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A. Cenin ve Kürtaj Kavramları

1. Cenin Kavramı

Nossa consciência a respeito dele é construída a partir das tendências que o ser social tem posto na ordem do dia. Essas tendências são reais: a redução do tempo socialmente necessário para produzir riquezas, o aumento da produtividade, entre outras. A partir destas tendências é possível vislumbrar o reino da liberdade como uma possibilidade no progressivo caminho de prosseguimento do ser social.

Caso seja a escolha dos homens, o reino da liberdade, estará assentado sob uma forma de produção de bens materiais baseado no trabalho livre e associado. Essa forma de produção social terá consequências ontológicas para todas as totalidades sociais.

Uma vez sendo superada a propriedade privada, o caráter e o grau de desenvolvimento das forças produtivas mudarão. As forças produtivas passarão a pertencer a humanidade. Deixarão de ser privadas. Serão uma propriedade da humanidade. O caráter comunal subsumirá o caráter privado da propriedade. O desenvolvimento delas será motivado pelo desenvolvimento das necessidades humanas. Nesse sentido as forças produtivas serão essencialmente humanas.

Este caráter e desenvolvimento das forças produtivas irá fundamentar novas relações de produção entre os homens. No processo produtivo eles irão comparecer como

homens, produtores livres. A separação ontológica provocada pela propriedade privada não mais existirá entre eles. Os homens comparecerão no processo produtivo frente a frente. A propriedade comunal impedirá o isolamento e a separação deles. A divisão do trabalho será determinada pelas necessidades sociais dos homens, e não mais pelo valor de troca das mercadorias:

Em lugar de uma divisão do trabalho que se engendra necessariamente na troca de valores de troca, ter-se-á uma organização do trabalho que tem como consequência a porção que corresponde ao indivíduo no consumo comunitário [...]. [Neste] Caso, o caráter social da produção é pressuposto e a participação no mundo dos produtos [não das mercadorias], no consumo, não é mediada pela troca de produtos de trabalhos ou de trabalhos reciprocamente independentes. (DUSSEL, 2012, p. 170) Não haverá necessidade de os homens estabelecerem relações econômicas no processo produtivo. Isso nem seria possível já que eles não mais comparecerão como proprietários privados. A produção será previamente regulada pela humanidade.

Assim como o selvagem tem de lutar com a natureza para satisfazer suas necessidades, para manter e reproduzir sua vida, assim também o civilizado tem de fazê-lo, e tem de fazê-lo em todas as formas de sociedade e sob todos os modos de produção possíveis. Com seu desenvolvimento, amplia-se esse reino da necessidade natural, pois se ampliam as necessidades; mas ao mesmo tempo, ampliam-se as forças produtivas que as satisfazem. Nesse terreno, a liberdade só pode consistir em que o homem social, os produtores associados, regulem racionalmente esse seu metabolismo com a natureza, trazendo-o para seu controle comunitário em vez de serem dominados por ele como se fora por uma força com o mínimo emprego de forças e sob as condições mais dignas e adequadas à sua natureza humana. (LUKÁCS, 2012, p. 198) A produção deixará de ser um processo feito às costas dos homens: destrutiva e incontrolável. Livres e associados eles irão regular a produção social, previamente, com vista à humanização da humanidade.

Nestas condições objetivas, o desenvolvimento da relação entre o desenvolvimento das forças produtivas e das relações de produção será objetivado naquilo que Lukács denominou de valor supremo.

O que interessa reconhecer aqui é tão somente que o reino da liberdade, no qual Marx vislumbra o valor supremo, a culminância de valor do desenvolvimento social, não possui caráter econômico e até se retira do âmbito da economia o qual, como afirma Marx aqui mesmo peremptoriamente, será para sempre um reino da necessidade. (LUKÁCS, 2012, p. 198)

O valor supremo estará livre do caráter econômico porque ele será resultado do trabalho de homens livres e associados. A necessidade econômica que determina a prevideação dos homens no capitalismo será subsumida, no reino da liberdade, pelas

necessidades realmente humanas. Dessa forma, o material produzido pela produção social será o valor supremo, ou seja, bens materiais e espirituais resultados do desenvolvimento social da humanidade. Valores de uso, resultado do desenvolvimento social da humanidade com vista à humanização cada vez maior da humanidade. O valor supremo consiste no desenvolvimento da relação das forças produtivas com as relações de produção como um fim em si mesmo em vista da humanização da humanidade, da generalidade humana: “O desenvolvimento das forças humanas, considerado com um fim em si mesmo” (MARX, 1983, p.273). É o processo de afastamento das barreiras naturais, posto em movimento pela produção social, em vista da humanização da humanidade, em vista da explicitação da personalidade humana: “O desenvolvimento das forças como fim em si pressupõe o valor social da plena explicitação da personalidade humana, representando, portanto, um valor” (LUKÁCS, 2013, p. 198). A produção social produzirá o mais social, só que o mais social humanizado.

Esse material produzido pela produção social – o valor supremo – criará os fundamentos para uma nova forma de distribuição e consumo. Já nos referimos que a produção social é a δυναμις que implode o ser social tornando-o sempre mais social. Pelo seu caráter de transição, ela determina materialmente todas as demais totalidades, tornando-se protótipo delas. A distribuição e o consumo serão levantados pressupondo todas as consequências ontológicas da produção social livre e associada. Nestes termos, teremos uma distribuição e um consumo livre e associado. A produção livre e associada é a pedra angular, uma forma radicalmente nova de intercâmbio do homem com a natureza, sobre a qual serão levantadas as demais totalidades do ser social

Essa nova forma de produção determinará o material e a forma como ele será distribuído e consumido. Nesse sentido, a distribuição e o consumo continuarão mantendo sua eterna dependência ontológica com a produção social.

Se a produção foi efetivada por homens livres e associados ela somente se realizará por distribuidores e consumidores livres e associados. Embora a produção crie o valor supremo ele somente será realizado através da efetivação da distribuição e do consumo livre e associado. Nesse sentido, a produção social continuará também mantendo uma dependência ontológica com estas totalidades. Sua realização dependerá da efetivação destas totalidades sociais.

Nestas condições objetivas, desaparecerá a circulação como troca. A troca desaparecerá como uma exigência ontológica desta nova forma social do ser social. O caráter

comunal da propriedade impedirá a troca. No reino da liberdade não haverá necessidade de trocas já que os bens materiais pertencerão a todos os homens, à humanidade. A propriedade comunal libertará os homens da propriedade privada. Livres, eles não terão necessidade de estabelecer trocas.

O processo de humanização da humanidade somente ocorrerá quando todas as totalidades sociais se tornarem socialmente humanas, livres e associadas. Elas serão chamadas a cumprirem uma função social diferente da produção social, mas ontologicamente dependentes dela. Para cumprirem suas funções específicas no interior do ser social, estas totalidades se afastarão - mas não se separarão- da produção social. Esse afastamento somente é possível graças ao caráter de autonomia relativa que elas gozam no interior do ser social, tanto nas suas relações com a totalidade da produção social, quanto nas suas relações com a totalidade social, o reino da liberdade. Nas suas especificidades sociais, as totalidades sociais irão determinar a produção social, revolucionando-a.

O momento ideal, no reino da liberdade, será constituído, em geral, por ideias que explicam e justificam essa forma de existência real. Sem estas ideias que fortaleçam o comunitarismo, o comunismo, o real não se efetivará.

No campo ideal, a ética será fundamental para justificar e revolucionar esse processo de humanização da humanidade:

A autoconstrução do homem tomou novas cores, isto é, estabeleceu-se, segundo o fluxo geral, um laço entre a auto edificação de si e da humanidade. No conjunto desse processo, a ética é um fator de ligação muito importante. E porque ela, precisamente, renuncia a qualquer autonomia; porque ela se considera conscientemente um momento da práxis humana geral, que a ética pode se tornar um momento desse enorme processo de transformação, dessa real humanização da humanidade. (LUKÁCS, 2013, p. 27)

A culminância, o coroamento, de todo esse processo de correspondência recíproca entre as totalidades sociais, entre o real e o ideal, será a realização do valor supremo, a realização da humanização da humanidade, o reino da liberdade.

O reino da liberdade só começa, de fato, quando o trabalho deixa de ser determinado por necessidade e por utilidade exteriormente impostas; por natureza, transcende a esfera da produção material propriamente dita.[...] Neste domínio, a liberdade só pode consistir nisto: os produtores associados - o homem social - regulam racionalmente o intercâmbio material com a natureza, controlam-no comunitariamente, sem deixar que seja a força cega que os domina; fazem-no com o menor dispêndio de energias e nas condições mais condignas e adequadas à natureza humana. Mas este esforço situar-se-á sempre no reino da necessidade. Além deste é que começa o desenvolvimento das forças humanas como um fim em si mesmo, o verdadeiro reino da liberdade, que só pode florescer tendo por base o reino da

necessidade. E a condição fundamental desse desenvolvimento humano é a redução da jornada de trabalho. (MARX, 1983, p. 273)

No reino da liberdade, efetiva-se a universalidade do gênero em contraponto à singularidade burguesa. Ele anuncia o fim da pré-história dos homens, fundada na luta de classe, em relações reificadas e marca o início da história dos homens: a produção social humana.

A suprassunção da propriedade privada é, por conseguinte, a emancipação completa de todas as qualidades e sentidos humanos; mas ela é essa emancipação justamente pelo fato de esses sentidos e qualidades terem se tornado humanos, tanto subjetiva como objetivamente. O olho tornou-se olho humano, do mesmo modo como seu objeto se tornou um objeto social, humano, proveniente do homem para o homem. Por isso, imediatamente em sua práxis, os sentidos tornaram-se teóricos. Eles se comportam em relação à coisa em função da coisa, mas a própria coisa é um comportamento humano objetivo diante de si mesma e diante do homem e vice- versa. [...] A carência ou a fruição perderam, assim, a sua natureza egoísta e a natureza perdeu o seu caráter meramente utilitário, na medida em que a utilidade se tornou utilidade humana. (MARX, 2004, p. 109)

É claro, no entanto, que o reino da liberdade sempre será fundamentado no reino das necessidades. Os homens sempre serão sujeitos de necessidade. Antes de serem produtores, os homens são sujeitos de necessidades. Acontece que, com a superação da propriedade privada, as necessidades que irão movimentar a totalidade social serão aquelas essencialmente humanas.

Temos nos referido ao caráter de autonomia relativa presente no ser social. O reino da liberdade será uma totalidade de totalidades. Mas, uma totalidade social aberta. Isso significa que sempre haverá possibilidades de conflitos, tanto nas totalidades sociais quanto no campo do momento ideal.

No entanto, predominantemente, no reino da liberdade haverá uma contradição de caráter unitário. Esta contradição unitária irá por em movimento todas as totalidades sociais.

Dessa forma, a contradição da produção social nestas condições objetivas terá um caráter positivo, unitário. Ela não se moverá a partir de contradições antagônicas, mas a partir de contradições unitárias. Com o fim do antagonismo das classes sociais, a contradição da produção social será unitária e terá uma objetivade positiva. O afastamento das barreiras naturais provocado pela contradição unitária da produção social do reino da liberdade implicará num processo de “humanização da humanidade” (LUKÁCS, 2013, p. 28), num processo de generalidade humana em contraponto à singularidade da produção social burguesa.

A distribuição e o consumo irão pressupor todas as consequências ontológicas da contradição unitária da produção social. Isso significa que, por estarem fundamentadas nas contradições unitárias dos bens materiais, a distribuição e o consumo, inevitavelmente, irão assumir tal caráter de contradição.

O novo, provocado pela produção social, através do processo de afastamento- nunca separação – das barreiras naturais, consistirá no mais homem, na mais humanidade. Todas as totalidades sociais se converterão em totalidades essencialmente humanas. A produção dos bens materiais perderá seu caráter econômico e se tornará a produção de valores de uso com vista à humanização da humanidade.