II. BÖLÜM
3.4. Mü teri Hizmetleri Performans
A Constituição de 1988 permitiu que as premissas de Bobbio — segundo as quais a ação política se exerce através do direito, e enquanto o direito delimita e disciplina a ação política —, se materializassem no Brasil. E diante disso, outro componente não menos importante ganhou novo impulso: a opinião pública, impossível de existir plenamente em tempos de regime ditatorial. Com efeito, o direito e por decorrência a advocacia passaram a estar permanentemente na
13 Norberto Bobbio considerava a relação entre direito e política “uma relação muito comple-
xa, de interdependência recíproca”, p. 232.
14 Além de advogado foi Governador de Pernambuco e presidente por mais 20 anos da Asso- ciação Brasileira de Imprensa — ABI.
15 Foi um dos principais advogados de presos políticos durante a ditadura militar. 16 Foi também jornalista e ministro em diversas oportunidades.
ordem do dia da opinião pública e também da política, não como personagens secundários, mas com indiscutível protagonismo.
Diferentemente da conjuntura de 1930, época em que foi comprado o Esta- do de Minas por Chateaubriand e a instabilidade política era regra, tendo o país vivenciado diversas mudanças de Constituição, algumas inclusive com índole au- toritária, a partir da ordem democrática, consagrada pela Constituição de 1988, a advocacia, a política e a opinião pública ganharam nova dimensão na sociedade. Neste novo cenário, não existem amarras autoritárias à liberdade de informação, expressão ou ao exercício da política. Ao contrário, foram garantidas a liberdade individual e coletiva de expressão e a participação do cidadão comum nos pro- cessos políticos. Além de assegurar os direitos fundamentais, a Constituição atri- buiu novas prerrogativas ao Judiciário, ao Ministério Público e aos Tribunais de Conta. No momento atual, a atuação dessas instituições é acompanhada diaria- mente pela opinião pública e seus desdobramentos repercutem na política. Em comum, estas instituições, cada uma à sua maneira e com os seus ritos, aplicam o direito e, com isso, ampliam o espaço do direito e da advocacia na sociedade.
O STF talvez seja o melhor exemplo de duas conclusões prévias que pre- cisam ficar claras: (i) a indiscutível relação de interdependência recíproca entre o direito, a advocacia, a política e a opinião pública na conjuntura atual; (ii) a fundamental importância para o advogado da compreensão dos fenômenos políticos e da capacidade de interagir com a opinião pública. Tais conclusões podem ser facilmente comprovadas mediante rápida reflexão sobre os últimos julgamentos do STF: o mensalão, a extradição de Cesare Batisti, o nepotismo, as células-tronco, o casamento gay e a aplicabilidade da lei da ficha limpa, den- tre outros. Em muitos casos, o advogado no seu exercício profissional defende uma das partes que nem sempre é a mesma que foi escolhida pela opinião pública. Esse advogado, por vezes, enfrenta não só a opinião pública, mas tam- bém a pressão das grandes mídias (que também compõem a opinião pública), colocando-o numa posição também política dentro do próprio exercício (téc- nico) da advocacia. Cada vez mais, as estratégias dos advogados e as decisões do STF têm repercutido na política e na opinião pública.
Conforme sintetizou o Professor Joaquim Falcão: “não se pode escrever a história da democracia constitucional americana, de nossa primeira constitui- ção, do abolicionismo, ou da recente redemocratização brasileira sem entender o papel da imprensa, da mídia, dos meios de comunicação, e da influência da opinião pública no processo de elaboração e de aplicação da constituição. Nem se pode também entender o julgamento do Mensalão como interpretação da constituição sem entender o papel da mídia”.18
18 FALCÃO, Joaquim. Direito, mídia e opinião pública, in Mensalão: diário de um julgamento. Rio de Janeiro: Elsevier, 2013. p. 9.
Em suma, a ordem jurídica através de seus múltiplos atores passou a in- fluenciar os rumos do país, sob qualquer perspectiva: econômica, política e social. Com isso, o advogado, além de ganhar nova dimensão na sociedade, precisa ter um olhar ainda mais abrangente sobre sua atuação profissional.
Para tanto, não necessariamente o advogado precisa ser um militante po- lítico-partidário ou jornalista, mas considerar e saber interagir com estas dife- rentes perspectivas de análise pode ser fundamental para o êxito profissional. Registre-se que êxito profissional não pode ser interpretado apenas como ga- nhar uma causa ou orientar o cliente da melhor maneira. Sem dúvida, parte do êxito na carreira se relaciona com as escolhas profissionais feitas por cada um. Ao realizar estas escolhas, aqueles que conseguem desenvolver uma análise es- tratégica considerando as tendências do país e da sociedade levam vantagem.
Como consequência dessas tendências, surgiram novas e importantes áre- as na advocacia, até então inéditas: direito arbitral, direito regulatório, direito da infraestrutura, direito desportivo, direito da internet, direito do consumidor, direito ambiental, dentre outros.
Sem dúvida alguma, o fenômeno do surgimento das Agências Reguladoras é outro bom exemplo de como a advocacia se relaciona com os rumos políticos do país. É impossível compreender o surgimento delas e seu funcionamento atual sem levar em consideração a política e a opinião pública. O cenário atual é de total indefinição, não sendo possível saber se o que restou do modelo de estado regulador será mantido, reduzido, ou se o modelo será retomado. Isto dependerá dos rumos políticos do país, porém uma coisa é certa, seguindo-se um caminho ou outro, a advocacia poderá ser afetada.
Muitos advogados que souberam fazer a leitura adequada investiram nes- sas novas áreas de maneira pioneira, recebendo ótimo retorno profissional. Se- guramente, existem novas áreas ou áreas pouco exploradas na advocacia que podem gerar boas oportunidades profissionais.
Contudo, o que se observa é um grande desinteresse dos jovens estu- dantes e advogados pela política e pela opinião pública, muitos parecem não ter percebido a fundamental importância dos acontecimentos nestas outras áreas em suas carreiras e nos rumos da profissão de uma forma geral. Por isso, os cursos de direito devem estabelecer esta relação, contextualizar questões jurídicas com casos de repercussão na opinião pública, demonstrar a histórica relação do direito e da advocacia com a política e a opinião pública, explicitar possíveis relações de causalidade e correlação entre a evolução jurídica, as decisões políticas e a opinião pública.
Alguns cursos de direito, de forma pioneira, já verificaram esta lacuna e adotaram medidas interessantes com o intuito de reverter este quadro de alie- nação. Por outro lado, é fundamental que cada indivíduo, mesmo os que não
se interessam pela vida pública nacional, estejam informados dos aconteci- mentos, pois hoje para ser um bom advogado essa é condição essencial. Além disso, o país agradecerá, pois carece de participação qualificada nos grandes debates nacionais.
Referências
BOBBIO, Norberto. Teoria Geral da Política: a filosofia política e as lições dos clássicos. Rio de Janeiro: Elsevier, 2000.
FALCÃO, Joaquim. Direito, mídia e opinião pública, in Mensalão: diário de um julgamento. Rio de Janeiro: Elsevier, 2013.
Obras Completas de Rui Barbosa, Min. da Educação e Cultura, Fundação Casa de Rui Barbosa, Tomo III, Vol. XXXVIII, 1911.
Não há nada mais estimulante e desafiador do que escrever para um jovem advogado ou estudante de direito que está passando ou acabou de passar pe- los bancos escolares e almeja uma posição no mercado da advocacia privada. Em poucas palavras, a mensagem desse breve artigo pode ser resumida nos seguintes termos: a diversidade e complexidade se confundem e se autoali- mentam em um mercado que não quer mais simplesmente os antigos bacharéis em Direito.
Nos últimos trinta anos, as capacidades exigidas de um advogado em es- critórios de advocacia empresarial ou em departamentos jurídicos de empresas mudaram muito, embora a essência continue de alguma forma resguardada. Já se foi há muito o tempo em que o advogado era um especialista em direito e um maestro na arte da advocacia. O mercado mudou e se sofisticou, tornando- -se multidisciplinar, mais complexo e, consequentemente, mais demandante. Há atualmente muito mais elementos que diferenciam um profissional e que de- vem ser dominados com segurança, sem esquecer naturalmente da capacitação técnico-jurídica, essencial para o exercício da profissão e imprescindível mesmo com todas as novas ferramentas que se apresentam para os profissionais.
A multidisciplinaridade cedeu lugar a uma miríade de demandas que se acotovelam com as demandas tradicionais. O tempo que antes era destinado a pesquisas, memorandos, petições e pareceres hoje tem que dar conta de muitas outras demandas.
Antes de mais nada, o advogado de hoje tem que ser capaz de promover o seu trabalho e de sua equipe para que seja conhecido e admirado, primeiramen-
1 Sócio de Veirano desde 1996. Associado de Baker & McKenzie e de Veirano de janeiro de 1986 a junho de 1996. Estagiário de Veirano (Baker & McKenzie), entre agosto de 1986 e dezembro de 1988. Foreign Associate de Baker & McKenzie em Chicago, trabalhando do Latin American Department de outubro de 1990 a outubro de 1991. Professor de Direito do Trabalho nos Cursos de Pós Graduação do IBMEC (2000/2003). Coordenador e Professor nos Cursos de Direito do Trabalho e Responsabilidade Civil na Pós Graduação da FGV DI- REITO RIO (2003/2004). Professor de Direito do Trabalho no Curso de Pós Graduação e de Graduação da FGV DIREITO RIO (2004/2014).
te no seu próprio local de trabalho (escritório ou empresa) e, em seguida, no mercado local nacional e internacional. Ser conhecido na sua casa é o primeiro desafio do advogado moderno, o que não é tão simples assim. Com o aumento do tamanho dos departamentos jurídicos de empresas e dos escritórios de ad- vocacia tornou-se necessário o desenvolvimento de capacidades de marketing para a própria sobrevivência do jovem advogado em seu primeiro emprego. Isso porque o seu maior e principal cliente será o advogado da sala ao lado ou do andar de cima e que tem uma especialização diferente da sua. Não raro, essa será uma fonte inesgotável de trabalho e o promotor inicial do seu sucesso. O mesmo ocorre com seus “clientes internos” em uma grande empresa.
Mas, com o passar do tempo, isso não bastará. O jovem advogado terá que se fazer conhecido no mercado. Como? Participando de comitês em câmaras de comércio, escrevendo e publicando em revistas especializadas e afins, falando em seminários, dando aulas em cursos de pós-graduação e graduação, enfim, tornando-se conhecido de todas as formas possíveis. Não se descartam mais as pós-graduações lato sensu e mesmo os mestrados stricto sensu que antes eram vistos como algo estranho à advocacia e mesmo não desejável. Havia até determinadas instituições que tinham como norma não escrita a proibição de que seus integrantes se dedicassem a mestrados ou doutorados, por serem ati- vidades excessivamente acadêmicas, incompatíveis com a prática da advocacia pragmática e focada em resultados. A conciliação da academia com a advoca- cia se deu com a constatação de que não raro os advogados mais renomados eram ou se tornaram também ativos nas mais renomadas escolas de direito, não obstante a obsessão do Ministério da Educação e Cultura em boicotar esse mo- vimento ao exigir cada vez mais que o magistério de direito seja composto por professores doutores com dedicação integral às escolas onde ensinam. Portan- to, o jovem advogado não pode descartar a sua educação continuada e mesmo os cursos de mestrado e doutorado se houver a oportunidade.
Mas não é só. O jovem advogado que pretende atuar em um mundo globa- lizado, no qual as grandes questões jurídicas não raro envolvem vários países e nascem fora do Brasil, tem que ser conhecido no mundo dos advogados globali- zados e internacionais. Com a proliferação de diretórios de advogados, original- mente concebidos e desenvolvidos em Londres e hoje presentes por todos os cantos, uma nova e desafiante tarefa consiste em reportar seus feitos e de sua equipe nos submissions para esses diretórios, como por exemplo o Chambers& Partners do Reino Unido. O objetivo final é ser listado nesses diretórios como inte- grante da Banda Um ou Band One em sua área de atuação, o que não é consegui- do sem muita dedicação não apenas à sua prática, mas também ao fornecimento de informações aos pesquisadores dessas publicações que irão ao final estabele- cer um ranking dos advogados por país e por área e estratificar o mercado.
Está implícita nesse tópico a necessidade imperiosa de o novo profissio- nal do direito ter domínio mais do que básico e preferencialmente completo de línguas estrangeiras. Ele deve ser fluente em inglês, com capacidade para participar de reuniões (inclusive por telefone), fazer apresentações, preparar memorandos e contratos, enfim, se comunicar em inglês com outros estran- geiros ou nativos da língua, já que essa é a língua universal dos negócios. Se puder dominar o espanhol, é interessante, em vista de ser a língua mais falada no hemisfério ocidental e especialmente relevante na América Latina, que po- tencialmente terá papel mais relevante nos anos que virão.
Entretanto, a necessidade de reconhecimento internacional não para nos diretórios internacionais que ranqueiam advogados. Existem cada vez mais organizações internacionais ou multinacionais promovendo inúmeros eventos nos mais distantes, pitorescos e improváveis locais, exigindo do jovem advoga- do que se disponha a estar presente em alguns desses eventos, para ver e ser visto e muitas vezes com a incumbência de participar de painéis de debates ou fazer apresentações, submetendo-se a mudanças drásticas de fuso horário e a longas viagens nas apertadas cadeiras da classe econômica (aquelas cadeiras mais espaçosas da executiva são naturalmente reservadas aos advogados mais velhos das organizações, e mesmo assim com cada vez mais restrições em vista da crescente demanda por viagens associada aos preços extorsivos das passagens em classe executiva).
Como se tudo isso não bastasse (e não basta mesmo), a busca do suces- so profissional exige mais ainda desse jovem profissional que almeja um lugar nesse grupo seleto dos advogados de grandes empresas ou escritórios. Ele tem que dominar ferramentas de informática e programas específicos que se torna- ram essenciais ao exercício da profissão, que incluem desde programas para o controle de tempo e cobrança de honorários (os malsinados time sheets), pas- sando por sistemas de organização e administração de documentos (GED’s e afins) e chegando aos não menos odiados sistemas de controles de processos e de contingenciamentos. Esses sistemas exigem especial paciência e disciplina dos jovens advogados e o seu domínio às vezes pode ser a diferença entre o sucesso e o insucesso. No caso de advogados que irão atuar em contencio- so, uma novidade especialmente perturbadora é o recentemente introduzido Processo Judicial Eletrônico (PJE), que tira o sono de qualquer advogado que tenha algum senso de responsabilidade, pela sua inconstância e insegurança. Por outro lado, esse monstrengo da tecnologia, ao mudar radicalmente a forma de se advogar em tribunais, acaba por representar uma oportunidade singular de destaque para o jovem advogado que, em um momento de aperto, pode se tornar o salvador da pátria, ao conseguir, depois de ter o seu chefe tentado sem sucesso por duas horas, fazer o upload daquele recurso importantíssimo