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Dado, então, a importância dos meios de comunicação de massa, Thompson (2007) observa que nas sociedades atuais, os meios de comunicação se constituem como sendo as instâncias centrais de produção e difusão das ideologias (muito embora não sejam considerados os únicos locais de operação das mesmas). Assim, em virtude de seu grande avanço nos últimos anos, os mass media foram responsáveis por ampliar o raio de ação das ideologias, uma vez que possibilitaram que as formas simbólicas fossem transmitidas a extensas audiências no tempo e no espaço.

Com o desenvolvimento dos meios impressos de massa, os fenômenos ideológicos, que antes estavam restritos a locais particulares ou a estratos específicos da sociedade, puderam, então, emergir a condição de fenômenos de massa, posteriormente, com a chegada dos meios eletrônicos, e especialmente a televisão, o caráter e o potencial de massa dos fenômenos ideológicos acentuaram-se ainda mais. Thompson observa que:

Os meios eletrônicos possibilitaram às formas simbólicas circularem numa escala sem precedentes, alcançarem vastas audiências, invadirem o espaço de uma maneira mais ou menos simultânea. Nunca, anteriormente, a capacidade de circulação das formas simbólicas foi tão grande como na era da comunicação de massa mediada eletronicamente (THOMPSON, 2007, p. 344).

O desenvolvimento da comunicação eletrônica foi, assim, fundamental para propagação das formas simbólicas e conseqüentemente das ideologias, não é irrefletidamente que o autor considera que:

Vivemos, hoje, em sociedades em que a difusão de formas simbólicas através dos meios eletrônicos se tornou um modo de transmissão cultural comum e, sob certos aspectos, fundamental. A cultura moderna é, de uma maneira cada vez maior, uma

foram suplementados – e até certo ponto substituídos – por modos de transmissão baseados nos meios eletrônicos (THOMPSON, 2007, p. 297).

Em meio a este cenário, como já expressamos, a televisão tem se constituído como o principal meio de comunicação, uma vez que se destaca por sua capilaridade no mundo social. Segundo Thompson, isso se justifica pelo fato de que, até certo ponto, o aparelho de TV, se apresenta como “um componente doméstico que ocupa uma posição central na casa, e que é um ponto ao redor do qual muita interação social se dá”. Ainda mais, “as habilidades necessárias para decodificar as mensagens [...], são, muitas vezes, menos sofisticadas e implicam menos treino especializado do que as exigidas para decodificar as mensagens transmitidas por outros meios, tal como o material impresso” (THOMPSON, 2007, p. 344-5).

A televisão, segundo Theodor Adorno (1978b), insere-se no âmbito da indústria cultural e, enquanto combinação de filme e rádio leva a diante o seu interesse em cercar e capturar a consciência do público por todos os lados. É a combinação de “imagem e fala, fala e imagem” da qual nos orienta Charaudeau (2009) e que deriva a singular estruturação semiológica das formas simbólicas por ela difundidas. Outrossim, conforme o autor citado, “dessa combinação de imagem e palavra nasce um produto, talvez mais apto do que outros a fabricar imaginário para o grande público”. Com efeito, como veículo de produção e difusão de sentidos, a televisão se apresenta como um poderoso instrumento de atratividade social.

A televisão, como foi dito, faz parte da tão discutida “indústria cultural” que, com este termo, Max Horkheimer e Theodor Adorno (1982) buscaram designar a produção e a organização da cultura no contexto das relações capitalistas de produção. A cultura, como mercadoria integral, é lançada num vasto mercado e consumida por um grande público e os meios de comunicação, — sobretudo a televisão — ora funcionando como produto e como principal veículo de massa —, são orientados no sentido de insuflar cada vez mais o espírito do consumo.

A questão que se impõem, não obstante, é que a indústria cultural, através da televisão, difunde, enormemente, inúmeras idéias, representações e ideologias de uma ordem extremamente afinada ao capital e aos interesses de alguns poderosos. Adorno observa que através da ideologia da indústria cultural “o conformismo substitui a consciência”, pois “as idéias de ordem que ela inculca são sempre as do status-quo”. Assim, “as elucubrações da indústria cultural não são nem regra para uma vida feliz, nem uma nova arte da responsabilidade moral, mas exortações a conformar-se naquilo atrás do qual estão os interesses poderosos” (ADORNO, 1978a, p. 293).

Reconhecer a televisão como produto da indústria cultural é, não obstante, utilizar uma designação que a descreve apropriadamente. Entretanto, conforme salienta Carlos Eduardo Silva (1985), jornalista e autor de “Muito além do jardim botânico”, não se pode deixar conduzir pela maneira acrítica com que tal referência foi sendo incorporada por muitos estudiosos ao longo dos anos, o que, por sua vez, acabou por condenar a “indústria cultural”, enquanto conceito, a carregar o fardo do determinismo:

Quase todos que a utiliza o fazem como se os meios de comunicação de massa fossem instrumentos de controle e manipulação do pensamento coletivo que representam monoliticamente a ideologia dominante absorvida de forma passiva e ordeira por uma ignara massa de espectadores alienados. [...] O erro deste tipo de interpretação, tão corrente nos textos que ainda hoje lidam com o fenômeno da comunicação (apesar de tantas úteis revisões do trabalho da Escola de Frankfurt), reside numa apreensão equivocada da história da cultura humana (SILVA, 1985, p. 20).

Nesse sentido, ainda que haja uma considerável carga pejorativa sobre tal termo, a utilização que fazemos, procura desvencilhar-se de uma leitura fatalista da “indústria cultural”. Por isso, traduzimos, primeiramente, que os efeitos regressivos dos meios de massa, tão acentuados pelos autores da Escola de Frankfurt, não diz respeito em si, enquanto aparelhos técnicos de comunicação, mas a utilização instrumental que o homem faz deles 23.

Ademais, em nossa interpretação, a indústria cultural veicula nos bens que produz, e são consumidos pelo público, uma ideologia hegemonicamente burguesa. Ela é, na maior parte dos países capitalistas, o principal instrumento através do qual se reproduzem os valores culturais e ideológicos indispensáveis para a manutenção do poder da burguesia sobre as demais classes sociais.

Contudo, para que tal hegemonia seja efetiva, é necessário que haja espaços para expressão de pensamentos conflitantes. Dessa forma, não se pode concluir que ela divulga uma visão ideológica de mundo de caráter monolítico, dado que em seu interior, há a presença permanente de contradições, uma luta de classes que reflete e influencia a da sociedade como um todo (SILVA, 1985, p. 21-2).

No que toca ao caráter de recepção das mensagens transmitidas pela indústria cultural, uma análise atenciosa dos meios de massa leva em consideração o critério ativo e

23 Em virtude da critica incisiva que os autores desenvolvem sobre os meios de comunicação, surgiram inúmeras interpretações nessa ordem, as quais, defendemos, não é a dos autores. Ao contrário é impossível não reconhecer a importância dos meios de massa para toda a sociedade, sua relevância e utilidade para a comunicação contemporânea.

diferenciado da recepção midiática, não deixando de considerar, por outro lado, a força e o poder ideológico dos meios de comunicação na sociedade.

Entendemos que o processo de recepção das informações acontece através de diferentes interpretações e reelaborações que as pessoas e as classes sociais formulam sobre as mensagens no ato de ver e ouví-las. Thompson (2007, p. 409), inclusive, chama atenção para a idéia falaciosa de que os receptores de mensagens midiáticas são espectadores passivos, considerados “esponjas” que simplesmente absorvem o material jogado sobre eles. Ao contrário, a apropriação das formas simbólicas é um processo ativo e potencialmente crítico que, entre outras características, apresenta-se de maneira contextualizada, isto é, considera-se que a recepção de mensagens procura responder a questionamentos como: quem interpreta? Como? Em que lugar? Quando? Com quem? Que grupo pertence? etc., são evidências da dimensão sócio-histórica da apropriação das mensagens midiáticas.

A televisão, dessa forma, sendo parte fundamental da indústria cultural, é responsável por elaborar e transmitir inúmeros programas como filmes, novelas, documentários, reportagens especiais, programas humorísticos e de esportes. Em fim, um conjunto vasto de construções simbólicas que, somados à programação de comerciais, divulga informações e pensamentos que se colocam, naturalmente, como capazes de orientar o público em suas mais diversas necessidades.

Não obstante, muitos pesquisadores salientam que, conquanto este tipo de programação represente parte significativa da televisão, ela não pode ser considerada uma indústria do entretenimentopuro; a televisão é, antes, a combinação de todas as dimensões da cultura de massa, sendo, também, dotadapelo setor da informação (GOMES, 2004, p. 344). Inclusive, é importante que se diga que os programas informativosque mais têm se destacado na TV, hoje em dia (o que não foi sempre assim24), são os telejornais. Aliás, conforme observa o jornalista Marcondes Filho (2009, p. 79), o telejornal como gênero jornalístico, não só é o mais importante em matéria de noticiário da televisão, como é a melhor síntese do formato televisivo contemporâneo.

O telejornalismo, segundo o autor, foi, em seu inicio, uma variante do jornalismo impresso, uma espécie de leitura televisionada de notícias da imprensa. Com a criação da linguagem própria da TV, resultado de seu desenvolvimento técnico a partir dos anos 60, o telejornal passou a ganhar uma roupagem própria, transformando-se de uma simples leitura de notícias a um “show televisivo”. Como resultado de muitos investimentos no campo e de,

também, desenvolvimentos tecnológicos verificados nos meios de massa, os jornais, desde então, vêm crescentementese aprimorando e apresentando, também, uma produção jornalística padronizada em todo mundo (MARCONDES FILHO, 2009, p. 79).

Neste ínterim, para Charaudeau (2009, p. 228) um telejornal é um gênero quese particulariza por apresentar, entre outros, um “propósito marcado pela atualidade, voltado para os acontecimentos do dia que são notícias, apresentados numa espécie de cardápio do que se terá para mastigar, seja bom ou mau”:

Espera-se do telejornal um recorte do mundo evenemencial em pequenos pedaços, recorte que mostraria o que ocorreu no espaço público, durante uma unidade de tempo – o cotidiano – a qual seria a mesma para todos os telespectadores. O telejornal procede a uma fragmentação temática que pretende corresponder à fragmentação do cotidiano do espaço público, mas que na realidade, é uma fragmentação convencional do mundo midiático, uma racionalização, imposta como um pensamento único do que são os acontecimentos do mundo (CHARAUDEAU, 2009, p. 228-9).

De acordo com Charaudeau, o gênero telejornal caracteriza-se por uma preocupação referencial, a qual é captada e representada por meio do formato da notícia. Todavia, o telejornal sob a proposta de tornar visíveis os acontecimentos que surgem no mundo ou na vida pública, nada mais faz do que entregar já pronto um mundo “evenemencial” 25 construído por ele próprio e em fragmentos. Trata-se de uma ilusão de realismo ou de um simulacro da realidade produzido pela televisão. Mas, “é através desse ‘fazer crer’ que o telejornal se define” (CHARAUDEAU, 2009, p. 230).

Essa construção é bastante oportuna, uma vez que o autor põe em evidência o fato, nem sempre óbvio, de que a notícia configura-se como uma realidade fragmentária, fundamentalmente construída por meio das atividades de produção de um programa de telejornal. Essa percepção, por mais simples que pareça, rompe com a ideia, ainda corrente e muito difundida pelos mass media, de que “o jornalismo reflete a realidade. Ou seja, as notícias são do jeito que as conhecemos porque a realidade assim a determina. A imprensa funciona como o espelho do real, apresentando um reflexo claro dos acontecimentos do cotidiano” (PENA, 2008, p. 126).

Essa reflexão, bastante conhecida como “teoria do espelho” e que foi desenvolvida nos Estados Unidos a partir da segunda metade do século XIX, entra em confronto com perspectivas mais atuais como o “newsmaking” muito estudado por autores como Gaye Tuchman, Mauro Wolf e Nelson Traquina. Para estes teóricos, ao contrário, “o jornalismo

está longe de ser o espelho do real. É, antes, a construção social de uma suposta realidade”, dado que “é no trabalho de enunciação que os jornalistas produzem os discursos, que submetidos a uma serie de operações e pressões sociais, constituem o que o senso comum das redações chama de notícia. Assim, a imprensa não reflete a realidade, mas ajuda a construí-la” (PENA, 2008, p. 128).

Esta perspectiva é fundamental para o presente trabalho, porque procura tratar a notícia como parte de uma “construção social da realidade” (BERGER; LUCKMANN, 2004) e não como algo simplesmente natural ou mesmo a-histórico, desmistificando conceitos extremamente ideológicos que estão na base da teoria do espelho, tais como: “objetividade” e “imparcialidade”.

Assim, da determinação do que é o acontecimento à construção da notícia, a interferência do jornalista se faz presente em quase todos os momentos, sendo, inclusive, um ponto crucial na realização de seu trabalho o processo de seleção das noticias. Neste sentido, conforme adita Luis Felipe Miguel (2004), primeiro, tem-se o desafio em decidir quais dos fatos que chegam à redação, entre incontáveis opções, são os mais “relevantes” 26; segundo, em definir quais aspectos do acontecimento serão abordados na construção da notícia.

De acordo com o mesmo autor, os procedimentos de mediação sobre os acontecimentos, como o enquadramento da câmera e a edição, são tidos como determinantes que o espectador em geral ignora. Imagens que passam por processos sofisticados de trucagem e retocagem, quase sempre estão emolduradas por discursos lingüísticos que induzem a interpretação (MIGUEL, 2004, p. 334-5).

Assim,

Na rotina produtiva diária das redações de todo o mundo, há um excesso de fatos que chegam ao conhecimento dos jornalistas. Mas apenas uma pequena parte deles é publicada ou veiculada. Ou seja, apenas uma pequena parte vira notícia. O que pode levar qualquer leitor ou telespectador a perguntar: afinal, qual é o critério utilizado pelos profissionais da imprensa para escolher que fatos devem ou não virar notícias? (PENA, 2008, p. 71).

Trata-se de um fato que, por si só, daria uma nova discussão, o que não é essa a nossa intenção aqui, da mesma forma que não há espaço para tanto. Todavia, reflete bem o caso inquietante que está na base do significado do que é a notícia e, é obvio, existem muitas teorias e práticas que guardam suas definições específicas.

26Podemos até citar como exemplo os importantes critérios de “noticiabilidade”, como são os famosos “valores- notícia”, tão acentuados pelos pesquisadores Wolf e Traquina. Conf. PENA, 2008.

Em todo caso, sem entrar em discussão sobre a amplitude do termo, podemos entender a notícia, a princípio, como um “relato curto de um fato” (NOBLAT, apud PENA, 2008, p. 76) que se constitui como sendo a matéria-prima de um telejornal. Nesse sentido, Charaudeau a conceitua, de maneira bastante apropriada, como sendo “[...] um conjunto de informações que se relaciona a um mesmo espaço temático, tendo um caráter de novidade, proveniente de uma determinada fonte e podendo ser diversamente tratado” (CHARAUDEAU, 2009, p. 132).

Assim, conforme o autor, um mesmo “espaço temático”, significa que o acontecimento é um fato que se inscreve num certo domínio do espaço público e que pode ser reportado sob a forma de um minirrelato. Um caráter de “novidade” se refere, sempre, a um elemento novo na notícia, portanto, desconhecido do público, ainda que se tenha falado anteriormente do acontecimento. Já uma “fonte” se reporta a uma determinada instância que transforma o acontecimento em informação e que esta, será, inclusive, avaliada em termos de credibilidade pela natureza da fonte. Por fim, o que Charaudeau entende por “diversamente tratado” significa que a notícia é tratada sob uma forma discursiva que descreve o que passou, reporta a reações e analisa os fatos (CHARAUDEAU, 2009, p. 132).

Como, porém, é também importante entendê-la do ponto de vista de sua construção, pode-se dizer, ainda, que a notícia, como a concebemos, é resultado da interação de múltiplas ações:

Ação pessoal: as notícias resultam parcialmente das pessoas e suas intenções; Ação social: as notícias são fruto das dinâmicas e dos constrangimentos o sistema social;

Ação ideológica: as notícias têm origem nas forças de interesse que dão coesão aos grupos; Ação cultural: as notícias são produto do sistema cultural em que são

produzidas; Ação do meio físico: as notícias dependem dos dispositivos tecnológicos que são usados na sua fabricação; Ação histórica: as notícias são um produto da história, durante a qual interagem as outras cinco forças (SOUZA, apud PENA, 2008, p. 132, grifo nosso).

Observem que a notícia é resultado não apenas da ação das pessoas, como os jornalistas e possivelmente suas intenções. Mas, também, tem origem no campo ideológico em que as forças de interesses na sociedadese fazem presentes. A notícia, nesse ínterim, como está associada, de algum modo, à “indústria cultural”, reflete no seu interior a luta de classes na sociedade. É, portanto, um espaço de veiculação de ideologias.