Conforme ilustrado no capítulo metodológico, durante o processo produtivo, os diversos setores da economia se interligam, seja para trás, comprando insumos para utilizar nos seus respectivos processos produtivos, seja para frente, vendendo seus produtos finais para serem utilizados como insumos por outros setores. A intensidade e a amplitude dessas interrações variam de setor para setor, de forma que cada um possui uma característica própria que o permite encadear-se com mais ou menos setores que outros. Essas diferentes capacidades foram mensuradas a partir dos índices puros de ligação total (para frente e para trás). Neste contexto, quanto maior o valor do índice de ligação total de determinado setor, mais dinâmico ele será no tocante ao parâmetro analisado.
A tarefa principal desta subseção, nessa que será a última análise de resultados empreendida nesta dissertação, é apontar os setores mais dinâmicos, estabelecendo, desta forma, justiça quanto a real importância de cada um. Considerando-se o problema da escassez de recursos ao qual estão submetidos os formuladores de políticas públicas, esta é uma análise importante nesta dissertação, haja vista que ferramentas que possibilitem uma alocação mais eficiente de recursos tornam-se fundamentais para o sucesso do planejamento estratégico.
A MIP permite que a análise dos setores-chave seja realizada por intermédio de duas metodologias distintas: o índice de HR (Hirschmam e Rasmussen) e o índice puro de ligação (GHS). Conforme já descrito no capítulo referente à metodologia, este Autor considerou ser mais apropriado valer-se do conceito dos índices puros de ligação (GHS), haja vista que, diferentemente do primeiro parâmetro, o índice puro de ligação considera também a importância e a representatividade que um determinado setor exerce na economia como um todo. Ainda na visão deste Autor, ao agregar em sua metodologia parâmetro além dos coeficientes técnicos, o índice puro de ligação praticamente elimina a possibilidade de a presente análise identificar como sendo estratégico um setor que, apesar de ter grandes relacionamentos com os demais setores, tem importância insignificante na economia do Nordeste.
A observação geral dos índices puros de ligação (para frente e para trás) evidencia números relativamente baixos, em sua quase totalidade menores que 1, o que significa, em outras palavras, indicadores abaixo da média calculada pela MIP para a Região (Tabela 15).
A análise dos índices puros de ligação para trás aponta que os setores que mais têm capacidade de encadear-se com outros através da demanda de insumos são os de Abate de bovinos, com índice avaliado em 2,143, seguido de Outros produtos alimentares, com 1,969 e Fabricação de óleos vegetais, com 1,768 (Tabela 15). Neste contexto, se as metas de uma suposta política de desenvolvimento para a Região forem a de gerar demanda para os produtos primários e movimentar o mercado interno via agroindústria, o panorama atual da estrutura produtiva nordestina, apontado pela MIP, sugere que os setores mencionados sejam os mais promissores para o sucesso da citada política.
A observação dos índices puros de ligação para frente evidencia que os setores Outros produtos alimentares (0,884), Fabricação de óleos vegetais (0,604) e Rações (0,572) são aqueles com maior poder de mobilização, através da oferta de insumos (Tabela 15). Partindo-se da suposição apresentada no parágrafo anterior, estes seriam os setores indicados para serem priorizados por políticas que visem prover a Região de uma base para novas estruturas produtivas, ou mesmo que objetivem reduzir a dependência e o déficit comercial do Nordeste, através da diminuição da quantidade de importação de insumos das outras regiões.
Tabela 15 – Distribuição dos Índices Puros de Ligação por Setor da Agroindústria
Fonte: Elaboração própria, a partir de dados da FIPE, 2009.
Conforme descrito no capítulo 4, os dois índices de ligações abordados podem ser somados a fim de se obter um valor único, chamado índice puro de ligação total. Neste particular, quanto maior o resultado desta soma, maior o poder de encadeamento que determinado setor tem em uma economia e mais estratégico ele deve ser considerado.
De acordo com os dados da Tabela 15, observa-se que os setores da agroindústria nordestina apresentam baixíssima interação com os demais setores do sistema produtivo do Nordeste como um todo. Prova disso é que, dos 14 setores em estudo, apenas 5 possuem indicadores puros de ligação totais acima da média apontada pela MIP para a economia da Região. Neste âmbito, observa-se que Outros produtos alimentares (2,853), Abate de bovinos (2,585) e Fabricação de óleos vegetais são os setores que mais têm capacidade de aglutinar setores ao seu redor.
A conseqüência desta baixa interação é a constatação de uma região essencialmente importadora de insumos e exportadora de renda, conforme ficou refletido nos elevados percentuais de transbordamento ilustrados na seção 5.7. O desperdício de potencial de germinação de externalidades positivas é tamanho, que faz com que setores, como o de
Fabricação de açúcar, que mais gerou impactos em 4 dos 5 indicadores de estudo e que poderia estar se integrando de forma bem mais efetiva com os demais setores da economia nordestina, estejam aparecendo nas últimas posições entre os mais relevantes setores agroindustriais da MIP, em termos de encadeamento e importância estratégica.
De todo modo, em se considerando a atual estrutura produtiva da Região, os três setores citados no parágrafo imediatamente anterior ao parágrafo acima seriam os considerados setores-chaves a serem apontados por este estudo como priorizáveis no contexto do planejamento e programação de políticas setoriais visando o desenvolvimento regional, via integração dos setores produtivos do Nordeste.
Apesar de pertinente, deve-se esclarecer que esta é uma constatação um tanto quanto restrita, haja vista que este estudo observou apenas dos impactos referentes à implantação dos empreendimentos, o que, em função das peculiaridades já expostas nas análises dos transbordamentos e dos multiplicadores, de certa forma limitou as interações entre os setores.
Analisando-se a eficiência na alocação dos recursos via comparação do perfil das contratações descrito no item 5.1 com a classificação dos setores por índice de ligação puro total, ilustrada na tabela 15, identifica-se que 84,0% das inversões do FNE estão concentradas em 6 setores da MIP, sendo que destes, 3 estão classificados entre aqueles com melhores capacidades de encadeamento. Desta forma, poder-se-ia inferir que 45,7% das contratações teriam sido alocadas de maneira eficiente, enquanto que o restante poderia, pela ótica descrita, ter sido mais bem alocado. No entanto, considerando-se que no percentual dito “não tão bem alocado” está inserida a parcela correspondente às contratações do setor de Fabricação de açúcar (19,5% do total), o qual apresentou os melhores multiplicadores da seção 5.8, acredita- se que esta não seria a análise mais justa a ser feita, motivo pelo qual seria mais correto sugerir que, em geral, houve eficiência na alocação os recursos do Fundo.