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Faremos uma exposição breve e sucinta, naquilo que nos cabe, do capítulo 29 do Primeiro Livro da obra de Sexto Empírico, Esboços do Pirronismo185. Como delineamos nos capítulos acima a presença de um mobilismo nos Ensaios, sem que tenhamos afirmado a disjunção entre esta posição ontológica e o ceticismo, consideramos razoável a presença de uma retomada do capítulo onde Sexto Empírico diferencia o ceticismo do heraclitismo. Nossa interpretação entende que há um convívio de pressupostos e referências no interior dos Ensaios que não se excluem entre si. Como indicamos, Montaigne possuiu a obra de Sexto Empírico que aqui expomos, o que fortalece historicamente a plausibilidade do convívio filosófico que estamos sugerindo.

Este capítulo dos Esboços do pirronismo186 inaugura as considerações propriamente históricas de Sexto Empírico que, até então, discorrera sobre a linguagem própria aos céticos. A questão da linguagem é de fundamental importância para a filosofia cética, e não deixa de estar presente nas diferenciações com a filosofia de Heráclito. A primeira diferenciação é justamente sobre a forma dogmática e assertiva da linguagem filosófica de Heráclito, que faz asserções sobre 'coisas não evidentes'187. Não adentraremos no problema sobre o contato de Sexto com a fonte da filosofia de Heráclito. A sentença seguinte menciona Enesidemo no tempo passado. Sexto usa, na edição consultada, o discurso indireto livre, referindo-se a Enesidemo e seus seguidores, que diziam ser o ceticismo uma via direta para a filosofia de Heráclito. Parece possível identificar quem são estes seguidores.

Sexto confirma a posição atribuída a Enesidemo, como se em diálogo com o leitor, e como se atestasse a informação sobre a tese de Enesidemo, advinda de um terceiro. Mas notemos que a tradução gera uma ambiguidade, pois é possível também supor que Sexto

185 Sextus Empiricus. Outlines Of Pyrrhonism, Harvard University Press, Loeb Classical Library,

Massachusetts London, 1933 (primeira publicação). Todas as nossas referências serão com base nesta edição.

186 O problema da edição das obras de Sexto Empírico está além de nossos recursos. O capítulo é assim

intitulado, na tradução: Chapter XXIX. – That The Sceptic Way Of Thought Differs From The Heracleitean Philosophy.

187 "(...) makes dogmatic statements about many non-evident things (...)" 'perì pollôn adélon apofaínetai

esteja concordando com a tese de Enesidemo188. Para aquém da questão de se investigar qual fora o contato de Sexto com a filosofia de Enesidemo, retomemos o ponto de relação afirmada na tese. A relação entre ceticismo e heraclitismo ocorreria justamente através da afirmação de que há aparências opostas relativas à mesma coisa, sendo esta constatação um passo preliminar para a afirmação de que qualidades opostas existem na mesma coisa. Ou seja, esta relação configura-se na relação entre epistemologia e ontologia, ou, naquilo que, para a filosofia de Heráclito, configura um problema ontológico. A aparência, embora seja uma noção epistêmica central para a configuração cética do problema, é uma noção passageira para o adepto da filosofia de Heráclito. Sexto complementa a aproximação, expressando a tese cética e a de Heráclito. A primeira afirma que (o cético, portanto, não deixa de afirmar) a mesma coisa é objeto de aparências opostas; e a última afirma a realidade das mesmas aparências opostas189. Notemos que o adepto da tese de Heráclito assume, a princípio, que as coisas aparentemente (como quer o cético) são opostas. O passo seguinte, que o cético não faz, é o de afirmar a existência onto-lógica destas aparências opostas, enquanto dados reais que têm existência nas coisas. O problema volta-se, assim, para a noção de 'aparência'. Caso o adepto da filosofia de Heráclito aceite que as aparências são um modo de existência subjetivo, mas inicial, temos uma mitigação da discordância que Sexto explicitará. Contudo, o reverso parece de difícil aceitação, ou seja, o cético parece não estar disposto a aceitar que as aparências têm uma existência nas coisas.

Mas Sexto, em seguida, apresenta a réplica a esta aproximação, dialogando, portanto, com Enesidemo e seus seguidores, que queriam que o ceticismo fosse uma propedêutica para o heraclitismo. Sexto apela para um argumento de senso comum, sugerindo que a posição que afirma que a mesma coisa tem aparências opostas não é exclusivamente um 'dogma cético', sendo um 'fato' experimentado pelos demais filósofos e pelos homens comuns. Uma questão chama a atenção, a partir desta réplica de Sexto, ou seja, aquilo que parece uma mitigação da réplica mesma. Pois admitir que o senso comum e as demais escolas filosóficas têm a mesma experiência de aparências opostas convivendo no mesmo objeto, não constitui um argumento contra o heraclistismo, uma vez que este

188 "(...) It is true that Aenesidemus and his followers used to say that the Sceptic Way is a road leading

up to the Heracleitean philosophy (…)" (idem.ibid).

189 "(...) and while the Sceptics say that the same thing is the subject of opposite appearances, the

mesmo admitira, de acordo com Enesidemo, as aparências opostas no mesmo objeto. Sendo assim, Sexto parece estar corroborando o argumento de Enesidemo. Esta observação nos leva a suspeitar que Sexto mitiga, retomando, por outra via, a tese do adversário. Na conclusão desta primeira réplica, Sexto afirma que o ceticismo, o heraclitismo e a humanidade compartilham desta mesma experiência.

O exemplo da diferente apreciação do mel é apresentado como fato que corrobora a universalização da experiência da oposição das aparências. Ou seja, todos reconhecem que o mel é doce para o homem saudável e amargo para o homem doente.

A réplica, em seguida, a nosso entender ganha forma conclusiva. Ao identificar a mesma experiência, generalizando-a para todos os homens, Sexto se pergunta porque o ceticismo é mais uma preparação para o heraclitismo do que o senso comum, uma vez que este também experimenta a oposição entre as aparências. Sexto afirma ser somente provável que os adeptos da filosofia de Heráclito tenham retirado do ceticismo a premissa para a afirmação da existência real dos opostos na mesma coisa, aludindo assim a um problema de fonte. Mas esta resolução ainda parece mitigada, uma vez que ela admite a possibilidade de que o ceticismo tenha sido a fonte para o heraclitismo. Ela afirma que tanto o ceticismo quanto o senso comum possam ter servido de inspiração inicial a Heráclito. Ou seja, as probabilidades parecem se igualar. Se, por um lado, esta 'conclusão' impede a assertiva definitiva de que o ceticismo fora a propedêutica para o heraclitismo; por outro lado ela ainda mantém viva esta proposta, pois não a recusa ou a soluciona definitivamente.

O capítulo encerra-se com um segundo argumento, mais detalhado e complexo, contra a relação entre ceticismo e heraclitismo. Sexto afirma que o ceticismo é um obstáculo para a filosofia de Heráclito. Os elementos deste argumento são: o ceticismo desaprova a filosofia de Heráclito, pois considera como 'declarações relapsas'190 todas as suas asserções dogmáticas. Sexto afirma que há contradição entre as declarações dogmáticas da filosofia de Heráclito e seu dogma de que existem realidades opostas na mesma coisa. Os dogmas, que Sexto não menciona quais são, contradizem também a teoria da conflagração universal de Heráclito, que afirmava que todas as coisas se

sintetizariam no fogo primordial. Sexto, assim, mostraria conhecimento da filosofia de Heráclito191.

Gostaríamos de fazer três observações. A primeira é sobre a função da contradição, pois Sexto alude a um uso cético das contradições visando argumentar contra a tese de Enesidemo e, por conseguinte, contra a filosofia de Heráclito192. Nossa segunda observação é oriunda de um questionamento, ou seja, em que medida o reconhecimento do próprio Sexto de que todos os homens, inclusive filósofos, aceitam que as coisas lhes aparecem contraditórias193, não corrobora a tese mesma de Heráclito? Pois esta afirmação de concordância entre os filósofos, em que medida não anula o argumento da

diafonía, indicando justamente um ponto comum entre as teorias? E por fim, a terceira observação é sobre o estatuto das non-evident things (adélon). Pois se Sexto admite a universalidade do fato de que as coisas aparecem contraditórias, em que medida isto constitui um fenômeno não evidente? Abrindo mão da apresentação de uma posição sobre o papel do senso comum no ceticismo de Sexto Empírico, em que medida a conjunção das atestações sobre a contraditoriedade das coisas não evidencia um aspecto das coisas mesmas?

191 O que arriscamos afirmar contra Conche (1994), que recusa o conhecimento das filosofias de Heráclito

e de Enesidemo, por parte de Sexto Empírico. V. p. 250-51.

192"(…) seeing that the Sceptic decries all the dogmatic statements of Heracleitus as rash utterances,

contradicting his 'Ecpyrosis', and contradicting his view that the same thing is the subject of opposite realities, (…)" (p. 127).

193"(…) that the view about the same thing having opposite appearances is not a dogma of the Sceptics

but a fact which is experienced not by the Sceptics alone but also by the rest of philosophers and by all mankind (…)" (p.125).