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2.1 Primeiras aparições

O conceito de identificação, que ocupa um lugar fundamental em diversos momentos da obra de Freud e tem até hoje uma grande importância na teoria psicanalítica, surgiu já nas cartas que enviava ao seu amigo e confidente Wilhelm Fliess, cujo lugar de interlocutor privilegiado permitiu a Freud elaborar seus pensamentos, construir e reconstruir suas teorias, bem como avançar e retroceder várias vezes em seu processo de criação.

O termo identificação é, pela primeira vez, explicitamente utilizado por Freud em 2 de maio de 1897, na Carta 61, para referir-se ao que ocorria entre as mulheres, analisadas por Freud, e suas empregadas, quando as primeiras acusavam as últimas de possuírem um baixo padrão moral. Tais acusações, segundo Freud, eram substitutivas dos sentimentos de culpa e de autocensura que afligiam essas mulheres por se sentirem identificadas com suas empregadas, as quais realizavam os desejos sexuais que elas reprimiam em função da moral sexual vigente.

É também em outra carta, enviada a Fliess (a Carta 69), em 21 de setembro de 1897, que Freud trata de um dos momentos mais cruciais de constituição do alicerce da Psicanálise. Nessa carta, ele diz ter abandonado sua “Teoria da Sedução”, tomada, até então, como um evento real ocorrido na infância dos neuróticos e vivido como traumático por ocasião da puberdade. Afirmava, então, não crer mais em sua teoria, pois diante de sua autoanálise e da clínica não mais se sustentava a hipótese de uma sedução real ocorrida consigo e com todos os seus pacientes como fator desencadeante

das neuroses. A reformulação dessa hipótese o levou a postular o conceito de fantasia e a atribuir à sedução o estatuto de cena do inconsciente. Essa virada no pensamento freudiano, que se desprende cada vez mais da realidade em direção à cena psíquica, leva-o a iniciar suas reflexões sobre a identificação, que passará, progressivamente, a ocupar um lugar central na sua teoria.

Neves (2007), ao falar da centralidade assumida pelo conceito de identificação no decorrer da obra de Freud, afirma que esse conceito, ao se articular a um dos eixos centrais da teoria freudiana: o complexo de Édipo e a escolha sexual desse decorrente, passa a revelar-se como um processo múltiplo com função primordial na fundação do aparato psíquico e na constituição do eu.

A autora afirma, ainda, que o lugar de centralidade ocupado por esse conceito na teoria freudiana teve sua origem no entrelaçamento desse processo com a realização dos desejos, tanto pela via dos sintomas quanto por intermédio dos sonhos e das fantasias. Alcançou um momento importante quando Freud tratou da fundação do social e do tema do narcisismo e passou a ter um estatuto metapsicológico destacado após as transformações teóricas introduzidas a partir do segundo dualismo pulsional e da nova cartografia do psiquismo apresentada na segunda tópica. É, pois, do entrelaçamento inicial do conceito de Identificação com a formação do sonho e do sintoma, bem como da sua evolução posterior na teoria freudiana que iremos tratar nos próximos tópicos.

2.2 Identificação e suas relações com a formação do sonho e do sintoma

A primeira forma de identificação descrita por Freud, a identificação histérica, será inicialmente tratada na obra inaugural da Psicanálise, A Interpretação dos Sonhos (1900/1987). Nessa, o conceito de inconsciente e o funcionamento do psiquismo humano são elaborados a partir do estudo da produção onírica. Segundo Neves (2007),

a partir do estudo do sonho, Freud criará uma nova abordagem para a compreensão das neuroses em que a repressão atuará como um processo de deformação dos desejos, tanto nos sonhos quanto nos sintomas.

É, ainda, nessa obra e a partir de um fragmento clínico: O sonho da bela açougueira (Freud, 1900/1987), que o conceito de identificação começa a receber um tratamento teórico mais específico. Nesse fragmento clínico, Freud utiliza o sonho de

uma de suas pacientes para exemplificar a atuação da identificação na deformação onírica.

Exposto de uma forma simplificada, o sonho traz o desejo da paciente de dar uma reunião em que fosse servida uma ceia. Contudo, isso se torna impossível, pois ela não tem nada em casa, a não ser salmão defumado. Além disso, é domingo e não existem lugares abertos onde se possa comprar alguma coisa; de modo que o seu desejo de dar uma recepção é abandonado.

Esse sonho, que aparentemente contrariava a tese de Freud de que a produção onírica traz em si a realização de um desejo inconsciente, acaba confirmando-a, após uma análise minuciosa de suas partes e das associações produzidas pela paciente acerca das mesmas. Para ele, a bela açougueira, privada em seu sonho do que mais gosta, o caviar, identifica-se com a privação de uma amiga, que antes se mostrou desejosa de ser convidada para uma ceia em sua casa, de sua comida predileta, salmão. Essa amiga tinha sido anteriormente elogiada pelo marido da bela açougueira, de modo que, no sonho, esta, segundo Freud, acaba impossibilitando a realização do desejo da amiga, de comer salmão na sua casa, sonhando não com a renúncia do desejo desta, mas com a renúncia do seu, de comer um sanduíche de caviar. Essas interpretações levam Freud a enunciar que a bela açougueira colocara-se no lugar da amiga por se identificar com ela na privação de seu desejo em relação à sua comida predileta. Por outro lado, ela assim o

fazia porque queria, no sonho, colocar-se no lugar da amiga em relação ao desejo do marido.

A partir da análise desse sonho, Freud (1900/1987) afirma que a identificação apresenta-se como um processo comum ao sonho e ao sintoma histérico por permitir que o desejo seja realizado, mesmo que de uma forma velada. Ele também postula a existência de um elemento sexual que se faz presente tanto nos sonhos quanto nas fantasias histéricas, o qual dá origem ao processo de identificação.

As articulações de Freud da noção de identificação com a formação do sintoma ganham ainda mais força a partir da publicação do seu texto Fragmento de um caso de Histeria, em 1905, no qual ele apresenta suas ideias acerca da formação da histeria, a partir da análise do caso Dora.

Dora era uma moça de 18 anos que foi encaminhada a Freud por seu pai. Ela vivia com ele, sua mãe e seu irmão, tendo sido sempre muito próxima ao pai. Ele teve em sua vida muitas enfermidades, e Dora sempre se responsabilizou por seus cuidados. A maturidade de Dora foi também responsável por aproximá-los desde cedo, já que o pai encontrou nela uma agradável companheira e confidente. A relação entre seus pais, vale ressaltar, não era muito boa, sendo os dois bastante distantes.

Quando Dora tinha seis anos, a família mudou-se para outra cidade. Lá, Dora e sua família fizeram amizade com o casal: o Sr. e a Sra. K. O pai de Dora se aproximou bastante da Sra. K., que muitas vezes cuidava dele quando sua saúde piorava. A princípio, Dora tinha também grande afeição por ela, mas depois de certo tempo, passou a não mais suportá-la, afirmando que ela e seu pai tinham um caso amoroso. A moça, inicialmente, tinha uma boa relação também com o Sr. K, mas, aos 16 anos, acusou-o de lhe fazer uma proposta amorosa, passando, desde então, a evitá-lo.

Quanto à saúde de Dora, ela já apresentava, desde a infância, sintomas histéricos. Com sete anos, apareceu o primeiro sintoma conversivo, enurese norturna, passando, ao longo dos anos, por dispneia, tosse nervosa, afonia, enxaquecas, depressão, ideias suicidas e insociabilidade histérica.

Uma das interpretações de Freud a respeito desse caso de histeria baseia-se principalmente na relação entre Dora, seu pai e a Sra. K. Dora, em sua infância, teria se apaixonado por seu pai, acontecimento bastante comum nas crianças, mas teria recalcado tal lembrança, tornando-a inconsciente, de forma a proteger seu próprio eu. Esses sentimentos e lembranças ficaram adormecidos por algum tempo, mas alguns

fatos foram responsáveis por trazer esse material à tona, embora nunca de forma explícita.

Os sintomas histéricos que Dora desenvolveu, segundo Freud, estavam relacionados à sua identificação com o pai e com o lugar dele como sujeito desejante, tendo em vista seu relacionamento amoroso com a Sra. K. Entretanto, também ela ocupava o lugar de objeto de desejo, quando se identificava com a Sra. K., uma vez que essa, na sua percepção, tinha o amor de seu pai, assim como ela própria havia um dia desejado ter.

A identificação com a Sra. K. possibilitou, inicialmente, que Dora cultivasse a amizade entre as duas, mesmo desconfiando da relação entre ela e seu pai. Em um segundo momento, entretanto, a moça deixou de aceitar a sua amizade, passando a odiar a Sra. K, por ter roubado seu lugar, e a acusar seu pai de trair a sua mãe. Essa mudança ocorre justamente quando as lembranças recalcadas voltam com mais força, provavelmente, pelo sentimento que ela começou a nutrir pelo Sr. K.

O afeto de amizade que Dora tinha pelo Sr. K., depois de algum tempo de convivência, acabou se traduzindo em um apaixonamento, que ela tentou a todo custo

evitar. Tal fato acabou trazendo à tona o amor pelo pai, que havia sido recalcado na infância. Quando o Sr. K. mostrou seu interesse por ela, Dora passou a evitar o relacionamento entre os dois, deixando também de aceitar o relacionamento do pai com a Sra. K.

Os sintomas apresentados por Dora, como a tosse de que ela tanto se queixava no início do seu tratamento, foram interpretados por Freud como estando relacionados com o recalque dessa fantasia de amor em relação ao pai. Dora acreditava, por certas razões, que a relação sexual existente entre seu pai e a Sra. K era basicamente oral. Dada a paixão inconsciente por seu pai, ela identificava-se com a amante dele, desejando estar em seu lugar.

Sua tosse foi interpretada por Freud como a forma pela qual essa fantasia do sexo oral se converteu em um sintoma. Ao mesmo tempo, esse sintoma também representava uma identificação ao pai, era o desejo de entender por que o pai se sentia atraído pela amante, por que era ela seu objeto de desejo. O sintoma também foi interpretado como uma identificação ao pai, uma vez que ele teve tuberculose quando Dora tinha seis anos.

Freud relata, ainda, que Dora identificava-se com a sua mãe, a qual apresentava dores abdominais e um catarro vaginal, sintomas dos quais ela também se queixava. O pai de Dora aparecia, nas suas associações, como o responsável pelos sintomas de ambas, dela e da mãe.

Analisando os sintomas de Dora à luz das observações de Freud (1905a/1987) acerca da identificação histérica, Neves (2007) assinala que tais sintomas presentificam uma complexa trama identificatória, que envolve seus familiares e as pessoas a eles ligados, evidenciando uma situação edípica que é então reatualizada nas identificações de Dora com o casal K.

Ainda de acordo com a autora, o caso Dora exemplifica bem como os conflitos psíquicos recalcados traduzem-se, de forma simbolizada, em sintomas corporais, nos casos de histeria de conversão. Em consonância com Freud (1905a/1987), ela afirma que isso se dá porque o sintoma histérico representa a realização de uma fantasia de conteúdo sexual que foi mantida fora da consciência pela ação do recalcamento. Afirma, também, que a identificação histérica está em conformidade com a lógica do sonho e do sintoma, pois exprime desejos sexuais infantis recalcados, que são atualizados em personagens fantasmáticos por meio de uma distorção decorrente da identificação do(a) histérico(a) com traços isolados de um ou vários personagens da sua história pessoal.

Florence (1994), ao se referir às distorções, observadas nos sintomas e sonhos, decorrentes dos processos de identificação, assinala que tais processos são “vias que subvertem as avenidas do eu e tornam este último problemático” (p. 118). Em função disso, a identificação neurótica (incluindo-se aí a identificação histérica) acaba por apresentar, segundo ele, uma estrutura de certo modo romanesca, dado o conjunto de personagens envolvidos no jogo de relações que se estabelece nesses processos e o desejo sexual que subjaz à ação dos seus personagens. Nas palavras do autor:

A identificação neurótica é uma identificação romanesca, ela é um modo de pensar inconsciente que modifica o eu. O eu sofre os efeitos do desejo sexual que as pessoas que agem no romance histérico representam. Essa linguagem situa, de início, o eu como uma cena em que opera uma pantomima determinada alhures, em Outra cena. O desejo sexual é o agente, o ator, o sujeito ativo das cenas que metamorfoseiam o eu. (...) O eu se estilhaça, fica maleável e sujeito à corvéia, à paixão do outro, do múltiplo, da libido inconsciente – marionete de um drama cujos verdadeiros motivos não se pode chegar a adivinhar a não ser seguindo

o jogo das identificações. Estas conduzem a um ‘romance’ representativo das pulsões e das defesas inconscientes. Jogo duplo que autoriza o romanesco, jogo dramático, uma vez que o desejo se põe em cena, difratado em uma série de personagens de empréstimo, de aspectos contraditórios. (p. 119)

Depreende-se, pois, a partir da relação da neurose histérica com a estrutura do sonho e do sintoma, o caráter diversificado e contraditório da identificação, na medida em que essa possibilita a realização simultânea de desejos ambivalentes, que, na histeria, atualizam-se em personagens fantasmáticos cuja relação com a trama edípica da infância é evidente.

Aqui, cabe fazermos um retorno ao fragmento do caso Roberta, relatado na introdução, o qual é revelador da complexa trama identificatória e da realização simultânea de desejos ambivalentes, que se fazem presentes, no adolescente, frente à escolha de sua profissão. Tal trama, bem como os desejos contraditórios que dela decorrem, é consequente das questões edípicas da infância, que ao fazerem seu retorno na adolescência, apresentam seus efeitos na forma de uma impossibilidade ou dificuldade do adolescente em fazer tal escolha. No capítulo 5, retornaremos a esse caso, articulando-o às identificações com o par parental e à vivência edípica.

Passemos, a seguir, ao exame da inter-relação dos processos identificatórios com o complexo de Édipo tal como isso se deu em Freud.

2.3 Identificação e complexo de Édipo

O conceito de Identificação encontra-se articulado à postulação do complexo de Édipo desde muito cedo na obra de Freud. Conforme foi visto no item 2.1., já nas cartas enviadas a Fliess, Freud, mesmo sem nomear tal Complexo, já vislumbrava a presença

da identificação na temática edipiana. Contudo, é na carta 71 que a articulação da noção de identificação com a questão edípica torna-se mais evidente. Nela, Freud (1897d/1987) postula o complexo de Édipo e revela ter descoberto também em si os impulsos vislumbrados no protagonista da cena:

Um único pensamento de valor genérico revelou-se a mim. Verifiquei, também no meu caso, o apaixonamento pela mãe e ciúmes pelo pai, e agora considero isso como um evento universal do início da infância (...) Sendo assim, podemos entender a força avassaladora de Oedipus Rex, apesar de todas as objeções levantadas pela razão contra sua pressuposição do destino. (...) Mas a lenda grega apreende uma compulsão que toda pessoa reconhece porque sente sua presença dentro de si mesma. Cada pessoa da platéia foi um dia, em ponto menor ou em fantasia, exatamente um Édipo e cada pessoa retrocede horrorizada diante da realização de um sonho, aqui transposto para a realidade, com toda a carga de recalcamento que separa o seu estado infantil do seu estado atual. (p. 365)

Vemos, então, que ao enunciar o complexo de Édipo, Freud (1897d/1987) o faz explicitando o seu caráter universal e articulando-o ao recalque. Deixa claro, ainda, que esse é um tema que causa horror a todos, situando-o como uma fantasia, recalcada, universal e presente na cultura.

Tais ideias já vinham sendo amadurecidas gradativamente na clínica, a partir das observações de seus pacientes e da condução de suas análises. Podemos observar o início do processo que culminou na carta 71 quando, em carta anterior a Fliess (carta 69), Freud (1897b/1987) já questionava a validade de sua teoria das neuroses. Duvidar

de sua teoria é o passo decisivo que abre caminho à postulação do complexo de Édipo, uma vez que essa aprisionava a origem da patologia à ocorrência de um evento real.

Ao justificar para Fliess o porquê de não mais crer em sua teoria das neuroses, Freud (1897b/1987) já lança as bases para a dimensão que o conceito de fantasia passaria a ter para a Psicanálise, mencionando como inegável a comprovação de que no inconsciente não há indicações da realidade, de modo que não seria possível distinguir uma verdade de uma ficção afetivamente carregada.

Assim, e em virtude também de sua autoanálise, Freud (1897b/1987) percebe que a sedução não era real, mas uma fantasia decorrente de impulsos edipianos. O passo seguinte parece advir da conclusão de que se as crianças podem fantasiar dessa forma é porque possuem uma sexualidade, tema que ele irá desenvolver em 1905, no texto Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, no qual não menciona o complexo de Édipo, mas que só pode ser escrito em função de sua descoberta.

Mezan (1989), em seus estudos dos escritos de Freud, demarca que o termo complexo de Édipo é introduzido na sua obra em 1910, no artigo Um tipo especial de escolha de objeto feita pelos homens. Nesse texto, Freud (1910/1987) afirma explicitamente que o Édipo ocorre na puberdade. Somente em 1919, com o artigo A psicogênese de um caso de homossexualidade numa mulher, Freud (1919/1987) pôde localizar o complexo de Édipo na época das primeiras fantasias – segundo ele, por volta dos dois anos de idade. E no texto de 1923, O ego e o id, o conceito toma a feição mais próxima de seu significado definitivo na Psicanálise. Durante todo esse período, porém,

esteve sempre presente nas análises freudianas, mesmo que de forma esparsa, periférica e pouco reconhecida.

Segundo Mezan (1989), é o surgimento dos conceitos de narcisismo e identificação que levam o Édipo a um plano de maior destaque, por viabilizarem a

possibilidade de articulação desse à teoria das pulsões, como um entrelaçamento fundamental na construção da teoria psicanalítica. O autor destaca que no espaço de doze anos foi possível verificar a crescente importância que foi assumindo a problemática edipiana na obra de Freud, sendo essa evolução paralela à do conceito de identificação, o qual retira a relação da criança com seus pais do ângulo exclusivo da escolha de objeto. É, pois, a elaboração do conceito de identificação que tornará possível reconhecer a ocorrência do complexo de Édipo na infância, tornando-o, assim,

por sua função estruturante do eu, uma das pedras fundamentais no alicerce da teoria freudiana.

Tomando a identificação que ocorre no Édipo como uma base importante para a formação do eu, descreveremos, então, como Freud construiu a passagem da criança pela vivência edípica. Segundo Freud (1921/1987), a passagem pelo Édipo consiste numa gama de afetos complexos e ambivalentes das crianças em relação aos seus pais, que se inicia com a identificação, ou seja, com o desejo da criança de ser como o pai ou a mãe. Segue-se a isso o desejo de tomar seu lugar junto ao progenitor de sexo oposto ao seu e a vivência de sentimentos ambivalentes de amor e ódio pelo progenitor do mesmo sexo.

Para o autor, se o desejo for dirigido ao progenitor de sexo oposto e a identificação ocorrer com o progenitor de sexo biológico igual ao da criança, dá-se, então, uma escolha de objeto heterossexual. Já no caso de o desejo e a identificação ocorrerem de modo invertido (desejo pelo progenitor de mesmo sexo e identificação com o progenitor de sexo oposto), a escolha de objeto será do tipo homossexual. No entanto, ao se referir ao que denominou de Édipo completo, Freud afirma que esse é sempre dúplice, positivo e negativo, devido à bissexualidade originalmente presente em cada criança.

Ainda de acordo com Freud (1905a/1987), a pré-história do Complexo de Édipo inicia-se nos cuidados maternos, descritos por ele como investidos de sexualidade. Nesse momento, as crianças não se dão conta da distinção sexual, e seguem na vivência da bissexualidade, até perceberem que o mundo está dividido em dois sexos,