II. BÖLÜM
4.7. Ara rmada Kullan lan statistikî Yöntemler
Todo evento histórico está constituído por variáveis naturais, que quase sempre os historiadores têm ignorado. -Durval Muniz de Albuquerque Jr. (A Arte de Inventar o Passado).
Are social forces the only ones susceptible to change? If biological forces are in some sense always already historical ones, could it be that there is also some important sense in which historical forces are always already biological? – Karen Barad (Meeting the Universe Halfway).
No início da década de 1960, o termo A. gambiae passou a ser a denominação não mais de uma única espécie, mas de um complexo de espécies. 539 Com a
537 Ibid., p.06.
538 SHANNON, op.cit., 1942, p. 06 [sem grifo no original]
539 À luz de considerações recentes: “o Anopheles gambiae lato sensu (l.s) é um complexo de espécies
183 consolidação dessa nova classificação, indagações passaram a ser feitas sobre as especificidades do mosquito que chegou a Natal em 1930. Essa indistinção dentro do complexo gambiae ou A. gambiae l.s permaneceu um mistério até 2008. A partir de pesquisas em museus com acervos entomológicos em instituições tais como Fundação Oswaldo Cruz, Faculdade de Saúde Pública da USP e National Museum of Natural
History de Washington foi possível coletar o material genético de mosquitos capturados tanto no Rio Grande do Norte quanto no Ceará no período da infestação. Através de estudos taxonômicos a partir do ADN formulou-se uma nova classificação da espécie invasora. Dessa maneira, o A. gambiae encontrado em Natal no ano de 1930, foi reclassificado como Anopheles arabiensis. Essa espécie é reconhecida por ser a mais adaptada a regiões áridas, o que justificou o histórico de adaptabilidade da mesma na infestação iniciada em 1930.
O título do trabalho que apresenta essa redefinição do A. gambiae invasor como
An. arabiensis, intitula-se: Historical analysis of a near disaster: Anopheles gambiae in
Brazil, ou seja, é feita uma análise histórica de um desastre eminente. Tanto o termo “análise histórica” quanto o termo “museu” contidos no texto que divulga os resultados da pesquisa são precisos: o material biológico do complexo gambiae encontrado no Rio Grande do Norte e no Ceará participa de uma operação taxonômica que não está apartado de uma operação que confere certo sentido histórico.540
sete espécies indistinguíveis morfologicamente (Davidson, 1964): A. gambiae stricto sensu (s.s.),
Anopheles arabiensis, Anopheles quadrimannulatus espécie A, Anopheles quadrimannulatus espécie B,
Anopheles melas, Anopheles merus e Anopheles bwambae. As principais espécies vetoras da malária no complexo são o A. gambiae e o A. arabiensis, ambos são antropofílicos, possuem ecologia similar e são simpátricos (Slotman et al., 2005)”. BRIDI, Letícia Cegatti. Mapeamento físico de genes expressos de
Anopheles darlingi Root, 1926 e sua análise in silico em Anopheles gambiae Giles, 1902 (Díptera: Culicidadae). Manaus, UFAM, 2009, 87 f. Dissertação de mestrado. Programa de Pós-Graduação em Genética, Conservação e Biologia Evolutiva, UFAM/INPA, Manaus, 2009.p,04, [grifo meu].
540 A idéia de taxonomia esteve antes ligada ao estudo da variação dos idiomas na história da humanidade
que ao âmbito da história natural (RUHLEN Merritt. On the Origin of Languages: Studies in Linguistic Taxonomy. Stanford,California: Stanford University Press.1994, p.7). O raciocínio histórico que embasou a produção de uma taxonomia lingüística contribuiu de grande maneira para a formulação das idéias desenvolvidas em A Origem das Espécies de Charles Darwin e conseqüentemente serviu de modelo para as primeiras considerações sobre a taxonomia biológica. Notadamente a idéia que todos os idiomas compartilham um ancestral comum já era discutida por Darwin antes mesmo de sua viagem pelo mundo. Em carta para sua irmã Caroline, em 1837 o próprio Darwin cita os estudos de J.F.W Herchel sobre taxonomia lingüística e a idéia de que seriam necessários mais que alguns milhares de anos para separar o Chinês e línguas Caucasianas de seu ancestral comum. Dessa maneira há o questionamento da datação bíblica para a idade do mundo. (DARWIN, Charles.Para Caroline Darwin; 27 de fevereiro de 1837 [correspondência pessoal]. Disponível em: http://www.darwinproject.ac.uk/entry-346 .Acesso em: 29/05/2011.). Tal discussão e o conteúdo dessa carta são aprofundados por Edmund Blair Bolles aqui:
http://ebbolles.typepad.com/babels_dawn/2007/05/darwin_on_langu.html As cartas de Charles Darwin estão disponíveis em formato digital no Darwin Correspondence Project:
184 Esse mosquito que aconteceu em Natal - pois se tornou acontecimento em 1930 a partir do encontro com Shannon, foi intra-ativamente redefinido continuadamente:541 passou de mosquito incógnito em 23 de março de 1930, para ganhar sentido como A.
gambiae a partir do critério de Christophers e os olhos treinados de Shannon em um laboratório da Fundação Rockefeller na Bahia. Foi erradicado no Brasil no início da década de 1940. Em 1960 tornou-se um elemento indefinido no chamado complexo gambiae, um mosquito sem lugar preciso em uma nova possibilidade taxonômica, para, em 2008, a partir do exame do ADN ser (re)constituído como A. arabiensis.
Tabela 1. Amostras do Anopheles gambiae sl. examinadas e identificadas como An.Arabiensis, respectivos museus e datas das coletas.
Adaptado de Parmakelis et al. (2008)
A recorrente (re)definição taxonômica constitui-se não apenas em uma mudança dos conceitos sobre o mosquito, mas também uma mudança no mosquito enquanto elemento sócio-historicamente praticado, ou seja, uma mudança no fenômeno intra-
ativamente produzido. Quando o A. gambiae muda de classificação ele também muda
541 O sentido geral de intra -ação, definido por Karen Barad e inspirado nos estudos de Niels Bohr,
pontuado em diversas partes desse trabalho, também está bastante próximo do sentido da relação entre sujeito e objeto na história proposto por Albuquerque Jr. (2007, p.29): “Nem os objetos, nem os sujeitos preexistem à história que os constitui”. Dessa maneira, podemos explorar o entendimento de que sujeito e objeto constituem-se mutuamente na história em uma prática intra-ativa. Para Barad (2007, p.199) os aparatos não são instrumentos de observação passiva. Pelo contrário, eles são produtores (e parte do) fenômeno. As diferentes (re)configurações do A. gambiae podem ser entendidas nessa perspectiva.
Código da
amostra Museu Ano da coleta Local da coleta
FSP–60 FSP–USP 1932 Rio Grande do Norte
1073–1 FIOCRUZ 1935 Santo Antonio (São Gonçalo), Rio Grande do
Norte
1073–2 FIOCRUZ 1935 Santo Antonio (São Gonçalo), Rio Grande do
Norte
1074–1 FIOCRUZ 1935 Santo Antonio (São Gonçalo), Rio Grande do
Norte
1074–2 FIOCRUZ 1935 Santo Antonio (São Gonçalo), Rio Grande do
Norte
1419–1 FIOCRUZ 1937 Ceará
1419–2 FIOCRUZ 1937 Ceará
1419–3 FIOCRUZ 1937 Ceará
1419–4 FIOCRUZ 1937 Ceará
FSP–5461 FSP–USP 1939 Aracati, Ceará
FSP–5468 FSP–USP 1940 União Garça, Ceará
NMNH1 NMNH 1940 Ceará
185 de sentido nas práticas epidemiológicas, o que consequentemente implica em uma mudança relativa ao espaço: possibilita um novo entendimento do comportamento desse hematófago antropofílico em sua nova posição taxonômica. Uma mudança de posição que confere, mesmo que de maneira sutil, novos sentidos.
Um dos receios no período da infestação era que o A. gambiae se proliferasse em regiões úmidas e alagadas e dessa maneira ocupasse as Américas via Panamá. Por outro lado, seu reposicionamento como A. arabiensis leva a novas conjecturas sobre o ocorrido. Apesar de o resultado ter, de fato, relacionado a resistência natural do A.
arabiensis à seu bom desempenho na aridez e calor da região invadida, justificando um elemento favorável a sua proliferação,542 as conclusões sobre a relação do mesmo com o ambiente pode ser revista quando se trata das regiões úmidas. Ao invés de apresentar receio sobre a infiltração do mesmo em áreas mais úmidas, tem-se certa inversão dessa condição. Considera-se agora, ter sido a umidade das áreas adjacentes à área infectada um fator que impediu a proliferação do mosquito. A umidade não é mais, como se acreditava no período da infestação, um caminho possível para seu alastramento,543 mas sim, um impedimento. Segundo as conclusões do novo estudo, devido adaptabilidade do
A. arabiensis a aridez, “a floresta tropical que circunda a área invadida pode ter sido crucial para impedir sua maior propagação nos anos de 1930”.544
Por outro lado, tem-se uma concordância de expectativas entre as conjecturas de 1930 e 2008. Da parte de Soper, como foi visto, há o perigo do desmatamento como facilitador da proliferação do A. gambiae545 e em relação à recente pesquisa que o caracteriza como A. arabiensis, tem-se inferências semelhantes: “Com aumento da destruição das florestas tropicais na América do Sul, um maior território é convertido em um habitat ideal para o último invasor [A. arabiensis] e sua igualmente perigosa espécie irmã, A. gambiae s.s.”546
542 O Anopheles arabiensis é o tipo mais adaptado a climas áridos dentre todos os mosquitos do complexo
Anophele gambiae. PARMAKELIS et al., op.cit. 2008, p.177.
543 Segundo Shannon (1942, p. 06) “O quinto e talvez mais importante fator foi a falha do gambiae em
escapar do nordeste do Brasil para as regiões mais úmidas do Brasil[...]”
544 PARMAKELIS et al., op.cit., 2008, p.177.
545 “Uma vez que a larva do A. gambiae ocorre principalmente em águas expostas ao sol essa espécie
pode se tornar perigosa com o desmatamento indiscriminado nas regiões de floresta” (THE ROCKEFELLER FOUNDATION, 1931, p. 61-62).
186 Figura 20: Dois exemplares do A. gambiae sl. Fonte: Vector Base < http://www.vectorbase.org/ >
Dessa maneira, o A. gambiae torna-se um fato no sentido proposto pelo historiador Durval Muniz de Albuquerque Jr., na medida em que é “ao mesmo tempo, natureza, sociedade e discurso, pois é materialidade, relação social e de poder e produção de sentido”.547 Nesse processo que é sempre uma história não acabada,548 está tanto a transmissão do mortal P. falciparum que contaminou milhares de pessoas, quanto a invasão do “feroz mosquito africano” pior que o nazismo,549 e o projeto transnacional de erradicação da Fundação Rockefeller. Nesse enredamento material- discursivo há a singularidade de “uma epidemia absolutamente inesperada e, até então, única no mundo, que teve o adicional papel de influenciar todo o programa da OMS para o controle da malária”.550
Considerando a diversidades de processos espaço-temporais, e materiais- discursivos introduzidos nesse estudo do percurso do A. gambiae, é pertinente seguir
547 ALBUQUERQUE JR, Durval Muniz de. História, a arte de inventar o passado. Bauru, SP: EDUSC,
2007.p.27
548 Seguindo Albuquerque Jr. (2007, p.33): “Escrever história é também mediar temporalidades, exercer a
atividade de tradução entre naturezas, sociedades e culturas de tempos distintos [...] o passado, como a História, é uma invenção do presente, embora ancorada nos signos deixados pelo passado. Passado que está longe de estar morto, de estar acabado, passado que é parte do próprio presente”. E Karen Barad (2007, p.383): “Como resultado da natureza recorrente das práticas intra-ativas que constituem o fenômeno, o ‘passado’ e o ‘futuro’ são constantemente reconfigurados e envolvidos um pelo outro [...]. O passado e o futuro nunca estão fechados.”
549 PEIXOTO, Afranio. A Evolução Científica e Médica no Brasil de hoje. Boletín de la Oficina
Sanitaria Panamericana (OSP); 20 (12): 1925-29, dic.,1941,p.1227
187 algumas sugestões de Michel Serres, sobre a possibilidade de novas articulações para (e na) história:
Aceito de bom grado que a história tenha começado com a escrita, mas com a única condição de que se estenda essa nossa escrita seletiva, manual, gravada ou impressa à escrita natural, codificada em quatro letras na intimidade do nosso corpo, em nossas células germinativas pelas longas combinações de nosso ADN. Nossa história começa com essa escrita. [...] devemos reformar o ensino de história e, para fazer isso, precisamos pensar o mais rápido possível sobre o
tempo e o espaço numa escala compatível com a aventura humana, as espécies, a vida, o mundo e o Universo.551
As coleções entomológicas das instituições listadas possibilitaram elementos para reordenação taxonômica do mosquito encontrado por Shannon. Essas amostras também possibilitam novos relatos e novas elaborações a partir de saberes contemporâneos que não podem ser desprezados.
Não vivemos apenas entre nós, mas em um espaço que pode ser redefinido por novas relações e sentidos.552
551 SERRES, Michel. O Incandescente. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005, p.143.
552 Ainda seguindo Serres: “Nos livros de ciências humanas, tão importantes em vários sentidos, eu me
surpreendo,enfatizo de novo, com a ausência do mundo, como se vivêssemos só entre nós, nas cidades, sem corpos nem ambiente. Nada de biologia, nem de genética etc. Quando entramos num conhecimento ultrafino do mundo, vivemos numa espécie de acosmismo (SERRES, Michel. Júlio Verne: a ciência e o homem contemporâneo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007, p. 169).
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