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Antes de tratarmos, especificamente, das categorias selecionadas, consideramos importantes apresentar, de forma sucinta, o perfil dos sete professores entrevistados, os quais nos apresentam uma rica variedade pessoal e profissional.

3.2.1 Leila

A entrevista com a professora Leila foi realizada na universidade em que ela atua (universidade B). A professora, muito receptiva e descontraída, fez um relato muito pontual de suas práticas culturais cotidianas, as quais possuem fortes relações com sua vida familiar e com as novas tecnologias (área na qual atua academicamente). Leila é uma mulher de 45 anos, se autodeclara branca, é casada e possui três filhos, com idades de 15, 12 e 9 anos. Mora no Bairro Dona Clara (Região da Pampulha) com o marido, os filhos e os pais que já são idosos. Utiliza como meio de transporte carro e metrô e aponta que tem como objetivo utilizar bicicleta para se movimentar na cidade. Raramente realiza trabalhos domésticos, possui uma “auxiliar” que cuida da casa e faz o almoço, sendo que as compras de supermercado são realizadas pelo marido. É pedagoga e recentemente concluiu o doutorado em educação, o que, segundo Leila, promoveu uma mudança em suas práticas, uma vez que tem tido a oportunidade de se dedicar mais aos filhos. É católica e, apesar de já não frequentar a igreja, por não ter tempo e por considerar a igreja “muito obsoleta”, “obriga” os filhos a realizarem o catecismo para que “tenham referência, mesmo que eles escolham outras depois.” Atua como professora no ensino superior há18 anos, sendo que já trabalhou na Educação Básica por 20 anos. Atualmente, é professora efetiva estável na universidade B, sendo responsável pela disciplina de monografia em duas turmas. Sua renda pessoal mensal é de 14 a 18 salários mínimos e a renda familiar acima de 25 salários.

3.2.2 Sandra

A professora Sandra, inicialmente, agendou a entrevista para ser realizada na universidade B, no entanto, devido a um problema no pé, optou por alterar o local, e a entrevista foi realizada em seu apartamento, localizado no centro de Belo Horizonte. Sandra apresenta um perfil bem diferente de Leila, possui 50 anos, se autodeclara parda, é casada,

não possui filhos e utiliza como meio de transporte táxi. Não realiza trabalhos domésticos, possui uma faxineira quinzenal e normalmente quem cozinha é o seu marido, já que ela “não sabe fazer nada”. Sandra possui graduação em Ciência da Informação, em História, e pós- doutorado em Educação. É católica, mas se considera “bem ecumênica”, uma vez que não vê problemas em “dialogar com outras espiritualidades”. Neste sentido, define que teve uma formação católica muito ligada à militância política e não ao ritual, mas atualmente se considera espiritualista. É efetiva estável na universidade B, sendo que atua na pós-graduação. Atualmente, possui cinco orientandos de mestrado, além de ministrar duas disciplinas na pós- graduação e de ser vice-coordenadora do programa. É professora universitária há 15 anos, possui renda pessoal de 08 a 14 salários mínimos e familiar de 10 a 15 salários. Dentre as práticas mais ressaltadas por Sandra durante a entrevista, destaca-se o cinema, com o qual ela diz ter uma relação muito próxima, se apresentando inclusive como cinéfila.

3.2.3 Antônio

Muito cordial e com grande riqueza de informações, a entrevista com o professor Antônio foi realizada na universidade B. Antônio tem 66 anos, se autodeclara branco, é casado, possui três filhos com idades de 37, 33 e 30 anos. Mora no bairro Nova Suíça (Região Oeste), utiliza como meios de transporte carro, ônibus e táxi, sendo que raramente realiza trabalhos domésticos. É graduado em Letras, possui mestrado e é efetivo estável na universidade B. Atua há 13 anos como professor no Ensino Superior e possui também uma microempresa, que tem como atividade principal a revisão de textos escolares, sendo que já trabalhou como professor de Literatura em cursos pré-vestibulares por 10 anos. Possui renda pessoal de 08 a 14 salários mínimos, é católico e ressalta ter suas “devoções, crenças e formas de crer”, não frequentando igrejas regularmente. Por meio da entrevista, Antônio demonstrou, atualmente, ter uma forte relação com práticas de leitura e de música clássica, já deu aula de semiótica aplicada ao teatro e já foi diretor do curso de teatro, do curso de dança e do curso de música da instituição na qual atua.

3.2.4 Suzana

A entrevista com a professora Suzana foi realizada em seu gabinete na universidade A. Ao longo da entrevista, foi possível notar certo desconforto ao falar das práticas culturais

cotidianas, uma vez que a professora foi constatando, ao longo da entrevista, que “não possui uma vida muito interessante”. Suzana é estrangeira e vive no Brasil há cinco anos, por essa razão não tem muitos vínculos familiares - além da distância, ela perdeu os pais quando era mais jovem - e de amizades. Somando-se a isso, recentemente se separou do marido e por isso suas práticas culturais se alteraram muito, uma vez que já não tem a companhia do marido, de sua família e nem sempre tem a companhia da filha de 9 anos, que, por sinal, é com quem costuma frequentar cinemas e outros espaços. Por ser estrangeira, costuma viajar bastante para a Europa, apresentando alta frequência a museus internacionais. Suzana é a mais jovem dentre as mulheres entrevistadas, possui 39 anos, se autodeclara branca, mora no bairro São Luiz (Regional Pampulha), utiliza ônibus como meio de transporte. É católica, mas não frequenta igreja, realiza trabalho doméstico aos finais de semana por não “ser de seu hábito ter empregada” e gosta de cozinhar. É pedagoga, possui pós-doutorado e é professora efetiva na universidade A, na qual atua na pós-graduação contando atualmente com nove orientandos de mestrado. É professora universitária há 12 anos e possui renda pessoal mensal de 08 a 14 salários mínimos.

3.2.5 Paula

A entrevista com a professora Paula aconteceu em seu apartamento localizado no Bairro Santo Antônio, visto que no momento da entrevista estava de licença médica devido a uma cirurgia realizada no joelho. Tal aspecto, em conjunto com o doutorado em andamento, tem restringindo consideravelmente suas práticas culturais. Durante a entrevista, Paula se mostrou muito descontraída e à vontade para falar. De acordo com ela, o fato de morar sozinha contribui para que goste de conversas, ressalta inclusive que “sente necessidade de conversas”. Paula possui 54 anos, é separada, se autodeclara branca, possui três filhos com idades de 33, 31 e 28 anos, sendo que um deles mora nos Estados Unidos, o que faz com que Paula viaje anualmente, com exceção deste momento em que cursa doutorado, para o país. Com relação à religião, é católica, no entanto, afirma que atualmente tem uma “relação mais livre”, se considera “cristã, espiritualizada”. Utiliza como meio de transporte carro, táxi e carona, sendo que, quando possível, gosta de caminhar até o local desejado. Realiza trabalhos domésticos semanalmente, é graduada em Pedagogia e Administração e possui mestrado em Educação. É efetivada na universidade B, sendo que no momento, devido ao doutorado, está com carga horária reduzida (20 horas). É professora há 14 anos, possui renda pessoal de 08 a

14 salários mínimos. Durante a entrevista, esclareceu que uma vez que paga pelo doutorado, pois não possui bolsa, seu orçamento tem ficado comprometido.

3.2.6 Cláudio

Cláudio possui 68 anos, se autodeclara branco, é casado com uma professora universitária, possui três filhos com idades de 36, 34 e 26 anos e utiliza carro como meio de transporte. Um dos filhos do professor é cidadão francês, o que, segundo ele, “lhe dá uma boa desculpa para viajar para Europa”. Neste sentido, assim como a professora Suzana, Cláudio também apresenta uma frequência significativa em museus, igrejas e concertos Europeus. É graduado em Filosofia, possui doutorado, é efetivo estável na universidade A e aposentado por outra instituição pública. Atua na pós-graduação (pesquisador 1A do CNPQ) e atualmente conta com oito orientandos, sendo quatro de mestrado e quatro de doutorado. É professor universitário há 31 anos e possui renda familiar acima de 25 salários mínimos. Ao contrário dos demais professores, foi o único a responder que realiza trabalhos domésticos diariamente. É católico, mas não se considera praticante, raramente frequenta igrejas. Durante a entrevista, realizada em seu gabinete na instituição A, Cláudio se mostrou muito atencioso, simples e disposto a contribuir para a pesquisa. A conversa seguiu um ritmo descontraído e regado a pequenas piadas. Dentre as práticas do professor, destacam-se as relacionadas à música clássica: Cláudio toca órgão e é avalista abonado da Filarmônica. Sua formação musical teve influência de sua irmã, que era proprietária de uma escola de música na cidade onde nasceu.

3.2.7 Alexandre

O professor Alexandre é o mais jovem do grupo entrevistado, tem 35 anos, se autodeclara preto, é casado com uma professora e não possui filhos. Mora no Barreiro e utiliza como meio de transporte carro e ônibus. Atualmente, está afastado da universidade na qual trabalha devido ao doutorado em curso no Rio de Janeiro, por isso pediu que a entrevista fosse realizada na UFMG. Durante a entrevista realizada no gabinete do orientador desta pesquisa, Alexandre revelou de maneira calma e muito cuidadosa diversos aspectos de sua vida profissional e pessoal. Em virtude do doutorado em outro estado, suas práticas têm sido muito direcionadas à família, e ao mesmo tempo em que demonstra que essa é uma opção, que gosta do ambiente familiar, em outros revela certo incômodo pela amplitude que tais práticas têm tomado. Alexandre atua como professor universitário há sete anos, é efetivo

estável na universidade B, possui renda pessoal de quatro a oito salários mínimos e renda familiar de 10 a 15 salários. Quanto ao trabalho doméstico, realiza semanalmente aos sábados pela manhã, quando, junto com a esposa, organiza o apartamento no qual vivem.

As sete entrevistas realizadas nos propiciaram um rico material sobre a vida e as práticas culturais cotidianas destes professores. Para elencarmos as categorias de análise, optamos pelos aspectos que ficaram um tanto indefinidos na verificação dos questionários e ainda as informações que aparecem mais fortemente nas entrevistas. Assim, elencamos quatro categorias: a produção acadêmica, o tempo livre, a família e as práticas culturais relacionadas à docência, as quais apresentamos a seguir.