BÖLÜM II: KURAMSAL ÇERÇEVE
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A análise do capital fictício é feita por Marx (1983) principalmente nos Capítulos 29 a 31 do Livro III de O Capital.
O conceito de renda da terra é complexo porque se apresenta dentro de um debate que se iniciou ainda nos anos 1970, em torno da validade do seu emprego enquanto categoria de análise, aplicável às condições do capitalismo contemporâneo, que permanece inconclusa, segundo um de seus críticos atuais como Deák (1985).
Nossa intenção, no momento, não é retomar o debate e sua polêmica, mas apenas apresentar alguns caminhos que se propuseram a enfrentar o desafio de analisar a produção do espaço contemporâneo utilizando os conceitos de propriedade e renda da terra. Estes, nos serviram de referência para auxiliar a interpretação de uma realidade que tem chamado à atenção de vários urbanistas contemporâneos: a noção de que o preço da terra se relaciona de alguma forma com a distribuição espacial da atividade humana.
A propriedade como instrumento de controle do espaço
O conceito de propriedade é entendido como a instituição fundamental do capitalismo que permite vedar, seletivamente, parte da sociedade o acesso aos recursos naturais e aos instrumentos de produção. Historicamente a propriedade foi introduzida na transição do feudalismo para o capitalismo para controlar o acesso às terras produtivas que passaram de feudos para se constituírem em propriedades, transformando os senhores feudais em proprietários de terras no regime capitalista (DEÁK,1985).
O conceito de propriedade proposto pela Economia Política de Adam Smith (1993) baseava-se na ideia de que o trabalho, ao invés da terra, era a real fonte do valor, fundamentado na sua teoria do valor-trabalho. Marx (1991), por sua vez, concebeu a propriedade privada, como um conceito estruturante da sua teoria, entendido dentro de uma dupla concepção: a da essência objetiva que diz respeito a um produto material, onde a terra está inscrita e a da essência subjetiva, tratada como uma atividade para si que se constitui no trabalho, baseado na concepção de Smith.
Ao escrever “A cidade do Capital”, Lefebvre (1999) dedica um capítulo inteiro ao tema “O capital e a propriedade da terra”, dentro do objetivo de fazer uma releitura detalhada
dos textos que compõem a obra de Marx, elegendo como tema a cidade e consequentemente a problemática urbana, no quadro teórico do materialismo histórico.
Com isso, busca verificar a validade e abrangência da teoria marxista para os problemas contemporâneos.
Desse modo, o autor inicia sua análise, indagando sobre o seu método, a lógica formal, o discurso teórico lógico e o encadeamento dos conceitos, com a finalidade de recobrir o conjunto da sociedade capitalista, até ao detalhe, recuperando os aspectos do conteúdo do discurso teórico no pensamento de Marx.
Seu foco principal, no entanto, é rever os conceitos de: formação, realização e distribuição da mais-valia, contidos n’O capital para fazer “um exame das funções e
estruturas da forma urbana legada pela história à sociedade burguesa” (LEFEBVRE,
1999, p.142.). Assim, busca identificar uma função essencial da cidade, no ponto de vista de cada um desses conceitos, para ao final revelar a importância da propriedade da terra e da renda fundiária ou renda da terra 9.
Sobre a propriedade da terra, o autor considera que ela se enquadra no conceito de propriedade privada em geral, mas ressalta que embora essa propriedade imobiliária tenha dado lugar à propriedade mobiliária ela persiste e continua importante, consolidando-se desde os tempos de Marx. Nesse tempo, a burguesia já enriquecia comprando terras e constituindo para si propriedades fundiárias e consequentemente, reconstituindo sob a base de um novo monopólio: a propriedade da terra e da renda fundiária. Conclui nesse argumento que “a propriedade, no fundo intacta, reconstituída pelo capitalismo, pesa sobre o conjunto da sociedade” (Op.cit. p.161).
Lefebvre reforça a ideia de que a função da cidade provocaria o motivo que levaria ao corte que ligava a sociedade à natureza. No entanto, apesar deste vínculo ter sido
9Lefebvre usa, ao longo do texto, os termos: “propriedade da terra e renda fundiária” (op.cit. p.154) como também “propriedade fundiária e renda da terra” (Op. cit. p.161) como se parecessem sinônimos: pelo menos, não faz nenhuma ressalva quando aplica um e outro. Podemos dizer que há diferença entre os
dois termos, na língua portuguesa, uma vez que “fundiário” tem origem da palavra latina “fundus” que
significa fazenda, bens de raiz e está relacionado a terreno agrário (Ferreira, 1993). Do mesmo modo, o termo “terra” tem um sentido mais genérico podendo significar desde: parte branda do solo, território, propriedade, lugar de origem, planeta, entre outros. Temos que considerar que o uso dos dois termos como sinônimo pode estar associado também a possíveis dificuldades na tradução da língua de origem. Mesmo assim, não poderíamos afirmar que fundiário está relacionado a rural porque o termo
“regularização fundiária” também é usado no contexto urbano do presente (Capítulo III-Lei 11.9977 de
2009). Preferimos usar na pesquisa os termos “terra e fundiário”, conforme a origem das fontes utilizadas,
comportando-se, na maior parte das vezes, como sinônimos e, quando oportuno, enfatizado o seu sentido no contexto do tema abordado. A identificação dessas noções como sinônimas certamente ocorre por se pensar as rendas apenas como função da visão industrial e em sua relação com a produção, seja ela no contexto rural e no urbano; por isso também não distinguem as rendas: fundiária, imobiliária e de
desfeito, a troca viva entre a comunidade e a terra não foi substituída por uma regulação racional e, no entanto, a sociedade continua ligada e mesmo amarrada à terra, pela propriedade e pelas múltiplas servidões que ela mantém. Principalmente, pela subordinação da terra ao mercado, transformando-a em um bem comercializável, dependente do valor de troca e da especulação e não do uso e do seu valor de uso10. Na sua analise, o autor Identifica uma lacuna na obra de Marx quando afirma que a
teoria marxista da propriedade da terra, no capitalismo, é incompleta porque ela “não mostra claramente nem os sujeitos (as classes e frações de classes), nem o modo de produção constituído (bem definido como tal), nem os sistemas e subsistemas que ele compreende (jurídico, fiscal, contratual, etc.)” (Op.cit.p139). Também, não identifica
“como e porque uma classe de proprietários imobiliários se perpetua no capitalismo, onde predomina fortemente a propriedade mobiliária? de onde vem a renda da terra?
O que ela implica?” (op.cit. p.139).
Renda e preço da terra uma proposta de aproximação
A renda da terra tem seus primeiros estudos, ainda nas formulações dos clássicos da Economia Política como Adam Smith e David Ricardo. Posteriormente foi retomado e modificado por Marx que o reformulou dividindo-o em duas categorias: a da “renda
diferencial”11
e a da “renda absoluta” obtida pelo proprietário decorrente do
monopólio exercido por uma classe específica. Porém, “salvo em algumas rápidas considerações (O Capital, cap.XLVI, livro 3, vol.6), Marx não se aprofunda no caso da renda fundiária urbana, atendo-se à renda da terra agrícola”. (BOTELHO, 2007, p.68).
A questão da renda da terra, para Lefebvre (1999), parecia estar fora de moda apesar da importância e necessidade de uma teoria para explicar como os terrenos disponíveis para a construção da cidade industrial tinham seus preços apossados pela especulação.
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Para Marx, a utilidade constitui o “valor de uso”, vinculando-se como tal às propriedades físicas do
objeto, sem ter nada a ver de imediato com o trabalho humano, nem com a relação social de produção. Já o “valor de troca” aparece no contexto do mundo da mercadoria primeiramente como relação quantitativa, na proporção pela qual as mercadorias se trocam de gênero a dinheiro sendo esse o valor de troca expresso em papel moeda.
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A renda diferencial, por sua vez, se subdivide em duas categorias: a relacionada a características naturais, de localização (diferencial I) e a de produtividade do capital investido na terra ou de equipamento (diferencial II)
“Em toda parte onde existe uma renda, a renda diferencial se estabelece da mesma maneira e segue as mesmas leis que a renda diferencial agrícola. Em toda parte onde forças naturais podem ser monopolizadas e assegurar um sobrelucro ao industrial que as explora [...] esse sobrelucro é extraído, sob a forma de renda, do capital em função, por aquele que um título de propriedade, sob uma parcela do globo, fez dele o proprietário dessas riquezas naturais” (MARX, apud. LEFEBVRE, 1999, p. 162).
Sobre os terrenos utilizados para construção, Lefebvre (1999) afirma que Adam Smith mostrou que a sua renda, como a de todos os terrenos não agrícolas, é baseada na renda
agrícola propriamente dita, isto é, na “renda de situação” e “renda de equipamento”,
correspondentes às rendas diferenciais I e II, segundo Marx. Sendo que a renda de situação (localização) é particularmente mais importante nas grandes cidades (op.cit. p.162).
A divergência quanto à aplicabilidade da teoria da renda para a realidade capitalista foi trabalhada por Csaba Deák (1985) na sua tese de doutorado12. Para o autor, o conceito de renda foi erroneamente transposto da Economia Política para a análise da sociedade capitalista, como uma categoria referente ao pagamento por parte dos capitalistas aos senhores de terra, pelo direito de uso da terra na produção de grãos. Do ponto de vista da sua interpretação da Teoria, a renda se refere ao excedente da produção na sociedade feudal na forma de: renda em trabalho, renda em espécie e renda em dinheiro, considerando que a categoria mais próxima da renda, na sociedade capitalista, é o lucro. Na verdade, a questão é bem mais complexa e exigiria uma análise em detalhes se estivesse nos nossos objetivos discutir o mérito do debate. No entanto, elucidar alguns de seus pontos fundamentais nos ajudará a apontar a escolha do caminho adotado. A dificuldade de se adequar o conceito de renda fundiária agrícola é relevante e evidente, mas para nós não implicaria no abandono de sua contribuição, como poderemos verificar no trabalho de Adriano Botelho (2007).
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DEÁK, Csaba. Rent theory and the price of urban land/ Spatial organization in a capitalist economy. PhD Thesis, Cambridge (1985)
Na sua tese, reforça a importância dos estudos sobre a “renda fundiária urbana”,13
porque a considera um elemento fundamental para a compreensão da hierarquização dos usos do solo urbano, para a acumulação do capital e para a reprodução das relações de produção capitalistas, além se converter em um importante instrumento de segregação socioespacial.
Seu trabalho, alerta inicialmente sobre os problemas enfrentados pelo pesquisador ao tratar da renda fundiária urbana, do ponto de vista teórico-metodológico e político. No primeiro, realça as dificuldades na coleta de dados usados nos cálculos da renda fundiária, na identificação dos proprietários urbanos, como também na adaptação do caso inglês estudado por Marx. Do ponto de vista político realça o comprometimento ideológico dos autores diante das discussões teóricas e mudanças ocorridas com o colapso da antiga URSS e das experiências socialistas no mundo. Segundo o autor, podem ter influenciado o abandono da questão da renda fundiária urbana pela maior parte de seus analistas.
Para amenizar a dificuldade que o pesquisador teve ao enfrentar o problema da heterogeneidade da classe dos proprietários fundiários urbanos, Botelho (2007, p.70) divide primeiramente de um lado, os proprietários que não auferem renda de sua propriedade e, de outro, os que desta auferem. Outra divisão adotada foi a dos grandes proprietários públicos e privados que formariam um grupo distinto dos pequenos proprietários. Essa simplificação é justificada pelo autor porque para ele o mais importante são as articulações que a renda fundiária faz com a acumulação capitalista, com a reprodução das relações de produção e com o processo da segregação socioespacial.
Essa justificativa também se aplica ao nosso caso porque não faz parte dos nossos objetivos trabalhar com o conceito de classes sociais por ser um conceito complexo e ter sido objeto de muitas revisões no campo da Sociologia trazendo uma dificuldade conceitual desnecessária para o nosso trabalho. Assim, é igualmente mais importante para nós compreender as relações entre capital, propriedade e renda para dar suporte à interpretação da produção do espaço turístico litorâneo.
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Nesse caso, fundamentada nos estudos de Marx (1989) e dos teóricos marxistas da II internacional, como: Lênin (1945;1980;1987) e Kautskty (1980), além dos estudos desenvolvidos depois dos anos 1970 por: Lipietz (1974), Lojkine (1971;1997), Alquier (1971), Fine (1988), Harvey (1980;1982), Seabra (1987;1988) e Topalov (1984).
Desse modo, para melhor definir “renda da terra”14, o autor afirma que ele possui um conceito correspondente para a análise da cidade, ainda que não apareça de modo explícito nas aglomerações urbanas. Isso se deve porque está incluída nos diversos tipos de aluguéis de escritórios, moradias, etc., ou mesmo no preço cobrado pelos imóveis (ALQUIER, 1971, p.82 apud BOTELHO, 2007, p.74). Na verdade, a renda da terra perde sua forma concreta que tinha na agricultura (renda em trabalho, em espécie ou em dinheiro) para ganhar uma forma mais abstrata, como se não fosse mais um produto do solo. Desse modo, se assemelha cada vez mais ao juro de um montante de capital investido.
Outro aspecto relevante ressaltado pelo autor é que o aumento da renda fundiária urbana está diretamente relacionado ao capital fixo que se incorpora à terra na forma de infraestrutura urbana e que o objeto principal da especulação no setor imobiliário não é o imóvel construído, em si, mas a expectativa de renda fundiária a ser cobrada pelos proprietários.
Num sentido mais amplo a renda da terra, incluindo sua condição imobiliária, se afirma cada vez mais nas relações sociais capitalistas, fazendo parte de seu processo de reprodução, criando espaços estratificados em função da renda que proporciona.