No caso do Ceará, as alterações no processo de reestruturação produtiva neste período, aparecem relacionadas às transformações políticas, econômicas, sociais e culturais implementadas pela ascensão de um novo grupo político que propôs não só uma mudança na forma de gestão pública mas, sobretudo, a definição de um novo projeto político para o Estado, moldado pela elite empresarial local, polarizada pelo CIC – Centro Industrial do Ceará14.
13
SUDENE e SUDAM
14
Nesse contexto, Tasso Jereissati foi considerado a figura ideal para dirigir o CIC e liderar o projeto
Uma vez instalado no centro do poder político estadual, o novo governo pôs em prática medidas de saneamento administrativo da máquina estatal, com uma minuciosa contenção de despesas e uma rigorosa política de enxugamento do quadro de pessoal, marcada pela demissão de funcionários “fantasmas”, suspensão de contratos e o congelamento de salários dos servidores públicos (BOTELHO, 1994, p.74).
O primeiro plano de governo, denominado de Plano de Mudanças - (1987-1991), não apresentava grandes diferenças dos planos dos governos anteriores e partiu de um diagnóstico que revelou a precariedade da economia e dos indicadores sociais. Nas diretrizes econômicas e sociais priorizava no setor primário: a reforma agrária, a agricultura irrigada e a piscicultura; no setor secundário: grandes projetos industriais como refinarias de petróleo, usinas, micro e pequena empresa, agroindústria, mineração e artesanato; e no setor terciário destacava-se o turismo com vistas a intensificar o fluxo de visitantes e a infraestrutura de transporte, energia e telecomunicações. (LIMA, 2000, p. 329 apud PAIVA, 2011).
O aumento da receita foi outro aspecto que permitiu a recuperação das finanças públicas através da modernização e racionalização do sistema de arrecadação através da informatização, da reestruturação organizacional e reformulação do aparato legal e tributário. Combateu-se o nepotismo e o empreguismo, típicos dos regimes patrimonialistas mas, por outro lado, utilizou-se de modo mais intenso a contratação de mão-de-obra sem vínculo empregatício, recorrendo a serviços de consultoria externa e de locação de mão-de-obra, evidenciando um forte processo de “terceirização” no setor público (GONDIM, 2000, p. 421).
Pode-se apontar, como um dos fatores de êxito dos “governos das mudanças”, o crescimento da economia cearense, com o apoio do setor público. Apesar de compartilhar com o neoliberalismo a preocupação com a austeridade financeira e fiscal, as administrações de Jereissati (1987-1990, 1995-1998 e a iniciada em 1999) e de Ciro Gomes (1991-1994) realizaram uma agressiva política de atração de investimentos, lançando mão de incentivos fiscais e de estratégias de place
marketing. Em consequência, o Ceará tem recebido vultosos investimentos, nos
setores têxtil, de calçados e outros. Continuando uma tendência verificada em anos anteriores, o Produto Interno Bruto cearense tem crescido a taxas mais elevadas que as do PIB do Brasil: 3,55% contra 1,18%, respectivamente, no período de
1985/1990 (Ferreira, 1995, p. 159). Persistem, no entanto, elevados índices de pobreza e concentração de renda na Região Metropolitana de Fortaleza: nesta, o índice de Gini (0,62) indica a pior situação, entre as Regiões Metropolitanas pesquisadas pelo IBGE em 1996. (GONDIM, 2000-a, p.2)
O primeiro mandato garantiu a continuidade do mesmo grupo político e foi somente no governo seguinte15 que o executivo passou a contar com a maioria na Assembleia Legislativa do Estado para implantar, com maior desenvoltura, as propostas da nova
política de “Mudanças”. O segundo mandato foi marcado também por uma forte
utilização do marketing como forma de promover a imagem positiva do Estado e da sua nova administração para o resto do país. Com isso, enaltecia os investimentos governamentais voltados para a infraestrutura turística, como também para o novo ciclo de industrialização do Ceará (BERNAL, 2004, p. 58).
O Plano de governo (1992-1995) denominado Plano Plurianual tinha como objetivo dar continuidade às ações anteriores e coincidiu com o início das práticas neoliberais no Brasil. O plano orientava a interiorização das atividades econômicas e propôs alternativas para enfrentar os problemas relacionados com o convívio com o semiárido, buscando a diversificação da agricultura com técnicas de irrigação. No setor industrial propôs a modernização do parque existente e a introdução de setores de ligados à tecnologia da informação no intuito de diversificar as atividades e torná-la competitiva. Com relação ao turismo, elaborou uma política para o setor baseado, entre outras diretrizes, na atração de investimentos privados através da implantação de infraestrutura.
Os governadores se revezaram, desse modo, em mais dois mandatos (sendo o último uma reeleição), garantindo um espaço ininterrupto de quatro períodos executivos seguidos, num total de 16 anos, quando em 2003 assume um novo governador16. Embora fosse o candidato do mesmo partido e mantendo, em linhas gerais, as mesmas diretrizes das experiências acumuladas no período anterior, ele rompeu com o grupo de origem para se alinhar ao novo governo federal que assumia o poder.
15
Comandado por Ciro Gomes, candidato indicado pelo governador anterior.
16
A consolidação dessa continuidade política Entretanto, foi mediada também por um
movimento formulado por empresários, intelectuais e o governo, conhecido como “O Pacto de Cooperação”, transformado em instrumento político voltado para a
necessidade de repensar e reestruturar a economia cearense. Assim, pretendia se ajustar ao novo cenário mundial, respondendo às novas exigências do desenvolvimento que não cabiam mais dentro do paradigma de administração fordista (PARENTE, 2000).
A criação dessa nova hegemonia política, acompanhada de uma reestruturação capitalista, segundo Meneleu Neto (2000), reflete a ascensão da nova elite que se fundamentou na ideia de que a regulação centralizada do Estado-Nação deveria ceder espaço para os novos interesses regionais. Para isso, apoiou-se na crítica ao modelo da tecno-burocracia estatal ligada ao regime militar, na crítica à restrição do liberalismo econômico, como também na defesa da acumulação industrial, difundida pelo Centro Industrial do Ceará.
Assim, no Ceará, a nova configuração do aparelho de Estado ter-se-ia mostrado sincrônica à lógica da reestruturação produtiva pela incorporação do ideário hegemônico do mercado, onde a intervenção estatal dar-se-ia no sentido de apoio à acumulação privada, isto é, considerando os interesses dos capitais particulares (BERNAL, 2004, p58).
No contexto posterior a ECO 92 foram elaborados dois planos de governo que buscaram incorporar ao seu conteúdo os novos princípios de sustentabilidade, em voga. No primeiro, denominado Plano de Desenvolvimento Sustentável – (1995- 1998) o conceito foi incorporado juntamente com os princípios de planejamento estratégico empresarial, valorizando a parceria pública-privada, o marketing político e a participação popular, conferindo uma imagem de modernidade e democracia. Em síntese, o plano adotou três vetores estratégicos de desenvolvimento: a Indústria, o turismo e a agricultura irrigada. No entanto, figurava como objetivo central a melhoria de qualidade de vida dos cearenses, através de sete diretrizes principais: proteção do meio ambiente; reordenamento do espaço; capacitação da população; crescimento da economia; redução das desigualdades; desenvolvimento cultural, científico e tecnológico e melhoria da gestão pública.
O segundo plano de governo (1999-2002) apenas deu continuidade ao anterior embora tenha sofrido, nessa época, os impactos das crises econômicas do contexto nacional e internacional evidenciando a fragilidade do Estado diante das implicações impostas pela economia globalizada que determinavam a definição de novos critérios de atração de investimentos. Nesse momento, a economia do Estado chega ao seu pior desempenho, abalando a credibilidade e a hegemonia do grupo político.
O mandato seguinte de (2003- 2006) 17 , como já mencionamos, pode ser considerado como uma continuidade dos planos anteriores cujo governador deu sequência às diretrizes anteriores, embora rompendo como o partido em busca do apoio do governo federal que acabara de mudar sua orientação política18.
Não é justo deixar de reconhecer as importantes transformações estruturais ocorridas tanto nas práticas econômicas como nas práticas políticas no Ceará, promovidas pelos seguidos
“Governos das Mudanças”. Entretanto, a ideia de reversão profunda do quadro social,
acompanhada de uma ruptura política e econômica deve ser relativizada.
Não se quer aqui minimizar o alcance das mudanças ocorridas na política cearense com a ascensão ao poder dos “jovens empresários”. Pelo contrário, considera-se que o modelo de gestão implementado por Tasso Jereissati e por Ciro Gomes constitui, de fato, um passo irreversível para a superação do clientelismo patrimonialista e, portanto, para a criação de condições necessárias (ainda que não suficientes) ao exercício dos direitos de cidadania. Entretanto ao restringir as transformações da administração pública à adoção de mecanismos para garantir a eficiência financeira, aliados a rearranjos na estrutura formal e a uma política de pessoal moralizadora, porém autoritária e pouco inovadora, os “governos das mudanças” perderam a oportunidade de realizar uma verdadeira reforma no Estado. [...] Mas tal modelo, precisamente por ser capitalista e por implementar-se num contexto de desmobilização política dos trabalhadores e movimentos sociais, não perde o seu caráter excludente. Assim, apesar do expressivo crescimento da economia cearense e da modernização dos métodos de gestão pública, permanece longínqua a meta de “acabar com a miséria absoluta” no Ceará. (GONDIM, 2000, p.423)
Na verdade, as questões estratégicas ligadas à modernização no Estado do Ceará remontam à década de 1960, por ocasião do primeiro governo de Virgílio Távora,
17
Mandato de Lúcio Alcântara
18
viabilizadas também pela criação da SUDENE e pelas ações dos planos governamentais que se sucederam. Esse modelo priorizava o desenvolvimento econômico a partir da industrialização, utilizando-se de modelos e práticas, em alguns aspectos, muito semelhantes das ações contidas nos planos dos “Governos das Mudanças”.
A ruptura parece ser, no entanto, um ajuste às mudanças de ordem internacional e nacional devido às novas determinações impostas pela globalização. Desse modo, a ruptura se manifesta a partir do discurso modernizador por parte da nova elite política, que projetou naquele momento, a nova imagem midiatizada do Estado e por consequência relacionada com a imagem dos novos governantes. Assim,“a imagem do Ceará foi celebrada, em função da projeção nacional do exemplo de administração moderna, contrária à representação cristalizada ligada ao coronelismo e à seca“ (PAIVA, 2011, p.114).
Um aspecto marcante no período do “governo das mudanças” foi o uso intensivo, tanto
pela administração estadual como também pela municipal, de estratégias de marketing político, que buscavam reforçar a atratividade da cidade e do Estado para os investimentos nos setores turístico e industrial. O marketing, no entanto, não foi a única estratégia, no processo de reconstrução da imagem do Estado e da Cidade, uma vez que a mídia é onipresente na gestão urbana e na política eleitoral, no Brasil e em outros países.
Mais importante, quando se trata de explicar a construção simbólica da “moderna” Fortaleza, são as intervenções urbanísticas executadas, a partir dos anos 90, pelas administrações estadual e municipal. Essas obras constituem, na verdade, um elemento na disputa política e eleitoral entre o grupo que, controla o governo estadual, e o outro, pertencente à base de sustentação política do governo que naquele momento ascende ao poder na Prefeitura Municipal de Fortaleza desde 1990 19 (GONDIM, 2000-a, p. 1). No entanto, as estratégias de marketing foram utilizadas como instrumento de promoção do turismo e da indústria, através da atração de investimentos para o estado no modelo proposto pelo planejamento estratégico, contrapondo-se as dificuldades impostas pelo rigor climático que sempre condicionou o quadro socioeconômico do Estado. Essa
19
Trata-se do prefeito Juracy Magalhães que assume a prefeitura de Fortaleza quando Ciro Gomes renuncia ao cargo de prefeito de Fortaleza, para assumir o governo estadual.
condição era reforçada em razão das limitadas ações de combate à seca e a persistência do quadro de desigualdade social, tanto no âmbito regional como no nacional, sobretudo no aspecto da superioridade econômica da Região Metropolitana de Fortaleza sobre os demais municípios do Ceará.
A modernidade e ruptura que o “governo das mudanças” associava a sua imagem política revelaram-se contraditória porque uma vez dentro da estrutura do poder do Estado, o grupo passou a manter as mesmas práticas políticas, tantas vezes combatidas nos discursos eleitorais, embora tenha havido importantes transformações na gestão pública e na estruturação do Estado.
A era do “Governo das Mudanças” parece se encerrar, apenas simbolicamente, com a ascensão de Cid Gomes ao Governo do Estado em 2007, quando este se alinha formalmente a base de sustentação do novo governo federal, enfraquecendo a hegemonia do seu grupo político de origem20, migrando para outro partido e formando uma nova composição de forças. No entanto, percebe-se uma grande semelhança nas estratégias utilizadas na promoção do desenvolvimento do Ceará, como também da manutenção dos mesmos projetos estruturantes do Estado. A diferença situa-se principalmente no alinhamento às políticas públicas polarizadas pelo governo federal, notadamente no campo da distribuição de renda e dos programas sociais de inclusão, diante da nova conjuntura econômica nacional e internacional.
2.4.4.2 Aspectos socioeconômicos da reestruturação produtiva: alterações e