Utilizando os mesmo 13 websites anteriormente selecionados abordando as temáticas: sexualidade e prevenção de DST/HIV/aids foram avaliados os princípios éticos. A este respeito salienta-se que como no Brasil não existe regulamentação acerca dos princípios éticos em websites, optou-se por utilizar a proposta do e-Health Code of Ethics, ou seja: sinceridade, honestidade, consentimento esclarecido, privacidade, profissionalismo, parceria responsável e responsabilidade social (RIPPEN; RISK, 2000). Ressalta-se que o princípio de qualidade não foi avaliado nesse momento pelas limitações de tempo, podendo ser realizado em outro momento.
Para o princípio sinceridade, foi verificado se o propósito do website estava claro e se os responsáveis diretos ou indiretos estavam explícitos. Na honestidade, buscou-se por interesses ocultos ou pela tentativa de venda de produtos. Quanto à presença do consentimento esclarecido sobre dados dos internautas e à privacidade, verificou-se se exigiam informações pessoais dos usuários para acesso ao conteúdo e como asseguravam a sua privacidade. Relacionado ao profissionalismo, observou-se se acatavam os princípios do código de ética das profissões envolvidas e se forneciam informações sobre profissionais que realizavam interação online. A respeito da parceria responsável, se seguiam os passos para assegurar que patrocinadores, parceiros e trabalhadores eram confiáveis e, finalmente, sobre o princípio responsabilidade social, verificou-se a existência da implementação de um procedimento para coleta, revisão e resposta ao feedback do usuário e automonitoramento.
No Quadro 2 são apresentados os resultados da avaliação dos websites selecionados, onde cada critério foi definido como: Totalmente cumprido, Parcialmente cumprido, Não Cumprido ou Não pode ser avaliado:
Quadro 2 - Demostrativo do total de websites sobre sexualidade e DST/HIV/aids, de acordo com o cumprimento dos princípios eHealth identificados no LIS, ADOLEC, Brasil. Outubro de 2011.
Fonte: Primária
A cultura pós-moderna própria tem construído uma “consciência relapsa” e até mesmo “permissiva”, além de ter invadido os meios de comunicação de massa, seu poder de manipulação, persuasão e indução são avassaladores e decisivos, orientando comportamentos de crianças, jovens e adultos. A consciência permissiva significa que não existem padrões de comportamento rigoroso, assim, tudo é permitido. As normas e a obediência às leis morais são descartadas, o que vale, unicamente, é a lei do prazer, de forma desmesurada e sem controle, deixando as pessoas confusas e perplexas, não compreendendo seus próprios comportamentos (TRASFERETTI, 2007). Desta forma, também conteúdos disponíveis na Internet não são dispensados de condutas éticas, devendo obedecer às regras pré-estabelecidas, de modo a disponibilizar informações confiáveis.
Considerando ainda que a evolução da era tecnológica e a pós-modernidade trouxeram importantes mudanças no campo do comportamento humano, na vida sexual das pessoas, atualmente, assistimos ao surgimento de uma sexualidade que vive o paradoxo entre uma sociedade consumista, ao mesmo tempo mais livre. Fatos da atualidade revelam que a sexualidade sofreu acentuadas mudanças, afetando a vida de jovens e de suas famílias (TRASFERETTI; LIMA, 2010), e neste contexto de mudanças de valores, é importante considerar os aspectos éticos das informações veiculadas pela Internet, principalmente para o público adolescente.
Princípios e-Health Totalmente
cumprido Parcialmente cumprido cumpridoNão ser avaliadoNão pode
Sinceridade 12 1 0 0
Honestidade 11 2 0 0
Consentimento esclarecido 6 1 4 2
Privacidade 7 1 4 1
Profissionalismo no cuidado
- Código de ética das profissões 6 0 2 5
- Credenciamento dos profissionais 6 0 2 5
Parceria responsável 10 3 0 0
Responsabilidade social
- Feedback ao usuário 6 3 3 1
O uso de linguagens e abordagem teórica direcionados para a educação sexual no ambiente virtual é incentivada por Barak e Fisher (2001), ao realizarem chamada para o desenvolvimento e a avaliação de soluções inovadoras impulsionadas pela Internet. Neste contexto, é importante considerar os princípios éticos evidenciados em websites que abordam tais temáticas.
Na busca realizada os resultados revelaram panorama ético singular dos websites sobre sexualidade e prevenção das DST/HIV/aids para adolescentes brasileiros, pois a maioria do
websites selecionados cumpriram os princípios éticos estabelecidos, pelo menos de forma
parcial.
Nos websites analisados os princípios sinceridade, honestidade e parceria responsável foram os mais cumpridos, respectivamente em 12, 11 e 10 websites, enquanto a honestidade, parceria responsável e responsabilidade social representada pelo feedback ao usuário foram o menos cumprido. Em relação aos princípios éticos cumpridos parcialmente, os websites abordaram apenas parte dos critérios estabelecidos.
Ao solicitar informações pessoais dos adolescentes, quatro websites não cumpiram os príncípios éticos: consentimento esclarecido e privacidade. Keller et al. (2002) consideram que o risco de violações à privacidade e confidencialidade é uma realidade constante em
websites sobre DST/aids para jovens e, no Brasil, o reconhecimento dos adolescentes sobre a
inconveniência de dar informação pessoal, comprar ou preencher questionários está abaixo da média ibero-americana (SALA; CHALEZQUER, 2010). Os termos de uso e privacidade devem estar claros e disponibilizados em linguagem acessível e atrativa para os jovens.
Sexualidade e DST/HIV/aids são temáticas complexas quando relacionadas à comunicação entre pais e adolescentes, principalmente quando envolvem o uso da Internet. O consentimento esclarecido dos pais para uso de website por menores de 18 anos ainda é um assunto contraditório, alguns identificaram este limite como 13 anos, já que não podem controlar totalmente o acesso. No entanto, é válido salientar que os maiores responsáveis pelo controle dos conteúdos acessados por crianças e adolescentes são os pais ou responsáveis legais e, para enfrentar esta nova realidade, interconectada, global e mutante, é preciso o esforço integrado de todas as partes implicadas na formação e educação (SALA; CHALEZQUER, 2010).
Os websites, também, estão implicados na formação e no incentivo à participação dos pais na vida interativa dos filhos. Logo, o aviso “proibido para maiores”, visível em um dos
websites, publicado por uma instituição privada, pode influenciar negativamente esta
No princípio profissionalismo no cuidado que se apresenta subdividido em código de ética das profissões e credenciamento dos profissionais, chama atenção o fato de em cinco
websites não ser possível identificar tais informações. Considerando que os conteúdos
apresentados são informações relacionadas à saúde é importante identificar quem é responsável pelos conteúdos, qual a categoria profissional, bem como a identificação do conselho de classe.
No caso de websites que favorecem a opção de interação online entre profissionais de saúde e outros adolescentes, os princípios éticos apresentados na consulta eletrônica devem ser os mesmos do código de ética das profissões envolvidas, seguindo os mesmos critérios de uma consulta face a face (RIPPEN; RISK 2000). A ideia mágica do adolescente de que todas as dúvidas serão “retiradas” na interação virtual não deve ser incentivada, como evidenciado em um dos websites, publicado por profissional liberal. Um exemplo da falha neste tipo de comunicação é demonstrado no estudo de Keller et al., (2002), que avaliou informações de 36
websites sobre DST e identificou a necessidade da interação com adolescentes para
negociação do sexo seguro, pois somente dois incluíram este tópico.
A responsabilidade social dos websites foi considerada um princípio ético importante na transformação do mundo virtual em mundo real. Este princípio foi representado pelos princípio feedback ao usuário, no qual nove cumpriram totalmente, ou, de modo parcial, quanto ao critério automonitoramento, apenas quatro cumpriram totalmente ou parcialmente, apresentando inclusive políticas de automonitoramento ético. Empresas privadas multinacionais foram responsáveis por estes websites, o que sugere o cumprimento de políticas internacionais ainda não vigentes no Brasil.
É importante salientar que o fato do website não poder ser avaliado, neste caso, evidenciou-se o consentimento esclarecido (N=2), privacidade (N=1), código de ética das profissões, credenciamento dos profissionais e automonitoramento (ambos N=5) e feedback ao usuário (N=1).
A este respeito é válido salientar que o volume de informações disponíveis em websites quase garante que algumas perguntas para usuários sejam encontradas, além de disponibilizar múltiplas fontes que abordam diferentes lados das questões. Isto difere do contato com o profissional de saúde, a quem uma única opinião é susceptível de ser ouvida, assim os adolescentes podem apreciar a perspectiva mais variada obtida na Internet, considerando, inclusive, que as opiniões podem ser encontradas na privacidade e conforto de seu computador pessoal. Esse meio facilita o questionamento de maneira desinibida e as preocupações de tempo limitado ou de não compreender a informação são minimizados
devido à infinidade de websites escritos usando terminologias para os leigos (KANUGA, ROSENFELD, 2004). Assim, quando o website permite a interação entre profissionais e usuário, a informação pode ser oferecida de modo mais educativo, considerando que o contato virtual não deve substituir o contato face-a-face.
Em estudo realizado sobre avaliação de websites sobre drogas para adolescentes, identificou um número expressivo de páginas com informações inadequadas, provenientes da crença popular, ao passo que uma função esperada seria justamente de desmistificá-las. Um número satisfatório de páginas apresentou autoria de profissionais e referências científicas, entretanto a autenticidade desse dado não foi verificada (PORTAL et al., 2009).
Neste contexto, os profissionais de saúde devem considerar a complexidade do adolescente e reconhecer sua intimidade cada vez maior com conteúdos disponíveis na Internet, sendo essencial que websites direcionados a essa faixa etária sejam acompanhados, monitorados, para que os princípios éticos no tocante à informação disponibilizada sejam respeitados, de acordo com o Estatuto da Criança e Adolescente (ECA), artigo 71, conforme mencionado anteriormente.