• Sonuç bulunamadı

Um dos principais “ingredientes” do sensacionalismo é o fait divers. O termo designa “uma rubrica sob a qual os jornais publicam com ilustrações as notícias de gêneros diversos que ocorrem no mundo” (ANGRIMANI, 1995, p. 25). Ou seja, o termo abrange diversos tipos de fatos que não necessariamente sejam de interesse público, mas que despertam a curiosidade, a exemplo de desastres e acidentes. Ele tem um consumo imediato.

Os primeiros fait divers surgiram na França por volta de 1631. De acordo com Angrimani (1995), o fundador da Gazette de France, Theóphraste Renaudot, lançava edições “extraordinárias” somente contendo fait divers sensacionais. Com o passar do tempo e o desenvolvimento das técnicas de impressão e desenho, os fait divers aumentaram a publicação no país, incluindo imagens de execuções, por exemplo.

O autor frisa que, numa sociedade de massa, o fait divers nada mais é do que uma informação quente e circunstancial. Além disso, trata-se do tipo de notícia que se pode abordar questões como morte, transgressões e violência sem ter de falar delas diretamente. Angrimani (1995) lembra também que alguns autores confundem fait

divers com sensacionalismo e entendem que esse tipo de notícia não tem como objetivo

De acordo com a pesquisadora Dejavite (2001), Barthes “transformou o termo (na obra Essais Critique), em um conceito semiológico, para dar conta das notações muito aberrantes do real” (DEJAVITE, 2001, p. 7). Em resumo, Barthes explica que o

fait divers nem ao menos é classificado sob a alcunha de Variedades, dada a

excepcionalidade do fato por ele tratado. É uma notícia que acaba em si mesma, sem contexto e duração.

Pedroso (2001) reforça que nessas notícias sem durabilidade e insignificantes, também estão contidas “os tipos sociais, dramatizados narrativamente, que representam o lugar de evasão e o ritmo da informação angulados pelo nível massa” (PEDROSO, 2001, p. 50-51).

Por sua vez, Amaral (2006) frisa que o fait divers se relaciona com a dramatização da notícia, além da folhetinização. Ou seja, o envolvimento com o público e o enraizamento na vida cotidiana são duas fortes características do jornalismo sensacionalista e que pode ser encontrado nos fait divers. São notícias que se esgotam em si mesmas e, portanto, não dependem de análise ou contextualização.

O francês Barthes (2007) foi o responsável por fazer o conceito de fait divers ganhar fôlego acadêmico. O autor explica que a palavra francesa é utilizada para classificar o inclassificável, ou seja, quando as notícias não podem ser inscritas conforme o catálogo preexistente que abarca fatos políticos, econômicos, guerras, ciência, entre outros. Ou seja, “(...) numa só palavra, seria uma informação monstruosa, análoga a todos os fatos excepcionais ou insignificantes, em suma inomináveis (...)”, (BARTHES, 2007, p. 57).

O pesquisador utiliza como exemplo dois assassinatos: um político e outro não. A diferença, segundo explica, reside no fato de que o assassinato político já se encaixa numa temática existente, ou seja, remetendo a uma situação que existe fora dele, enquanto o outro assassinato não se encaixaria em nenhuma definição. O fait divers contém em si toda a informação necessária para a sua compreensão. De acordo com Barthes (2007),

(...) Evidentemente, seu conteúdo não é estranho ao mundo: desastres, assassínios, raptos, agressões, acidentes, roubos, esquisitices, tudo isso remete ao homem, a sua história, a sua alienação, a seus fantasmas, a seus sonhos, a seus medos: uma ideologia e uma psicanálise do fait divers são possíveis; no nível da leitura, tudo é dado num fait divers; suas

circunstâncias, suas causas, seu passado, seu desenlace; sem duração e sem contexto, ele constitui um ser imediato, total, que não remete, pelo menos formalmente, a nada de implícito; (...) É sua imanência que define o fait

divers (BARTHES, 2007, p. 58).

O autor classifica as relações inerentes aos fait divers em dois tipos: causalidade e coincidência. Na relação de causalidade, Barthes (2007) explica que geralmente diz respeito a uma ação e uma causa ou circunstância. É nesse tipo que podem ser encontrados estereótipos como os do drama passional ou crime por dinheiro, por exemplo. No entanto, quando o estereótipo é, de certa forma, esperado, o foco do fait

divers se transfere para o individual ou personalizado, ou seja, evidencia a mãe, a

criança ou o idoso que faz parte da notícia, em detrimento da estrutura noticiosa.

Barthes (2007) explica que para que uma causalidade chame a atenção a ponto de se tornar notícia, ela precisa de uma perturbação. Dentre as perturbações que o autor cita estão as inexplicáveis ou cuja explicação demanda tempo além do imediato exigido pelo fait divers: prodígio e crime. Por prodígio, o autor entende que seriam as notícias que tratam do sobrenatural ou do espaço. Por sua vez, o crime misterioso seria o segundo tipo de perturbação que se articula com a causalidade.

Em relação à coincidência, Barthes (2007) explica que

É primeiramente a repetição de um acontecimento, por mais anódino que seja, que o designa para a notação de coincidência: “uma mesma joalheria foi assaltada três vezes”; (...) A repetição leva sempre, com efeito, a imaginar uma causa desconhecida, tanto é verdadeiro que na consciência popular o aleatório é sempre distributivo, nunca repetitivo: o acaso deve variar os acontecimentos; se ele os repete, é que quer significar qualquer coisa através deles: repetir é significar (...) entretanto, mesmo relegada à categoria de “curiosidade”, não é possível que a repetição seja notada sem que se tenha a idéia de que ela detém um certo sentido, mesmo se esse sentido permanece suspenso: o “curioso” não pode ser uma noção opaca e por assim dizer inocente (...): ele institucionaliza fatalmente uma interrogação (BARTHES, 2007, p. 63).

O autor conclui que a causalidade é submetida à tentação da coincidência frequentemente e vice-versa. Assim, a junção dos movimentos da causalidade aleatória e da coincidência ordenada acaba por constituir o fait divers.