CORY/ANDRADINA
A eleição do Território como recorte espacial se deve, especialmente, ao fato de o projeto para a implantação da Tecnologia Social PAIS ter sido concebido no âmbito territorial. Como já relatado, o Projeto para a implantação da PAIS foi submetido ao Colegiado de Desenvolvimento Territorial (CODETER) local para aprovação e a sua execução contou com recursos da SDT/MDA, via Proinf - Ação Orçamentária de Apoio a Infraestrutura e Serviços em Territórios Rurais, cujo objetivo é o financiamento de projetos estratégicos para o desenvolvimento territorial, observados no Plano Territorial de Desenvolvimento Rural Sustentável (PTDRS) de cada território (TARSITANO, 2013).
Constituído legalmente em 28 de julho de 2004, o Território Rural Prof. Cory/Andradina é um dos seis territórios rurais do estado de São Paulo, entre os 239 instituídos no âmbito da política de desenvolvimento territorial, em nível nacional (SDT/MDA, 2016). Como consta no PTDRS do Território em questão, esta política vem sendo desenvolvida, no Brasil, desde o início dos anos 2000; como uma de suas principais premissas, tem-se a organização dos atores sociais, a fim de se fortalecer a sociedade civil por meio do controle social. A gestão social, como um dos principais eixos para a consolidação do desenvolvimento sustentável, pretende por meio da descentralização política e administrativa, novas formas de organização social, em que o público beneficiário das políticas possa intervir nos processos decisórios, baseando-se em seus conhecimentos e em suas leituras sobre a realidade local (PTDRS TERRITÓRIO ANDRADINA, 2010).
O CODETER - Território Rural Prof. Cory/Andradina é composto, atualmente, por cooperativas, associações, movimentos sociais, entidades vinculadas à pesquisa, extensão e ensino, entre outros; os quais representam as esferas da sociedade civil e do poder público que conformam o Colegiado; as suas ações baseiam-se no PTDRS do Território. Este é considerado o principal instrumento construído coletivamente pelo Colegiado em apoio à gestão social do desenvolvimento territorial; e pode ser entendido como uma diretriz orientadora do diálogo a respeito do desenvolvimento sustentável do Território (SDT/MDA, 2010).
Localizado na região noroeste do estado de São Paulo, o Território Rural Prof. Cory/Andradina, conforme pode ser observado na Figura 2, é constituído por onze municípios que correspondem exatamente àqueles que compõem a Microrregião de Andradina (Castilho, Andradina, Guaraçaí, Ilha Solteira, Itapura, Mirandópolis, Murutinga do Sul, Nova Independência, Pereira Barreto, Sud Mennucci e Suzanápolis). A sua área ocupa 6.891,6 Km2, o que corresponde a 2,8% da área total do estado de São Paulo (IBGE, 2010).
Figura 2- Limites dos 11 municípios pertencentes ao Território Rural Prof. Cory/Andradina
(SP) e indicação de sua localização no Estado de São Paulo.
A renda per capita da Região de Governo de Andradina, divisão que contempla os onze municípios do Território somados ao Município de Lavínia (SP), corresponde a R$635,82; este valor é 25,53% inferior à renda observada para o estado, que equivale a R$853,75 (FUNDAÇÃO SEADE, 2016).
Desenvolvido pela Fundação SEADE, o Índice Paulista de Responsabilidade Social (IPRS) acompanha o modelo que sustenta o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Com base nos aspectos sociais indicados por esse índice, é possível afirmar que a Região na qual está inserida o Território Rural Prof. Cory/Andradina (Região Administrativa de Araçatuba) está abaixo da média observada para o estado, no caso das dimensões longevidade e riqueza, mas, ainda de acordo com o IPRS, apresenta ótimas condições de educação e refere-se a uma das regiões de destaque, no que diz respeito à escolaridade da população (FUNDAÇÃO SEADE, 2012).
Reflexo da importância da atividade agropecuária, a estrutura econômica da região, onde se encontra o Território, caracteriza-se pela integração entre as atividades primária e secundária, tendo nas agroindústrias o seu principal segmento da indústria de transformação (GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO, 2013).
De acordo com dados do Censo Demográfico 2010 (IBGE, 2010), o Território Rural Prof. Cory/Andradina apresenta uma população total de 181.710 habitantes, destes, aproximadamente 12% compõem a população rural do Território, o que representa mais que o dobro do percentual observado para o estado, cuja população rural corresponde a 4,06% da população total.
No tocante à estrutura fundiária, de acordo com dados do último Censo Agropecuário (IBGE, 2006), a agricultura familiar ocupa 78,68% dos estabelecimentos agropecuários do Território e estes abrangem apenas 18,12% da área total voltada à exploração agropecuária; em contrapartida, 21,32% dos estabelecimentos agropecuários pertencem à agricultura não familiar e abrangem 81,88% da área total do Território ocupada com tais estabelecimentos.
O Levantamento Censitário de Unidades de Produção Agropecuária (LUPA), realizado em 2007/08, sob coordenação da CATI (Coordenadoria de Assistência Técnica Integral), órgão vinculado à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Governo do Estado de São Paulo, também contribuem para ilustrar a preponderância da agricultura familiar em termos de frequência e o elevado grau de concentração fundiária observado na região. Prevalecem no Território, no âmbito da agricultura familiar, Unidades de Produção Agropecuárias (UPA‟s) com faixas de área de até 20 hectares. Como revela a Tabela 2, as UPA‟s até esse limite chegam a quase 60% das Unidades observadas no Território, entretanto,
a área ocupada por estas não alcança 8% da área total. Considerando-se até o limite de 50 hectares, tem-se aproximadamente 80% das UPA‟s, que ocupam somente 15% da área total. É possível notar, também, que 1,62% das UPA‟s (aquelas que possuem entre 1000 e 10.000 hectares) abrangem 37% da área total ocupada com estas unidades produtivas (CATI, 2008).
Tabela 2– Número e percentual das UPAs por faixas de área do Território Prof.
Cory/Andradina.
FAIXAS DE ÁREA
(hectare) UPA’s Nº UPA’s % ÁREA (ha) ÁREA %
UPAs com (0 a 10] 1422 20,55 7560,90 1,28 UPAs com (10 a 20] 2659 38,42 36872,8 6,24 UPAs com (20 a 50] 1379 19,93 44027,6 7,45 UPAs com (50 a 100] 530 7,66 38350,5 6,49 UPAs com (100 a 200] 372 5,38 52142,2 8,82 UPAs com (200 a 500] 304 4,39 97007,7 16,41 UPAs com (500 a 1.000] 140 2,02 97479,9 16,49 UPAs com (1.000 a 2.000] 74 1,07 103144,6 17,45 UPAs com (2.000 a 5.000] 34 0,49 90611 15,33 UPAs com (5.000 a 10.000] 4 0,06 23854,6 4,04 Total 6918 100 591051,8 100
Fonte: Secretaria de Agricultura e Abastecimento, CATI/IEA, Projeto LUPA (2008).
Apesar desses números que revelam a elevada concentração da propriedade da terra, outro aspecto que se destaca no Território, em relação à sua estrutura fundiária, refere-se às lutas de um importante contingente de trabalhadores rurais para reverter tal quadro. Este esforço tem se traduzido na criação de vários projetos de reforma agrária na região, nos últimos anos.
O pioneirismo do Território no que concerne à atuação de movimentos sociais de luta pela terra e o importante número de assentamentos rurais criados como reflexo, principalmente, desta atuação, derivam da ocorrência e combinação de uma série de fatores, sucedidos especialmente a partir do final da década de 1970, cujos efeitos contribuíram para acentuar o problema fundiário da região. Hespanhol et al. (2003) citam a forte expansão da pecuária extensiva em detrimento das áreas ocupadas com lavoura, o que resultou na desocupação de muitos trabalhadores rurais da região; a inundação de áreas em consequência da construção das usinas hidrelétricas de Jupiá, Ilha Solteira e Três Irmãos, que levou ao desalojamento de produtores ribeirinhos; e o alto índice de concentração fundiária, produto, também, do processo de ocupação intensificado a partir da década de 1930, marcado por especulações.
Atualmente, o Território Rural Prof. Cory/Andradina reúne 37 Projetos de Reforma Agrária, que abrangem 55.589 hectares e contemplam 3.005 famílias. Os primeiros assentamentos foram criados durante os anos 80 e, entre os 37 projetos presentes no Território, 32 surgiram a partir de 1995, a maioria desses durante a década de 2000. O Município de Castilho destaca-se com 38% das famílias assentadas no Território, distribuídas nos 11 projetos de reforma agrária deste município (SANTOS, 2014).
Em relação às explorações agropecuárias presentes no Território, destacam-se a atividade pecuária e a produção de culturas temporárias. Com base nos dados do LUPA (SÃO PAULO, 2008) verifica-se a relevância destas atividades no contexto agropecuário da região: ambas ocupam quase 90% da área total das UPA‟s do Território, como pode-se observar por meio da Tabela 3.
Tabela 3- Ocupação do solo das UPA‟s no Território Rural Prof. Cory/Andradina
OCUPAÇÃO UPA’s Nº UPA’s % ÁREA TOTAL (ha) ÁREA TOTAL %
Área com cultura perene 802 11,59 6493,6 1,10
Área com cultura temporária 2919 42,18 199415,7 33,74
Área com pastagens 6320 91,33 325782,9 55,12
Área com reflorestamento 291 4,21 1579 0,27
Área com vegetação natural 1346 19,45 29466,2 4,99
Área com brejo e várzea 1916 27,69 18804,3 3,18
Área em descanso 44 0,64 730,8 0,12
Área complementar 6032 87,17 8779,3 1,49
Total 6917 99,96 591051,8 100,00
Fonte: Secretaria de Agricultura e Abastecimento, CATI/IEA, Projeto LUPA (2008)
As áreas ocupadas com pastagens são constatadas em mais de 90% das UPA‟s e abrangem 55,12% da área total voltada para a exploração agropecuária no Território, denotando a grande expressividade da atividade pecuária, que se refere, tradicionalmente, a uma das marcas da região. Salienta-se, ainda em relação à pecuária, que no caso da agricultura patronal, tem-se o predomínio da bovinocultura de corte e, entre os agricultores familiares, prevalece a pecuária leiteira.
Em seguida, verificam-se as áreas ocupadas com a exploração de culturas temporárias, as quais estão presentes em 42,18% das UPA‟s, abrangendo 33,74% da área total (Tabela 3). Embora seja notada uma grande diferença, em termos de frequência, entre as UPA‟s dotadas áreas de pastagem (91,33%) e aquelas com culturas temporárias (42,18%); essa diferença não se mostra tão acentuada quando se compara as áreas ocupadas por estas atividades. Isso se relaciona com as extensas faixas de área destinadas à produção de cana de açúcar
(compreendida como cultura temporária no LUPA), que especialmente durante a década de 2000 passou a ser explorada em muitas propriedades, onde antes se observava a pecuária extensiva. Assinala-se que somente a cana de açúcar responde por 87% de toda a área ocupada com culturas temporárias (SÃO PAULO, 2008). Esta cultura, na Região Administrativa de Araçatuba, abrangia 168 mil hectares, em 1995/96, e, com um aumento de 268%, passou a ocupar 618 mil ha em 2007/2008 (FUNDAÇÃO SEADE, 2013).
Enquanto a pecuária de corte e a produção de cana de açúcar predominam no contexto da agricultura patronal, a bovinocultura leiteira consiste na principal atividade da agricultura familiar no Território, sobretudo, nos espaços de reforma agrária. Em seguida, observa-se a produção de culturas temporárias, que, na maioria dos casos, segue combinada com a pecuária de leite. Nos últimos anos, os programas de compras governamentais têm estimulado a produção vegetal entre os agricultores familiares do Território, o que fez aumentar a importância socioeconômica desta atividade para as famílias agricultoras da região, especialmente, das culturas olerícolas (incluídas entre as temporárias).