Neste estudo, privilegia-se a abordagem qualitativa e, em vista dos objetivos propostos, tem-se uma pesquisa de caráter exploratório e descritivo.
A pesquisa qualitativa como recordam Gerhardt e Silveira (2009, p. 31) “não se preocupa com representatividade numérica, mas, sim, com o aprofundamento da compreensão de um grupo social, de uma organização”, entre outros aspectos. Afirmam que a utilização de métodos qualitativos permite explicar o porquê das coisas, expressando-se o que convêm ser feito, sem, no entanto, quantificar os valores e as trocas simbólicas, nem se submeter à prova de fatos, uma vez que se tratam de dados não simétricos e se valem de diferentes abordagens (GERHARDT; SILVEIRA, 2009).
O caráter exploratório e descritivo assumido nesta pesquisa fundamenta-se em acepções sustentadas por Gil (2002). Segundo este autor, as pesquisas exploratórias objetivam propiciar maior familiaridade com o problema, a fim de torná-lo mais explícito ou a constituir hipóteses; já as pesquisas descritivas pretendem, primordialmente, a descrição das características de determinada população ou fenômeno ou, ainda, o estabelecimento de relações entre variáveis.
Em relação aos instrumentos de coleta de dados, os quais permitem uma mediação entre o marco teórico-metodológico e a realidade empírica (MINAYO, 2011), foram utilizados entrevistas semi-estruturadas, questionários e observação simples não participante.
O processo em que se deu este trabalho compreendeu ciclos que se relacionam com a noção expressa por Minayo (2001). O ciclo da pesquisa corresponde a um processo de trabalho em espiral, que parte de um problema ou uma pergunta e finaliza com um produto provisório, que se mostra capaz de originar novas interrogações; considerando-se os ciclos revelados por essa autora, o percurso metodológico contemplado nesta pesquisa pode ser explicado por meio dos seguintes momentos:
Fase exploratória (iniciada em março de 2012) em que procedeu-se ao levantamento
bibliográfico, o que permitiu o aprofundamento das questões teóricas, especialmente no que refere à perspectiva agroecológica. Acrescenta-se, ainda, que foi dada especial atenção à busca de material bibliográfico relacionado a experiências empíricas vinculadas à Tecnologia Social PAIS.
Esta fase também compreendeu os primeiros contatos com o Grupo Técnico de Campo de Andradina - Fundação ITESP, responsável pela elaboração e execução do Projeto aqui analisado, e também com algumas famílias participantes.
Foi solicitado à equipe, o projeto submetido ao MDA/SDT, o qual contempla os objetivos, metodologia e o plano de trabalho da proposta, a fim de se obter informações mais detalhadas a respeito da intervenção. Foram realizadas visitas de cunho exploratório a lotes de dois Projetos de Assentamentos Rurais (Assentamento Timboré e Assentamento Rio Paraná), nos quais haviam sido implantadas as unidades da Tecnologia Social PAIS; e realizou-se o acompanhamento do trabalho de campo de membros da equipe da Fundação ITESP, em outros assentamentos rurais incluídos no Projeto, com destaque para o acompanhamento de atividade de capacitação realizada com as mulheres (e outros membros das famílias). Nesta fase lançou-se mão, principalmente, da observação simples ou assistemática, na qual o pesquisador:
[...] apenas observa de maneira espontânea como os fatos ocorrem e controla os dados obtidos. Nessa categoria, não se utilizam meios técnicos especiais para coletar os dados, nem é preciso fazer perguntas diretas aos informantes. É comumente utilizada em casos de estudos exploratórios, nos quais os objetivos não estão claramente especificados; pode ser que o pesquisador sinta a necessidade de redefinir seus objetivos ao longo do processo (GERHARDT; SILVEIRA, 2009, p. 74).
A exploração preliminar de campo, que permitiu também o contato com alguns sujeitos da pesquisa já nesta fase, foi útil para a familiarização da pesquisadora com a intervenção a ser investigada e mostrou-se essencial para o delineamento dos instrumentos de pesquisa e outras questões metodológicas, em consonância com aspectos colocados por Deslandes (2001):
Muitas vezes, por exemplo, é necessária uma aproximação maior com o campo de observação para melhor delinearmos outras questões, tais como os instrumentos de investigação e o grupo de pesquisa. Tendo uma visão mais ampla, podemos dizer que a construção do projeto é, inclusive, uma etapa da fase exploratória (DESLANDES, 2001, p. 31).
Assim, a análise do projeto que norteou a implantação das áreas de PAIS, juntamente com exploração preliminar de campo, e a revisão de literatura permitiram a conclusão do projeto de pesquisa, com a definição da hipótese, objetivos e instrumentos de coletas de dados, entre outras questões, o que possibilitou dar início à outra etapa do trabalho.
O trabalho de campo, iniciado em 2013, englobou o levantamento realizado junto a famílias participantes do Projeto e o outro dirigido à equipe técnica da Fundação ITESP.
Nesta fase, foi realizado, também, um levantamento bibliográfico suplementar, o que permitiu a ampliação da revisão de literatura.
O levantamento realizado com as famílias foi desenvolvido durante o ano de 2013 e baseou-se na relação fornecida pela Fundação ITESP, a qual continha o nome e o endereço das trabalhadoras que, inicialmente, integravam o Projeto. Entre os trios e duplas constantes na referida relação, a pesquisa de campo se voltou para aquelas trabalhadoras e as respectivas famílias, em cujos lotes a Tecnologia Social PAIS seria implantada.
Ainda em relação ao público pesquisado, salienta-se que, inicialmente, pretendia-se pesquisar (diretamente) todas as famílias que haviam recebido e instalado os equipamentos que compunham os kits para a implantação da PAIS em seus lotes, contudo, mesmo após várias tentativas, não foi possível a inclusão de duas famílias, uma vez que os responsáveis não se encontravam nos respectivos lotes, durante o período de realização da pesquisa de campo. Assim, as visitas in loco abrangeram 31 famílias, entre as 33 famílias que, por meio do Projeto, receberam os kits para a implantação das áreas de PAIS.
Dessas, verificou-se que, em quatro casos, o equipamento para a implantação da Tecnologia Social PAIS não havia sido utilizado, ou seja, as famílias não chegaram a implantar as áreas pretendidas no Projeto; em vista disto, estes casos (4) foram excluídos da pesquisa. Em uma situação bastante particular, duas famílias que haviam sido contempladas com um kit para que a área fosse instalada e explorada coletivamente, implantaram a PAIS no limite dos dois lotes, de modo que ambas foram igualmente beneficiadas, cada uma passou a explorar a metade da área que se encontrava em seu lote; em virtude disto, ambas foram incluídas na pesquisa. Deste modo, o público pesquisado (diretamente) totalizou 28 famílias, referindo-se àquelas que receberam e implantaram os kits (mesmo que parcialmente), além dos profissionais que compõem a equipe técnica da Fundação ITESP, responsável pelo Projeto.
O estudo compreendeu, portanto, os dez Projetos de Assentamentos Rurais abarcados na proposta de intervenção (Anhumas, São Joaquim, Rio Paraná, Terra Livre, Timboré, Belo Monte, Esmeralda, Orlando Molina, Aroeira e São José II), distribuídos entre cinco municípios (Andradina, Guaraçaí, Castilho, Pereira Barreto e Murutinga do Sul), todos localizados no Território Rural Prof. Cory/Andradina, região noroeste do estado de São Paulo. Algumas características desses assentamentos encontram-se descritas na Tabela 1. Estes assentamentos correspondem aos projetos que a Fundação ITESP vinha realizando trabalho de extensão, antes de iniciarem-se as atividades das prestadoras de serviço de ATER, contratadas pelas chamadas públicas do INCRA.
Observa-se que a distribuição dos kits não foi proporcional ao número de famílias de cada um dos assentamentos, mas abrangeu ao menos uma unidade em cada projeto de assentamento.
Tabela 1- Características gerais dos assentamentos rurais englobados na pesquisa o número
de famílias pesquisadas.
No levantamento realizado junto às famílias, foram utilizados os três instrumentos de coleta de dados mencionados (questionários, entrevistas semi estruturadas e observação simples não participante), por meio das visitas in loco.
De acordo com Gil (1999, p. 128), o questionário refere-se a uma “técnica de investigação composta por um número mais ou menos elevado de questões apresentadas por escrito às pessoas, tendo por objetivo o conhecimento de opiniões, crenças, sentimentos, interesses, expectativas, situações vivenciadas, etc.”. Destaca-se que o modelo aqui empregado é dotado principalmente de questões abertas. Enquanto nas questões fechadas, cabe ao informante escolher uma entre as respostas presentes em uma lista predeterminada, nas questões abertas, o informante pode responder livremente, da forma que desejar, o que lhe proporciona maior liberdade para emitir as suas opiniões (GERHARDT; SILVEIRA, 2009; MARCONI; LAKATOS, 2005).
A estruturação do questionário (APÊNDICE A) e a elaboração de suas questões tiveram os seguintes objetivos principais: a) caracterizar as famílias e os respectivos
ASSENTAMENTO/MUNICÍPIO Nº de famílias Ano de criação Área (ha) Nº de famílias pesquisadas
Belo Monte (Andradina) 74 2002 1.534,48 2
Aroeira (Guaraçaí) 40 1987 872,17 1
São José II (Guaraçaí) 39 1988 877,60 2
São Joaquim (Castilho) 46 2003 606,19 2
Anhumas (Castilho) 70 2001 1.350,26 3
Rio Paraná (Castilho) 92 1992 2.205,13 1
Terra Livre (Castilho) 41 2003 628,32 4
Timboré (Andradina) 176 1995 3.379,82 6
Orlando Molina (Murutinga do Sul) 77 1998 1.512,00 4
Esmeralda (Pereira Barreto) 85 1987 2.096,3 3
Total 740 - 15062,27 28
agroecossistemas; b) caracterizar os grupos de mulheres, nos quais o Projeto esteve focado inicialmente; c) compreender a organização e mobilização das agricultoras para a participação no Projeto; d) captar a percepção dos produtores acerca das atividades desenvolvidas no âmbito da intervenção, bem como a respeito dos supostos diferencias da Tecnologia Social PAIS; e) compreender a repercussão do Projeto na vida das trabalhadoras e respectivas famílias, especialmente, quanto à alimentação familiar, à geração de renda e à supostas mudanças relacionadas à sustentabilidade de seus agroecossistemas.
Para a realização das entrevistas semiestruturadas, como observam Gerhardt e Silveira (2009), organiza-se um conjunto de questões (roteiro) a respeito do tema que está sendo estudado; entretanto, há também a possibilidade (às vezes até incentiva-se) que o entrevistado se expresse livremente acerca dos assuntos que surgem como desdobramentos do tema principal. Pensada neste contexto, a entrevista semiestruturada foi utilizada junto aos agricultores para permitir-lhes uma maior liberdade para manifestarem as suas opiniões e percepções, especialmente, quanto aos impactos da intervenção estudada em suas vidas e das respectivas famílias. O roteiro utilizado nas entrevistas segue anexado ao questionário (APÊNDICE x).
É necessário destacar que buscou-se priorizar o diálogo com as mulheres na pesquisa de campo, em vista dos objetivos (iniciais) do Projeto; contudo, o marcante envolvimento dos cônjuges nas atividades fez com que as próprias produtoras solicitassem também a participação destes nos diálogos estabelecidos durante a pesquisa de campo ou, ainda, que a entrevista se mantivesse focada nos cônjuges. Assim, as questões aqui discutidas fazem menção às experiências de produtoras e produtores com o Projeto em questão.
Em relação ao levantamento voltado para a equipe responsável pela elaboração e execução do Projeto (Grupo Técnico de Campo de Andradina - Fundação ITESP), a pesquisa abrangeu toda a equipe (15 profissionais) e as entrevistas foram realizadas de forma individualizada, no escritório da Fundação ITESP, em Andradina, durante os anos de 2013 e 2015. Neste caso, recorreu-se, também, às entrevistas semiestruturadas, como instrumento de coleta de dados. O roteiro que norteou estas entrevistas (APÊNDICE C) traz questões que buscam levantar, junto aos agentes da Fundação ITESP, as suas percepções relativas às implicações do Projeto, aos avanços e desafios concernentes à sustentabilidade nos assentamentos de reforma agrária do Território (compreendidos na esfera de seu trabalho) e, finalmente, verificar a compreensão e expectativas destes profissionais no que se refere à Agroecologia.
No momento voltado para o tratamento e análise do material recolhido no campo, foram realizadas, inicialmente, a digitalização, organização e sistematização dos dados empíricos. Esses foram analisados descritiva e interpretativamente, com base na bibliografia levantada.
As respostas aos questionamentos compreendidos na pesquisa e a verificação da hipótese partiu da confrontação entre os dados empíricos coletados nos dois levantamentos (com destaque para aqueles que traduzem os impactos da Tecnologia Social PAIS) e a abordagem teórica aqui realizada (sobretudo, no que se refere à perspectiva agroecológica), utilizando-se principalmente das noções pertinentes ao Enfoque Agroecológico colocadas por Siliprandi (2009), Gliessman (2008), Sevilla-Guzmán (2001), Altieri (2004) e Caporal e Costabeber (2004).