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1. KAMU YÖNETİMİNDEKİ DEĞİŞİM VE DEĞİŞEN DENETİM PARADİGMASI

1.2. Denetim Kavramı ve İç Denetim

1.2.2. Denetim Türleri

1.2.2.2. Denetçilerin Kurumla İlişkisine Göre Denetim Türleri

Antes de discutirmos o processo que culminou na cassação de Mauro Borges, após o golpe de 64, há que expor os motivos que nos levam a apresentar este momento importante da recente história goiana. Trata-se de um período crucial para a classe dominante, em que esta se sentiu ameaçada pela proposta de reforma agrária presente nas diretrizes do primeiro governo originado pelo golpe, aliada ao descontentamento da oposição goiana referente ao papel que o governador, sendo do PSD, teve como “chefe da Revolução em Goiás”.

Como se sabe, o processo de industrialização brasileiro foi forjado sobre a renda do setor agrário, sem que, contudo, tivesse ocorrido uma mudança significativa na capacidade deste setor de aumentar a produção – muito menos transformações no perfil fundiário.

Em Goiás, a expansão da produção ocorreu sobre novas áreas, sem incorporação de tecnologia, permitindo, dessa forma, a manutenção da reprodução da força de trabalho no campo com custos muito baixos. Por conseqüência, o custo da reprodução da força de trabalho urbana também ficava baixo. A complementaridade da economia goiana permitiu que não houvesse conflitos com a burguesia industrial em nível nacional, não havendo problemas hegemônicos entre estas frações do bloco no poder.

O golpe de 64 originou-se de uma crise de hegemonia longamente gestada, deflagrada pela intensificação da prática populista. Os dois maiores partidos, PSD e UDN, representantes das classes dominantes, sentiram seus interesses ameaçados e se uniram contra o presidente Goulart, que radicalizou o populismo. Instalou-se, assim, uma crise de hegemonia.

Mauro Borges participou ativamente e desde o princípio da “cadeia pela legalidade”, a qual buscava uma solução constitucional para a posse de João Goulart. Defendia, então, o respeito à Constituição (conforme esta estabelecia, em caso de vacância da Presidência quem deveria assumir o cargo de presidente era o vice). Seu governo, da mesma forma que o de João Goulart, era populista. Tinha recebido apoio das classes subalternas do campo e de boa parte da baixa classe média – como já vimos, houve um acordo entre Mauro Borges e o PCB.

A reforma agrária estava contida em seu plano de governo e deveria ocorrer pelo povoamento de terras devolutas no Norte do Estado, com colônias sob a direção estatal. A reforma agrária pretendida no plano de governo, ligeiramente inspirada nas experiências israelenses dos kibutzin, não afetaria em nada a concentração fundiária goiana, para não ir contra os interesses da burguesia e dos latifundiários.

O interesse dos militares por Goiás se deveu mais a uma estratégia geopolítica do que à importância econômica do Estado. A proximidade com Brasília, o fato de ser rota de acesso à Amazônia e de ter à testa um governador que conseguiu projeção nacional com o apoio que conferiu à posse de João Goulart foram fatores estratégicos para o grupo militar da “linha-dura” ir à conquista do predomínio no Estado.

Já antes do golpe existia uma relação de políticos goianos com o complexo Ipes/Ibad, especificamente de Emival Caiado e Alfredo Nasser, que foram citados por Dreyfuss como pertencentes ao Ipes (1981, p. 359). Ainda mais: os deputados Anísio Rocha (PSD), Benedito Vaz (PSD) e Emival Caiado eram bastante ativos no Congresso Nacional, dentro do bloco Ação Democrática Parlamentar (ADP), que repercutia no Congresso as propostas do complexo Ipes/Ibad.

No tocante ao Ibad, este se fez presente no financiamento de vários políticos no pleito de 1962. Não interessava o partido, mas a filiação e afinação ideológica do candidato com a direita. Dessa forma, foram contempladas as candidaturas de Castro Costa e Anísio Rocha, do PSD; José Luiz Bittencourt, Hermano Vieira da Silva, Benedito Vaz e Emival Caiado, da UDN, e Alfredo Nasser, do PSP.

O Ibad não atuou somente no financiamento de campanhas eleitorais: patrocinava programas na Rádio Difusora de Goiânia, apresentados pela Igreja Católica, representada pelos padres redentoristas.

A rádio era dirigida pelo padre Nelson Antonino, um ativista conservador, organizador da Liga Eleitoral Católica que filtrou, em 1962, os nomes dos candidatos de diversos partidos aprovados e recomendados pela Igreja. Padre Antonino comandou também uma caravana a Brasília contra a indicação de Santiago Dantas a primeiro-ministro no Gabinete parlamentarista de Jango. (SOUZA, 1990, p. 60)

A Igreja Católica tentava também controlar os movimentos de sindicalização rural em Goiás. A Arquidiocese de Goiânia patrocinou a criação, em 1959, da Frente Agrária Democrática Goiana (Fago), a exemplo do que ocorria em outros Estados: no Rio Grande do Sul, a Farg; em São Paulo, a FAP; em Pernambuco, o Sorpe, entre outros.

As relações de Mauro Borges com João Goulart eram, no início, de cooperação. No plano nacional, a coligação para a eleição do presidente uniu

PSD/PTB, mas não foi esta, unicamente, a razão das boas relações: a participação de Borges no movimento encabeçado por Leonel Brizola, em 1961, na defesa da posse de João Goulart era outro motivo importante para o apoio de Goiás no início do mandato presidencial.

O plano de governo de Mauro Borges previa um aumento de arrecadação, através de uma fiscalização mais rigorosa e da criação de mais taxas. Isto, porém, não aconteceu, ficando Goiás muito dependente dos repasses de recursos federais. De fato, com a persistente pressão dos proprietários de terras para o rompimento do acordo com o PTB, em 1963 o governo federal bloqueou o repasse de verbas para o Estado.

Por outro lado, Goiás contou, nesse período, com uma importante fonte de recursos: o programa norte-americano Aliança para o Progresso. O coordenador da Aliança era o ex-presidente JK, que ocupava uma cadeira de senador pelo Estado, que, a partir de 1963, passou a ser agraciado com recursos deste Programa. Apesar de os recursos destinados ao Brasil serem de pequena monta, eles representaram uma importante fonte para Goiás.

Mauro Borges, então na oposição ao governo federal, integrou-se ao esquema conspiratório, apesar de ter lutado contra a resistência dos militares à posse de João Goulart. Em 31 de março, dia do golpe, lançou um manifesto de apoio:

temos que dizer ao Sr. Presidente da República que nós, goianos, e os brasileiros aqui residentes, que pegamos em armas para a defesa dos seus direitos em agosto de 1961, as empunharemos outra vez para que ele não faça deste grande país uma “Casa Grande” onde ele quer ser o patrão (BORGES, 1965, p. 193).

Este manifesto representou o apoio institucional civil de Mauro Borges ao golpe, sendo seguido de outros tipos de colaboração. Assim, em 2 de abril, quando

Moura Andrade declarou a vacância do cargo de presidente da República em uma tumultuada sessão no Congresso, uma grande multidão se aglomerou na Praça dos Três Poderes. Segundo relato de Silva (1975), receando que a multidão invadisse o prédio onde os congressistas consumavam o golpe, Moura Andrade pediu a Mauro Borges o envio de armas ao local, e este as remeteu.

Outro episódio que mostra a participação de Mauro Borges no golpe de 64 foi quando o então coronel Meira Matos, receando a possível fidelidade a João Goulart do 10° Batalhão de Caçadores, sediado em Goiânia, telegrafou ao governador pedindo seu apoio. O próprio Mauro Borges registra em seu livro que, para ajudar o coronel Meira Matos a conduzir uma coluna de soldados que haviam partido de Jataí com destino a Brasília, mandou buscar “armas e munições às nossas operações revolucionárias” em São Paulo (BORGES, 1965, p. 135). As armas e munições trazidas de São Paulo seriam entregues a uma organização paramilitar – a Frente Agrária Democrática Goiana, composta por fazendeiros, cujo objetivo inicial era o de combater os movimentos camponeses em Goiás.

Estavam unidas situação e oposição no Estado de Goiás para atividades de apoio ao golpe de 64. “A classe dominante em Goiás apaga de fato as divergências que mantinha até então” (SOUZA, 1990, p. 66).

O apoio ao golpe deixou Mauro Borges momentaneamente livre de ataques por parte de seus opositores. Porém, a situação começaria a mudar com o inconformismo da UDN em desempenhar um papel de coadjuvante do governador, que assumiu a direção das “forças revolucionárias” no Estado.

No plano nacional, em 7 de abril foi sancionada a lei que determinava que as eleições presidenciais ocorreriam de forma indireta. Os governadores que apoiaram o golpe foram chamados para uma reunião no Rio de Janeiro, objetivando

referendar a candidatura do marechal Castelo Branco16 e convencer o general Costa e Silva de que esta tinha o apoio civil.

A UDN e o PSD, este sob a liderança de Juscelino Kubitschek, apóiam Castelo. Costa e Silva, num primeiro momento, resiste à indicação feita pelos governadores Magalhães Pinto, Ademar de Barros, Nei Braga, Mauro Borges e Carlos Lacerda, liderados por este último. Argumenta ser necessário promover, primeiro, os expurgos exigidos pelo processo revolucionário e aguardar o prazo constitucional para a eleição indireta (SOUZA, 1990, p. 69).

De volta a Goiás, Mauro Borges instalou a Comissão Geral de Investigações com componentes dos setores conservadores. Não obstante tal providência, o governo militar agia diretamente na repressão, pela atividade do coronel Souza Jr., comandante do 10° BC, que, por sua vez, recebia ordens diretamente do general Souza Aguiar, sem passar pela Comissão.

Embora a conduta do governador goiano como “chefe da revolução em Goiás” tenha deixado inconformada a UDN, esta se encontrava em uma situação incômoda frente aos militares, já que, antes do golpe, havia ensaiado uma aproximação com o PTB, na tentativa de viabilizar a administração do prefeito de Goiânia, Hélio Seixo de Brito.

Houve um racha em seu próprio seio: o chefe udenista, Jales Machado, opôs- se à candidatura de Emival Caiado à sucessão governamental de 1965 e este procurou apoio na UDN nacional, em Carlos Lacerda, que já tinha se apresentado como candidato a presidente. O grupo de apoio à candidatura de Emival Caiado tentaria demover o presidente Castelo Branco de apoiar o governador de Goiás. O fracasso o levou a buscar o apadrinhamento de Costa e Silva e a se prestar ao jogo de poder que foi travado no interior do bloco militar.

A oposição ao governador (UDN) tentava demonstrar ao presidente Castelo Branco que o passado de Mauro Borges não condizia com a “Revolução”; no passado, o marechal Castelo Branco havia assinado manifesto contra Getúlio Vargas, enquanto Mauro Borges e Pedro Ludovico eram getulistas. Além disso, Castelo Branco apoiou Juarez Távora, enquanto Borges e Ludovico apoiaram Juscelino; estes apoiaram Lott e Castello Branco, Jânio Quadros.

Com a intenção de mostrar que o governador não era “revolucionário”, foram ao encontro do presidente Olinto Meirelles, Manoel Mendonça, Ary Valadão, Olimpio Jayme, Thirso Correa Rosa e Emival Caiado. Entretanto, Castelo Branco não aceitou os argumentos, dizendo que conhecia Mauro Borges de longa data e este tinha sido, inclusive, seu aluno na ESG.

Como solução de compromisso, sugeriu-se que um oficial acompanhasse a crise de perto, tarefa para a qual o escolhido foi o coronel Danilo Darcy de Sá da Cunha Mello. Na verdade, a indicação deste coronel vinha ao encontro com os interesses udenistas, já que se tratava de um “linha-dura”. Quando o coronel chegou a Goiânia, a UDN já estava se articulando com esta corrente do bloco militar.

Nesse ínterim, foi editado o Ato Institucional que permitia a cassação de prefeitos e deputados. Em todo o país, os detentores do poder se utilizaram deste instrumento para perseguir adversários políticos. Mauro Borges dele se valeu para cassar o mandato do deputado Olinto Meirelles, o mesmo que havia tentado indispor o presidente contra ele.

No mês de maio de 1964, o general Luiz Carneiro de Castro e Silva chegou a Goiânia para chefiar as investigações da Comissão Geral que aplicava o Ato Institucional. O general era da “linha-dura” e tinha relacionamentos com a UDN. Ao final das investigações, pressionou o governador a renunciar ou demitir todo o

Secretariado e montar outro, composto pelos partidos políticos que apoiaram a “Revolução”. O governador foi salvo pelo bom relacionamento que tinha com o presidente. Novamente, estavam por trás de acusações Alfredo Nasser, Sidney Ferreira, Ary Valadão e Emival Caiado. A UDN e as oposições, não conseguindo fazer que o presidente Castelo Branco depusesse Mauro Borges, passaram ao “plano B”: cortejar abertamente a “linha-dura” do movimento militar.

O ambiente na esfera militar era de divisão sobre várias questões: o incentivo ao capital estrangeiro feito pelo governo de Castelo Branco era contestado por grupos militares que não aceitavam a internacionalização da economia; a prorrogação do mandato presidencial (rejeitada pelo próprio presidente) era defendida pela “linha-dura”, uma vez que significaria a permanência de Castelo; rejeitava diversos nomes nas eleições para governador, em 1965, o que obrigou Castelo Branco a fazer restrições na legislação eleitoral.

Aliada a estas questões existia, ainda, um conflito interno na UDN: Magalhães Pinto e Carlos Lacerda disputavam a preferência para sair como candidato à Presidência da República. Este último se isolou da cúpula nacional da UDN e aliou- se à “linha-dura”, retirando o apoio de grande parte do partido a Castelo Branco.

Como vimos, a oposição em Goiás conseguiu trocar o responsável pelos IPMs, coronel Avany Arroxelas, por um militar da “linha-dura”, indicado pelo ministro da Guerra, general Costa e Silva, o coronel Danilo Darcy de Sá da Cunha Mello. O regime militar instaurou IPMs em vários municípios goianos17. As razões para a investigação variavam, indo desde o movimento camponês até desavenças entre facções políticas locais.

17 Os municípios goianos que tiveram IPMs foram: Goiânia, Anápolis, Formosa, Planaltina, Goianésia, Itauçu, Itaberaí, Goiás, Palmelo, Ipameri, Goiânia, Catalão, Cumari, Ceres, Porto Nacional, Araguatins, Tocantinópolis, Filadélfia, Gurupi e Xambioá.

A oposição desencadeou uma série de ataques contra Mauro Borges. Os principais críticos eram Alfredo Nasser, Hélio de Brito (prefeito de Goiânia), Ary Valadão (mais tarde, governador de Goiás), José Fleury, Emival Caiado, Olympio Jaime, Elias Bufaiçal, Camargo Júnior, Heli Mesquita e Sidney Ferreira. Os ataques contra o governador eram dos mais variados tipos. Abrangiam desde um provável beneficiamento de parentes na compra de terras devolutas, passando por envolvimento com comunistas e o movimento camponês, até o contrabando de minerais estratégicos para países comunistas.

O coronel Danilo Cunha Mello concluiu os inquéritos e indiciou Mauro Borges, repassando os autos diretamente ao general Riograndino Kruel, que tentou transferir o processo para a Justiça Militar. O governador impetrou um habeas corpus junto ao Supremo Tribunal Federal, que o concedeu e determinou a sustação de qualquer julgamento do governador pela Justiça Militar.

As pressões para a deposição do governador aumentaram. Organismos conservadores que apoiavam o movimento militar nacionalmente começaram a atuar em Goiás.

As organizações da sociedade civil, que haviam atuado nos Estados de São Paulo, Minas Gerais e Pernambuco, na preparação da opinião pública para o golpe, deslocam-se nesse momento para Goiás. Goiânia recebe a visita da diretora social da “Associação das Mulheres Orando pelo Bem do Brasil”. A Esso do Brasil promove, no Hotel Bandeirantes, um “curso de liderança”. A “União Cívica Feminina de São Paulo” se propõe a implantar núcleo em Goiás. (SOUZA, 1990, p. 96)

O coronel Danilo Darcy de Sá da Cunha Mello, como forma de pressionar o presidente Castelo Branco, divulgou, no dia 23 de novembro, às 15 horas, uma nota à imprensa em que atacava duramente Mauro Borges, chamando-o de comunista e alertando para o perigo que este representava para a “revolução”, à qual trairia. No mesmo dia Castelo Branco cedeu à “linha-dura” e divulgou nota, às 17h30min, na

qual manifestava seu desejo de acatar as decisões judiciais, mas dizia que esta tarefa se tornava difícil em face do acúmulo de provas contra o governador, em seu propósito de transformar Goiás num foco permanente de agitação. O caminho estava aberto para a intervenção.

Souza (1990) viu a deposição de Mauro Borges do governo estadual como um desdobramento do embate entre a “linha-dura” militar e a hegemonia do grupo de militares da Escola Superior de Guerra (ESG). Para a autora, a deposição e a intervenção em Goiás foram decisivas para a afirmação da “linha-dura”. Consistiam não apenas derrotar as intenções legalistas de Castelo Branco como também em antecipar a disputa pela sucessão presidencial e colaborar para o endurecimento do regime. Neste processo, a “linha-dura” dos militares teve o apoio da classe fundiária, que se via ameaçada pelo Estatuto da Terra de Castelo Branco de forma semelhante à que sentiu anteriormente em face da proposta de reforma agrária de João Goulart. Além disso, a proposta de política agrícola a ser implementada não atendia a seus interesses.

As pressões da “linha-dura” iam além da derrubada de Mauro Borges: pleiteavam a reforma do Judiciário, eleição indireta para presidente da República, transferência dos processos políticos para o âmbito da Justiça Militar etc. Naquele momento, para satisfazer a “linha-dura”, Castelo Branco entregou o governador de Goiás.

No dia 26 de novembro, o Decreto de Intervenção foi publicado no Diário

Oficial. Mauro Borges ensaiou uma resistência, que se mostrou impossível, pois não

teve apoio de outros governadores e até mesmo seu partido, o PSD, aprovou a intervenção no Congresso Nacional. Somente em 7 de janeiro de 1965 é que a Assembléia Legislativa de Goiás, em sessão extraordinária, declarou a vacância do

cargo de governador e determinou o arquivamento dos processos contra Mauro Borges.O interventor em Goiás foi o marechal Emílio Rodrigues Ribas Júnior, que dividiu os cargos da administração entre os partidos; todos, situação e oposição, tinham cargos: um terço para UDN/PSP/PTB/PDC, um terço para o PSD e um terço à livre escolha do governador. A classe dominante estava toda junta.

CAPÍTULO IV – UMA NOVA ETAPA DO

DESENVOLVIMENTO CAPITALISTA EM GOIÁS: SEMPRE À

DIREITA - (A “MODERNIZAÇÃO CONSERVADORA”)

Em Goiás o crescimento da urbanização e da industrialização se superpôs a uma estrutura agrária essencialmente concentrada e desigual. Foi sobre este quadro que se implantou uma rápida dinâmica de transformação rural, ocorrida durante o período da ditadura militar, principalmente entre as décadas de 60 e 80. Sua maior expressão foi o desenvolvimento de complexos agroindustriais (CAI) fundados na mecanização agrícola, na irrigação e no uso crescente de insumos agrícolas.

Esta dinâmica foi conseqüência de dois fatores que, conjugados, aceleraram o desenvolvimento capitalista da agricultura brasileira e, particularmente, a goiana: o econômico e o político. O fator econômico advinha da necessidade do país de ampliar suas exportações, substituindo os produtos agrícolas tradicionais (café, algodão, borracha etc.) por outras mercadorias, destinadas às novas demandas do mercado internacional. O outro fator – o político – visava a frear as reivindicações pela reforma agrária, o que aliava indiretamente interesses da fração latifundiária da classe dominante aos negócios da burguesia urbano-industrial (que não desejava um precedente de conflitos contra um setor das classes dominantes).

Estas duas motivações, grosso modo, forjaram o desenvolvimento capitalista da agricultura nacional, afetando diretamente o Estado de Goiás. As classes dominantes teriam de superar a estagnação técnico-econômica que existia no setor agrário sem, contudo, confrontar os interesses das oligarquias agrárias.

Estava em marcha o que ficou caracterizado como “modernização conservadora” da agricultura brasileira. Este será o foco deste capítulo: buscaremos mostrar as políticas públicas que promoveram as mudanças na agricultura goiana. Investigaremos os elementos de continuidade que contribuíram para a preservação/recomposição da dominação de classe diante das novas relações sociais de produção.