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TEŞVİK VE DESTEKLEME FAALİYETLERİ

G. KOMİSYONA SUNULAN ÖNERGELER

4.6. TEŞVİK VE DESTEKLEME FAALİYETLERİ

Quando Foucault fala sobre o panoptismo, nos livros a Microfísica do poder e Vigiar e punir, ele traz à tona alguns referenciais anteriores que podem servir de código para entender o panóptico e as instituições que surgiram ou foram reorganizadas por causa dele. No início do capítulo, ele fala sobre a lepra e sugere, indiretamente, que o olhar da disciplina e o olhar panóptico são olhares de quem sofreu com a epidemia, de quem pretendia controlar o desastre, olhares que causavam medo e angústia. As primeiras vítimas da disciplina que aparecem no capítulo são os doentes, ―cada um trancado em sua gaiola, cada um em sua janela, respondendo a seu nome e se mostrando quando é perguntado, é uma grande revista dos mortos e dos vivos.‖ (FOUCAULT, 1987, p. 174).

Não estamos falando do hospital ainda, estamos falando de uma cidade inteira, de uma estratégia de controle que envolve o império, de um ―espaço fechado, recortado, vigiado em todos os seus pontos‖, de uma espécie de acampamento médico ―onde os menores movimentos são controlados, onde todos os acontecimentos são registrados‖, é uma verdadeira cartografia da vida e da morte, não existe saída, ―cada indivíduo é constantemente localizado, examinado e distribuído entre os vivos, os doentes e os mortos – isto tudo constitui um modelo compacto do dispositivo disciplinar.‖ (FOUCAULT, 1987, p. 174).

Esta realidade do século XVII é usada por Foucault como uma metáfora, a cidade pestilenta; da mesma forma que o acampamento militar é o símbolo de algo maior, o soldado e o doente são usados para representar os indivíduos da escola, do presídio, do hospício, do hospital e da prisão. O soldado representa a disciplina militar, a vigilância contínua, o fardamento, as normas do grupo, o controle, o adestramento do corpo e das emoções. O doente representa outra forma de controle, a divisão entre doentes e não doentes, entre normais e anormais, entre sãos e não sãos, mas a lepra não é somente a doença, mas tudo que é rejeitado na sociedade. A figura do leproso é, na visão de Foucault, um ―habitante simbólico‖. Gabi experimentou simbolicamente o estado de leprosa ao ser escolhida por toda a sua turma para ser a rainha do carnaval do 2º ano:

A diretora de turma chegou e pediu a relação de quem ia participar do carnaval, aí tinha lá rainha Gabi, a Gabriela. Ela pegou e me chamou e

Ela falou assim, com uma cara, eu ia dizer que não, só que ela falou tipo

enojada diferente, eu disse assim: „é‟. Ela pegou e disse assim: „espere aí‟.

Ela foi conversar com o coordenador se eu poderia ser. O coordenador logo após veio me chamou lá no pátio, aí ficou dizendo que eu não precisava disso, novamente aqueles papos de antes que eles falavam que não

precisava disso, que ele disse assim: „o que é que sua mãe, que seu pai vai

pensar de você, de lhe ver vestido na cidade inteira de mulher?‟ Eu disse: „mas eu vou, já que os meninos me escolheram é porque eu tenho potencial pra ir, eu vou!‟ Aí ele pegou e disse assim: „tem certeza que você vai?‟ Eu peguei e disse assim: „se 44 decidiram por mim, e tinha a certeza que eu ia, eu vou‟. Ele disse: „então tá certo, tá certo‟. Eu achei que isso já tava bem resolvido e tudo mais, aí eu cheguei em casa e contei a novidade pra minha

mãe, aí minha mãe: „tu vai ter coragem de ir mesmo?‟ Eu disse assim:

„antes eu não tava, mas, como eles botaram obstáculo pelo meio, então eu

vou‟. Eu peguei e disse: „mãe, mas eu tô precisando de uma coisa‟, aí ela

disse assim: „o quê?‟ „Um salto alto, como é que uma rainha vai desfilar se

não tem um salto alto?‟ Ela pegou e disse: „vixe, vai ser muito difícil porque

eu vou ter que falar com o teu pai‟. Eu disse: „então tá certo, mas diz que vai

pegar o dinheiro que vai fazer outra coisa, não fale isso não porque ele não

dar‟. Eu já sabia que ele não ia dar, aí eu só sei que minha mãe mentiu, ela

fala que ia comprar outra coisa, eu nem me lembro o quê. Fomos numa loja, aí ela comprou minha sandália. Eu fiquei tipo treinando em cima toda alegre já, já me sentido a rainha. Eu até ensaiei com os garotos, com as meninas lá que ia participar. Antes do acontecimento, a diretora do colégio chamou todo mundo no pátio, todos os alunos, todas as salas, estavam lá no pátio. E eu me lembro que a minha sala era das primeiras que ficava de frente pra ela (sala da diretora). Ela falou sobre o desfile, que ia ser no meio da rua, igual como todo ano acontece, e por ultimo ela [diretora] falou que no segundo ano de enfermagem tinha uma pessoa, que não ia poder desfilar no carnaval, porque essa pessoa poderia comprometer o colégio, disse que eu não ia ter direito de desfilar porque, eu vou falar com as

palavras dela: „porque ia avacalhar o colégio, ia expor o colégio ao

ridículo‟. Ela falou mais coisa e mais coisa e falou, e falou e todo mundo

olhou pra mim, todo mundo sabia que era eu, que eu sou única no colégio. Eu fiquei aquela coisinha miudinha pra todo mundo ver. Eu não, tipo assim, eu não sabia se eu ia dar uma resposta a ela, se eu ficaria calada, ou se eu corria pra algum canto que ninguém me visse. Eu fiquei assim sem reação, gelada, toda me tremendo, com medo. Estava com medo dela, das palavras que ela tava falando, que era absurdo, falando enojada de mim, que não ia me aceitar nesse carnaval. Quando acabou toda a reunião, ela pediu pros alunos votarem pras salas, isso pra mim foi a maior humilhação que ela fez comigo perante todos os alunos. Aí ela pediu pra todos os alunos voltar pra sala. Eu não tive nem coragem de sair andando, as meninas que puxaram, me levaram pra sala. Todo mundo no segundo de enfermagem ficou revoltado com isso, todo mundo, e disseram que eu ia sim, porque o desejo eram deles, quem estudava na sala eram eles, e quem tinha direito de

escolher quem ia era eles. Eu disse: „não, gente, eu não vou mais, eu não

vou‟. Eles disseram: „mas você vai‟. Eu disse: „não dá pra ir‟, fiz a cabeça deles e comecei a chorar dizendo que eu não ia, que não tava me sentindo bem, que eu não queria passar por aquilo novamente. Eles entenderam e ficaram do meu lado. Foi muito chato quando eu cheguei em casa porque eu tinha criado toda uma expectativa, mas contei pra mãe e ela pegou e disse: „eu vou lá amanhã‟. Eu disse: „não, mãe, não precisa você ir, por favor não vai, não vai brigar com eles [gestores] por causa dessa besteira, deixa isso pra lá. Ela disse: „tu tem certeza que não quer que eu vá?‟ Eu disse: „tenho

absoluta certeza, você não vai‟. Escolheram lá uma garota, ela foi e aconteceu todo o evento. Eu fiquei, mas afastada. (Grifos meus).

Quando falamos da cidade pestilenta, estamos falando da escola pestilenta (que tem o aluno travesti), da prisão pestilenta (que tem o preso que quer fugir), do asilo pestilento (que tem o paciente que não é obediente), da fábrica pestilenta (que tem o operário rebelde) e do hospital pestilento (que tem o paciente que não aceita o tratamento). A figura do leproso é usada para ―projetar recortes finos da disciplina‖; a intenção na verdade é individualizar e classificar os excluídos, mas ―utilizar processos de individualização para marcar exclusões‖ – isto é o que foi ao longo do século XIX e do século XX:

O asilo psiquiátrico, a penitenciária, a casa de correção, o estabelecimento

de educação vigiada, e por um lado os hospitais, de modo geral todas as instâncias de controle individual funciona num duplo modo: o da divisão

binária e da marcação (louco – não louco; perigoso-inofensivo; normal-

anormal); e o da determinação coercitiva, da repartição diferencial (quem é ele; onde deve está; como caracterizá-lo; como reconhecê-lo; como exercer sobre ele, de maneira individual, uma vigilância constante, etc)... A divisão constante do normal e do anormal, a que todo indivíduo é submetido, leva até nós, e aplicando-os a objetos totalmente diversos, a marcação binária e o exílio dos leprosos; a existência de todo um conjunto de técnicas e de instituições que assumem como tarefa medir, controlar e corrigir os

anormais, faz funcionar os dispositivos disciplinares que o medo da peste

chamava. Todos os mecanismos de poder que, ainda nos nossos dias, são dispostos em torno do anormal, para marcá-lo como para modificá-lo, compõem essas duas formas de que longinquamente derivam. (FOUCAULT, 1987, p. 176).

A simbologia da peste, como podemos perceber, não se refere à doença (apenas); a peste é um signo para representar o que a sociedade convenciona chamar de patologia, uma patologia social dos comportamentos, uma incongruência com relação aos valores e aos costumes oficiais. Essa metáfora pode ser usada, inclusive, para entender como as travestis e os homossexuais são tratados na escola; a lógica é a mesma, a divisão entre normal e anormal, a classificação e a delimitação territorial e existencial, que ficam sempre no campo do negativo, a tentativa de curar, a busca por uma origem, as explicações religiosas e científicas, que se baseiam nas igrejas fundamentalistas e na ciência dos séculos XIX e XX.

A travesti, neste caso, é vista como a peste, a pestinha da escola; é assim que são tratados os alunos e as alunas que fogem à regra e à disciplina; são transgressores, são pestes, são pestinhas, como costumamos dizer. Mas a travesti não precisa fazer o que a escola chama de danação, sua presença já é uma danação, o fato de estar na escola com uma roupa que,

segundo a sociedade, não combina com seu sexo biológico já é uma transgressão, já é um crime, é por isso que ela é classificada e definida como anormal.

É nesse ponto que a metáfora da peste se mistura com a metáfora do acampamento militar. A travesti pode ser negada, pode ser excluída, pode ser vista como um soldado que não está apto para o treinamento. Mas a travesti pode ser aceita, pode ficar no espaço, pode entrar na ordem disciplinar; ela vai ser esquadrinhada dos pés a cabeça, ela vai ser forçada em vários momentos a aprender a arte do corpo humano, a fazer no corpo uma arte que não é sua. A intenção, obviamente, é fazer com que ela se torne mais obediente e útil.

Forma-se então uma política das coerções que são um trabalho sobre o corpo, uma manipulação calculada de seus elementos, de seus gestos, de seus comportamentos. O corpo humano entra numa maquinaria de poder que o esquadrinha, o desarticula e o recompõe. Uma anatomia política que é também igualmente uma mecânica do poder... A invenção dessa nova anatomia política não deve ser entendida como uma descoberta súbita... Encontramo-los em funcionamento nos colégios muito cedo; mais tarde nas escolas primárias... Circularam às vezes muito rápido de um ponto a outro entre o exército e as escolas técnicas ou os colégios e liceus. (FOUCAULT, 1987, p. 127-128).

4.3 O Zoológico do Rei e a Escola: uma Nova Metáfora para Falar