De acordo com Thompson (2007), como o estudo da hermenêutica não pode prescindir apenas do entendimento das condições sociais e históricas em que as formas simbólicas são produzidas, faremos, neste exato momento, a decomposição da estrutura interna dos conteúdos midiáticos, levando em consideração a análise sócio-histórica anteriormente realizada.
Dessa forma, não apenas nos distanciaremos da chamada “falácia do reducionismo”, que apregoa que as formas simbólicas podem ser entendidas em função, simplesmente, do contexto de produção e/ou recepção das mensagens midiáticas 39, como também da conhecida “falácia do internalismo”, que significa a tentativa de pretender inferir conseqüências das mensagens a partir, unicamente, da estrutura e conteúdo das mesmas.
Assim, passamos, propriamente, à análise das notícias veiculadas pelo Jornal do Dia em sua cobertura dos acontecimentos políticos do Rio Grande do Norte. Nosso propósito
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nesta fase é buscar entender como, através da estrutura narrativa e argumentativa das matérias jornalísticas, o referido telejornal vem realizando o tratamento dos fatos políticos do estado.
Para tanto, reproduzimos os relatos das notícias abaixo e sobre eles efetuamos uma primeira análise. Procedemos, também, a sua organização, em quatro temas gerais, como sublinhamos na metodologia (“corrupção na política”, “greve no estado”, “atividades do executivo e do legislativo municipal e estadual” e “atuações político-partidária” no estado), tendo em vista um melhor estudo e interpretação do material midiático que ocorrerá logo em seguida. Vejamos:
No dia 24 de Novembro de 2011 um escândalo de corrupção em Natal envolvendo políticos do Rio Grande do Norte ganha repercussão nos noticiários do estado: a “Operação Sinal Fechado” (OSF). Operação realizada pelo Ministério Público do Estado (MPE) que investigou um esquema de fraude no processo de implantação da inspeção veicular no RN. Três nomes de políticos se destacaram nos meios de comunicação: o ex-deputado federal João Faustino (PSDB), o ex-governador Iberê Ferreira de Souza (PSB), e a ex-governadora Wilma de Faria (PSB).
A questão, entretanto, é a maneira como o acontecimento político foi veiculado pela emissora. Abaixo, transcrevemos um trecho da matéria, referente à data mencionada, como exemplo do relato do acontecimento:
Geórgia Nery: as denúncias que revelaram uma suposta articulação de ação fraudulenta investigada pelo MP vincularam também nomes de políticos do estado. Luis Henrique: os nomes dos ex-governadores Wilma de Faria e Iberê Ferreira de Sousa são apontados no envolvimento do esquema. Iberê e o filho de Wilma, Lauro Maia, teriam recebido propina da empresa vencedora da licitação.
Repórter (Riccelli Araújo): Caso tivesse vigorado o contrato do governo do estado com a empresa “Inspar”, que iria efetuar a inspeção na frota de veículos em todo o Rio Grande do Norte, o lucro no prazo de vinte anos seria de 1 bilhão de reais, esse é um dos dados revelados pelas investigações do MPE divulgados, hoje, durante a operação Sinal Fechado [...]. A investigação descobriu que o contrato foi fraudado desde o processo de elaboração da lei até o momento da licitação. Os promotores de justiça chegaram ainda a identificar como líder da quadrilha o empresário, advogado e lobista George Anderson Olímpio da Silveira. Os nomes dos ex-governadores do Rio Grande do Norte, Wilma de Faria, Iberê Ferreira de Sousa e do então diretor geral do DETRAN, à época dos acontecimentos, Carlos Teodorico de Carvalho Bezerra, foram apontados como beneficiários pelo esquema. De acordo com a nota oficial divulgada pelo MPE, George Anderson teria efetuado o pagamento de propina ao ex-governador Iberê Ferreira de Sousa, ao advogado e filho da ex- governadora Wilma de Faria, Lauro Maia, a Marcos Vinícius Furtado, Procurador Geral do DETRAN e ao ex-deputado federal e suplente de senador João Faustino Ferreira Neto, detido na manhã de hoje:
Entrevista (João Faustino Ferreira Neto): tô sendo vítima de um grande equívoco que não sei ainda traduzir sua dimensão, mas espero e confio na justiça, entendo que haverá, no momento oportuno, uma decisão que haverá de elucidar todo esse processo Kafkiano, não sei exatamente nem a origem, nem o meio, nem o fim.
Além do ex-parlamentar, foram detidos empresários, contadores e advogados no esquema [...]. O senador José Agripino externou por meio do micro blog tuwitter solidariedade ao correligionário político. Na postagem José Agripino afirma, abre aspas: o passado de João Faustino é suficiente para garantir credibilidade ao que ele venha a dizer sobre o assunto, fecha aspas.
Conforme pensa Charaudeau (2009, p. 157) os meios de comunicação se constituem como uma espécie de “meganarrador” compósito, onde a narrativa que produz é resultado da fonte de informação a que tem origem a notícia, do jornalista que a redige e também da redação que a insere numa determinada encenação40. Essa composição torna-se aqui particularmente útil, uma vez que a empregamos para se referir ao Jornal do Dia, evitando-se, também, em responsabilizar, individualmente, o jornalista apresentador do programa ou o repórter que normalmente emprestam a sua voz para a efetivação do discurso midiático.
Partindo-se, assim, da presença do referido narrador na construção do discurso televisivo, podemos observar que o fato relatado, abre-se, através da enunciação dos jornalistas (Geórgia Nery e Luis Henrique), com uma revelação, cuja linguagem corrente a definiria como sendo “bombástica” e tem, justamente, por intenção impactar o telespectador: a vinculação de nomes políticos de destaque no estado a um caso de corrupção. Trata-se de uma notícia, conforme acentua Thompson (2002), referente a “um escândalo político”.
Essa narrativa, porém, apresenta um viés claro, ela se sustenta em uma denúncia de corrupção que, apesar de várias pessoas encontrarem-se envolvidas, centra-se nos nomes dos ex-governadores Wilma de Faria e Iberê Ferreira de Sousa, o que, até certo ponto, poderia ser justificada por se tratar de pessoas públicas no estado (outro nome, também, bastante citado nas matérias concernentes à OSF é a do ex-deputado federal João Faustino, porém comumente atreladas a ressalvas).
Assim, da forma como foi construída, a narrativa acima procura seguir uma ordem cronológica de apresentação da denúncia que incorpore fatos desconhecidos do público, associadas a explicações parciais do acontecimento, sendo objetivo da notícia tornar o mais claro possível o envolvimento de tais políticos no caso.
Por outro lado, a matéria faz uso vasto de recursos como suposições impactantes (o possível lucro de 1bilhão, em 20 anos, que renderia aos acusados) e termos valorativos (como “fraude”, “propina”, “quadrilha”, “esquema”, etc.) que associados aos nomes dos políticos,
40Conforme o autor essa característica midiática coloca em pauta uma importante questão: quem é o responsável pela narrativa? Juridicamente, é o organismo de informação, mas discursivamente não se sabe. Essa é uma grande diferença em relação às narrativas de romances onde se apresentam, mais claramente, um narrador e um autor.
ajudam a desconstruir uma imagem que é a fonte de prestígio social ou o “capital simbólico” de qualquer pessoa pública, e sem os quais a atividade política não se sustentaria.
Observamos também, que sendo bastante comum aos meios de comunicação abrir espaço (evidentemente, até certo ponto) ao discurso adversário, o que oportunamente acaba por incorporar a si uma imagem “democrática” 41, o relato do acontecimento, entretanto, não apresenta, ao menos da forma como está sendo expresso, a voz de justificação dos acusados políticos como Iberê e Wilma diante de tais acusações. Também, a notícia não apresenta ao telespectador as razões de tal ausência, o que deixa a suspeitar, ainda mais, a maneira como vem sendo conduzida a informação.
Um outro ponto, é que ao “fechar” a notícia, não só João Faustino (PSDB) encontra espaço para uma real justificação do ocorrido, como, principalmente, a narrativa midiática expressa ao seu favor o discurso do correligionário político, o senador José Agripino Maia (DEM), o qual gozando de significativo prestígio no estado, realiza a sua ampla defesa.
O que queremos evidenciar, é que, embora não se deixe transparecer em tal narrativa (dado o caráter ideológico, fragmentário e descontextualizado da mesma), ambos os políticos do PSB (Iberê e Wilma) se caracterizam como adversários e oposição no estado; já João Faustino é reconhecidamente (ao menos até o momento do acontecimento) um aliado forte do grupo governista, na capital e no estado, estes representados pelo senador José Agripino, a governadora Rosalba Ciarline Rosado (DEM) e a prefeita Micarla de Sousa (PV).
Obviamente, não se trata de negar ou afirmar a responsabilidade de “tal e qual” político envolvido na denúncia, até porque não é essa a nossa função, mas de perceber como a notícia está sendo estruturada, isto é, a quem interessa tal construção?
Com efeito, a narrativa não seria o bastante se não fosse os comentários do Jornalista Ricardo Rosado em um quadro político chamado “Opinião”. Trata-se de um comentário rápido que ocorre logo após a uma matéria específica, julgada importante pelo telejornal, e que “necessita” da opinião de um profissional da área. Ricardo Rosado é Jornalista e Professor de Comunicação Social da UFRN, pertence à família Rosado, um grupo político do interior do estado, mas com forte presença na capital. Salientamos que a governadora Rosalba Ciarline (Rosado) é a atual representante desse grupo que tem se articulado, claramente, com o senador José Agripino.
41 O que muitos meios de comunicação têm feito com relativo sucesso. Na maioria das vezes essa fórmula mais esconde do que demonstra as reais intenções, já que se tenta almejar, com isso, a tão sonhada “imparcialidade” midiática.
Ricardo Rosado – [...] esperança..., esperança na polícia, esperança na justiça, que foi uma mulher, tomou a decisão de mandar prender, mandar investigar o assunto, em fim, esse assunto foi tema polêmico no começo do ano, na mudança para o novo governo, essas coisas começaram a pipocar, a gente comentou nos blogs, nas redes sociais o que era o absurdo esse contrato entre o consórcio “Inspar” e o governo do estado, esperança, por exemplo, a governadora não pode fazer um bom governo,
“um governo revolucionário”, mas que pelo menos seja um governo honesto já
que mandou cancelar um contrato absurdo como esse [...].
O fragmento acima tem como pretensão tecer um comentário sobre a OSF, para tanto, apresenta como asserção inicial a decisão de se investigar o referente caso de corrupção. Partindo-se de tal fato (e pautando-se em um “sentimento de justiça”), o jornalista Ricardo Rosado faz uma defesa política clara, argumentando em favor do governo Rosalba. Elogia o fato de a governadora ter cancelado o contrato com a empresa Inspar, utilizando-se, para tanto, de estratégias ideológicas como a ironia e a metáfora, expressas em palavras como “bom governo” ou “um governo revolucionário” ao se referir à administração anterior 42 e termos morais como “esperança” e “honestidade”. Pode-se daí depreender que a corrupção pertence ao governo anterior e que o governo atual possui uma qualidade que o outro não teve que é a honestidade.
Assim, a maneira como avalia o fato político distancia-se da tão pretensa neutralidade jornalística que insiste em anunciar o jornal, entretanto, a parcialidade política do comentário que desenvolve atende claramente a interesses de grupo, possibilitando-nos a questionar: a que vem tal notícia? Legitimar simbolicamente um grupo no poder?
Observemos, então, outra matéria nesse mesmo sentido, isto é, de denúncias sobre possíveis casos de corrupção no estado. A notícia refere-se ao executivo municipal e diz respeito à Comissão Especial de Inquérito (CEI) que investiga os contratos realizados pela prefeitura municipal de Natal durante o ano de 2011. A matéria foi publicada no dia 25 de Novembro:
Geórgia Nery: Mais uma rodada de depoimentos. A Comissão Especial de Inquérito que investiga os contratos da prefeitura de Natal ouviu novos representantes do executivo.
Luis Henrique: entre os que responderam os questionamentos dos vereadores estão os representantes da Secretaria Municipal de Trabalho e Assistência Social, da Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social e da Secretaria da Saúde.
Repórter (Riccelli Araújo): Mais uma manhã de depoimentos na CEI que investiga os contratos realizados por diversas secretarias do município de Natal. Dessa vez, o espaço foi aberto aos depoentes que não compareceram e justificaram a ausência em data marcada anteriormente. O primeiro depoimento a presidente da CEI, a vereadora Júlia Arruda, foi do Secretario Municipal de Trabalho e Ação Social, Alcedo Borges de Melo Júnior, ele falou dos contratos de locação de imóveis
42Wilma de Faria foi a governadora do estado na administração anterior (2006-2009), tendo como vice Iberê Ferreira de Sousa.
utilizados pela CENTAS e também do contrato do município com a ONG ATIVA. A atividade no palácio padre Miguelinho vai continuar no horário da tarde.
A CEI foi organizada em virtude dos protestos do movimento “fora Micarla” que ocupou a Câmara Municipal de Natal e exigiu a formação de um comitê para analisar os contratos realizados na atual gestão da prefeita Micarla de Sousa43. Aparentemente o relato acima não revela “fatos” ou “ditos” que possam ser considerados comprometedores à instância midiática, pois a notícia apresenta, em um primeiro momento, uma narrativa “despretensiosa”. Observemos que o assunto sobre a CEI se refere aos depoimentos que não foram realizados. A narrativa faz uma reconstituição da informação (CEI), com uma abertura bem “marcada” (definindo o que se trata), explicações globais e um fechamento que indica a continuidade do acontecimento, revelando a possibilidade de reativação da notícia.
O que chama atenção, porém, é que embora estejamos diante de uma notícia bastante divulgada pelos meios de comunicação (sobretudo pela internet), ela poderia não ser coberta pelo Jornal do Dia, já que se trata de uma emissora cuja proprietária é a prefeita Micarla e, principalmente, de um processo de investigação que põem em descrédito a sua administração, uma vez que esta, já goza de baixos índices de popularidade na capital 44.
Pela análise da notícia, onde expõe uma narrativa de caráter geral ou generalizante, estamos diante daquilo que Pierre Bourdieu (1997) chama de “ocultar mostrando”, isto é, “mostrando o que é preciso mostrar, mas de tal maneira que não é mostrado ou se torna insignificante, ou construindo-o de tal maneira que adquire um sentido que não corresponde absolutamente à realidade”. A notícia, assim, não realiza uma cobertura de maneira mais crítica em abordar o assunto, explicitando conteúdos mais relevantes e esclarecedores, já que se trata de um fato que envolve a administração pública e diz respeito a todos.
Agora, diante de outra matéria, com o tema de greve no estado, a situação observada, de que o fato político adquire determinadas características, a depender da forma como é
43O movimento “fora Micarla” teve início nas redes sociais e rapidamente alcançou as ruas de Natal ao final de Maio e começo de Junho de 2011. Sob a alegação de uma administração vazia, indícios de irregularidades em contratos públicos e problemas de infra-estrutura na cidade, estudantes universitários ocuparam, no dia 7 de Junho, o pátio da Câmara Municipal da cidade e passaram a reivindicar a abertura de um processo de impeachment contra a prefeita, uma audiência pública e abertura de uma Comissão de Investigação Especial (CEI). Após muitos embates, no dia 22 de Junho os manifestantes conseguiram a instalação oficial da CEI que ficou registrada nos meios de comunicação como a “CEI dos contratos”.
44 Talvez o próprio fato de ser um assunto muito divulgado nos mass media e resultado do protesto “fora Micarla”, as matérias se impuseram no próprio veículo de comunicação da família Sousa. Já o protesto, em si, apresentou, em seu telejornal, uma cobertura marcada por apenas algumas matériainiciais, o que depois já não foi mais coberto. É importante lembrar que a administração de Micarla registrou, durante 2011, altos índices de desaprovação, chegando a alcançar os 84,5% (91,2% entre os que possuem curso superior), segundo pesquisa do Instituto Consult realizada entre 17 a 23 de março em Natal. Cf.: Tribuna do Norte, Natal, 25 de mar. 2011.
construída, parece se confirmar na notícia referente à greve do ITEP exibida em 22 de Novembro de 2011. A matéria, transcrita logo abaixo, foi ao ar na 2ª edição do programa:
Renata Passos: Servidores do Instituto Técnico e Científico de Polícia, o ITEP, paralisaram as atividades por advertência, por 48hrs. Hoje quem procurou o serviço do órgão ficou sem atendimento.
Repórter (Rogério Fernandes): na frente do ITEP, no bairro da Ribeira em Natal, no prédio onde funciona o necrotério e a perícia, uma faixa deixava bastante claro: “estamos em greve”. A paralisação é por dois dias e abrange todos os serviços da instituição, com exceção dos flagrantes e da remoção de corpos. Aqui na COID (Coordenadoria de Identificação), que fica numa rua por trás do necrotério do ITEP, a situação é a mesma. A faixa já diz: “estamos em greve”, nada funciona!!!. É aqui que são emitidas as carteiras de identidades, o RG, primeira e segunda via. Mas olha só, o funcionamento normal seria esse das 8 às 14 horas, de segunda a sexta, mas quem chega aqui não consegue fazer nada, volta!!! Lá dentro, tudo vazio!!! nada funciona.
[...] enquanto isso, na sede do sindicato dos policiais civis, no centro da cidade, o plenário lotado de funcionários do ITEP e uma determinação: que o governo do estado cumpra com a promessa, feita no começo do ano, portanto no começo do governo e envie para a assembléia legislativa o projeto que trata do estatuto do órgão.
Segundo Charaudeau (2009, p. 159) é comum à narrativa midiática introduzir sua “abertura” por um processo de “ataque”, como se diz no jargão jornalístico. Isso corresponde a uma entrada dramatizante, como a que se observa acima. A maneira inquietante de o repórter iniciar o relato tem por objetivo criar um clima de suspense para atrair e ao mesmo tempo apreender a atenção do telespectador.
A notícia segue uma ordem cronológica que facilita bem a assimilação do público, justamente por corresponder a uma lógica de encadeamento mais próxima da experiência ingênua. Essa reconstituição dos fatos é feita com muitos qualificativos dramatizantes (“Lá dentro, tudo vazio!!! nada funciona”) até alcançar-se o “clímax” da notícia diante de tanto suspense: todos reunidos exigindo o cumprimento da promessa feita pelo governo em enviar à assembléia legislativa “o projeto que trata do estatuto do órgão”.
O desafio, entretanto, está na forma como o fato está sendo construído, isto é, pautado na espetacularização da notícia e no exagero de sua dramatização, assim a informação transmitida acaba por gerar certo pânico na população. Além do mais, como não há uma real problematização do assunto, com o possível motivo da greve sendo situado no último instante da notícia, produze-se a desqualificação do movimento dos trabalhadores do ITEP, conferindo-lhes um aspecto de irresponsabilidade. Outrossim, a maneira como vem sendo posta o acontecimento, coloca a população contra os grevistas.
Acrescentamos outra notícia semelhante, tornada pública em 09 de Dezembro de 2011, para que não reste dúvida do fato:
Renata Passos – mesmo após a justiça decretar a ilegalidade da greve dos servidores do ITEP os serviços do Instituto ainda não foram restabelecidos, quem procurou o órgão, hoje, continuou sem atendimento.
Repórter (Rogério Fernandes): Miriam Barbosa foi espancada pelo marido, ela veio de santa cruz para fazer o exame de corpo de delito, mas vai voltar para a cidade de mãos vazias:
Entrevista (Miriam Barbosa): vim fazer o exame de corpo de delito, quando cheguei aqui tudo em greve, isso é uma falta de vergonha do governo, não é?, vou voltar na mesma.
Repórter (Rogério Fernandes): Por causa da greve do ITEP, serviços como emissão de identidade, atestado de antecedentes criminais e exames de corpo de delito estão suspensos, os 30% obrigatórios por lei de funcionamento estão concentrados apenas para registro de flagrantes e para o setor de necrotério [...].
Repórter (Rogério Fernandes): Na tarde desta quinta-feira o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte decretou a ilegalidade da greve. O desembargador Rafael Godeiro ainda determinou a volta imediata dos servidores ao trabalho sob multa diária no valor de 50 mil reais.
O acontecimento relatado procede de maneira aproximada ao relato anterior. Não obstante, discorrendo sobre o mesmo assunto, a narrativa se concentra nas conseqüências da greve. Observamos a presença da entrevistada Miriam Barbosa que, com seu discurso inserido na narrativa, confirma o acontecimento e o “dano” causado à população. Tem-se, também, o fechamento da notícia, que não significa o fechamento do fato, uma vez que é apresentado o movimento como ilegal e estando “desconforme com a lei”, porém, não se tendo a resposta ao cumprimento da “ordem”.
Com efeito, ao que dizíamos anteriormente, não há uma problematização do assunto