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BÖLÜM IV: KURAMSAL TARTIŞMA

4.1 Uzam ve Zaman İlişkisi

David Harvey (2001) interpreta essas alterações que ocorreram simultaneamente no mundo do trabalho, na produção, no consumo e na cultura, a partir do confronto entre os conceitos de ruptura e continuidade naquilo que considera uma transição dos valores modernistas para os de um período pós-modernista.

Sua questão central foi identificar o que, de fato, é novo na configuração do capitalismo no final do Século XX, em particular nas relações entre capital e trabalho, buscando compreender o conteúdo de permanências e mudanças. Estas, por conseguinte, vão caracterizar as transformações na sociedade contemporânea, a partir de uma nova maneira dominante de se experimentar o tempo e o espaço.

Embora o autor reconheça que a simultaneidade nessas dimensões mutantes de tempo e

espaço não seja a prova de conexão causal, conclui que “há algum tipo de relação necessária entre a ascensão de formas culturais pós-modernas, a emergência de modos mais flexíveis de acumulação do capital e um novo ciclo de compressão do tempo- espaço na organização do capitalismo” (HARVEY, 2001, p.9).

No entanto, adverte que essas mudanças, “quando confrontadas com as regras básicas de acumulação capitalista, mostram-se mais como transformações de aparência superficial do que como sinais do surgimento de alguma sociedade pós-capitalista ou mesmo pós-industrial inteiramente nova” (idem).

Assim, Harvey expõe sua ideia de que um novo padrão de acumulação, que ele chama

de “flexível”, se apresenta em contraposição ao modelo keynesiano-fordista, adotado até o início da década de 1970, constituído como um processo de reestruturação produtiva dentro da própria estrutura da sociedade capitalista, sem apresentar o rompimento com os grandes parâmetros que a definem. Com isso, o autor procura desmistificar o novo

modelo, discutindo de forma crítica os parâmetros do que ele chama de reestruturação produtiva do capital.

Essas profundas transformações ocorridas na sociedade contemporânea foram captadas também por outros autores consagrados que atribuíram denominações diferenciadas para interpretar o mesmo fenômeno de mudanças que ocorreu a nível global sobre as práticas sociais, como: o meio técnico-científico-informacional de Santos (1994, 2006), a lógica cultural do capitalismo tardio de Jameson (2000) e a sociedade em rede de Castells (1999), para citar algumas obras referenciais.

A partir dos anos 1980, outras questões também passaram a ser tratadas como o foco das discussões em torno dessa nova ordem mundial unificada cada vez mais pelas inovações no campo da tecnologia da informação, dos transportes e das técnicas produtivas e organizacionais. Com isso, o conceito de globalização passou a permear praticamente todos os debates, em torno das mudanças verificadas nessa onda de reestruturação cujas características proporcionaram um avanço sem precedentes em direção a uma economia “ultraliberal”.

A conformação de uma nova organização geográfica da indústria a nível global foi possibilitada tanto por essa revolução no campo das tecnologias de informação e comunicação como também por um capitalismo renovado pelos princípios

“neoliberais”, fortalecido pela falência do modelo político-econômico soviético, no final

dos anos 1980.

O fenômeno caracterizado pelo processo de mundialização da capacidade produtiva, acompanhada pela ampliação e flexibilização, sem precedentes, do sistema financeiro, incorporando o espaço como elemento estratégico da reprodução ampliada do capital, foi denominado por diversos teóricos como Castells (1999) e Sassen (1998) pelo termo de globalização ou mundialização da economia.

Ambos consideram a globalização como um novo paradigma vinculado a um aumento do patamar de mobilidade internacional do capital, decorrente das mudanças ocorridas principalmente nas tecnologias de informática e comunicações. Esse processo teve como consequência o fortalecimento do mercado internacional e o enfraquecimento do papel dos Estados nacionais.

Em termos de ajustes espaciais, a velocidade das comunicações e transportes, tornou evidente a compressão do espaço pelo tempo, que sempre esteve no centro da dinâmica capitalista. Ao contrário de uma possível desvalorização do espaço, ele é reforçado pela diminuição das barreiras espaciais, tornando cada região mais ou menos atraente dentro da dinâmica de produção.

O declínio das cidades e regiões industrializadas do Primeiro Mundo, resultante do deslocamento de empregos para algumas cidades do Terceiro Mundo, aumentaram as correntes migratórias em nível internacional, determinadas pelo fortalecimento dos interesses das empresas transnacionais. Como resultado, uma nova hierarquia de cidades

surge nesse contexto, enfatizado por Sassen (1999) como “cidades globais”, onde se

concentra o controle financeiro e organizacional dessa economia mundial.

Existe, há vários séculos, uma economia mundial, mas ela tem sido repetidamente reconstituída ao longo do tempo [...]. Uma das mudanças importantes ocorridas ao longo dos últimos vinte anos foi o aumento da mobilidade do capital, em nível nacional e, sobretudo, transnacional (SASSEN, 1999: 15 apud FERREIRA, 2007: 92).

As mudanças provocadas pela reestruturação produtiva influenciaram também outros aspectos da prática social, agora universalizada por vários fatores como: os novos padrões de consumo; a pressão crescente sobre a procura de recursos renováveis; a valorização de aspectos culturalmente mais significativos e a modernização do sistema financeiro baseada na informatização e automação bancária. Esses fatores, proporcionaram um avanço sem precedentes da “financeirização” da economia mundial.

A expansão do comportamento “financeirizado” da economia mundial contemporânea é

trabalhado por vários autores que se dedicaram a explicar as características

fundamentais do nosso tempo. Giovanni Arrighi (1996), em “O Longo Século XX:

dinheiro, poder e as origens do nosso tempo”, vai buscar nos quatro Séculos que o

antecederam, em especial o Século XIX, os fundamentos econômicos e políticos para explicação da contemporaneidade.

O ponto de partida e de chegada de sua análise é a expansão material da economia mundial na qual considera fundamental a passagem do comércio da produção para a especulação e intermediação financeiras. Esse fato pode ser interpretado como um

reflexo da mesma contradição entre a expansão do capital e a expansão material da economia mundial que corresponde ao desenvolvimento das forças produtivas da sociedade.

A questão das raízes sociais e políticas da “finança mundializada”, abordando sua

configuração e consequências é trabalhada por Françoise Chesnais (2005) que se mostra preocupado com os limites e alcance das questões econômicas sobre os demais aspectos da vida contemporânea. Assim, aponta para a autonomização do capital-dinheiro sob a

forma de “capital portador de juros16 e a consequente expansão do sistema de crédito que considera os elementos que impulsionam a centralização do capital e promovem a fusão dos interesses entre a alta finança e a indústria.

Esse capital (portador de juros) busca ‘fazer dinheiro’ sem sair da esfera financeira, sob a forma de juros de empréstimos, de dividendos e outros pagamentos a titulo de posse de ações e, enfim, de lucros nascidos de ‘especulação bem-sucedida’. Ele tem como terreno de ação os mercados financeiros integrados entre si no plano doméstico e interconectados internacionalmente. (CHESNAY, 2005, p35.).

A modalidade de organização capitalista que concretiza essa fusão de interesses, segundo Beluzzo (2005), é a sociedade anônima cujo caráter coletivista sobrepõe aos capitais dispersos e ao mesmo tempo reforça a sua rivalidade. Desse modo, considera

que o capital financeiro “é a etapa mais avançada do capitalismo porque nela a capacidade de mobilização dos capitais se transforma em uma força de supressão das

barreiras tecnológicas e de mercado nascidas do próprio processo de concentração”

(op.cit. in. CHESNAY, 2005, p.7).

Em outras palavras, as instituições financeiras que participam dessas fusões estão interessadas em suprimir a concorrência local e reforçar o caráter monopolista. Ao fazerem isso estimulam a conquista de novos mercados e por consequência o acirramento entre blocos de capital impulsionando a internacionalização crescente da concorrência capitalista.

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O autor usa esse conceito no mesmo sentido de capital fictício, trabalhado por Marx (1983) já descrito no subcapítulo 1.1.1.

Esse tipo de operação é largamente utilizado no contexto dos fundos de investimentos bancários do mercado financeiro tradicional e ambiente das bolsas de valores que agora passam a negociar títulos imobiliários, fundos de investimentos imobiliários e ações de empresas construtoras, cujo objetivo é ampliar a base de crédito.

A necessidade de expansão do crédito foi apontada como o fator mais importante para o crescimento da construção civil, na pesquisa organizada em 2011 pela revista Conjuntura da Construção17,

Nesse cenário, a revista aplicou questionários com perguntas aos executivos do setor da construção, com foco no segmento imobiliário e de habitação, arguindo sobre duas questões principais: os fundamentos do sucesso setorial obtido nos últimos anos e os fatores necessários para que o crescimento se sustente ao longo do tempo.

Como resultado, houve uma percepção predominante de que o principal elemento para o crescimento do setor nos últimos anos foi justamente a expansão do crédito. Outros fatores surgiram como responsáveis por isso como: a estabilidade econômica, a expansão dos programas de moradia social, a demanda por obras dos governos, a queda do patamar histórico de juros, a desoneração tributária e a abertura de capital das empresas.

A lógica da finança mundializada alcança o Brasil, em vários segmentos e níveis hierárquicos de sua economia, atingindo praticamente todos os Estados da federação que passaram a ter acesso, entre outras facilidades, à automação do sistema bancário nacional, integrado ao sistema financeiro internacional, facilitando o seu ingresso aos circuitos do capital globalizado.

Estudando o caso de Fortaleza, percebemos algumas evidências que associam o desenvolvimento dessa nova forma de urbanização litorânea às mudanças proporcionadas pela expansão da lógica da finança mundializada. Dentre elas, identificamos a instalação de escritórios locais de empresas europeias no Ceará e o RG

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Ano IX / nº 3 / Setembro de 2011 - A revista, para ter uma amostra significativa dos executivos que atuam direta ou indiretamente no segmento imobiliário, utilizou os participantes do 83º Encontro Nacional da Indústria da Construção Civil (Enic), considerado o principal evento promovido pela Câmara

do Norte, atuando como fundos de investimentos internacionais voltados para o mercado imobiliário e turístico brasileiro (EXACT INVEST / SALAMANCA GLOBAL). Outras variantes do mesmo modelo, foram verificadas na especialização de fundos de investimentos específicos voltados para empreendimentos turísticos e imobiliários (ADIT BRASIL / BRASIL INVEST FUND); na disponibilidade de recursos destinados ao desenvolvimento do turismo oriundos de agências internacionais (BID, BIRD,CAF) e na criação de fundos de investimentos para financiar o mercado imobiliário, negociados na bolsa de valores (IMOB/BOVESPA).

Outras evidências marcaram a presença de grandes empresas brasileiras da construção civil, expandindo sua atuação como incorporadoras em diversos estados brasileiros, inclusive no Ceará (Cyrela, Magis, MRV, Rossi, Tecnisa, entre outras), atuando também no litoral de Aquiraz. Outro dado que influenciou a ampliação do acesso ao sistema de crédito em âmbito nacional, tanto para o construtor como para o consumidor, foi ampliação da atuação da Caixa Econômica Federal.

São, portanto, evidências que articulam a urbanização litorânea cearense às mudanças proporcionadas pela lógica da finança mundializada que acreditamos estar relacionada a essa reestruturação produtiva e metropolitana de Fortaleza.

1.2.2 O novo padrão de cidade: centro-periferia e a nova organização