2. İÇ DENETİM VE ÇAĞDAŞ İÇ DENETİM UYGULAMALARINI YÖNLENDİREN
2.2. Çağdaş İç Denetim Uygulamalarını Yönlendiren Kurumsal Temeller ve
2.2.2. Uluslararası Yüksek Denetleme Kuruluşları Örgütü (INTOSAI)
Conforme já referimos, durante o período militar, dois partidos políticos participavam de um simulacro de democracia no país. Em Goiás, com os casuísmos da legislação autoritária (como a sublegenda), o partido da oposição – MDB – quase desapareceu no início do período. Depois sua participação nos cargos proporcionais cresceu em todo o país, ameaçando a ditadura militar.
Entre tantas medidas para conter o avanço da oposição à ditadura – visto que o partido oficial estava bastante fragilizado –, o regime militar adotou a estratégia de extinguir o bipartidarismo e dividir a oposição em diversas agremiações. A extinção do MDB e da Arena foi feita através da Lei 6.767 – Lei Orgânica dos Partidos, publicada em 20 de dezembro de 1979, que alterou a Emenda Constitucional nº 11. Entre as principais alterações, estabelecia prazo de 180 dias para o registro de novas legendas; impunha aos novos partidos a obrigatoriedade de realizarem convenções regionais em, no mínimo, nove Estados, que deviam ser precedidas de convenções municipais em 20% dos municípios de cada um deles; obrigava ao uso da palavra “partido” na denominação e da letra “P” na sigla; proibia coligações partidárias nas eleições proporcionais para a Câmara Federal, Assembléias Legislativas e Câmaras Municipais.
Antes, porém, da extinção do bipartidarismo, foram anistiados os políticos cassados20, o que também fez parte da estratégia de divisão da oposição. Esperava- se que, com o retorno de líderes políticos cassados pelo regime, ocorriam conflitos com as lideranças oposicionistas surgidas ao longo do período ditatorial, o que de fato ocorreu.
Em Goiás, houve o retorno de vários políticos cassados, como Íris Rezende Machado, Mauro Borges, Aldo Arantes e Tarzan de Castro, entre outros. Os dois primeiros eram oriundos do antigo PSD; Mauro Borges era filho do antigo chefe político Pedro Ludovico e ocupava o cargo de governador quando foi cassado; Íris Rezende, por sua vez, ao ser cassado, era uma liderança conservadora em ascensão, ocupando a Prefeitura da Capital – Goiânia; já Aldo Arantes era líder estudantil ligado ao Partido Comunista do Brasil, assim como Tarzan de Castro.
O retorno dos antigos políticos do PSD realmente causou conflitos com as lideranças nascidas durante o período ditatorial, principalmente com as representantes do meio urbano, já fortemente consolidado, cujos maiores expoentes eram os irmãos Santillos – Adhemar e Henrique –, de Anápolis, como veremos adiante.
A tentativa de fragmentação da oposição por parte da ditadura militar não trouxe efeitos imediatos em Goiás. A Arena e o MDB transformaram-se em Partido Democrático Social (PDS) e Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB). No princípio, no interior destas duas agremiações foram acomodados os interesses de todos os grupos. As outras que foram criadas (Partido Trabalhista Brasileiro - PTB, Partido Democrático Trabalhista – PDT, Partido dos Trabalhadores – PT) não influenciaram nas eleições de 1982, visto que as regras eleitorais as prejudicaram.
Borges mostra que os fatores que inviabilizaram a abertura do leque partidário para além do PDS e do PMDB derivavam, de um lado, do alto grau de fisiologismo e da subordinação ao poder característicos das forças constitutivas da política regional e, de outro, da concepção hegemônica de unidade da frente democrática entre os oposicionistas (BORGES, 2004).
Neste contexto, o PMDB, diante do retorno, principalmente, de duas lideranças (Íris Rezende e Mauro Borges, que, na verdade, eram oriundas de um velho “esquema” político, bipolar, existente em Goiás), ficou dividido em dois grupos, que passaram a lutar pela hegemonia dentro do Partido. Era a velha história de ver quem se tornava o “cacique”. De um lado, Mauro Borges, que se aliou a Henrique Santillo, senador eleito no pleito anterior e postulante ao cargo de governador estadual; de outro, Íris Rezende, que trabalhou durante todo o ano de 1979 para consolidar sua candidatura e seu grupo. Buscando enfraquecer o grupo de Mauro Borges e Henrique Santillo, convidou para vice de sua chapa um companheiro destes, Derval de Paiva, que aceitou e carregou consigo o apoio de diversos companheiros, o que acabou por consolidar a candidatura de Íris Rezende a governador pelo PMDB nas eleições de 1982.
Contrariado por não conseguir ser o candidato ao governo pelo Partido e para se diferenciar do conservadorismo que se traduzia na candidatura de Íris Rezende, Henrique Santillo situou seu discurso no campo da esquerda e procurou apoio na classe média e em alguns segmentos sociais organizados. O ato mais interessante efetivado por Santillo e parte de seu grupo político – o deputado federal Adhemar Santillo, seu irmão; os deputados estaduais Línio de Paiva, Joaquim Roriz e Joceli Machado – foi o de participarem da fundação do PT. Anos mais tarde, o deputado estadual Joaquim Roriz se aliaria a Íris Rezende e conseguiria sua nomeação para o governo do Distrito Federal, sendo, depois, eleito para o mesmo cargo.
O grupo que restou, desta forma, liderado por Mauro Borges, ficou bastante enfraquecido, possibilitando a Íris Rezende e seus partidários consolidar domínio total sobre o PMDB.
A permanência de Henrique Santillo e sua facção no PT, entretanto, foi breve: bastou o I Encontro Regional do Partido, em maio de 1980, para que Roriz e Machado pedissem seu desligamento, seguidos dos irmãos Santillos, retornando ao PMDB goiano. Negociando seu retorno a este Partido, Henrique Santillo conseguiu a indicação de Onofre Quinan, grande empresário anapolino, para a vice-governadoria (no lugar de Derval de Paiva), ficando a vaga ao Senado com Mauro Borges. No entanto, Íris Rezende tornou-se o “cacique” do Partido.
No PDS goiano havia três grupos: o dos Caiados, o ligado ao ex-governador Otávio Lage e um terceiro, sob a liderança do ex-governador Irapuan Costa Jr. O grupo de deputados estaduais relacionados a este último (que havia sido substituído por Ary Valadão, parceiro dos Caiados) aliou-se ao PMDB e fez oposição sistemática ao governo, chegando, inclusive, a rejeitar o nome do indicado para prefeito da Capital (Rogério Gouthier Fiúza) e quatro pedidos de empréstimo ao exterior.
A resposta do governador Ary Valadão foi o enquadramento de vários deputados ligados a Irapuan Costa Jr., cooptados por meio de cargos. Um deles (Adjair Lima) foi alçado a secretário estadual e dois foram para os cobiçados cargos vitalícios de Conselheiros do Tribunal de Contas dos Municípios (Habib Issa e Wander Arantes).
Costa Jr. ainda tentou conseguir cargos no governo federal para si e seu grupo, mas não conseguiu, devido aos seus problemas com o governo estadual. Então, ele e mais dois deputados federais (Genésio de Barros e Francisco de Castro) transferiram-se para o PMDB.
Com o oferecimento de cargos, Ary Valadão ainda conseguiu cooptar mais alguns quadros na seara oposicionista. Para prefeito de Anápolis – cargo que era
indicado, devido à caracterização da área como de segurança nacional – foram cooptados do PMDB o deputado Wolney Martins, para prefeito e o primeiro suplente de deputado, Heli Dourado da cidade de Formosa, cujo compromisso era assumir a vaga e passar para o PDS.
Os outros partidos que criados naquele momento (PTB, PDT e Partido Progressista – PP) não foram objeto de disputa por lideranças, apenas se configuraram uma promessa para o futuro. A exceção foi o PT que, como vimos, teve uma breve participação do grupo liderado por Santillo. Um fato que pesou contra tais agremiações foi o voto vinculado, segundo o qual o eleitor deveria votar em candidatos da mesma legenda, o que enfraquecia, sobremaneira, os agrupamentos menores.
Em Goiás, as eleições de 1982 – as primeiras para os governos estaduais após o regime militar – ocorreram sob a hegemonia de grupos políticos que atuaram durante décadas na política estadual, parecendo mais um embate entre os velhos partidos UDN e PSD.
No PDS restaram dois grupos, um sob a liderança dos Caiados e outro dirigido por Otávio Lage. Para a eleição ao governo estadual o primeiro conseguiu emplacar a candidatura de Índio do Brasil Artiaga, que até compareceu a um debate na televisão com Íris Rezende, mas que, devido a problemas de saúde, afastou-se da disputa. Na concorrência para o cargo de governador entrou, então, Otávio Lage, pelo PDS, o qual disputou convenção com Brasílio Caiado e venceu a disputa. O candidato ao Senado era Rui Brasil Cavalcante, com a sublegenda dada a Osires Teixeira.
No PMDB, como vimos, ficou consolidada a candidatura de Íris Rezende ao governo estadual e Mauro Borges ao Senado. Internamente ao Partido havia o
controle incontestável, até aquele momento, de Rezende. Mesmo assim, o Partido era fracionado em grupos; mais à esquerda havia os anistiados Tarzan de Castro e Aldo Arantes; na, digamos, centro-esquerda, Santillo; indo para a direita encontravam-se os grupos de Íris Rezende, de Mauro Borges e, nas franjas, Irapuan Costa Jr., com vários políticos do interior do Estado, todos ligados ao latifúndio.
Os vencedores da disputa foram os candidatos do PMDB, que ficaram no governo estadual por 16 anos, liderados por Íris Rezende Machado, representante da direita do antigo PSD goiano. No PDS, apesar de Otávio Lage ter sido o candidato ao governo, o grupo liderado pela família Caiado conseguiu a hegemonia: a maioria dos deputados estaduais eleitos pela sigla era oriunda desta facção, e dos cinco deputados federais somente um era ligado a Otávio Lage (dois eram do grupo dos Caiados e dois eram independentes).
A política goiana ficou, desta forma, bastante assemelhada com a que se praticava antes do período da ditadura militar. As classes dominantes eram representadas pelos mesmos grupos, sempre tendo à frente um “cacique” e continuando a exercer o poder de acordo com seus interesses prioritários.
Recordemos que, antes de 1930, a oligarquia dominante em Goiás foi conduzida pela família Caiado, sendo, posteriormente, substituída pela de Pedro Ludovico – até o golpe de 64, quando foram cassados seu filho, Mauro Borges, então governador, o próprio Pedro Ludovico e, pouco tempo depois, o prefeito de Goiânia, Íris Rezende, do mesmo grupo e partido.
O interessante a notar é que, quando aconteceu o golpe de 64, voltou ao governo estadual o grupo dos Caiados; quando este saiu de cena, houve o retorno do grupo de Pedro Ludovico, em que pesem as disputas pela predominância.
Não há razão para duvidar que estes políticos, sempre compromissados com os setores mais conservadores da sociedade goiana, ligados ao setor rural, ao latifúndio, defenderam, novamente, os interesses desta classe. Se observarmos os deputados estaduais e federais eleitos após 1982, veremos que a sua grande maioria tem vínculos com a esfera rural. Poucos (como Aldo Arantes e, mais recentemente, outros, chegados com o crescimento do PT na Capital e Anápolis) não têm esta ligação.
Nos anos que subseqüentes, o governo estadual foi ocupado pelo PMDB, como já dissemos. Henrique Santillo sucedeu Íris Rezende, que foi para o Senado e que retornou ao governo de Goiás nas eleições seguintes, passando o cargo para seu vice – Maguito Villela, até serem derrotados por um “novo” partido, o Partido Social-Democrata Brasileiro (PSDB). O candidato desta sigla, Marconi Perillo, foi apoiado pelo Partido da Frente Liberal (PFL), de Ronaldo Caiado, que indicou um senador, Demóstenes Torres. A outra vaga ao Senado foi ocupada pela ex-mulher de Irapuan Costa Jr. – Lúcia Vânia. Como podemos ver, o conservadorismo da política goiana não foi afetado, mas permaneceu e transmutou-se, ganhando novas roupagens.
Uma análise mais detalhada do comportamento da distribuição fundiária, da renda estadual e das políticas estaduais de desenvolvimento regional exercidas após a redemocratização nos dará pistas para uma afirmação mais concreta sobre as classes dominantes e sobre a fração de classe que preponderou sobra as demais no seio do bloco no poder estadual, sempre tendo clara a natureza dependente e subordinada desta classe em relação aos ditames do grande capital, principalmente com a emergência do que se convencionou chamar de “agronegócio”.