BÖLÜM IV: KURAMSAL TARTIŞMA
4.3 Uzamsal Referans Çerçeveleri
4.3.1 Levinson’ın sınıflandırması
4.3.1.1 Uzamsal – Mutlak (Dışsal) Referans Çerçevesi (uMRÇ/uDRÇ)
As transformações operadas nos diversos níveis do processo produtivo repercutiram, evidentemente, em novas maneiras de produzir e apropriar-se do espaço, emergindo daí novos sistemas urbanos mais complexos articulados com o crescimento de áreas metropolitanas com periferias diferenciadas. Este crescimento é constituído, assim, por novas centralidades, com equipamentos especializados, diferentes do antigo modelo da metrópole do período industrial-fordista, caracterizado pela monocentralidade.
O novo padrão de crescimento da cidade contemporânea, portanto, se insere nos debates sobre os novos processos da reestruturação produtiva que resultaram na criação de dinâmicas constituintes de novas redes urbanas, num cenário de profundas mudanças, até então nunca vistos.
Guerra (2005, p.10) ao tratar dos fenômenos que caracterizam as recentes transformações urbanas e o desenvolvimento territorial mundial, ressalta um aspecto que considera incomum e surpreendente: a simultaneidade de sua aparição no globo, uma vez que ocorrem na imensa maioria das grandes cidades e regiões urbanizadas na Europa, América, Ásia, Austrália e África.
Entre os diversos fenômenos que caracterizam essas transformações, cita alguns que considera representativos de tais mudanças. Entre eles:
A diminuição relativa ou absoluta das funções produtivas industriais;
A redução do peso das decisões e dos investimentos públicos no
desenvolvimento urbano e territorial;
A ampliação do raio funcional que afeta as atividades residenciais, produtivas,
terciárias, comerciais e de lazer;
A debilidade dos centros urbanos com a obsolescência e desvalorização dos
elementos que dão individualidade à cidade;
O aumento da dispersão urbana, mesmo em cidades decididamente compactas,
com uma extensão fragmentada do seu território;
O novo tipo de segregação socioespacial emergente, devido a mudanças na
distribuição do trabalho e renda como também nos novos estilos de vida;
O surgimento de relações espaciais tanto nas cidades como no meio rural que já
não podem ser descritas e explicadas com as categorias tradicionais de centro e periferia.
Embora vários destes fenômenos já tenham sido verificados nas últimas décadas do século XX, sobretudo nas cidades norte-americanas, podemos dizer que nestes últimos vinte anos eles se manifestam conjuntamente com grande potência, reforçando-se mutuamente, em todas as partes do mundo, a partir dos anos 1990.
A internacionalidade das transformações têm consequências para a sua interpretação e estudo porque essa tendência onipresente dos fenômenos sugere que suas causas só possam ser explicadas a nível global. Portanto, o discurso dominante na América Latina para a explicação de sua origem, segundo o autor, se baseia no termo “globalização”.
Esta interpretação, no entanto, tem parecido pouco produtiva, na medida em que incita a buscar as causas dessas transformações urbanas e territoriais, em processos praticamente impossíveis de influir no âmbito nacional ou local. Para enfrentar esse problema, o autor propõe detectar as causas locais e nacionais da reestruturação espacial, considerando que este é o caminho para encontrar de modo mais claro, os fatores de produção da cidade e do território. Assim argumenta que esses fatores estão associados, em última análise, aos instrumentos que regulam a cidade de modo mais conveniente de ser alterado para o de um desenvolvimento diferente, abordagem que adotamos também na nossa pesquisa.
Assim, o autor faz um breve levantamento do estado da arte das pesquisas sobre o tema das novas transformações metropolitanas na América Latina, associando o trabalho de Carmona (2000) a essa onipresença dos fenômenos relacionados à globalização na análise dos fatores explicativos da realidade local. Cita também os trabalhos desenvolvidos para o caso de Buenos Aires, onde destaca três linhas de pesquisa que se referem: a nova configuração socioespacial, a política-administrativa e a geográfico- territorial, representadas principalmente por Horacio Torres (1993), Pedro Pirez (1994) e Pablo Ciccolella (1999), respectivamente.
Sobre o trabalho de Torres (1993) comenta o desenho do “mapa social” que representa
uma linha de análise socioespacial que provê dados sobre a realidade de Buenos Aires. Embora escassos, os dados estruturais se constituem em ferramentas importantes para identificar os novos fenômenos analisados.
Pirez (1994) representa a segunda linha de pesquisa denominada de político- administrativa, onde sua abordagem aponta para a gestão metropolitana da cidade- região formada pela capital federal e a província de Buenos Aires de onde se constata a inexistência de cooperação a nível intercomunal. Assim, conclui que na Argentina, ainda não se conseguiu estabelecer uma discussão comum, interdisciplinar sobre a problemática metropolitana.
No Brasil, os trabalhos de Ribeiro (2004) junto à rede de pesquisa Observatório das Metrópoles, também chegam a essa mesma constatação, a partir de outro argumento: o da necessidade de superarmos a concepção localista de políticas públicas inerentes ao planejamento em moda na sociedade brasileira, como o planejamento estratégico,
afirmando que esse “quadro de fragmentação institucional também resulta da inexistência de políticas federais de incentivos seletivos à cooperação metropolitana” (Op.cit., p.13).
O trabalho de Ciccollela (1999), por sua vez, representa uma linha de investigação fundamentada nos aportes da escola de Saskya Sassen e François Arsher, afirmando que as transformações decisivas para o desenvolvimento espacial, no caso de Buenos Aires, se relacionam com a sua inserção tardia no mercado global que se produziu a partir da abertura econômica marcada pelos investimentos estrangeiros em imóveis para uso de escritórios dos anos 1990.
No Brasil, Mariana Fix (2007) e João Whitaker Ferreira (2007) também discutem a inserção brasileira no circuito global, apresentando as formas específicas que assumem a produção e o consumo do espaço urbano em SP durante o processo de globalização da economia.
Fix (2007, p.13), de um lado, revela como a mundialização financeira aparece no processo de circulação do capital, no meio ambiente construído e mais especificamente
no setor imobiliário voltado à produção da “face globalizada” da cidade. Já Ferreira
(2007, p.14), de outro modo, contribui para desmistificar um conceito amplamente divulgado no meio urbanístico brasileiro e internacional: o de que as cidades de hoje, para conseguirem sobreviver ao ambiente competitivo e globalizado da economia atual, devem seguir o receituário específico, de forte perfil neoliberal, cuja implementação
deve ser feita por meio de “novas” técnicas de urbanismo como o planejamento
estratégico.
Nesse quadro de discussões sobre a questão metropolitana, o trabalho de Guerra (2005, p.13) propõe dedicar-se a uma reconstrução da gênesis das novas estruturas urbanas e territoriais, estudando como primeiro passo, os resultados morfológicos do que vemos como uma nova fase do desenvolvimento espacial. Neste caso, considerado como consequência de maneiras específicas de construir e regular a cidade e o território por parte dos atores públicos e privados, formal ou informalmente constituídos.
Guerra chama a atenção da necessidade de se ampliar as pesquisas interdisciplinares sobre a questão metropolitana, ressaltando os trabalhos do “Programa del Investigación
Santiago Metropolitano” (PISM, 2000) e o trabalho desenvolvido por Carlos de Mattos
(2001) que apresenta uma explicação econômica das transformações espaciais estruturais nas grandes metrópoles latino-americanas. Desse modo, afirma que este fenômeno deve ser entendido como um novo impulso de concentração nas metrópoles que se expressa, entre outras características, por uma nova onda de suburbanização que surge em grande parte, devido a fatores econômicos e políticos. Tais fatores, segundo o autor, são baseados em critérios de rentabilidade, em meio a uma corrida entre a sagacidade dos investidores privados e a capacidade dos instrumentos públicos de regulação.
Sua conclusão vai ao encontro da nossa maneira de perceber as transformações urbanas da cidade contemporânea, no caso em estudo, como também do modo como organizamos o nosso referencial teórico e o consequente encadeamento de conceitos. Por isso, partimos da noção de produção social do espaço como estratégia de acumulação do capital cuja racionalidade, em última análise, fundamenta-se em critérios de rentabilidade proporcionados pela propriedade da terra, intermediada pelo Estado e o mercado através das políticas públicas e in,strumentos de gestão e controle.
Outras abordagens como a de Reis (2006) se voltam a questões relacionadas às novas dinâmicas na configuração da metrópole contemporânea brasileira, caracterizadas pelo surgimento de novas formas de centralização, acompanhada de uma progressiva descentralização de atividades capaz de gerar novas centralidades. Como consequência, surgem padrões caracterizados pela especialização de atividades que provocam a fragmentação territorial e a formação de áreas de urbanização dispersa. Tal movimento, portanto, é constituído por uma desconcentração que embora separada espacialmente, mantêm-se em fortes vínculos como se tratasse de um único sistema urbano.
Entre essas características, levantadas pelo autor, destacam-se as relacionadas à fragmentação, descontinuidade ou dispersão das inúmeras partes que formam a configuração urbana contemporânea, em contraste aos atributos de contiguidade, compacidade e limite do modelo histórico da cidade tradicional.
Com outro enfoque e partindo de uma abordagem sobre a sociabilidade contemporânea, Sennett (2004, p. 213-220) afirma a mesma lógica dessas mudanças, ressaltando o papel das alterações no processo produtivo capitalista como sendo responsáveis pelas características morfológicas que se repetem como uma padronização do âmbito físico. Tal fenômeno é motivado, segundo o autor, por essa economia inquieta que produz rupturas políticas na cidade criando novas pressões que alcança a esfera da vida privada. O seu argumento baseia-se numa análise do “capitalismo e a cidade”, ressaltando os aspectos sobre as virtudes urbanas, enquanto valor cultural de se morar em cidades, mesmo em meio aos conhecidos problemas urbanos de violência, má gestão que levam a sua decadência. Seu destaque, no entanto, é para a análise entre dois pares dialéticos:
“rigidez - estranhamento” e “flexibilidade-indiferença” cujo objetivo é compreender as
relações entre estas dualidades para caracterizar essa transição entre as duas fases do capitalismo contemporâneo: a fordista para a flexível. Assim, segundo o autor, essa transição é responsável pelos destinos das “virtudes urbanas” dessa nova cidade, emergindo daí dois de seus valores éticos que a representam: a sociabilidade de conviver com estranhos e a subjetividade baseada na experiência pessoal incompleta. A primeira dessas virtudes leva a uma trégua ou desejo de paz baseado na indiferença mútua que leva a formação de grupos autossegregados que caracterizam os condomínios fechados contemporâneos. A segunda leva ao autoisolamento social que mesmo diante da percepção de sua subjetividade incompleta, não se evidenciam caminhos que estimulem ao encontro das relações de vizinhança com pessoas estranhas.
A contribuição do autor, portanto, se constitui como uma reflexão sobe a conexão entre os aspectos relacionados às mudanças no processo de produção capitalista e seu rebatimento ao nível da sociabilidade da vida privada que, em última ordem, vai influenciar a configuração espacial e os padrões de ocupação porque a ela se adéqua. Pesquisas recentes sobre as transformações sofridas pelas cidades, nas últimas décadas do século passado, têm sido associadas também à alteração desse padrão de crescimento urbano que modificou a característica periférica da ocupação territorial da urbanização predominante na América Latina. Essas mudanças levaram a uma alteração que vem sendo assumida como uma verdadeira reestruturação socioespacial, devido a sua dimensão e alcance.
Tal reestruturação socioespacial recebe designações, associadas, ora ao seu aspecto industrial, urbano, metropolitano ou imobiliário, conforme o objeto de estudo e interesse dos pesquisadores. Há, no entanto, uma coincidência nos resultados de boa parte delas, mesmo em meio a uma diversidade de objetivos, isto é: o fato de que dessas transformações, emergem aglomerações urbanas com padrões de morfologia dispersa, fragmentada e segregada.
Sua ocorrência, de alcance global, atinge desde os grandes centros urbanos dos países centrais como também, as grandes concentrações metropolitanas da América Latina como São Paulo, Santiago e Buenos Aires, conforme tem sido demonstrado nas pesquisas apresentadas no livro organizado por Pereira (2011). No nosso estudo, verificamos que essa mesma lógica penetra também em níveis secundários da economia global atingindo as metrópoles regionais brasileiras, como é o caso da RM de Fortaleza. Assim, estende sua rede de influências a localidades anteriormente isoladas do circuito mundial, alcançando também a escala local, primeiramente pelas atividades ligadas ao turismo, e em seguida pela imobiliária, como teremos a oportunidade de verificar. Essa constatação global tem levado pesquisadores a indagar se tal transformação, pelas dimensões do fenômeno, pode revelar uma nova ordem de cidade fundamentada em novas maneiras de organizar o espaço da produção, articulado também a uma nova sociabilidade.
Os primeiros sinais de transição para esta nova cidade, para essa cidade emergente, coincidem com a chamada crise do modelo de substituição de importações na América Latina (ou com a superação do modelo de industrialização fordista a nível mundial), que apesar de ter provocado diferentes alternativas de organização produtiva e diversas experiências de ocupação territorial gerou surpreendentemente artefatos arquitetônicos e padrões urbanísticos muito semelhantes em todas as aglomerações. (PEREIRA, 2011, p.24).
Essa nova ordem, segundo o autor, pode ser revelada também pelo interesse que os responsáveis pela administração local e pela elite do planejamento urbano demonstram ao reinterpretar o papel dessas novas cidades, propondo a sua integração ao circuito mundial, como se isso fosse representar um benefício para a maioria, quando na verdade
esses planos parecem estar acomodados pelas ilusões de urbanização geradas pelo modelo de industrialização fordista.
Notamos, portanto, que a produção dessa nova cidade tem sido estudada por urbanistas de todo o mundo que diante da complexidade do nosso tempo, levantam muito mais caminhos a serem verificados do que conclusões definitivas demonstrando o caráter de permanente mudança e incertezas que marca essa nova fase da humanidade. Esse aspecto, por consequência, transforma em desafio, a tarefa de compreender essas diversas transformações ocorridas em escala global.
Tais mudanças chamam a nossa atenção, não só porque trazem impactos significativos ao espaço urbano, palco dessas profundas transformações, mas porque ocorrem em grande velocidade, num movimento permanente de estruturação-desestruturação- reestruturação, denunciando que esse equilíbrio se apresenta de um modo muito mais provisório e em constante movimento, do que poderíamos supor.
No seu estudo sobre “Referências analíticas para a discussão da metamorfose metropolitana”, Lencioni (2011) levanta uma série de considerações importantes que a
leva propor uma revisão das referências formuladas por Lefebvre (1971), realçando o caráter transitório nas relações entre a nova estrutura e a precedente, apontando para
uma verdadeira “metamorfose metropolitana”.
A busca pela compreensão das mudanças recentes que têm ocorrido na metrópole vem trilhando vários caminhos interpretativos. Sejam quais forem as interpretações, um fato é inquestionável: as transformações são reconhecidamente tão profundas que expressam uma verdadeira metamorfose, pois o resultado é uma mudança completa na estrutura, forma e função da metrópole. Metamorfoseiam-se as relações sociais e o espaço anunciando que estamos vivendo um período de transição, uma transformação qualitativa para algo diferente do que conhecemos. (Op. cit. p.51)
A questão da transitoriedade na análise da reestruturação da metrópole é importante porque traduz um estado de percepção da realidade contemporânea criada pelo estabelecimento de uma nova ordem que tem suas bases nas transformações porque passa a humanidade, sobretudo nos campos político, econômico, social, ambiental, cultural e tecnológico.
Essa noção de transitoriedade na metrópole é importante também para a nossa pesquisa porque será possível constatar como a noção de reorganizar-se em torno de uma permanente instabilidade é especialmente marcante na ação dos agentes imobiliários diante da produção do espaço para o turismo.