1.2. Finansal Entegrasyonu Etkileyen Faktörler
1.2.2. Finansal Entegrasyonu Olumsuz Etkileyen Faktörler
1.2.2.1. Sermaye Kontroller
A adolescência – frequentemente abordada pelas Psicologias, como uma etapa cronológica do desenvolvimento biopsicossocial do ser humano, cuja passagem o expõe a crises e/ou manifestações patológicas; pela Fisiologia, como um momento de intensas mudanças corporais, e pela Antropologia e Sociologia, como um tempo de ingresso do indivíduo num circuito de trocas sociais (Poli e Becker, 2004), – será aqui tomada a partir de outra perspectiva, a da Psicanálise.
Nessa perspectiva, a adolescência será vista como uma temporalidade lógica e como um conjunto de operações psíquicas que são desencadeadas no adolescente em consequência da imposição do real pubertário e das exigências da sociedade quanto à sua inserção em laços sociais extrafamiliares.
Considerando, pois, que o conceito psicanalítico de adolescência encontra seu suporte na construção histórica da humanidade, acreditamos ser necessário, antes de abordar seus desdobramentos na Psicanálise freudiana e lacaniana, realizarmos um breve percurso acerca da sua construção histórico-social.
1.1 Construção histórico-social do conceito psicanalítico de adolescência
O termo adolescência é de origem latina (vem de adulescens ou adolescens, particípio passado do verbo adolescere) e é composto pelos prefixos ad-, que significa para frente, mais dolescere, que significa crescer com dores (Costa, 2007), denotando tratar-se de uma passagem incontornável da vida humana que não pode ser feita sem algum sofrimento.
A sua origem na sociedade moderna ocidental, segundo alguns historiadores, deu-se no final do século XVIII, tendo alcançado maior expressão em meados do século XIX, quando então o mundo infantil e o mundo adulto passaram a ser vistos como espaços distintos (Ariès, 1981).
Segundo Coutinho (2009), apesar de ter alcançado maior expressividade no meio social no século XIX, a adolescência era, ainda, um privilégio dos burgueses e um tempo relativamente curto, pois o ideal a ser atingido socialmente era a idade adulta. A autora também aponta o século XX como o momento em que a noção de adolescência tomou a forma que tem na atualidade, tornando-se um período específico da vida humana. Para ela, isso se deveu ao crescimento das cidades, em função do processo de industrialização, que impôs, à sociedade da época, a necessidade de formar mão de obra qualificada, escolarizando, por conseguinte, crianças e jovens.
Ainda de acordo com a autora, a educação de crianças e jovens em um ambiente específico, a escola, além de ter representado a exclusão do jovem do mundo dos adultos, também lhe trouxe outras consequências de ordem econômica e social. Nesse sentido, podem ser exemplos: o aumento do tempo de dependência dos jovens em relação à família e as mudanças na forma de acesso ao mercado de trabalho para pobres e ricos (os mais pobres ingressavam mais cedo na produção e terminavam a formação posteriormente, e os mais ricos permaneciam mais tempo em formação, especializando-se em diferentes áreas para poder ingressar com mais chances no mercado. Em ambos os casos, o período entre o início da puberdade e o casamento foi estendido e os jovens passaram a deixar cada vez mais tarde a casa dos pais.
Em consonância com Ariès (1981), Coutinho (2009) também afirma que o século XX foi considerado o século da adolescência, e que o interesse por essa etapa da vida voltou-se para a “adoção de posturas ambivalentes em relação a ela – por um lado,
um certo fascínio; por outro, a necessidade de controle” (p. 137). Para ela, foi pela ótica “do controle e do risco” (p. 137) que, nesse momento, foram realizadas várias publicações no campo da Psicologia, da Educação e da Psicanálise, como por exemplo, Adolescência, de Stanley Hall, em 1904; os Três ensaios sobre a sexualidade infantil, de Freud, em 1905; e a revista L’Education, em 1919.
A autora também assinala que a Psicanálise, a Psicologia e a Educação não só contribuíram para definir como também para divulgar a noção de adolescência. A Psicanálise contribuiu, sobretudo, para a consolidação desse conceito, nas décadas de 1970 e 1980, por meio das produções de Erickson (1968/1987) e de suas teorias em torno da noção de adolescência como “moratória social”, e de Aberastury e Knobel (1970/1981), com as suas concepções da “adolescência normal e patológica”. Foi a partir dessas concepções que ficou estabelecido o conceito de adolescência como uma etapa natural do desenvolvimento humano, “definida sempre através de uma visão normatizante e atenta ao caráter semi-patológico que apresentava” (Coutinho, 2009, p. 138).
Assumindo uma posição contrária a essa concepção evolutiva, normatizante e patologizante da adolescência, difundida pela Psicologia e por alguns teóricos da Psicanálise, a autora expõe uma nova concepção da adolescência, que é também compartilhada por outros autores psicanalíticos da contemporaneidade. Nessa, a adolescência é vista como um trabalho psíquico imposto ao jovem, na nossa cultura, a fim de que ele possa fazer sua passagem do laço familiar ao laço social. Para Coutinho (2009), a nossa sociedade, diferentemente das sociedades tradicionais, que possuem rituais iniciáticos os quais auxiliam o jovem nessa passagem, “não oferece aos nossos ‘adolescentes’ direções claras que o orientem neste percurso (...)” (p. 138).
Sobre essa falta de rituais de iniciação que possam fazer a demarcação dessa passagem do adolescente para a vida adulta, Mannoni (1996) assinala que o modelo escolar é a única forma de passagem a ser oferecida aos jovens na nossa sociedade. Esse modelo, contudo, mostra-se complexo e contraditório, pois “as crianças na escola não sabem em que são iniciadas” (p. 14), uma vez que nunca fica claramente explicitado o que está em jogo no processo educacional. Como consequência disso, “o adolescente chega à idade adulta sem garantia quanto ao lugar que será levado a ocupar entre os mais velhos e entre seus pares” (Mannoni, 1996, p. 14).
Tal fato tem levado muitos jovens a enxergar o futuro como incerto e a adiar a entrada no laço social, sobretudo no mundo do trabalho. Desse modo, prorroga, também, um estado de dependência em relação aos pais, que tem ganhado proporções cada vez mais alarmantes, na nossa sociedade, na qual se torna comum encontrarmos pessoas com mais de 30 anos ainda vivendo com a família e, às vezes, até dependendo dela financeiramente.
A dependência em relação aos pais é também estendida às instituições escolares, principalmente as de nível superior, onde então se observa um número cada vez mais alto de jovens que prorrogam o término de seus cursos, alegando a necessidade de adquirir mais experiências de estágio e uma maior capacitação para poder enfrentar o mercado de trabalho competitivo e excluidor que para eles se coloca como inevitável, dada a situação de crise econômica e de desemprego do mundo atual.
Nesse sentido, Mannoni (1996) afirma: “O estatuto de 'assistido pela vida inteira' aparece então para muitos deles como a melhor solução (perpetuando assim uma dependência infantil: o Estado substitui os pais)” (p. 14). Tal fato leva a autora a apontar como sintoma da sociedade contemporânea “uma espécie de jogo no qual fica implícito que caberá ao jovem, ao sair da adolescência, arrancar seu lugar e sua independência
no mundo dos adultos” (p. 14, grifo do autor), devendo, para isso, fazer sozinho esse trabalho.
Calligaris (2000), ao falar dos ideais impostos pela modernidade à adolescência, também se refere a essa atitude de independência e autonomia a ser conquistada pelo jovem como um dos objetivos da educação moderna. Segundo ele, tal atitude, apesar de ser colocada no lugar de um ideal estimulado pela escola, como forma de tornar o jovem “um adulto maduro” (p.17), acaba por revelar uma contradição, pois é o próprio adiamento da entrada dele na vida adulta, promovido, principalmente, pela instituição escolar, que pode torná-lo “inadaptado e imaturo” (p. 17).
O autor comenta, ainda, que o alargamento desse “tempo de suspensão ou moratória” (p. 17), concedido ao adolescente na sociedade contemporânea, acabou por afetar a própria definição temporal de adolescência. Tal comportamento é apreendido no fato de que, hoje, não mais parece existir um marco para o início da adolescência, antes dado pelas manifestações psíquicas decorrentes das mudanças corporais da puberdade, nem muito menos um marco para o seu final. Observamos, pois, a existência de adultos, acima dos 40 anos, ainda em situações de vida mais comuns na juventude (fazendo faculdade e/ou cursos técnicos, mudando de profissão, etc.) e/ou adotando comportamentos e atitudes característicos dos jovens (ir para baladas, usar roupas e gírias próprias dos adolescentes, a exemplo do uso do vocábulo ficando, em vez de namorando, etc.).
Calligaris (2000) também assinala que o jovem “não sabe quando e como vai poder sair de sua adolescência” e que a ele é imposto “o inexplicável dever de ser feliz, pois vive uma época da vida idealizada por todos” (p. 21). Esse imperativo de felicidade, impingido ao adolescente na atualidade, leva o autor a supor que o século XX fez da adolescência um ideal cultural, por ser vista como um tempo de liberdade e
felicidade irrestritas, desejado, portanto, pelos adultos, que almejam a ele retornar, e pelos próprios adolescentes, que querem nele permanecer. Em suas palavras: “A adolescência é o prisma pelo qual os adultos olham os adolescentes e pelo qual os próprios adolescentes se contemplam. Ela é uma das formações culturais mais poderosas de nossa época” (p. 09).
Corroborando essas afirmações, podemos citar Dantas (2002), a qual comenta, com certa ironia, que a expressão usada por Freud “Sua majestade o bebê”, para referir- se à relação narcísica da criança com os seus pais, poderia ser reescrita sob a forma “Sua majestade o adolescente”, para dar conta desse sintoma social no qual o adolescente se tornou, ao ocupar o lugar de ideal cultural da sociedade contemporânea.
Rocha e Garcia (2008), por sua vez, ao fazerem referência ao adolescente como aquele que melhor encarna o ideal de liberdade da sociedade contemporânea, assinalam que essa idealização não poderá se dar sem consequências para o processo de subjetivação do adolescente. A esse respeito, as autoras afirmam:
A tipificação do adolescente como aquele de quem se espera o exercício irrestrito da liberdade e um gozo sem limites não se dá sem consequências. Na verdade, a adolescência como ideal interfere intensamente na experiência do adolescente contemporâneo que, a despeito da idealização da qual é objeto, deve realizar todo um trabalho psíquico próprio à passagem por essa etapa da vida, que exige o luto do lugar idealizado de criança e de seu corpo infantil. Há um novo encontro com a castração e o sexual que implica uma reorganização narcísica e uma reelaboração dos ideais paternos até então não questionados. (...) O que fazer, porém, quando os adultos acenam ao adolescente com a promessa de burlar a castração, projetando-o num gozar sem limites? Ao
esperarmos que a adolescência, enquanto ideal cultural, cumpra a promessa de burlar a castração, colocamos para o adolescente um impasse a mais nesse momento crucial do processo de subjetivação. (p. 630)
Considerando a importância atribuída por Freud (1921/1987) ao ideal na sustentação do laço social por meio das identificações, Coutinho (2005) interroga-se acerca do que o ideal cultural da adolescência, presentificado na prevalência do ideal de liberdade, pode nos revelar a respeito do laço social contemporâneo. Questiona também se esse ideal sintomático não seria revelador dos próprios impasses da cultura ocidental contemporânea:
O ideal cultural da adolescência nos faz pensar, efetivamente, num sintoma social típico da contemporaneidade, articulado à pulverização das referências simbólicas a serem transmitidas e compartilhadas. Numa cultura que exalta a liberdade individual a qualquer custo, o lugar dos ideais sociais fica muitas vezes esvaziado e resta pouco a ser compartilhado. (p. 19)
A autora, articulando essa “pulverização do simbólico” com a existência de um declínio da função paterna, na contemporaneidade, aponta algumas consequências para esse fato no que diz respeito à construção dos ideais sociais dos adolescentes:
(...) a pulverização do simbólico na sociedade contemporânea complexifica bastante a apropriação do laço social pelo adolescente, seja a partir do pai como referência interna à família, seja a partir de outras figuras de referência simbólica no plano da cultura. Sem pontos de ancoragem evidentes para o ideal do eu, que propiciem novas identificações, torna-se mais difícil para o adolescente fixar para si
próprio um ideal que lhe sirva de referência para encontrar possíveis meios de escoamento libidinal. (p. 20)
Segundo a autora, as consequências dessa “pulverização do simbólico” na construção dos ideais sociais podem ser observadas, principalmente, no que diz respeito às identificações profissionais, cada vez mais complexas e incertas no mundo contemporâneo, ou ainda em relação às identificações de gênero, que se tornam igualmente complexas e nebulosas com a dissolução das fronteiras entre o masculino e o feminino no social.
A autora segue apontando que “a apropriação do laço social por parte dos adolescentes complica-se bastante no mundo contemporâneo, na medida em que a sociedade ocidental deixa ao encargo de cada um a tarefa de elaborar sua própria filiação” (p. 19), ou seja, de criar suas próprias formas de inserção no laço social. Tal fato tem como consequência a vivência, pelos adolescentes, de certo sentimento de desamparo.
Para Freud (1930[1929]/1987), o desamparo é condição estruturante do homem. O ideal, em sua face cultural, teria a função de proteger o ser humano do seu desamparo estrutural. Essa função, segundo ele, é exercida no laço social, de forma que os ideais culturais oferecem não só consolo para o conflito insolúvel entre o sujeito e a civilização, mas também recursos para o manejo, pelo sujeito, da castração e dos destinos pulsionais. Isso ocorre porque os ideais culturais constituem elementos norteadores de uma cultura e oferecem referências para o que deve ser almejado por seus membros, mediando as relações entre os sujeitos e possibilitando coesão dentro de uma unidade cultural (Freud, 1921/1987).
Segundo Coutinho (2009), quando esses ideais culturais se “pulverizam” e/ou se esvaziam, os adolescentes acabam sendo os mais atingidos, porque os adultos, que
deveriam se colocar como referências identificatórias, “se licenciam de suas funções simbólicas, muitas vezes, invertendo até a relação, colocando-se eles próprios no palco da vida como personagens em crise” (Dias, 2000, p. 04).
Diante dessa perspectiva de crise dos ideais culturais da sociedade contemporânea, de crise do próprio adolescente e também dos principais dispositivos sociais – a família e a escola –, os quais poderiam lhe dar sustentação nessa difícil operação subjetiva necessária para se adquirir o estatuto de adulto na nossa sociedade, uma das vias que muitos jovens têm encontrado na contemporaneidade é a do sintoma. Esse, tanto pode trilhar o caminho das patologias mais graves (bulimia, anorexia, etc.) e dos atos que põem em risco a vida (tentativas de suicídio, sexo promíscuo, esportes perigosos, etc.) ou desafiam as leis (adesão a drogas, direção perigosa no trânsito, etc.), como também o caminho da dúvida e da incerteza quanto ao futuro. Caminho comumente tomado pelos adolescentes que procuram ajuda para suas dificuldades ligadas à escolha profissional.
Tendo, pois, em vista que as dificuldades relativas às escolhas profissionais poderiam ser incluídas entre as problemáticas da atualidade que se apresentam na clínica psicanalítica com adolescentes, consideramos de grande importância um olhar da Psicanálise sobre as questões que se colocam nesse campo, por considerarmos que a profissão e, portanto, a sua escolha pode ser um importante operador simbólico da difícil passagem que o adolescente precisa fazer para poder sair do laço restrito da família e se inserir em laços sociais mais amplos, como, por exemplo, o mundo do trabalho.
Nesse sentido, abordaremos, a seguir, as teorizações elaboradas pela Psicanálise, especialmente por Freud e Lacan, acerca do trabalho subjetivo que se opera no ser humano durante essa passagem. Sabemos que esses autores não se debruçaram com
mais profundidade sobre o estudo da adolescência, no entanto, entendemos que os ensinamentos de ambos poderão nos fornecer um campo de reflexão fecundo acerca dos processos psíquicos que nela ocorrem, incluindo-se entre esses as várias escolhas que o adolescente precisa fazer nos campos profissional, afetivo e social.
Iniciemos, pois, pelo tratamento dado por Freud a esse tema, para depois abordarmos as concepções de Lacan. Concomitante às teorizações dos dois autores, traremos as contribuições de alguns outros a eles referendados.
1.2 A adolescência na teoria freudiana
Parece-nos, à primeira vista, pouco possível tratarmos desse assunto em Freud, uma vez que o próprio termo “adolescência” foi raramente utilizado por ele. Nos poucos estudos nos quais abordou essa temática, ele utilizou, preferencialmente, o termo puberdade. O pouco uso desse termo nos seus escritos deveu-se ao próprio contexto histórico e social de sua época, no qual a adolescência não se apresentava como um momento particular da vida, nem tinha a relevância social que tem atualmente. No entanto, as articulações psicanalíticas construídas por Freud em torno dos processos psíquicos resultantes das transformações pubertárias foram muito valiosas para nossa
compreensão do conceito contemporâneo de adolescência. E é sobre elas que nos debruçaremos.
Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905a/1987) e a Conferência XXI – O desenvolvimento da libido e as organizações sexuais (1916[1917]/1987) constituem- se os principais textos freudianos que contribuem para o estudo do que hoje entendemos por adolescência. Antes de abordá-los, faremos uma breve retrospectiva de textos anteriores a esses, onde Freud já faz alguma menção ao assunto.
Rastreando o estudo da puberdade nos escritos anteriores à publicação dos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, de 1905, iremos ver que a puberdade assumia um valor de extrema importância nos estudos freudianos, uma vez que era tida como o momento de surgimento da sexualidade no ser humano, dada a não existência, nessa época, de teorias acerca da sexualidade infantil (Gutierra, 2003).
Freud (1893-1895/1987), seguindo, nesse início de percurso, basicamente as construções teóricas formuladas em parceria com Breuer, afirmava ser o aumento da excitação decorrente do despertar da sexualidade um fator capaz de produzir fenômenos patológicos. Para ele, os impulsos libidinais liberados na puberdade teriam o poder de produzir neuroses. Nas suas próprias palavras: “É tão frequente vermos adolescentes anteriormente sadios, embora excitáveis, adoecerem de histeria durante a puberdade, que devemos perguntar a nós mesmos se esse processo não poderia criar uma predisposição para a histeria quando ela não está inatamente presente” (p. 301). Na sua concepção dos processos patológicos, a masturbação na puberdade e o excesso de libido dela decorrente, seriam as principais causas do desencadeamento das neuroses.
A partir de 1893, após o surgimento da “Teoria da sedução infantil”, tal concepção sofre modificações, dadas as conclusões a que Freud chega no sentido de que as neuroses seriam fruto de traumas sexuais infantis. A puberdade, e o consequente despertar da sexualidade, continuam tendo, contudo, um lugar de destaque nesse momento da teoria freudiana, dada a sua função de potencializar os traços de experiências sexuais infantis e também de promover a diferenciação sexual.
Em 1905, a partir do texto Três ensaios sobre a teoria da sexualidade e da descoberta da sexualidade infantil, ele articula os processos físicos e psíquicos relativos à puberdade de forma completamente inovadora, insistindo no valor organizador ou desorganizador da força pulsional e das representações incestuosas e parricidas.
Os Três ensaios sobre a teoria da sexualidade marcam, portanto, importante virada na teoria freudiana: a sexualidade infantil passa a ser reconhecida, retirando da puberdade o lugar de exclusividade das primeiras manifestações sexuais do ser humano. Até então, a importância da puberdade estava em ser o momento privilegiado de manifestação da sexualidade e da consequente ressignificação dos traumas sexuais da infância, produzindo ou não neuroses. Agora, sob a ótica do reconhecimento da existência da pulsão sexual na infância, a puberdade não será mais o único tempo de eclosão da sexualidade humana. No entanto, ela será, de acordo com Freud (1905a/1987), o momento de desfecho do desenvolvimento sexual, em que o jovem finalmente posiciona-se na chamada vida sexual normal, perversa ou neurótica.
Segundo o autor, se na infância havia o predomínio do autoerotismo e a atuação independente das zonas erógenas na busca de certo tipo de prazer como alvo sexual exclusivo; na puberdade, o trabalho consistirá em subordinar as pulsões parciais sob o primado da genitalidade. Surge, então, um novo alvo sexual em cuja direção todas as pulsões conjugam-se, enquanto as zonas erógenas subordinam-se ao primado da zona genital.
Freud (1905a/1987) afirma que essa conjugação das pulsões parciais sob o primado da pulsão genital leva a uma conjugação das correntes sensual e de ternura num