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O arrependimento posterior ao reconhecimento da filiação socioafetiva é irrelevante ao direito, quando o vínculo de filiação socioafetiva for estabelecido por consentimento voluntário do pai registral. O reconhecimento voluntário da paternidade é irreversível no direito brasileiro, salvo comprovado vício de consentimento.

Para o Superior Tribunal de Justiça existem dois requisitos indispensáveis para que seja possível anular um registro de nascimento: inexistência de vínculo biológico e não ter sido constituída a filiação socioafetiva. No caso analisado a seguir, o pai registral quis desconstituir o registro de nascimento da filha após 5 anos do seu reconhecimento. Mesmo que não seja o pai biológico da filha, restou comprovado nos autos que reconheceu voluntariamente a mesma, apesar de já possuir dúvidas sobre a paternidade à época do registro, descaracterizando qualquer vício de consentimento. Ademais, só buscou desconstituir o vínculo filial após 05 anos, tempo suficiente para a consolidação do fator tempo na filiação socioafetiva.

PROCESSUAL CIVIL. CIVIL. RECURSO ESPECIAL. REGISTRO CIVIL INVERÍDICO. ANULAÇÃO. POSSIBILIDADE. PATERNIDADE SOCIOAFETIVA. PREPODERÂNCIA.

1. Ação negatória de paternidade decorrente de dúvida manifestada pelo pai registral, quanto a existência de vínculo biológico com a menor que reconheceu voluntariamente como filha.

2. Hipótese em que as dúvidas do pai registral, quanto a existência de vínculo biológico, já existiam à época do reconhecimento da paternidade, porém não serviram como elemento dissuasório do intuito de registrar a infante como se filha fosse.

3. Em processos que lidam com o direito de filiação, as diretrizes determinantes da validade de uma declaração de reconhecimento de paternidade devem ser fixadas com extremo zelo e cuidado, para que não haja possibilidade de uma criança ser prejudicada por um capricho de pessoa adulta que, conscientemente, reconhece paternidade da qual duvidava, e que posteriormente se rebela contra a declaração auto-produzida, colocando a menor em limbo jurídico e psicológico.

4. Mesmo na ausência de ascendência genética, o registro da recorrida como filha, realizado de forma consciente, consolidou a filiação socioafetiva - relação de fato que deve ser reconhecida e amparada juridicamente. Isso porque a parentalidade que nasce de uma decisão espontânea, deve ter guarida no Direito de Família.

5. Recurso especial provido. (REsp 1244957/SC, Rel. Ministra NANCY ANDRIGHI, TERCEIRA TURMA, julgado em 07/08/2012, DJe 27/09/2012). Os trechos da ementa a seguir relatam a tentativa por parte de terceiro de desconstituir uma filiação socioafetiva consolidada no tempo, no caso a irmã da filha socioafetiva, tendo em vista que a mãe já havia falecido.

Direito civil. Família. Recurso Especial. Ação de anulação de registro de nascimento. Ausência de vício de consentimento. Maternidade socioafetiva. Situação consolidada. Preponderância da preservação da estabilidade familiar. - A peculiaridade da lide centra-se no pleito formulado por uma irmã em face da outra, por meio do qual se busca anular o assento de nascimento. Para isso, fundamenta seu pedido em alegação de falsidade ideológica perpetrada pela falecida mãe que, nos termos em que foram descritos os fatos no acórdão recorrido – considerada a sua imutabilidade nesta via recursal –, registrou filha recém-nascida de outrem como sua. - A par de eventual sofisma na interpretação conferida pelo TJ/SP acerca do disposto no art. 348 do CC/16, em que tanto a falsidade quanto o erro do registro são suficientes para permitir ao investigante vindicar estado contrário ao que resulta do assento de nascimento, subjaz, do cenário fático descrito no acórdão impugnado, a ausência de qualquer vício de consentimento na livre vontade manifestada pela mãe que, mesmo ciente de que a menor não era a ela ligada por vínculo de sangue, reconheceu-a como filha, em decorrência dos laços de afeto que as uniram. Recurso especial não provido. (REsp 1000356/SP, Rel. Ministra NANCY ANDRIGHI, TERCEIRA TURMA, julgado em 25/05/2010, DJe 07/06/2010). (grifo nosso).

Percebe-se da análise dessa ementa que não houve vício de consentimento no registro da filha, apesar de ter sido uma adoção à brasileira, não poderá ser descaracterizada por uma vontade da irmã, fundada em interesses alheios à vontade da irmã adotiva. A mãe socioafetiva já falecida, registrou a filha como sua e cuidou dela, consolidando um laço de afeto e reconhecimento social. Ademais, cabe somente a filha socioafetiva o direito de conhecer sua identidade genética, caso queira.

O reconhecimento de paternidade consciente, como no exemplo do homem que registra filho de sua mulher, sabendo ser de outro, é irrevogável. Assumir a paternidade significa mais que um registro, mas um compromisso com a filiação responsável. Após o término do casamento, não poderá o pai alegar somente a falta de vínculo biológico para desfazer a filiação que ele reconheceu por livre e espontânea vontade. O arrependimento posterior viola a boa-fé objetiva das relações jurídicas, caracterizando venire contra factum

proprium, bem como vai de encontro ao princípio do melhor interesse da criança que deverá

guiar as decisões judiciais sobre o tema.

Conclui com sensatez, Carmela Salsamendi de Carvalho, ao analisar casos semelhantes de pedidos de anulação do reconhecimento de paternidade:

Desses julgados, observa-se que a preservação do estado de filiação (jurídico, e, muitos deles também, socioafetivo), a proteção da pessoa do filho, especialmente se ele for menor, prevalecem tão somente em razão da inexistência de erro no reconhecimento de filho não biológico (um requisito formal, ligado à verdade genética), e não exatamente no interesse do filho em concreto.63

4.2. Alimentos

Os alimentos decorrem do parentesco, conforme o art. 1.694 do CC/2002, “Podem os parentes, os cônjuges ou companheiros pedir uns aos outros os alimentos de que necessitem para viver de modo compatível com a sua condição social, inclusive para atender às necessidades de sua educação”. Esse artigo reflete o princípio da solidariedade nas relações familiares presente na CF/88.

O CC/1916 não reconhecia os filhos ilegítimos, que não podiam pleitear alimentos necessários à subsistência. Somente com a lei 883/49, já mencionada, foi possível ao filho ilegítimo ingressar com uma ação de investigação de paternidade e pleitear os alimentos.

Os alimentos são devidos pela parentalidade, afinidade e pelo princípio da solidariedade.

Quando uma pessoa adquire status de filho socioafetivo deverá desfrutar de todos os direitos inerentes à paternidade. O presente trabalho defende o direito aos alimentos em todos os tipos de filiação socioafetiva, inclusive no vínculo gerado pela relação

padrasto/enteado, quando se caracterizar o estado de filho afetivo ao longo do tempo e o enteado não possuir pai com condições financeiras de sustentá-lo dignamente. Assim:

Defronte da realidade socioafetiva e das novas formações familiares, é forçoso, não se reconhecer que hoje, é possível que das relações de afinidade germinem fortes vínculos de afeto, relações em que os personagens se coloquem na posição de pai e filho (posse do estado de filho), dando ensejo à paternidade socioafetiva em toda a sua amplitude e implicações. 64

O filho socioafetivo terá o direito irrenunciável aos alimentos, conforme seguinte decisão:

EMENTA: APELAÇÃO CÍVEL. NEGAÇÃO DE PATERNIDADE. MANUTENÇÃO DO VÍNCULO JURÍDICO PATERNO-FILIAL. SOCIOAFETIVIDADE. Não prospera a pretensão do apelante que visa, em demandas anulatória de registro civil e alimentos e negatória de paternidade cumulada com exoneração de pensão alimentícia que tiveram julgamento conjunto, atacar o ato de reconhecimento voluntário de paternidade por ele levado a efeito, uma vez que não provou qualquer vício, seja de vontade ou de forma, que tenha maculado o ato jurídico de reconhecimento por ele realizado. Ademais, o apelado conta 14 anos de idade e, ao longo do tempo, conviveu no seio da família como se filho do recorrente fosse, estando caracterizada a posse de estado de filho. É oportuno lembrar que filho não é objeto descartável, que se assume quando convém e se dispensa por ato de simples vontade. NEGARAM PROVIMENTO, À UNANIMIDADE. Apelação Cível Nº 70010807642, Sétima Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Luiz Felipe Brasil Santos, Julgado em 20/04/2005, Diário da Justiça do dia 27/04/2005.

Enteado e padrasto são parentes por vínculo de afinidade e este não se extingue, mesmo com o fim do casamento, conforme o art.1.595. § 2º “Na linha reta, a afinidade não se extingue com a dissolução do casamento ou da união estável”.

Conclui Aline Vieira Calado sobre a relação padrasto/enteado,

Entretanto, não se pode olvidar que nem sempre haverá o estabelecimento de vínculos paterno-filiais calcados na afetividade entre padrastos e enteados, somente nos casos em que estes se reconhecerem como família e se considerarem reciprocamente pai e filho. Portanto, não haverá obrigação alimentar ou qualquer outro direito inerente à paternidade quando dois indivíduos ligados por vínculo parental de afinidade em 1° grau (padrasto/enteado) conviverem juntos, mas não se colocarem nas posições de pai e filho respectivamente, em seus corações e diante da sociedade, uma vez que afeto não é algo que se possa impor.65

O art.1636 do CC/2002 estabelece que o pai ou a mãe que contrai novas núpcias, ou estabelece união estável, não perde, quanto aos filhos do relacionamento anterior, os

64 CALADO. Aline Vieira. Parentesco por afinidade socioafetiva e obrigação alimentar. Disponível em:

http://www.ambito-juridico.com.br/site/index.php?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=7288 .Acesso em

10, nov, 2013.

direitos ao poder familiar, exercendo-os sem qualquer interferência do novo cônjuge ou companheiro. Desse artigo é perceptível que a obrigação alimentar do padrasto não está amparada na lei. No entanto é possível pleitear alimentos do padrasto quando esse for reconhecido como pai socioafetivo da criança. Defendemos a paternidade única, seja biológica ou socioafetiva. O filho deverá identificar o pai e este será o responsável pela pensão alimentícia devida.

Diante do exposto, não se pode permitir a monetarização do afeto. O padrasto/madrasta podem se unir pelos laços de afeto com seus enteados, no entanto, o direito a pensão alimentícia e de todos os outros decorrentes do vínculo filial deve ser algo espontâneo, ocorrido ao longo do tempo. A mera ajuda financeira espontânea de padrastos aos seus enteados e até mesmo de padrinhos aos seus afilhados, não são indicativos de posse de estado de filho.

Apesar da filiação socioafetiva está tão difundida nos últimos anos, ainda há jurisprudência que desconhece a importância do reconhecimento da paternidade socioafetiva no pleito alimentar/previdenciário, conforme decisão:

ADMINISTRATIVO - MILITAR - PENSÃO POR MORTE - FILHA DE CRIAÇÃO - MAIOR DE IDADE - PENSÃO - LEI Nº 3765/60 - SÚMULA Nº 116/TCU - PRECEDENTES. -Objetivando habilitar-se à pensão militar; aduzindo a qualidade de filha de criação de ex-militar falecido em 1985 e de sua obituada esposa, beneficiária de indicado benefício, ante o fato de ter sido entregue aos 3 (três) meses de idade aos mesmos, e desde então por eles criada como filha, ajuizou a ora apelante o presente feito, julgado improcedente, entendendo o Magistrado de piso pela inexistência de previsão na norma de regência art. 7º, Lei 3765/60, de enquadramento de filha de criação como beneficiária da pensão militar. -Em que pese a orientação firmada pelo Tribunal de Contas da União Súmula nº 116, certo é que o deferimento da pensão em epígrafe, nos moldes em que postulada, não prescinde da constatação da condição de filho, nos termos da Lei Civil, à época do óbito do instituidor 1985 . -O art. 7º, II da Lei nº 3765/60 elenca como beneficiários da pensão militar, dentre outros, os filhos de qualquer condição, exclusive os maiores do sexo masculino, que não sejam interditos ou inválido, estando ligada tal nomenclatura à antiga classificação de filiação (legítimos, ilegítimos e adotivos), não se estendendo aos chamados filhos de criação pelo que, inexiste previsão legal de enquadramento da filha de criação como beneficiária da pensão militar. - De toda sorte, sequer se poderia cogitar do pensionamento a título de beneficiário instituído, dada a impossibilidade de reversão em favor deste, como se observa do art. 24, parágrafo único, da Lei nº 3.765/60. -Destarte, A lei acima descrita não faz das chamadas filhas de criação beneficiárias da pensão e, sim, coíbe a discriminação em relação aos filhos, fazendo prevalecer o tratamento igualitário e estendendo o direito ao pensionato aos filhos legítimos, ilegítimos e adotivos. (TRF2, AC , DJ03/09/08), sendo certo que, A condição de filho não admite elastério. A filha de criação ou agregada não pode ser equiparada a filhos de qualquer condição.(mutatis TRF4, MAS 970423059-1/RS, DJ 09/08/00) -Fixadas estas premissas, correta, portanto a decisão objurgada, restando justificado o não pagamento do benefício perseguido, posto que, Não há amparo legal à concessão da

pensão militar para "filha de criação", com base exclusivamente no argumento de que a menor vivia sob a guarda do falecido (TRF2, AC, DJ06/03/03; mutatis, TRF2, AC , DJ 12/06/07; mutatis, TRF2, AC , DJ02/12/05, mutatis TRF4, AC 20010401032582-0/RS, DJ 14/11/01), e, sobretudo por cuidar-se de pessoa maior, presumidamente válida, sem provas de dependência econômica, o que deságua na sua manutenção. -Precedentes. -Recurso desprovido. (TRF-2 - AC: 201151010086865, Relator: Desembargador Federal POUL ERIK DYRLUND, Data de Julgamento: 27/02/2013, OITAVA TURMA ESPECIALIZADA, Data de Publicação: 05/03/2013).