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YALIN YÖNETĠMĠN
1.11.3. Öğrenen Organizasyonlar
O atual contexto brasileiro apresenta um panorama sociopolítico peculiar relacionado às políticas públicas de patrimônio cultural. A Constituição em vigor desde 1988 foi elaborada como produto de uma demorada luta pela redemocratização do país. Seu texto expressa os anseios de reforma social, disposto a atender simultaneamente as conflituosas reivindicações de diferentes grupos sociais. Em pleno contexto pós- moderno de valorização da diversidade cultural, o Estado brasileiro abandona o discurso que tenta unificar o país sob a égide de uma única cultura e abraça o pluralismo cultural (PENIN, 2010).
De fato, pelo inciso 1 do artigo 215 da Constituinte, é imposto ao Estado o dever de proteger “as manifestações das culturas populares dos grupos participantes do
processo civilizatório nacional”, entre estes destaca-se os “afro-brasileiros”. O caráter
multicultural da nação prescreve ao aparato estatal, entre outras preocupações, a preservação do modo de vida das comunidades remanescentes de quilombo, uma vez que estas integram a cultura afro-brasileira.
A preocupação constitucional com o tema também é retomada no artigo 216 da mesma carta Magna:
“Art. 216. Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem:
I - as formas de expressão;
II - os modos de criar, fazer e viver; (...)
V - os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico.
§ 1.º O poder público, com a colaboração da comunidade, promoverá e protegerá o patrimônio cultural brasileiro, por meio de inventários,
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registros, vigilância, tombamento e desapropriação, e de outras formas de acautelamento e preservação.
(...)
§ 5.º Ficam tombados todos os documentos e os sítios detentores de reminiscências históricas dos antigos quilombos.”
Mais uma vez o artigo deixa clara a opção constitucional pelo pluralismo cultural no território nacional, quando destaca os “diferentes grupos formadores da
sociedade brasileira”. Ao mesmo tempo replica a ampla definição de Patrimônio
Cultural da Convenção da Unesco de 1970, ao destacar como “Patrimônio Cultural
brasileiro bens de natureza material e imaterial”, a exemplo: “I - as formas de expressão”; e “II - os modos de criar, fazer e viver”. Outro fato de destaque e avanço
no artigo da Constituição é juntar em um único item artefatos criados pela mão humana (“conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, artístico e arqueológico”), com elementos naturais (“conjuntos paleontológico e ecológico”), além de destacar o
“conjunto paisagístico” como um dos bens patrimoniais da nação passíveis de
proteção.
Com esse espírito, a Constituição de 1988 lançou mão de um amplo reconhecimento de direito dos grupos historicamente excluídos, até então alijados das condições necessárias para uma existência digna. Da mesma forma, lançou a base Constitucional para outras formas de instrumentalizar a preservação patrimonial, de natureza totalmente diferente do artifício de tombamento, que serviu durante muito tempo (e ainda é utilizado em muitos casos), como única ferramenta do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e dos órgãos estaduais e municipais que cuidam do patrimônio cultural (PENIN, 2010:23).
Já o parágrafo 5º – cuja significância do presente trabalho se faz relevante – declara que “ficam tombados todos os documentos e os sítios detentores de
reminiscências históricas dos antigos quilombos”. Nesse parágrafo, dois pontos devem
ser considerados tendo em vista que em um texto normativo oriundo de uma discussão marcadamente democrática, pautada por concessões, acordos e exigências de todos os tipos, os termos não primam por definições sistemáticas.
O primeiro ponto de destaque refere-se aos termos utilizados: o adjetivo
“tombados” aparece relacionado ao substantivo “os sítios”, em clara alusão aos sítios
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termos, o parágrafo não considera a definição de quilombo enquanto comunidade viva, mas estabelece o tombamento desses sítios arqueológicos referentes a construção de sua própria identidade de grupo, segundo antigos critérios de proteção. Como consequência, parte do território dessas comunidades onde venha a existir esses sítios arqueológicos, sofrem as restrições legais do instrumento usado para o tombamento (o Decreto Lei 25/37), devendo obedecer a restrições que em muitos casos divergem ou, simplesmente, são ignorados aos critérios de reconhecimento e uso patrimonial da própria comunidade34.
O segundo ponto a ser destacado remete ao que Ulpiano Bezerra de Meneses (2007:48) denominou de cultural turn (virada cultural). Segundo ele, o termo cunhado por especialistas remete a tendência cada vez mais acentuada nas ciências sociais de concentrar na esfera da cultura fenômenos que deveriam manter seu contorno próprio, por exemplo, de natureza econômica ou social. Essa ocorrência não está restrita a esfera da política de Estado, mas de um modo de ver generalizado na sociedade, inclusive sendo apropriado e manipulado nas políticas das grandes corporações, nas indústrias culturais e publicitárias e nos meios de comunicação de massa.
Nesse sentido, muitos movimentos reivindicatórios dos direitos das classes excluídas (mais especificamente a exclusão social e econômica), também se apropriam dessa tendência, transferindo o foco das reivindicações para o reconhecimento étnico e os respectivos direitos de alteridade concedidos aos cidadãos de uma sociedade democrática e pluricultural.
Portanto, há uma diferença básica nos direitos reivindicados, assim como na forma como esses devem ser conduzidos. Para isso, se faz necessário toda uma série de novas frentes oriundas da política do patrimônio cultural. O artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT) pode ser visto como uma dessas frentes necessárias para conduzir o avanço na proteção dos direitos territoriais das comunidades quilombolas. Assim, o artigo consagra que:
34 Até o momento, o único tombamento nos termos do parágrafo 5º do artigo 216 da Constituição, feito
após a promulgação da mesma, foi o quilombo do Ambrósio, em Ibiá, Minas Gerais. Este foi inscrito nos livros do tombo usando os mesmos antigos critérios de avaliação e proteção de valor histórico e arqueológico, configurando-se um caso excepcional entre os “sítios detentores de reminiscências
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“Aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos.”
Os termos utilizados no texto jurídico abre espaço para muitas discussões sobre as formas de interpretações. Como já discutimos, um dos pontos mais criticados é o uso do termo “remanescente das comunidades quilombolas”, que configura uma comunidade esfarrapada, congelada no tempo, presa no passado, sem a devida autonomia de uma identidade construída no presente, com referências históricas em um passado de luta e transformação da situação dos afrodescendentes no Brasil. Outro ponto questionado refere-se aos que “estejam ocupando suas terras”, o que sugere a plena legitimidade dominial em favor das comunidades, sendo-lhes garantidas posse e propriedade. Ou seja, no que tange ao reconhecimento da propriedade das terras, há uma clara proposta de inclusão social, procurando dar a posse de terras ao maior número possível de grupos afro-descendentes vivendo em comunidades quilombolas. Resgatando, assim, a dívida com essa significativa porção social que foi explorada e excluída durante séculos.
Entretanto, apesar do artigo 68 do ADCT garantir o direito das comunidades quilombolas à propriedade das terras de seus territórios, este não contem todos os elementos necessários para a caracterização desse processo, fazendo carência de um decreto que regulamente os critérios para sua efetivação. Com esse intuito foi redigido mais de um decreto ao longo de dez anos, um revogando o outro, sendo que o decreto sobre o assunto em voga atualmente data de 2003, sancionado pelo Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sob no 4.887, no qual regulamenta:
Art. 1o Os procedimentos administrativos para a identificação, o
reconhecimento, a delimitação, a demarcação e a titulação da propriedade definitiva das terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos, de que trata o art. 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias.
Segundo o deputado federal Luiz Alberto, o presente decreto foi editado após um longo e amplo processo de discussão que envolveu 13 ministérios, a Advocacia-
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Geral da União e o movimento quilombola. Seu principal objetivo é estabelecer os procedimentos e os processos a serem seguidos para efetivar a regulamentação fundiária das áreas de quilombos. Nesse sentido, ele atende ao conteúdo das normas internacionais de direitos humanos relativas ao direito à moradia, das quais o Brasil é signatário.
O novo decreto devolveu ao Ministério do Desenvolvimento Agrário e ao Incra a competência para identificar, reconhecer, delimitar, demarcar e titular essas terras, antes sob responsabilidade da Fundação Cultural Palmares. Para esse fim, o decreto permanece com a exigência da elaboração do Relatório Técnico de Identificação para fins de caracterização espacial do território a ser titulado. Esse relatório deve ser elaborado conforme os critérios estipulados no decreto, a destacar:
“Art. 2o Consideram-se remanescentes das comunidades dos quilombos,
para os fins deste Decreto, os grupos étnico-raciais, segundo critérios de auto-atribuição, com trajetória histórica própria, dotados de relações territoriais específicas, com presunção de ancestralidade negra relacionada com a resistência à opressão histórica sofrida”.
(...)
§ 3º “Para a medição e demarcação das terras, serão levados em
consideração critérios de territorialidade indicados pelos remanescentes das comunidades dos quilombos, sendo facultado à comunidade interessada apresentar as peças técnicas para a instrução procedimental”.
Interessante perceber como o decreto, mesmo não atualizando o termo
“remanescentes das comunidades dos quilombos”, considera a auto-atribuição como
instrumento para o reconhecimento da identidade de grupo. Com resalvas sobre a
“ancestralidade negra relacionada com a resistência à opressão histórica sofrida”, o
artigo destaca o status quo pelo qual os membros dessas comunidades compartilham sua trajetória histórica. Na mesma tendência, funde identidade e território ao submeter o termo territorialidade segundo critérios indicados pela própria comunidade, podendo ser feito uso, inclusive, de “peças técnicas” que representem essa ancestralidade negra e a resistência à opressão em sua territorialidade.
Deste modo, o decreto abre caminho para os membros das comunidades quilombolas se apropriarem do discurso patrimonial como instrumento de reivindicação
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das terras. Assim, os sítios arqueológicos historicamente reconhecidos pelos quilombolas, as festas, as manifestações culturais e artísticas, os conhecimentos e manejo sobre os elementos da terra passam a ter uma nova significância na trajetória dessas comunidades, além das relações internas (entre seus membros) e externas (com as comunidades mais próximas), já estabelecidas.
Além disso, o patrimônio não se restringe apenas aos elementos reconhecidos na paisagem cultural do território. O próprio território é considerado um patrimônio cultural, à medida que é formado por um conjunto de paisagens culturais indicadas pela comunidade segundo seus próprios critérios de territorialidade.
Entretanto, é importante frisar que a autodenominação é direito de escolha de todos enquanto cidadãos. Apesar disso, o direito não é auto-sustentável, ele depende das implicações na relação com o outro. Ou seja, o ato de se autodenominar depende do auto-reconhecimento e do reconhecimento dos outros no complexo jogo das relações sociais, onde os artefatos, monumentos e lugares são acionados.
Ainda sobre o decreto, compete ao Ministério da Cultura, representado pelo IPHAN e Fundação Cultural Palmares, entre outras coisas, avaliar e produzir parecer sobre o Relatório Técnico, caso seja necessário. O decreto ainda cuidou de atualizar o parágrafo 5º do artigo 216 da Constituinte, ao prever no artigo 18 que:
Art. 18 Os documentos e os sítios detentores de reminiscências históricas
dos antigos quilombos, encontrados por ocasião do procedimento de identificação, devem ser comunicados ao IPHAN.
Parágrafo único. A Fundação Cultural Palmares deverá instruir o
processo para fins de registro ou tombamento e zelar pelo acautelamento e preservação do patrimônio cultural brasileiro.
Assim, o decreto procurou delimitar as esferas onde cada fenômeno deve ser tratado dentro de suas naturezas específicas. Apesar disso, não impede a tendência política das esferas se sobreporem em uma virada cultural. Ao contrário, valoriza o patrimônio cultural quilombola para além das relações internas e externas, antes estabelecidas localmente pelas comunidades. Na mesma proporção que existe essa projeção cultural, surgem os entraves nos processos de titulação desses territórios na forma de conflito intrínseco ao patrimônio cultural.
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Em um Estado pluricultural, o território quilombola é considerado, enquanto materialização da territorialidade desses povos, patrimônio nacional protegido pelo Estado. Ocorre que esse mesmo Estado também protege outros direitos e interesses, como, por exemplo, o direito a propriedade e o interesse do desenvolvimento econômico. Nesse momento estabelece o conflito entre dois interesses legítimos e constitucionalmente protegidos – o desenvolvimento cultural e econômico (PENIN, 2010:26).
No contexto contemporâneo que reconhece na biodiversidade o valor universal para a vida, são vistas como corretas as políticas patrimoniais de promoção do reconhecimento da diversidade cultural. Reconhecer, no entanto, não implica conhecer, apenas aceitar a diferença, mesmo que isso implique em uma contradição de interesses. Ao se tornar obrigação, a aceitação se resume em tolerância. Assim, a política patrimonial de valorizar o multiculturalismo apresenta-se como uma forma tolerante de organização social, mas não uma forma militante de conhecer ou de facilitar pontes interculturais que permitam aos diferentes coletivos conversarem, se conhecerem e criarem projetos com direitos respeitados.