentais no processo de disseminação, bem como seus formadores.

A autora utilizou as categorias de Fleck (1986) circulação inter e intracoletiva de ideias, além da instauração, extensão e transformação dos estilos de pensamentos sobre a circulação do sangue que se sucederam historicamente. Analisou as diferentes interpretações sobre o trajeto do sangue no corpo humano, procurando identificar a existência de distintos estilos de pensamento. Identificou a existência do Estilo de Pensamento Galênico e do Estilo de Pensamento de Harvey.

Na medida em que analisou os contextos vividos por Cláudio Galeno e de Harvey, os conhecimentos produzidos, as práticas propostas e as formas de atuação na comunidade, N. Delizoicov (2002) destacou as diferenças entre os modelos para o movimento do sangue no corpo humano, propostos pelos dois pensadores, argumentando sobre as transformações ocorridas para o estabelecimento do modelo proposto por Harvey ao considerar a importância da circulação intercoletiva de ideias:

Quero aqui destacar o papel das protoidéias e da circulação intercoletiva de idéias. A noção de que alguma ‘entidade’ é responsável pela manifestação da vida em um ser vivo, ao passar de uma época à outra, de um coletivo de pensamento para o outro, ganha alguns atributos e perdem outros. Isto se dá em função dos conhecimentos compartilhados, bem como do sistema de valoração e da linguagem própria dos coletivos de pensamento envolvidos na circulação

das idéias, a qual comporta conhecimentos e práticas. No entanto, mesmo em diferentes interpretações, persistem idéias que estabelecem conexões ou relações de dependência entre distintos modelos explicativos. São as protoidéias presentes, portanto, na circulação intercoletiva de idéias (DELIZOICOV, N., 2002: 97).

A autora destaca o papel fundamental, desempenhado na teoria do conhecimento de Fleck, das interações que determinados coletivos fazem com práticas e conhecimentos oriundos de outros coletivos, ao se dedicarem à solução dos problemas pertinentes. Neste sentido, ele aponta fontes originárias de um estilo de pensamento no enfrentamento de um problema por um coletivo. Uma delas seriam as proto-ideias, que constituem a pré-história das ideias que orientam a busca de soluções para problemas que o grupo de pesquisadores formulam.

Tão ou mais importante no surgimento de um novo estilo de pensamento são problemas cujas respostas não são obtidas através dos conhecimentos e práticas compartilhados pelos respectivos coletivos que se debruçam sobre a sua solução. Esse tipo de problemas, que Fleck (1986) denomina de complicações, ocasionam transformações em um determinado estilo de pensamento e propiciam o surgimento de um novo. Nas considerações de Fleck, desempenham papel determinante para essas transformações, originárias da busca de soluções para as complicações, as interações entre distintos coletivos de pensamento. Trata-se, conforme destacado por N. Delizoicov (2002), das circulações intercoletivas de ideias.

Para Fleck (1986), o estilo de pensamento apresenta duas fases bem distintas. Na época clássica, ocorre a extensão do estilo de pensamento, período em que tudo concorda com o estilo de pensamento. Além disso, se estabelece a chamada harmonia das ilusões, na qual os fenômenos são adaptados ao estilo de pensamento, com êxito. Em sua argumentação, esse processo de extensão ocorre, sobretudo, devido à intensa interação sociocultural que se verifica entre os membros que constituem e que constituirão o coletivo que compartilha o estilo de pensamento. Por suas características e função, Fleck denomina tais interações de circulação intracoletiva de ideias.

Como nem sempre tudo se adapta perfeitamente, surgem então, as complicações, ou seja, os fenômenos que destoam do previsível. Assim, o coletivo de pensamento, após ter a consciência desse tipo de problemas, não mede esforços para adequá-los ao estilo, contudo, tal

coletivo nem sempre alcança êxito. Quando as complicações se intensificam, após um período de instauração e extensão de um estilo de pensamento, surge, então, uma fase de mudanças no estilo de pensamento, ou seja, a transformação do estilo de pensamento, reiniciando, assim, um novo ciclo, com práticas e conhecimentos novos. N. Delizoicov destaca, assim, o papel da circulação intracoletiva de ideias na análise que realizou:

A compreensão do movimento do sangue no corpo humano é compartilhada, dentre outros especialistas, particularmente, por anatomostas e fisiologistas, cujas atividades profissionais são orientadas por conhecimentos e práticas especializadas. Estes especialistas compõem círculos esotéricos através dos quais há a circulação intracoletiva de idéias. Devido a esta circulação, durante a fase de formação, os especialistas se apropriam de conhecimentos e práticas, características do coletivo de pensamento ao qual pertencem, as quais são disseminadas nesta circulação intracoletiva, por exemplo, em trabalhos de congressos e em artigos de revistas específicas de suas respectivas áreas de atuação (2002: 147).

De forma relativa à disseminação do modelo de Harvey sobre o movimento do sangue no corpo humano, no âmbito da educação escolar, a autora investigou o ensino da circulação do sangue através das práticas docentes realizadas através de entrevistas e do conteúdo exposto nos livros didáticos, analisando o desenvolvimento do conceito de movimento do sangue no corpo humano e as concepções histórico- epistemológicas presentes nos livros analisados.

Nessa etapa da pesquisa, almejou constatar como ocorre a circulação intercoletiva de ideias em círculos exotéricos, formado pelos professores do ensino fundamental e do ensino médio, sendo denominados de “leigos formados”, tendo como referência a análise de livros didáticos, especificamente os capítulos que tratam da circulação sanguínea, e as entrevistas realizadas.

A circulação do conhecimento pode ser considerada como um dos aspectos centrais do pensamento epistemológico fleckiano. Na estrutura geral do coletivo de pensamento, Fleck (1986) distingue os círculos esotérico e exotérico. A presença de um círculo esotérico

formado pelos especialistas de uma determinada área do conhecimento caracteriza a identidade primeira do coletivo de pensamento, por ser o portador do estilo de pensamento. É a partir desse núcleo de conhecimentos e práticas compartilhadas que se forma o círculo exotérico, formado pelos leigos e leigos formados, que passam a interagir com o círculo esotérico, podendo adquirir o conjunto de elementos que formam o estilo de pensamento.

Entre os círculos exotérico e esotérico são estabelecidas relações dinâmicas que contribuem para a ampliação e disseminação do conhecimento, denominadas circulação intracoletiva e intercoletiva.

A circulação intracoletiva ocorre entre membros de um mesmo coletivo de pensamento, contribuindo, em primeiro lugar, para que um membro do coletivo aprenda a compartilhar os conhecimentos e práticas do Estilo de Pensamento, e depois para a extensão do Estilo de Pensamento, na medida em que novos conhecimentos são produzidos e incorporados ao Estilo de Pensamento vigente. Ou seja, através da circulação intracoletiva de ideias, que ocorre no interior do coletivo de pensamento, o sujeito individual se insere no coletivo de pensamento e precisa aprender e compartilhar os conhecimentos e práticas do estilo de pensamento vigente. Por outro lado, a circulação intercoletiva de ideias ocorre entre distintos estilos de pensamentos e coletivos de pensamento.

A circulação intercoletiva de ideias ocorre entre dois ou mais coletivos de pensamento. Essa dinâmica da circulação intercoletiva, proposta por Fleck (1986), auxilia a compreender a interação entre o círculo esotérico e exotérico. Para o epistemólogo, a intensidade da circulação intercoletiva de ideias está relacionada com as possíveis diferenças entre os estilos de pensamento de cada coletivo. Assim, pode- se afirmar que concepções/ideias mais próximas entre dois coletivos, favorecem a circulação intercoletiva de ideias.

Um coletivo de pensamento existe sempre que ocorrem trocas de ideias entre os membros do coletivo. Um indivíduo pode pertencer a vários coletivos de pensamento ao mesmo tempo.

O estudo de Leite (2004) mostra como Mendel circulava em distintos coletivos de pensamento e como ele acabou se apropriando dos conhecimentos para construir a sua teoria sobre o processo de transmissão das características hereditárias.

Conforme já destacado, Leite (2004) analisou os contextos econômicos, sociais e políticos assim como os conhecimentos existentes na época em que Mendel propôs as leis da genética. De acordo com a autora, Mendel participou de coletivo dos religiosos, dos agricultores, dos hibridadores de espécies, dos cientistas, dos físicos, dos biólogos,

dos meteorologistas e dos apicultores e sua participação em coletivos de pensamentos múltiplos influenciou seu modo de pensar sobre a hereditariedade, contribuindo, assim, para instauração de um novo estilo de pensamento, compartilhado por um novo coletivo, o dos geneticistas.

A autora localizou e caracterizou os coletivos de pensamento com os quais Mendel estabeleceu contato e mostrou como esse contexto contribuiu para a construção de suas ideias.

Fleck (1986) destaca o papel do coletivo de pensamento na formação intelectual dos indivíduos. “A fonte de seu pensar não está nele, mas no entorno social em que ele vive e a atmosfera social que respira. A pessoa não pode pensar de outra maneira, pois sua mente está estruturada deste modo determinado devido à influência do entorno social que lhe rodeia” (FLECK, 1986: 93).