2. İÇ DENETİM VE ÇAĞDAŞ İÇ DENETİM UYGULAMALARINI YÖNLENDİREN
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A princípio, a questão portuguesa inicia-se em 1826, com a morte do soberano português D. João VI52 (1767-1826). No entanto, suas raízes poderiam ter outras duas ou três datas marcantes. A primeira, 1808, ano da transmigração do Estado português para sua colônia sul-americana e, por consequência, da sua família real, tendo neste momento o príncipe herdeiro de Portugal, Pedro de Alcântara, apenas nove anos de
idade. A segunda data marcante, sem dúvida alguma, é 182253, ano em que é
proclamada a independência do Brasil pelo então príncipe regente português Pedro de Alcântara. E se formos considerar um terceiro ponto, talvez seja relevante partir do princípio da desobediência do príncipe regente no Brasil diante as ordens e exigências
49 Fundação Biblioteca Nacional. Coleção Casa real Portuguesa. Localização: II‐30, 24, 031. 50 Fundação Biblioteca Nacional. Coleção Casa real Portuguesa. Localização: II‐30, 25, 033. 51 A princesa Maria Cristina de Bourbon‐Sicília desposa, em 1829, o viúvo rei Fernando VII da Espanha, que fora cunhado do ex‐pretendente da princesa e esposa da infanta que sugeriu seu nome ao monarca português. 52 João Maria José Francisco Xavier de Paula Luís Antonio Domingos Rafael de Bragança, futuro D. João VI de Portugal (1767‐1826). 53 Para alguns historiadores, a proclamação da independência do Brasil foi apenas o desfecho final de uma certa independência diante a desobediência brasileira frente as ordens das cortes, ocorrida em 9 de janeiro de 1822, o famoso “Dia do Fico”.
vindas das Cortes portuguesas, chanceladas por S.M.R54 D. João VI, simbolizada pelo célebre Dia do Fico, 9 de janeiro de 1822.
A Constituição aprovada em 1822, em Portugal, limitava os poderes do rei, ampliando os poderes do Legislativo, como reza o capítulo II:
Art. 128º - Haverá no reino do Brasil uma delegação do poder executivo, encarregada duma Regência, que residirá no lugar mais conveniente que a lei designar. Dela poderão ficar independentes algumas províncias, sujeitas imediatamente ao Governo de Portugal.
Art. 129º - A Regência do Brasil se comporá de cinco membros, um dos quais será o Presidente, e de três Secretários; nomeados uns e outros pelo Rei, ouvindo o Conselho de Estado. Os príncipes e Infantes (artigo 133º) não poderão ser membros da Regência.
Não cabe aqui efetuar um denso relato explicativo sobre os inúmeros acontecimentos que cercam esse momento histórico, procurando dar atenção às questões de sucessão e de fracionamento da família real portuguesa, bem como da Dinastia de Bragança.
Antes de adentrarmos de fato na questão do fracionamento dos Bragança, é importante evidenciar que até mesmo em tempos difíceis, de mudanças e da onda revolucionária que tomara a Europa, a lógica de matrimônio da família real portuguesa manteve-se basicamente a mesma, havendo apenas duas alterações, que se formos aprofundar-nos de forma atenta, veremos que na verdade trata-se apenas de uma pequena alteração que está profundamente ligada com o fracionamento da família real portuguesa.
Dentre os quatro casamentos realizados pelo Estado português sob o governo de D. João VI, rei de Portugal, três são com membros da Casa Real espanhola, parentes de sua esposa Carlota Joaquina de Bourbon y Borbón. O outro casamento fora a união com a Áustria, na figura da arquiduquesa da Áustria Leopoldina Habsburgo e do príncipe herdeiro Pedro de Bragança.
O rei D. João VI teve mais dois filhos que se casaram, porém fora do período do seu governo e não seguindo a rigor a lógica de matrimônios encontrada na família real portuguesa. Em 1º de dezembro de 1827, a infanta de Portugal, Ana de Jesus Maria
Luisa de Bragança55, casa-se com o general Nuno José Severo de Mendonça Rolim de
Moura Barreto, duque e marquês de Loulé e conde do Vale dos Reis (1804-1875), nobre
54 S.M.R: Sua Majestade Real.
55 Ana de Jesus Maria Luísa Joaquina Micaela Rafaela Sérvula Antónia Xavier de Paula de Bragança e Borbón, infanta de Portugal (1806‐1857).
da corte portuguesa. Essa união foi autorizada e assinada, na ausência do rei, pela sua irmã, presidente do Conselho de Regência, Isabel Maria de Bragança.
O segundo casamento realizado após a morte de D. João VI foi o do infante Miguel de Bragança56 a se realizar em 24 de setembro de 1851, na Alemanha, com a princesa Adelade de Löwenstein-Wertheim-Rochefort (1831-1909), quando o infante já se encontrava exilado de Portugal na Alemanha.
Após essa pequena observação acerca das uniões matrimoniais e alianças efetuadas sob o governo de D. João VI, retornemos a tratar do fracionamento em duas ramificações da família dos Bragança.
Como já visto, não é comum na Casa de Bragança a existência de dois membros varões com descendência. Ou quando isso vem a ocorrer, a linha varonil sucessória é interrompida, sendo necessário recorrer ao ramo aliado para efetuar uma união57, dando continuidade assim, à Dinastia e à varonia. Em 1820, eclode em Portugal a revolução liberal do Porto, a qual exigia o retorno do rei a Portugal, o juramento e sanção de uma Constituição bem como o fim da monarquia absolutista. Esse ponto será um dos cernes da questão da ramificação dos Bragança. Pedristas versus Miguelistas; liberais versus conservadores; constitucionalistas versus absolutistas.
Com o retorno de D. João VI a Portugal em 1821, este é levado a jurar a nova Constituição, assim como seus filhos, entre eles Miguel de Bragança. A rainha consorte Carlota Joaquina recusa-se a jurar a nova Constituição e é levada para prisão em domicílio na Quinta do Ramalhão. Em 1823, o infante Miguel de Bragança lidera um movimento contra as Cortes, dissolvendo esta e reestabelecendo o poder absoluto do rei. Esse movimento na historiografia portuguesa recebe o nome de Vilafrancada. D. João VI então condecora seu filho com o posto de Generalíssimo58 do exército português, posto ocupado por D. Nuno, em 1338, na luta pela independência do Estado português frente à união pretendida por Castela, que acabou por consagrar o mestre de Avis. No ano seguinte, em 1824, as Cortes tentam se organizar novamente e conseguem restabelecer a Constituição de 1822 que havia sido suspensa em 1823, exigindo assim a cabeça do infante conspirador Miguel de Bragança, que é destituído do cargo de Generalíssimo do Reino e exilado de Portugal, indo viver em Viena.
56 Miguel Maria do Patrocínio João Carlos Francisco de Assis Xavier de Paula Pedro de Alcântara António Rafael Gabriel Joaquim José Gonzaga Evaristo de Bragança e Borbón, infante e rei de Portugal (1802‐ 1866). 57 Caso do casamento entre a rainha Maria I de Bragança com o seu tio Pedro de Bragança. 58 Atualização do posto de Condestável de Portugal.
Mas o rei não exila o seu filho por vontade própria, mas sim por este ter rompido com as leis vigentes no país, que não mais emana do soberano, mas sim das Cortes. O constitucionalismo põe fim ao absolutismo, esses eram os novos ventos revolucionários que tomaram a Europa no final do século XVIII e início do XIX.
Um pouco antes de morrer, em 1826, o rei D. João VI de Bragança nomeia uma junta governativa através do Conselho da Regência, sob a presidência de sua filha Isabel Maria de Bragança, que após a morte deste, tem que nomear um sucessor ao trono português, sendo que legalmente ambos os herdeiros varões encontram-se impossibilitados de assumir o trono português. Miguel de Bragança havia sido exilado por alta traição aos interesses do reino e Pedro de Bragança encontrava-se como Imperador do Brasil, nação emancipada de Portugal por este, sendo também considerado um ato de alta traição, além de ser soberano de um país estrangeiro. No entanto, a regência resolve por acatar o decreto real de D. João VI de 1824, que reconhecia em Pedro de Bragança o seu sucessor e herdeiro ao trono português, chamando este para ocupar o seu lugar em Portugal.
Pedro de Bragança, então, em 1826, faz aprovar uma nova Constituição em Portugal e renuncia ao trono português em favor de sua filha primogênita Maria da Glória de Bragança, que deveria se casar com seu tio Miguel de Bragança, que se encontrava exilado de Portugal em Viena, devendo regressar a Portugal, jurar a nova constituição e fidelidade à rainha, sua futura augusta esposa Maria da Glória de Bragança, de quem seria regente durante sua menoridade. Em carta ao irmão Pedro de Bragança afirma “deve se casar com Maria da Glória e convencer seu partido de que essa é a decisão correta. O destino de Portugal está em suas mãos” 59.
Neste momento, encontramos a primeira questão brasileira, pois pela primeira vez na história criou-se a possibilidade de duas descendências legítimas dos Bragança ocuparem dois tronos distintos, do Brasil e de Portugal. Cabendo ao Brasil a primogenitura varonil masculina, sendo sucessor de Pedro de Bragança seu único filho legítimo do sexo masculino60, Pedro d` Alcântara e Bragança, sendo herdeiro do trono brasileiro, e sua filha mais velha, Maria da Glória de Bragança, herdeira do trono português. 59 Fundação Biblioteca Nacional. Coleção Casa real Portuguesa. Carta de 02/05/1826. Localização: 64,02, 001 nº 014. 60 O casal Pedro e Leopoldina tiveram outros dois filhos homens, Miguel de Bragança (1820‐1820) e João Carlos de Bragança (1821‐1822), sendo que ambos faleceram prematuramente.
Em 1827, o imperador do Brasil acerta os detalhes do casamento entre o seu irmão, Miguel de Bragança, com sua filha, Maria da Glória de Bragança, rainha de Portugal, que contava com apenas 8 anos de idade, cabendo a regência de seu reino a seu tio e futuro esposo61, que governaria em seu nome.
Miguel de Bragança jura a nova carta constitucional de 1826 e assume a regência do reino, convoca as Cortes para que estas decidam sobre a questão da sucessão ao trono em Portugal, traindo assim sua sobrinha e esposa, a infanta portuguesa, princesa brasileira e duquesa do Porto, Maria da Glória de Bragança, e seu irmão, Pedro de Bragança, pai de Maria da Glória. Em junho de 1828, Miguel de Bragança é sagrado pelas Cortes portuguesas como Miguel I de Bragança, rei de Portugal, anulando assim a constituição de 1826.
O reconhecimento externo da legitimidade miguelista como chefe do estado português partiu do próprio Vaticano, seguido por Espanha e Estados Unidos da América. Sua mãe, Carlota Joaquina de Bourbon y Borbón, sua irmã mais velha, Maria Teresa de Bragança, e seu cunhado, Carlos Isidoro de Borbón, apoiavam-no como rei legítimo de Portugal; já nações como a Áustria, França e Inglaterra, com exceção da primeira, posicionaram-se em um primeiro momento como simpatizantes da causa miguelista, alterando sua postura, no entanto, posteriormente, defendendo o trono português como pertencente a Pedro de Bragança e, por consequência, a sua herdeira Maria da Glória. A infanta regente de Portugal Maria Isabel de Bragança era pedrista, assim como o imperador da Áustria, pai da finada imperatriz Leopoldina e avô da princesa Maria da Gloria, o poderoso Francisco I de Habsburgo, assim como o ramo dos Orléans na França que apoiaram a retomada do poder por parte de Pedro de Bragança.
Em 1831, Pedro renuncia ao trono brasileiro em favor de seu filho Pedro
d`Alcântara62, partindo com sua segunda esposa Amélia de Beauharnais, princesa de
Leuchtenberg, para a Europa, onde organiza exército de mercenários para depor Miguel. Nesse mesmo ano, inicia-se a guerra civil em Portugal, pois a população portuguesa encontrava-se dividida entre pedristas e miguelistas. A guerra civil portuguesa estendeu- se até 1834, vencendo o grupo pedrista, que obriga D. Miguel I a assinar uma carta de abdicação em favor de sua sobrinha, Maria da Glória, seguindo para o exílio63.
61 Graças à dispensa papal concedida em 26 de novembro de 1826. 62 Pedro e Alcântara e Bragança, futuro Pedro II (1825‐1891)
D. Miguel I, agora simplesmente Miguel de Bragança, exila-se na Alemanha. Em 1838, as Cortes portuguesas aprovam uma nova Constituição para o reino de Portugal, a qual estipula em seu capítulo III:
Art. 98 – “A linha colateral do ex-infante Dom Miguel de Bragança e todos os seus descendentes estão perpetuamente excluídos da sucessão em Portugal, sob pena de morte se regressar a Portugal”.
Em 5 de novembro de 1834, a agora rainha de Portugal casa-se com o irmão de sua madrasta64, o duque de Leuchtenberg, Augusto de Beauharnais65, filho de Eugênio
Beauharnais66, duque de Leuchtenberg (1781-1824), filho adotivo de Napoleão
Bonaparte, imperador da França e de sua primeira esposa Josefine Tascher de La Pagerie, sendo sua esposa Augusta de Wittelsbach67, princesa da Baviera (1788-1851). O duque de Leuchetenberg não chegou a ser rei de Portugal, pois devido à Constituição, só poderia assumir esse título após o nascimento de um príncipe herdeiro. No entanto, Augusto nunca chegaria a assumir esse título, pois viria a falecer prematuramente em 1835.
Neste sentido, o que ocorre é a escolha de Casa sem grandes vinculações com outros reinos que pudesse ascender ao trono português, defendendo os interesses deste. Sendo relevante considerar que a escolha de D. Pedro I recaiu sobre seu cunhado, e não um príncipe desconhecido e sem relações de parentesco com a Casa real.
Havendo a necessidade da obtenção de um herdeiro, a rainha Maria II deveria casar-se novamente, e efetua o seu terceiro matrimônio com o príncipe Fernando de
Saxe-Coburgo-Gotha68 (1819-1885), filho de Fernando de Saxe, príncipe de Saxe-
Coburgo-Gotha (1785-1851) e de sua esposa Maria Antonia de Kohary, princesa de Koháry (1797-1862). Finalmente, desta união nasceram os tão almejados e esperados infantes de Portugal, entre eles, em 1837, o infante Pedro69 Saxe-Coburgo e Bragança, dando início assim a uma nova Dinastia em Portugal.
64 Amélia de Beauharnais, princesa de Leuchtenebreg, Eichstadt, imperatriz consorte do Brasil, rainha consorte de Portugal e duquesa consorte de Bragança (1812‐1873)
65 Augusto Carlos Eugênio Napoleão de Beauharnais, duque de Leuchtenberg, príncipe de Eichstadt (1810‐1835)
66 Eugênio Rose de Beauharnais Bonaparte, príncipe da França, Vice‐Rei da Itália, príncipe de Veneza, grão duque de Frankfurt (durante o governo de Napoleão I), e posterior duque de Leuchtenberg e príncipe de Eichstätt.
67 Augusta Amélia Ludovica Georgia de Wittelsbach, princesa da Baviera, princesa de Eichstadt e duquesa de Leuchtenberg (1788‐1851).
68 Fernando Augusto Francisco Antonio de Saxe‐Coburgo‐Gotha, príncipe de Saxe‐Cobugo‐Gotha e rei consorte de Portugal (1819‐1885).
Esta questão torna-se relevante não apenas por evidenciar a disputa entre dois ramos da mesma Casa pelo poder real, mas sim, por ser resgatada e utilizada como objeto de legitimação de ambos os ramos pedrista e miguelista no século seguinte, em 1942, quando do casamento da princesa Francisca de Orléans e Bragança (pedrista) com o duque Duarte Nuno de Bragança (miguelista), contexto explorado no capítulo IV.
CAPITULO II
SAXE-ORLÉANS OU ORLÉANS-SAXE, HÁ DIFERENÇA?
Lançar um olhar mais apurado sobre as relações matrimoniais que foram tecidas no segundo reinado pela Casa imperial brasileira requer constantemente um trânsito constante entre passado, e aqui me refiro às relações esponsais tecidas no primeiro reino, e o período tratado majoritariamente neste capitulo, as tratativas para o casamento das princesas no segundo reinado. Importa, ainda, refletir sobre a condição da família imperial, naquele momento, na qual se observava a ausência de um herdeiro varão e, consequentemente, a continuidade dinasta era representada por uma mulher; bem como lançar um olhar para o futuro, no que tange à manutenção do poder e prestígio interno e externo da referida Casa dinástica.
As relações matrimoniais estabelecidas no primeiro reinado se dividem em dois momentos distintos, sendo o primeiro o estabelecimento de relações com a Casa de Bragança que imperava a partir da América1, causada por tumultos, que desde 1789 e, sobretudo, nas Guerras Napoleônicas assolavam a estabilidade monárquica e dinástica na Europa2. No entanto, permanecia a aposta no retorno e na retomada das possessões territoriais, tanto na Europa como na América, que eram o seu grande trunfo. Nesse cenário, são pautados não somente o casamento ocorrido em 1810 entre a infanta de Portugal e o infante de Espanha, bem como aquele de 1817, entre a Arquiduquesa da Áustria e o então Príncipe herdeiro do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, todos príncipes europeus. Porém, a Casa de Bragança estava na América, à qual os cônjuges se dirigiram para a realização dos casamentos, já que a sede do império português estava localizada na cidade do Rio de Janeiro.
Tal situação pode conte considerações relevantes, tais como a busca de manutenção de uma possível lógica sistêmica no estabelecimento de matrimônios dinásticos3, mesmo em tempos de adversidades revolucionárias e guerras.
1 Período no qual a América Portuguesa [Reino Unido Portugal, Brasil e Algarves] foi a sede do império português (1808‐1821).
2 Referência à queda contínua e gradual do Antigo Regime, e o advento de Monarquias Constitucionais ou Repúblicas.
3 As adversidades do período revolucionário não modificaram a “estrutura” intencional das alianças matrimoniais de modo direto, realizadas por Portugal uma vez que aí não se contraíram matrimônios legítimos [com a anuência da Igreja] fora do status de igualdade de nascimento, diferentemente do que ocorreu na Áustria, quando, em 1810, por aliança de não agressão entre França e Áustria, a arquiduquesa deste país Maria Luisa se casou com o então plebeu, general e líder francês Napoleão
A instalação da Casa de Bragança na América não impediu a realização de matrimônios com duas das principais dinastias europeias, isto é, com a prestigiosa Casa da Áustria, dos Habsburgo, e com a parceira histórica da Casa Real portuguesa de longa
data, a Casa da Espanha, dos Borbón4. No entanto, embora as cerimônias tenham se
realizado em solo americano, os noivos eram europeus e representantes de estados europeus, sendo coroada a aliança entre Portugal com Áustria e Espanha, ficando o Brasil apenas na condição de cenário e não de um Estado a ser representado, mesmo porque este só viria a se constituir, de fato, em 1822. Apesar desse fator, torna-se relevante articular tais matrimônios ao chamado Primeiro Reinado. Por um lado, no plano teórico, por eles terem endossado o apoio europeu à independência do Brasil, que se manteria sob a égide monárquica em meio ao cenário revolucionário e do despontar de repúblicas na América, como explica o historiador István Jancsó5. Afinal, o novo império que surgia derivava de uma Casa dinasta europeia, os Bragança, que se uniam em matrimônio com os Habsburgo.
Por outro lado, no plano prático e legislativo, o acordo de paz e de reconhecimento da independência do Brasil por parte de Portugal, que fora intermediado pela Inglaterra, reconheceu como primeiro Imperador do Brasil Sua Majestade Real e (agora) Imperial D. João de Bragança, o que tornaria, no plano teórico hipotético, sua esposa Carlota Joaquina de Borbón, Imperatriz do Brasil, e os filhos dessa união seriam príncipes brasileiros. Na prática, contudo, tal fato é ignorado por inúmeros motivos, dentre os quais se observam a ausência de uma burocracia e o reduzido prestígio do império que surgia na América em relação ao secular e estável reino de Portugal, uma vez que o primeiro imperador, D. João ‘VI’, renunciara em favor de Pedro, coroado D. Pedro I do Brasil.
O segundo momento matrimonial do Primeiro Reinado, oposto ao primeiro, impingia ao cônjuge não apenas o caráter de união a um representante nobiliárquico do Brasil e, portanto, de um império fora da Europa, embora com lastro europeu, mas, Bonaparte, distante do estado de igualdade de nascimento em relação à arquiduquesa, assim como ocorreu em outras Casas. 4 Importante resgatar considerações do capitulo I, no qual ressalto que as alianças matrimoniais no caso português eram feitas de acordo com os interesses do Estado, e não da família real que estivesse ocupando a sua chefia, pouco importando se a Espanha estava sendo dirigida pela família Habsburgo ou Bourbon. O importante era manter uma proximidade com esta nação, ou se aliar a outras nações que a auxiliassem na manutenção da soberania nacional portuguesa.
5 JANCSÓ, István; MACHADO, André Roberto. Tempos de Reforma, tempos de Revolução. In: KANN, Betinna; LIMA, Patricia Souza. D. Leopoldina, Cartas de uma Imperatriz. São Paulo: Ed. Estação Liberdade, 2006.
sobretudo, a residência nos trópicos6, em território distante das cortes europeias e diante da população americana. Desse modo se deu a realização dos contratos matrimoniais com a Baviera7, França8 e Duas-Sicilias9, sendo a primeira uma breve fuga ao padrão das relações matrimoniais que vinham sendo tecidas pelos Bragança, em razão de