II. BÖLÜM
2.3. Duygusal Emek ve Öncülleri Aras ndaki li ki
Por fim, adentra-se no terceiro e último tópico de ponderação aqui apresenta- do. Para tanto, inicia-se esta seção com um breve caso.
Um cliente adentra o escritório com filme documentário pronto e finali- zado e apresenta seu problema. Pretendia retratar a vida de um dos grandes apresentadores da história da televisão brasileira.
Para tanto, utilizou trechos de obras musicais diversas que de alguma for- ma estavam relacionadas aos programas do apresentador, fosse através da recuperação de imagens e sons da época ou de entrevistas atuais com artistas que as reinterpretavam.
Sabe-se que a Lei de Direitos Autorais expressamente impõe que, para praticamente qualquer utilização que se faça de uma obra, a autorização prévia e expressa do titular dos direitos autorais será obrigatória, sob pena de viola- ção ao ordenamento.
Por outro lado, a lei prevê que existem exceções e limitações a essa regra, notadamente com o objetivo de equilibrar o sistema de forma a evitar aberra- ções e até mesmo impedir abusos. No caso específico, a lei permitiria o referido uso, caso algumas condições fossem observadas, como, por exemplo, tratar-se de “pequeno trecho”.7
Entretanto, diante da subjetividade da lei — que não define, por exemplo, o que seria “pequeno trecho” — persistia a dúvida. Poderia o produtor fazer uso dos trechos das obras ao sincronizá-las em sua nova obra audiovisual ou deveria requerer a autorização por parte dos titulares dos direitos? Tratava-se, afinal, de pequenos trechos?
7 Segundo o Artigo 46, Inciso VII, da Lei 9.610/98, “Não constitui ofensa aos direitos autorais: a reprodução, em quaisquer obras, de pequenos trechos de obras preexistentes, de qual- quer natureza, ou de obra integral, quando de artes plásticas, sempre que a reprodução em si não seja o objetivo principal da obra nova e que não prejudique a exploração normal da obra reproduzida nem cause um prejuízo injustificado aos legítimos interesses dos autores”.
Na prática, as editoras e gravadoras detentoras dos direitos patrimoniais de autor sobre as obras desconsideraram a exceção e realizaram cobranças que comprometiam mais da metade dos 900 mil reais captados para o orça- mento da produção.
E foi nesse mesmo sentido que se posicionou a primeira instância do Tri- bunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, apresentando justificativa em confronto com o ordenamento jurídico pátrio e a mais respeitada doutrina so- bre o tema. De forma diferente decidiu a segunda instância carioca, que enten- deu por reformar a decisão e dar ganho de causa à empresa que produziu o documentário.8
Enfim, qual seria a causa de tal decisão da primeira instância do Rio de Ja- neiro? A matéria em si não se mostra por demais complexa. Requer apenas de- dicação e estudo mínimo, que não se podem limitar à superficialidade do tema. Necessita de entendimento prévio acerca das justificativas históricas para a proteção dos direitos autorais, bem como do desenvolvimento das razões para suas exceções.
Mas como exigir que o mercado e o Poder Judiciário observem de forma escorreita e livre de equívocos ou vícios a legislação referente aos direitos au- torais se na prática eles pouco conhecem as próprias regras?
A verdade é que o ensino jurídico brasileiro é extremamente precário quando se trata das matérias afeitas aos possíveis campos de atuação do ad- vogado contemporâneo que opta por exercer suas atividades junto à inovação e tecnologia. Direitos Intelectuais constituem um mero exemplo em meio a ou- tros tantos, como ocorre com Mídia, Telecomunicações, Incentivo e Defesa da Inovação, Regulação da Internet, Indústria do Entretenimento, dentre outros.
Pouquíssimas são as universidades que preparam o advogado para esse mercado. Apenas recentemente concursos públicos passaram a cobrar tal co- nhecimento de magistrados e outros servidores públicos. E as exigências são insuficientes. São raros os cursos de pós-graduação stricto sensu no Brasil que conferem um verdadeiro ensino e aprofundamento dos temas. Em regra, mes- trandos e doutorandos têm apenas a opção de cursar disciplinas outras e abor- dar tais temas apenas em sua dissertação ou tese.
Portanto, a advocacia no âmbito da inovação e da tecnologia esbarra em barreiras extremamente complexas. Além de todos os contratempos enfren- tados no mundo jurídico, é necessário adaptar-se também a dois dos maiores males da sociedade moderna: o despreparo e o desconhecimento.
8 Processo de nº 0352238-03.2009.8.19.0001, originariamente distribuído ao Cartório da 37ª Vara Cível, Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro.
Diante desse contexto perverso, o advogado contemporâneo precisa de- senvolver habilidades outras que antes talvez não fossem consideradas essen- ciais, além da ínsita necessidade de especialização aprofundada.
De fato, o perfil do advogado contemporâneo foi aprimorado. Não se trata mais apenas de um conhecedor do direito. É também um professor. Afinal, é necessário instruir clientes e lecionar a servidores públicos.
A didática, a clareza na expressão e a comunicação desenvolvida fazem parte da constituição básica desse novo profissional. É necessário fazer-se en- tender de forma rápida e objetiva, indicando sempre que possível os caminhos para uma análise pormenorizada do tema.
Por fim, seguindo o mesmo sentido, deve o advogado contemporâneo compreender os fenômenos que mudaram os paradigmas da sociedade atual. É necessário atender às exigências de um conhecimento globalizado, acom- panhadas através dos desenvolvimentos mundiais com relação à matéria. Por exemplo, são frequentes os fóruns internacionais que discutem a governança da internet ou a aplicação transfronteiriça de direitos intelectuais. Os posicio- namentos ali expostos e as decisões tomadas precisam ser analisados, questio- nados e trabalhados.